terça-feira, 21 de junho de 2011

Rápidas e importantes considerações sobre a depressão.


Resolvi escrever sobre depressão, a despeito de tudo e do tanto do que já foi dito sobre o assunto.
Muito se fala dessa "coisa" que paralisa a alma e as ações, muitos já passaram por isso, muitas vezes sem perceber, confundindo a doença (pois se trata de de uma doença) com um estado prolongado de tristeza pura e  simples.

Vou falar em primeira pessoa, não acho uma exposição barata e sem sentido. Se essa postagem fizer diferença de forma positiva na vida de alguém, já terá valido a pena.

Sim, de fato, a depressão é um estado prolongado de tristeza que envolve muito mais que uma natureza derrotista, pessimista, preguiçosa e sem atitude. Eu, Claudia, a conheci pessoalmente, e estou sempre atenta à não ser "visitada", "invadida", "dominada" por essa tragédia particular, que ainda que não seja contagiosa, pode ser contagiante. O triste é que tende mais a afastar as pessoas do que obter ajuda, por pura falta de informação e preconceito. O cara que morre de overdose tem mais compreensão que o indivíduo que se mata por estar deprimido, quando na verdade, todas as dores da alma deveriam ser vista com a mesma humanidade.

A primeira visita da "Dona Depressão" foi por volta dos meus vinte anos. Veio acompanhada de um inimigo íntimo: o "Sr. Pânico". Meu peito apertava, sem motivo aparente, e eu simplesmente achava que iria morrer, que não havia lugar para mim nesse mundo. Foi um período difícil em minha vida, repleto de mudanças para as quais eu não estava preparada. E mesmo tendo uma "família"  essencialmente inserida na área de saúde, foi difícil ser compreendida. Eu não os culpo: "em casa de ferreiro, espeto de pau".

Me lembro de meu aniversário de vinte anos, onde reuni alguns amigos em um barzinho: de repente, nada daquilo parecia fazer sentido. Fui tomada por uma desolação imensa, uma vontade louca de fugir, com a certeza de que ninguém ali me conhecia de fato, se importando mais com a cerveja gelada, em uma época em que quem convidava sempre pagava o banquete. Via as pessoas combinando uma esticada no Baixo Gávea ou algo do gênero, pois "ali" não estava muito animado. Eu não estava muito animada. Não estava fazendo o que eu queria, não estava estudando o que eu queria, havia acabado de romper com um namoradinho que na época me parecia importante, minha família não compareceu e eu , via de regra, era tida como a "estranha super sensível da família com um gênio indomável" (palavras deles). Tenho uma prima que dizia que além de eu ser estranha, seria a última a ser salva em caso de incêndio por ser adotiva. Angela, o nome desse anjo... Lembro que fiquei na merda, hoje ela me dá pena, compaixão, de verdade. É fato que não tenho um gênio lá muito cordata, sempre me prolonguei em argumentações que não me levariam a lugar algum. A maioria das pessoas já estão cristalizadas em suas verdades.

Aos vinte, pouco depois desse aniversário, já não morava mais com meus pais, e sei hoje que eu não tinha preparo emocional nem estrutural para isso. Ainda pago por isso, mas cada vez dói menos, como o financiamento de uma casa própria...um dia a gente supera. É nessa direção que caminho. Pelo menos, a casa eu já tenho...um canto pra chamar de meu, ainda que não tenha a cara dos meus sonhos. O mal do sensível é sonhar demais, eu sempre sonhei demais, o que não significa romper com a realidade. Esse paradoxo torna tudo mais penoso.

Houve um tempo, lá pelos vinte e quatro, que em um ano, morei em nove lugares diferentes: pensionato, vaga, república, mini-kitinete e o que mais se possa imaginar em termos de moradia precária e muitas vezes, sem privacidade alguma. Lembro que eu chorava todos os dias, mas me responsabilizava por minhas escolhas. Emagreci ao extremo nesse tempo, as vezes comia um miojo por dia, e nunca deixei minha família me ver daquele jeito. Eu simplesmente saí de cena, o que não foi muito difícil. Muitas vezes as famílias se ausentam por não saber como ajudar. Simplesmente não sabem como e o quê fazer, logo preferem não ver.

Minhas noites eram marcadas por pesadelos, onde eu caminhava sobre os trilhos de um metrô dentro de um corredor escuro, e acordava suando frio antes de ser atingida pelo trem que surgia de repente prestes a me dizimar...esse pesadelo se repetiu muitas vezes. Eu sempre tentei reagir e seguir em ferente, e graças ao meu instinto de sobrevivência, eu consegui. Tenho consciência de que, de algum modo, plantei as dificuldades que tive que superar.

Os ataques de pânico voltaram com força total: eu tinha certeza que ia morrer. Um nó nó peito se prolongava até a garganta. Horrível. Eu mal conseguia trabalhar, me olhar no espelho, me amar...nem pensar.

