sexta-feira, 29 de julho de 2011

A Pessoa Excluída.


O que é uma pessoa excluída? Logo se pensa naquela criancinha morando em habitações precárias ou perambulando pelas ruas sem destino que o valha, e outras atrocidades desse mundo cão. Sim, esses são claros exemplos de exclusão. Os "sem -tetos" e afins, que muitas vezes sobrevivem subtraindo do outro aquilo que o mundo não deu. As vezes pedem, as vezes roubam, as vezes se drogam até a morte, as vezes "apenas" perambulam com suas órbitas oculares desprovidas de alma...

Quero falar de um outro tipo de exclusão, mais sutil e difícil de ser identificada, e ainda com efeitos devastadores a seu modo. A absoluta exclusão afetiva. Aquela que não depende de fatores socioeconômicos para se fazer presente. Aquela que começa no seio familiar, quando um de seus membros não se encaixa no senso comum. Aquela criatura que, por alguma razão, caiu na vida de para-quedas, sem ao menos ter sua existência desejada desde os primeiros tempos. Nada a ver com grana. Uma exclusão avassaladora. Uma exclusão que centrifuga o espírito, e faz o corpo caminhar à deriva...por caminhos tortos. Uns, ávidos por amor, outros com medo, e ainda outros que simplesmente desconhecem esse tal de "Amor", se perdendo em tresloucados caminhos mentais. Ontem conversei um pouco sobre isso com alguém com quem falo sobre vários assuntos, e admito que fiquei chocada com alguns insights que tive. Tenho a sensação de que a exclusão afetiva deixa marcas indeléveis em qualquer pessoa que passe por ela. Como se carregasse um câncer de difícil remissão. Como se não houvesse caminho possível de felicidade para esse tipo de excluído para o qual não existe ação social instituída...é aquela criatura cujos olhares buscam razões para sua sina. "O que terá feito essa criatura para merecer isso? Boa coisa não deve ser..."  É sempre mais fácil seguir o rebanho que olhar dentro dos olhos de alguém, onde moram as verdades que não carecem de palavras... A pessoa excluída é aquela que sempre vê o amor como um balão de gás inalcançável...é aquela que, consciente ou não, é capaz de se editar para suprir as demandas desse mundinho de merda em que nascemos. É aquela com indiscutível vocação para a loucura. Aquela que, quando se fere, não tem colo para chorar. "Peça ajuda para sua família...", que família? Estamos falando dos excluídos, palavra intencionalmente repetida nessa publicação. Intencionalmente "incluída" repetidas vezes! Sei de crianças adotadas que sofreram dobradas cobranças que não puderam quitar ao longo da vida e por isso foram excluídas. Adoção não é caridade, é na verdade um outro caminho para a maternidade e a paternidade....e sei de pessoas que são contra a adoção, pois vai saber que tipo de "informação genética" trás consigo aquela criança...já ouvi isso de mais de uma pessoa. Particularmente, essa visão me soa bem desconfortável. Quase ninguém pensa nisso quando adotam um cachorro que pode ter um transtorno de comportamento...nada contra cães, eu mesma tenho três cadelas. Transtornadas, chatinhas e adoradas...e não pretendo joga-las no olho da rua. Amo loucamente minha filha, e tenho certeza de que não se deve ao simples fato d'ela ter sido gerada em meu útero. Hoje conheci uma menininha de origem muuuuito humilde com grandes olhos falantes, "sedenta" de carinho, e naquele momento me senti inundada de um inexplicável amor...olhei naqueles olhos que sorriam para mim, e meu dia valeu por ter transformado o ânimo de um ser humano por ao menos cinco minutos...

