quinta-feira, 26 de maio de 2011




Manuela era mesmo assim: crédula demais, sorridente demais, precária demais, humana demais, tudo demais, das coisas boas às temíveis...intensa demais.
Havia nela uma teimosia quase demente em dias melhores, em noites ensolaradas de alegria e manhãs salpicadas de estrelas e canto de passarinhos também. Manuela acreditava mesmo que a solução do insolúvel morava no devir, no passar das horas e na esperança quase absurda de que o mundo e tudo que nele habita pode ser gentil e acolhedor. Ela era um caso típico de otimismo patológico, vivendo um dia atrás do outro, certa de que em alguns momentos nada mais restava senão a crença em tempos de paz.
Manuela perdeu seu trabalho.
Manuela perdeu seu amor.
Manuela perdeu seu carro.
Manuela perdeu tudo que tinha em sua geladeira.
Manuela vendeu sua geladeira.
Manuela virou malabaris.
Manuela tosou as madeixas
Manuela não se entregou à queixas.
Manuela perdeu seus sapatos.
Manuela correu, correu, correu sobre brasas.
Correu sem olhar para trás, segurando junto ao peito apenas o que restara de seus mais caros afetos.
Ao fim do fogo, bolhas em suas solas. Levou a mão ao pé. Viu que sua mão era sustentada por um braço forte. Percebeu seu braço forte e o viu preso em um corpo repleto de vida. Curaram as dores, voltaram os amores, o trabalho,o carro, a geladeira, as madeixas, os sapatos, as noites de sol e manhãs estreladas...tudo sempre esteve lá, esperando sua louca corrida contra o impossível. Manuela, ao correr sobre brasas, só não foi salva de sua esperança. E assim seguiu, viva, viva, viva

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