terça-feira, 28 de junho de 2011

Das saudades de Manuela.

Quantas saudades cabem em uma saudade? Manuela nunca coube em si. Até engordou por uns tempos para comportar tantas coisas que sentia, mas viu que não adiantava aumentar a circunferência, desistiu do projeto e resolveu se amiudar de novo.

 Manuela era composta de sonhos e pesadelos, daqueles que assustam quem estiver ao lado com suas inteligíveis palavras durante seu Dormir quase acordado. Agora, de tanta saudade, não precisava fechar os olhos para ter sonhos ruins. Tirou da gaveta uma bússola para caminhar sem se perder de vez. Em que curva se perderia sem achar o caminho de volta? Não queria mais correr riscos, perdida que já era por definição...

Manuela perdera seu Amor. Seus pesadelos o mandaram para longe, mais ruidosos que eram que seus sonhos, que transitavam entre magentas e pastéis. Ele simplesmente, ainda que não sem dor, se fora, sabe -se D-us se pra sempre, já que pra sempre é tempo que não acaba. E tudo potencialmente acaba. Tudo é feito para acabar...desabar de céus azuis em pleno vôo.

Manuela, pois bem, com sua bússola em mãos, pôs-se a caminhar através da cidade e de suas histórias. Percebeu que a cidade era pequena demais para suas lembranças. Descobriu também que o universo não tinha proporções infinitas: nele sua saudade não cabia. Tudo virava Lembrança. E lembrança virava dor, o único indício de estar plenamente viva. Mortos não sentem dor. Naquele momento, vida e dor andavam de dedos entrelaçados.

Onde via música, via seu Amor a dedilhar acordes. Onde via morangos, via as geleias que Ele adorava devorar com pão e queijo. Onde via multidões, enxergava a Ausência. Ao olhar para o espelho, via as imaginárias marcas dos beijos guardados ao longo de quase oito meses. Onde havia mar, via o verde azeitado dos olhos que não mais a via. Nem havia. Onde via vermelhos, via seu gorro predileto que Ele usava durante suas rezas noturnas que guardavam seu sono. E também sua camisa mais bonita. Ao tocar veludos, lembrava do cotelê das calças prediletas do amado. E também seus pêlos macios do peito, mais macios que algodão. Em cada filme, cada música, cada esquina, cada riso, cada despertar insone...cada Sol e cada Lua. E as curvas pretas e brancas, sinuosas perfeitas do calcadão de Copacabana...Os cocos quase doces que dividiram a beira mar...tudo fazia lembrar e chorar. Manuela se desfazia em água salgada de oceano...estava quase passando do estado sólido (sólida ela, logo ela, Manuela???) para o líquido...e quem sabe, depois em vapor e mais saudade de tudo que foram um dia...a matemática perfeita do 1+1=1...

Manuela temia a loucura nesse mundão já louco que basta, e por isso, em meio a dor cortante, apertava a bússola de encontro ao peito despedaçado. O silêncio do telefone insistia em gritar em seus ouvidos: Manuela, não aguento mais...por agora não te quero mais...muda, Manuela! Manuela, ao amar mais que se deve, mudou a alma de casa, como disse uma vez o Poeta. Olhou para a bússola: deveria caminhar à Norte de seus passos para não resvalar na insanidade...já que naquele instante, presa em camisa de força, se rasgava em Saudade. Precisava de um norte. Manuela se queria de volta para voltar à quem queria...

Como pode ser cruel a esperança...mas como avançar sem ela? Segue, Manuela! Ainda que o cheiro d'Ele esteja impregnado nas páginas de seus livros... e de sua pele.

2 comentários:

  1. Lindo! Você é uma grande escritora! Você linda de todas as maneiras. Você precisa ficar bem sempre. E isso é um esforço de todo ser humano.
    <3

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  2. Eu estou bem. Conto aqui a história de Manuela, ainda que a ficção sempre esbarre em realidades...bjs, querido.

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