Ainda sobre os excluídos por uma adoção inconsequente, não resisto em citar algo que li a respeito: " uma mistificação da adoção. Cansei de ver pessoas mostrarem desejo em adotar para fazer uma boa ação, não por desejarem um filho. Sempre aconselho que nesses casos é melhor ajudar orfanatos, apadrinhar crianças em orfanatos. A adoção não é ação social. Aí acham que a criança nunca vai poder ser ingrata, cuspir na comida, como se ela fosse obrigada a ser boazinha para sempre pelo ato de amor que fizeram. É um filho como outro qualquer e ainda com algumas sequelas de abandono. Com possível raiva da vida porque seus pais verdadeiros não o quiseram". Isso é bem escroto, mas fazer o quê? Fazer diferente. Entender que gente não é gado, e que até gado merece respeito e humanidade. Que alguém que foi excluído não é necessariamente um mau caráter, tampouco pode ser resumido em uma incógnita...tão óbvio é seu abandono...e para quem se percebe em situação de exclusão afetiva, deixo umas palavrinhas, pois quem sou eu para dar conselhos (?): exclusão não precisa ser pena eterna. Plante uma árvore, escreva um livro, componha uma música, e se achar que pode, tenha um filho, expressão máxima do amor...adotado ou não...abuso não é algo que precisa ser repassado. Ninguém precisa morrer refém da própria história. Procure um médico. Um psicanalista ou algo que o valha. Olhe-se no espelho e perceba algo de belo além da aparência. Ser é muito mais que Ter. Que seja uma religião, um modo de se conectar a Deus. Não dependa de quem sempre cagou para você para mudar seu curso...sempre existe uma saída. Se você, excluído afetivamente, se sente "desenganado", lembre-se que, acidentalmente ou não, foi, ao nascer, incluído nessa vida, sabe-se lá porquê...já é um começo.

terça-feira, 26 de julho de 2011

"O amor acaba"/ por Paulo Mendes Campos (Amo esse autor!).

"O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba."


Às vezes através da loucura dos que amaram demais e mudaram a alma de casa...ou dos que de tão pouco amor experimentado, não souberam o que fazer dele... 


Amar a si próprio e se aceitar plenamente é o primeiro passo em direção à qualquer relação de amor bem sucedida!



sábado, 16 de julho de 2011

O sabor doce dos frutos maduros.


Sempre gostei das pessoas mais vividas e das histórias que tinham para me contar. Desde que me entendo por gente...como se em cada ruga de um rosto maduro eu pudesse ler as palavras impressas de uma biografia riquíssima de quem já viveu bem mais que eu.

Em Uberaba, onde morei quase meia dúzia dos anos da minha infância, conheci Dona Ermelinda. Morava em uma casa colada a minha, era bem velhinha mesmo, alguns diziam que ela devia ter uns cem anos...um exagero, mas apurar esse detalhe nunca me interessou. O que eu gostava mesmo era de ouvi-la falar de sua vida enquanto comíamos bolo de milho em sua sala pequena com jeito de casinha de boneca. Eram histórias fantásticas, repletas de discrições dignas de uma grande escritora. Falava de seu marido que havia morrido na guerra, nunca perguntei em que guerra, e na falta que ele fazia. Ela estava sempre bonita, achava que o marido estava de olho mesmo lá do "Céu", gostava de usar xales coloridos e chegou a me ensinar alguns pontos de tricô durante um de nossos encontros. Eu amava estar com essa elegante senhora, que sempre me dizia que eu era uma menina especial. Que um dia eu faria sucesso em qualquer coisa, sobretudo por minha (suposta) humanidade, no que espero que ela tenha acertado...essa coisa de ser humano é algo bem relativo, visto que a condição humana está em franca decomposição...e sucesso para mim não representa status social público, tampouco ilustrar capas de revista exibindo peitos e bunda, isso eu mostro para quem eu quiser (cada um na sua), ou ser protagonista de uma matéria sobre a vida dos bem aventurados pelo destino ($$$). Sucesso é algo que entendo por ser feliz e realizada nas coisas que são caras para mim: Poder cuidar da minha filha, ganhar o suficiente para não ter que parcelar faturas que vez por outra extrapolam, fazer compras no supermercado sem a obsessiva preocupação com o preço dos alimentos e afins, me sentir bonita o bastante para não me incomodar com o espelho, ser amada, ser uma escritora lida pelo que escrevo e não pelo que supostamente eu possa ser...até porque não sou mais uma garotinha gostosona de vinte anos. Em nove de outubro, farei trinta e oito anos com várias lacunas a serem preenchidas e tantas outras que já foram completas...a vida é assim mesmo, há sempre novos campos a serem preenchidos.

Bom, eu estava falando da Dona Ermelinda e do quanto eu gostava de ouvi-la do alto de sua experiência. Ela nunca recebia visitas além da minha e do carteiro que só levava contas. Um dia lhe escrevi uma carta, mesmo morando tão pertinho, dizendo o quanto era querida para mim, e ela gostou muito...naquela época não tinha e-mail, mas admito que ainda vejo encanto em missivas feitas sobre o papel...me incomodava o fato daquela mulher cuja verdade absoluta de vida eu desconhecia ( e isso pouco me importava) ter o telefone sempre quieto e a caixa postal sempre vazia de coisas pessoais...e passei a lhe escrever outras cartinhas semanalmente, que ela começou a aguardar com uma alegria quase infantil. Adorava ver-lhe o sorriso no rosto. Nas cartinhas eu falava da minha escola, da bronca que minha mãe tinha me dado por ter chegado tarde de um passeio de bicicleta, e da primeira vez que derramei meu primeiro olhar romântico sobre um menino da minha rua que também era meu coleguinha de sala de aula. Eu tinha quase dez anos nessa ocasião. Ela me disse que eu era muito nova para namorar, mas que eu já estava prestes a ficar mocinha e isso era natural...que eu deveria guardar meus melhores "afetos" (ela adorava essa palavra, que passei a adorar também) para quem realmente viesse a me merecer um dia. Uns mereceram, outros não, mas isso agora não vem ao caso.

