segunda-feira, 6 de junho de 2011

fragmento de "A Imagem Invertida", projeto retomado/ Fundo do poço.

Ella(sim, Ella é o nome dela) sentiu algo fofo e úmido em contato com sua pele nua, e um cheiro de mato molhado ardendo em suas narinas. Não sabia exatamente como fora parar ali, e na verdade nem sabia de onde se tratava "ali", tamanho seu medo de abrir os olhos...medo era algo bem familiar, muito mais fácil lidar com esse inimigo íntimo que encarar sabe Deus o quê...
Ao esticar as pernas, também tocou uma superfície irregular e macia, como a que amparava suas costas doloridas. E ainda aquele cheiro úmido e ardido...abriu cautelosamente os braços e percebeu que o que a sustentava tinha paredes circulares e frágeis, como quase tudo em sua vida. Abrir os olhos poderia ser perigoso demais...ao pressionar as laterais, sentiu terra se desprendendo, entrando em  suas unhas. Estaria morta? A propósito, não se dava conta de estar viva há tempos, empurrando um existir espontâneo, fisiológico, sem rumo e nenhuma bússola nas mãos. Talvez algo estivesse prestes a desabar em sua cabeça... quiçá a consciência da grande merda de sua vidinha quase sem razão de ser... O acúmulo de abusos em sua biografia a deixara acostumada as sombras...falava "demais demais", era o que todos diziam, talvez para abafar seus silêncios ruidosos como os de uma guerra. Seu reino terrestre estava repleto de aniquilamentos...ainda que suas "cartilagens" fossem pura resiliência, não raro constatava que estava prestes a explodir em mil partículas e se dissolver no éter...quando pequena, sonhava em se desfazer em infinitas estrelinhas, finas como purpurina, que seriam levadas pelo vento para terras distantes quase sem ser percebida ou interditada, embalada ainda por doces cantigas de ninar daquelas que espantam "Cucas" e pesadelos...também lhe agradava a idéia de mergulhar, feito boba que era, em uma piscina bem funda e cheia de bolinhas de isopor, experimentando as sensações mais loucas e diversas...Ella sempre fora tida mesmo como louca, seria bom poder desfrutar desse "status" de forma lúdica e imbecil...
"Coragem, Ella, coragem!", disse para si mesma em um sussurro. Os olhos cerrados de forma apertada também começavam a lhe infringir dor. A voz mal saia de sua boca, onde predominava um gosto férreo(seria sangue?), talvez tivesse gritado além da conta. Respirou fundo e sentiu que também as costelas padeciam. Onde estaria afinal e como chegara ali? Abriu enfim os olhos assustados e não obteve nenhuma resposta satisfatória ou ao menos alentadora. Aquilo não passava de uma cova profunda, um poço ressequido talvez, e no fundo do poço não havia uma mola, como se costuma dizer...mas em sua superfície havia uma luz e o som de alguns pássaros cantando. Era chegada a hora de escolher...(...) 

Por Claudia Tonelli

Nenhum comentário:

Postar um comentário