Aos vinte e sete anos, engravidei de um cara com quem havia ido morar há pouco tempo depois de mais ou menos um ano de namoro. Só o conheci pra valer mesmo debaixo do mesmo teto. Ele era obsessivo, ciumento, violento, e a única coisa que agradeço (a D-us) é a filha que tenho. Foi uma gestação difícil, mas eu estava determinada em ter minha filha. Hoje ela representa a essência do que posso chamar de família. Durante a gestação,o cara enlouqueceu, no mal sentido do termo, onde não me cabe dar maiores detalhes. Me ausentei por um período para me preservar (talvez se eu tivesse mais apoio, teria me separado definitivamente naquele instante e me poupado de muita humilhação e mais depressão), e comi o pão que o diabo amassou, perambulando com minha barriga para lá e para cá e contando com a caridade de alguns amigos. Minha família não se conformava com o rumo da minha vida, minha mãe adotiva não me recebeu, pois não queria "ver" o que eu tinha feito de minha vida. Nos reconciliamos (na medida do possível) pouco antes do nascimento da minha filha, e quando estávamos ficando quase amigas, e eu, recém separada do cara, ela enfartou! Bem no dia da festa de aniversário de meu pai...meus irmãos adotivos sugeriram que eu a matei de desgosto. Mais depressão, voltei ao tabagismo com força total depois de anos. Eu estava prestes a completar tinta anos, e minha filha não tinha nem dois aninhos. Todo esse período foi marcado por depressão e sensação de fracasso, tirando a minha maternidade, que era meu único motivo para sorrir...a despeito de todo medo que eu sentia, sem saber se daria conta...mas dentro de mim, havia e há uma reserva infinita de amor.
Entre idas e vindas, o momento mais FODA da depressão foi o do quarto escuro. Eu era ( e ainda sou) maquiadora e redatora (ghost writer tentando migrar para o autoral, veja que sintomático...alguém bom em se esconder, em se proteger da dor), mas não conseguia sair de casa. Simplesmente não conseguia. Um primo do cara com quem tive uma filha pagava a creche dela, sob o compromisso de que eu não pedisse pensão alimentícia. Sobre isso, melhor nem me prolongar. Já me submeti a abusos por verdadeiras migalhas diante do que é JUSTO. JUSTO, entende? Hoje, justo é o justo e ponto final,e sem mais, volto ao assunto em questão. No quarto escuro, eu me trancava e vedava com fita isolante qualquer possibilidade de entrar luz. Chorava e dormia. E comia leite condensado. Engordei muito. Emagreci.  Engordei de novo. Faz pouco mais de um ano que aprendi a comer direito, a não transformar frustração em comida ou em total ausência dela, e finalmente, me reconheço no espelho no meu exato tamanho. Faço uma manutenção do meu estado de espírito, pois psiquiatra não é coisa pra louco. Eu recomendo, de preferência, junto com uma boa psicoterapia.

Diferente da depressão endógena, que parte de alguma causa orgânica não identificada, eu tive a depressão reativa, oriunda do stress e de eventos externos que vão além do que o indivíduo pode suportar. As duas têm tratamento, as duas exigem atenção para ser superadas. E apoio, sem apoio de alguém, fica quase impossível.

Hoje, sou bem mais "feliz". Não permito que doença, preconceito, nem nada nesse mundo sequestre minha alma. Sou feliz até demais, amo toda a minha família (ou quase toda...), pois sei que não existe vida perfeita. Transito através de minhas dificuldades e histórias de cabeça erguida. Às vezes choro. Muitas vezes rio. Quem me conhece, não deixa de notar minha natureza combativa e alegre. Não desprezo nem faço piada do desespero de ninguém. Não que eu seja uma criatura evoluída acima do bem e do mal. Apenas sei do que estou falando. Em tempo: SEMPRE HÁ LUZ NO FIM DO TÚNEL OU ALGUÉM CAPAZ DE LHE DAR A MÃO EM TEMPOS DE ESCURIDÃO. Ou as duas coisas juntas...Não desistam de si mesmos.






Para 1 homem, 2 mulheres
sofrem de depressão.
40% a 60%dos casos de suicídio têm estreita relação com a doença.
Homens depressivos morrem vezes mais por suicídio que
mulheres (apesar de elas cometerem mais tentativas).

A depressão costuma ter início entre 15 24 anos

3 comentários:

  1. Comovente e corajoso depoimento...e eu tb sofro dessa doença!

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  2. Arnaldo Vieira de Alencastre24 de novembro de 2012 09:34

    Demais Claudia! Muito bom e forte seu texto e muito importante seu depoimento, onde sentimos também o quanto a depressão exige atentos cuidados e ações. Vale ressaltarmos que existem muitos comprovados caminhos de cura além de psiquiatria e psicanálise, como a yoga por exemplo, que compreende diversas técnicas para o desenvolvimento do fortalecimento interior, capaz de resgatar nosso equilíbrio de sentido e percepções... bem como, acompanhada de atividades lúdicas e prazerosas que replantam a alegria de viver o presente. Valeu querida. Força e vida plena!!!

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  3. Arnaldo Vieira de Alencastre24 de novembro de 2012 09:58

    Demais Claudia, muito bom texto, fortes experiências e depoimento. Emociona e faz sentir o quanto a depressão exige atenção e cuidados extremos.
    Vale ressaltar também que além das terapias tradicionais do ocidente, existem as tradicionais do oriente, coma yoga por exemplo com excelentes resultados comprovados de cura, onde através de suas técnicas de equilíbrio, respiração e compreensão do corpo-energético, resgata o fortalecimento interior, que junto com atividades prazerosas e lúdicas replantam defesas capazes de escoar traumas e lavar a alma das dores, bem como replantam ataques capazes de acumular e fortificar a frequência da alegria de viver. Valeu, parabéns!!!

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