Um dia ela pediu para fazer tranças em meus cabelos muito lisos, e disse que se tivesse uma neta, gostaria que fosse como eu e que também amaria trançar-lhe as madeixas. Ficou lindo. Foi quando descobri que não tinha netos...eu pouco fazia perguntas, sempre acreditei que as pessoas se revelam quando bem entendem, e que naturalmente isso vem com o tempo, e tempo também é uma coisa relativa. E ela foi além: seu filho fora tentar a vida em são Paulo e nunca mais deu notícias, portanto era possível que tivesse netos e netas e nem soubesse.
Nesse dia, dei um abraço bem apertado nela  e disse que se ela tivesse uma neta, essa neta seria a menina mais sortuda do mundo tendo uma vovó tão doce. Foi uma amiga muito especial ela...e gosto de imagina-la como um anjo bom, esteja onde estiver.

Quando soube que voltaria para o Rio, fui me despedir dessa minha querida. Já estava com doze anos. Choramos juntas em silêncio, de mãos dadas, e ela me disse que sabia que esse dia chegaria, e que meus sonhos não cabiam naquela cidade, que em minha terra natal eu certamente seria mais feliz . Comemos juntas nosso último bolo de milho, ouvimos Francisco Alves e Dalva de Oliveira de mãos dadas, que ela gostava muito. Lindas vozes.

Dona Ermelinda dizia que meus olhos lembravam os da Sophia Loren, e isso me fazia rir...e coincidência ou não, achei um vídeo que vou publicar ao fim desse texto com imagens da atriz e a música que ouvimos juntas...que ela possa ouvir, de onde estiver. Com certeza, deve estar num lugar bem bacana.

Quando cheguei de volta ao Rio de Janeiro, escrevi algumas cartas para minha doce velhinha, que me respondia de pronto. Ela gostava dos selos, eu achava isso divertido. Um dia essas cartas deixaram de ser respondidas, e eu entendi que sua temporada na Terra havia terminado. Ainda tenho algumas dessas cartinhas, que se não provam a veracidade das histórias de Dona Ermelinda, mostra o afeto que nos unia, esse sentimento que não requer provas...é algo experenciado e pronto.

Essa noite sonhei com ela sussurrando em meu ouvido: "Pequena, o Tempo é o Senhor da Razão". Senti uma saudade doce e o acolhimento das lembranças boas...

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Vamos passear? (Uma viagem "hard" através da "Loucura")

Maristela saiu leve do consultório do Dr. Osmar, seu psiquiatra/psicanalista com quem havia iniciado um processo de tratamento há alguns meses depois de sua ultima crise. Resolvera cuidar de velhas questões guardadas no baú de sua memória cruelmente infalível. Tinha dificuldades em esquecer.

Seus cabelos fininhos estavam ralos de novo e começaram a cair depois do ultimo baque. Também sua pele moreno-jambo já não mostrava o mesmo viço, de tanto que se protegia do sol. Estava amarelecida.

Ao procurar seu carro no estacionamento do prédio comercial, para sua surpresa, não o encontrou. Havia na vaga um automóvel preto antigo e dentro, um lindo homem de cabelos muito pretos e olhos muito azuis. Ficou hipnotizada, com uma estranha sensação de familiaridade, não lembrava o nome dele, tampouco se de fato havia  o encontrado alguma vez em sua vida. Até esqueceu o susto de não ter encontrado seu fusquinha onde deveria estar.

- Olá, Maristela. -saudou o belo rapaz.
-Oi...o que faz aqui?
-Vim te buscar. Vou te levar pra casa. Sei que trocou os ansiolíticos, seu carro está em local seguro, entra!- ordenou em voz de comando.

Ela entrou, cordata, estranhamente cordata. Ajeitou com as mãos o vestido florido meio amassado, apertando a bolsa de encontro ao corpo. Não conseguia falar nada, confiava nele, que logo tratou de preencher o silêncio.

