quinta-feira, 26 de maio de 2011

Expectativas ao chegar nesse mundo de Meu Deus (all we need is love)!


O ser humano já nasce sob olhares ansiosos: será que vai chorar? Se não chorar, é porque algo provavelmente deu errado, tomamos então uma gentil porrada do obstetra/parteira/pagé para reagir logo em um primeiro momento..."bebê, a vida é dura, vai se acostumando, essa é apenas a primeira de muitas que virão..."
A cria cresce, perde a cara de joelho, e começam as cobranças..."moleque, não é pra mim comer, é pra eu comer, mim não come, mim é índio (e vale ressaltar que índio é gente, e come sim, e tem até dialéto próprio, blábláblá...), moleque (isso vale para as meninas), vai tomar banho, olha o dever de casa, amanhã você tem prova/kumon/ballet/sejaláoquefor ou todas as coisas juntas..." as crianças usam mais a agenda que os adultos...Avançando mais uns anos muda a ladainha: "moleque (ou menina, claro), ai de você se chegar depois das onze, um mês sem internet, sem sair de casa, sem telefone ou sinal de fumaça...cala a boca ou viro seus dentes, pois no meu tempo blábláblá (essa parte mui pouco assumida, segredinho familiar típico), não escovou os dentes, criatura? Sua boca tá fedendo a meia de jogador de futebol depois da prorrogação, assim você não vai pegar nenhuma menina(essa segunda parte só vale para os meninos), garota (para os meninos ainda vale quase tudo), sabe há quantos dias você está usando a mesma calça jeans? Sai da internet, menina, garotos não gostam de facilidade (Quem disse? há controvérsias...), fica aí dando idéia pra esse mané! Já arrrumou seu armário? Tá pior que o terremoto no Japão (infâmia!), vai brotar um cogumelo no fundo de sua gaveta, fungos adoram sujeira e bagunça, já te mandei lavar as calcinhas no chuveiro (mais uma que só vale para as meninas, as cuequinhas quase sempre seguem como tarefa da mãe ou da máquina de lavar, salvo raríííssimas excessões.), como vai ser quando você casar?"  "Mãe, não quero casar!", "Menina, você é lésbica?" Possível resposta em pensamento: "Não necessariamente, mas quero ter o direito de fazer uima pesquisa de mercado antes de tomar uma decisão tão drástica - leia-se -quero dar um bocado e curtir um pouco a vida."
Se o moleque diz que não quer casar de jeito nenhum, ele corre o risco libertador de ganhar vários pontos com a família, ser "garanhão" ou "comedor" ainda pode, sempre pôde, sempre poderá. A família só vai achar que o cara é gay quando  começar a receber apenas telefonemas de amigos nas horas mais diversas e todas as suas calças jeans forem "skinny", um indício classico na cabeça de clãs mais conservadores. O tiro mais certo na cabeça da louca instituição familiar é quando o portador do cromossomo Y anuncia que vai fazer um curso de atores para musical. Supondo que ele seja gay,que tenha a sorte e a força de ser feliz a despeito de toda joça que tentam enfiar goela abaixo de quem tenta ser o que é, não só no que se refere a orientação sexual, que a propósito, passa longe de ser uma opção. Tarefa difícil. Vamos agora à menina: "Pai quero ser atriz". "Filha, melhor ser puta, não foi essa a educação que te dei!" Deplorável, mas ainda rola. Pausa para imaginar essa mesma menina recebendo um Oscar ou algo da mesma monta anos depois  com o mesmo pai babaca sentado na primeira fila esperando agradecimentos, afinal, ela "não teria chegado lá sem a força de seus pais, os grandes amores de sua vida". Ela até pode reproduzir o discurso esperado, mas em pensamento provavelmente diria: "viu, seu bundão, agora vou ter grana para escolher um asilo bem legal para você, e para a mamãe também, asilos separados, para não ter mais briga...bodas de ouro nem a cacete!". A maioria espera de sua prole uma profissão de primeira linha: médicos, advogados, engenheiros, psicólogos, arquiteto, jornalismo não/publicidade passa, funcionário público federal, promotores e juízes também são bem vindos...escritor nem pensar. No fim, quase todo mundo sobrevive, até os que optaram por ser escritores (não necessariamente no sentido financeiro), e muitos, em algum momento, depois de mandar todo mundo se f..., até tentam um caminho socialmente mais fácil, dentre as profissões ditas normais, sem abrir mão do que realmente são...artistas, modelos, origamistas ou qualquer outra coisa meio marginalizada pelo senso comum de uma sociedade pseudomoderna. O assunto é inesgotável, mas em síntese, há de ter coragem para não sucumbir e acabar sendo uma projeção do desejo alheio. Tudo em seu tempo. A criatura que escreveu essa linhas não foi torturada assim, dizem até que ela é uma hipérbole ambulante que adora exagerar em tudo, sempre intensa, tropeçando em seus próprios desejos a ponto de quebrar um pé...ela até pensa em buscar ser (também) algo mais normal : fisioterapeuta, por exemplo, vai saber? Afinal, ainda há muitas dores a serem sanadas...e no fim das contas, nadamos, deslizamos, corremos, voamos contra o tempo e tudo o que fazemos é por amor. Fome de amor também pode matar. Em todos os níveis. A Autora ensina à sua filha de nove anos que o amor, sobretudo por si mesma, é o primeiro investimento em uma vida feliz. Mas também dá seus berros quando ela enrola para escovar os dentes ou tomar banho depois do ballet...nem tudo, nem tão pouco, é o que há de se esperar dessa vida.

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