segunda-feira, 6 de junho de 2011

Amedeo Modigliani e a descoberta da alma de Jeanne.

Modigliani, como tantos de sua geração marcada por excessos típicos de uma pressa de viver, nunca se encaixou em nenhum estilo; pintava de forma fisiológica, autônoma, sem a aparente preocupação de se incluir em nada catalogável nos salões de arte que frequentou.
As cores bem postas em suas pinturas chegavam sempre antes da forma, de características tão particulares que não seria preciso buscar sua assinatura para reconhecer a autoria.
Seu fim foi trágico, como se William Shakespeare antecipasse em "Romeu e Julieta" o que seria o fim do artista, mas nunca o de sua obra.
Não foi só a tuberculose e o uso abusivo de drogas que o vitimou aos trinta e seis anos. Atrevo-me a dizer que ele morreu de amor. Sua natureza "ítalo-judaica" potencializava o seu Sentir, louco que era por  Jeanne Hébuterne, com quem teve uma filha dois anos antes de sua morte. Há relatos de seu envolvimento com uma bela polonesa (fora outras aventuras afetivas, aparentemente, sem maiores danos), Lunia, com quem chegou a viver por um tempo, enlouquecendo Jeanne, já grávida de sua segunda filha que não chegou a nascer. Segundo Amedeo, "eles não tinham sorte", mas tinham um ao outro, e provavelmente, isso era tudo que possuiam para (tentar) criar a pequena Jeanne (o mesmo nome da mãe).
Os olhos vazados de suas pinturas nos leva a perceber algo de escultura em suas imagens. Olhos vazios, pescoços alongados, geometrismo sem cálculos de quem passeia de forma frenética com o pincél sobre a tela antes que o mundo acabe...e eis que enfim, pouco antes do final(morte), sua mulher é retratada com olhos: segundo se diz, ele enfim enxergara sua alma... para além da retina.
É uma história particularmente emocionante. O filme é  profundamente emocionante, o livro biográfico ainda não li.
Enxergar para além da matéria exige um desprendimento da forma. E quem consegue desprender-se da forma, que sempre chega na frente? Modi, como era carinhosamente chamado, conseguiu. E morreu. Jeanne se matou um dia depois levando no ventre uma filha prestes a nascer. Sentiram além da conta, não digeriram a tragédia que permeava suas vidas. "É possível que, separadamente, tivessem conseguido se salvar e ser mais felizes; e é possível que não, porque os dois traziam dentro de si, cada um a seu modo, o negror.'' [trecho do livro]." Um negror repleto das cores de uma Paris enlouquecida...




4 comentários:

  1. Bela crítica Cacau...Amo esse pintor..Acho curioso saber mais de sua vida, apesar que para mim, sempre a obra é o mais importante. bjs

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  2. E é impressionante como vida e obra desse cara pareciam não se separar por um segundo sequer!

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  3. Já salvei o filme para vê-lo em um outro momento. Hoje estou precisando ver coisas mais leves.
    Admito não saber nada sobre sua história e seu texto nos incita querer saber mais sobre ela.

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