-Gosta de música, não?- ao que ela respondeu com a cabeça afirmativamente. Ele botou para tocar "The End". Ele sabia que "The Doors", especialmente Jim Morrison, havia marcado sua adolescência.
-"This is the end"...- cantarolava ele com uma voz grave e afinada. E seguiu até virar em uma rua que os tirou do perímetro urbano que Maristela conhecia bem. A estrada Maristela nunca tinha visto. Era reta e lisa, e o horizonte se renovava a cada metro, como se fosse infinita. Um sol de cair da tarde e acostamento de vegetação ressequida completavam o cenário. E ela permanecia sentada, quieta, atenta, e atipicamente muda.
-Estava sentido sua falta, Maristela-  continuou ele - cheguei a acreditar que me abandonaria de vez...você quase conseguiu. Mas você sabe como é: eu sempre estou por perto. Eu nunca te abandono.
-Que bom-  murmurou finalmente, fechando os olhos. A sensação de ouvir que não estava abandonada aquecia-lhe o espírito.
-Eu sempre estive aqui, Maristela, desde seus primeiros tempos de vida. Ou "Télinha", como te chamavam quando criança...
-É...- concordou ela num fio de voz.
-Télinha, quando você nasceu, e sua mãe de sangue não sabia se te dava pra uma família de classe média ou para um casal canadense em troca de algum dinheiro, eu estava lá. Que bom que você ficou por aqui, prefiro o clima caótico do Rio de Janeiro, em todos os sentidos. E a cada surra por não comer tudo, eu também estava lá, bem do seu ladinho. Quando nos livros você se escondia da dor como uma autista.

Maristela baixou os olhos. Ele parecia "adivinha-la" como um anjo da guarda. Ele seguiu falando, sem tirar os olhos da reta.

-Lembra, Maristela, quando você perdeu a virgindade aos dezessete anos e foi recebida em casa com tapas na cara de sua mãe adotiva? E ainda foi chamada de puta por seu papai por ter chegado em casa uma hora além do horário em trajes de praia? Quando aos dezesseis você quis ir ao cinema com um namoradinho e seu irmão mais velho te situou com dois tabefes no meio da fuça com aquela mão enorme bem aberta? Eu estava lá. Você sempre teve uma cara bonita demais, boa de bater, né, Maristela? Acho que eles não queriam pra você o mesmo destino da sua mãe biológica, vai saber...e quando aquela sua prima, a Angelina, te disse aos treze anos que você seria a ultima a ser salva em caso de incêndio, e você ficou chocada por ser adotiva, eu também estava por perto. Quando você, muito novinha mesmo, uma mocinha, foi estuprada por dois homens e teve suas entranhas perfuradas por objetos pontiagudos, eu estava bem do seu lado, mas nada pude fazer, eles eram grandes demais...não se pode confiar nas pessoas, Maristela, parece que você só percebe isso agora...que está mais calminha, uma doçura. Quando você conheceu aquele cara que foi embora para os "Esteites", pouco antes dos seus vinte anos, vi como ficou chateada. Foi o primeiro de poucos que te deram algum valor. Mas ele tinha planos bem maiores que você, garota, mas fora isso era realmente bacana e não te fez mal algum. Nesse momento eu também não me ausentei. Lembro ainda daquelas "amigas" do ensino médio...mal olhavam para sua cara...muitas debochavam desse seu olhar distante...até acredito que rolava alguma inveja, você ouviu a vida inteira o quanto é linda...seu pai até dizia que isso era uma glória e uma danação. Você nunca teve amigas de fato. Eu via. Suas ultimas amigas, e muito poucas, ficaram na oitava série, quando você fez a vergonha de ser reprovada em matemática...e mudou-se de escola. Sempre muito "sensivelzinha", meio covarde, né? Sei que nunca mais foi a mesma, você que era tida como uma típica cdf...querida, você decepcionou seus pais adotivos no mesmo ano de sua linda festa de debutantes cheia de convidados que cagavam pra você. Creia: eu estava lá.
-É..-murmurou ela em mais um fio de voz.
-E aí, a grande virada de Maristela! Você se juntou com aquele cara que tinha usado loucamente todas as drogas do mundo, depois de tantas decepções com esse seu dedo podre...ficou grávida. O cara "pancou" e te enxotou com uma barriga de quase seis meses...e nessa sua solidão escrota, tudo que te importava era ser mãe. Acho que só como mãe você deu relativamente certo, né? Deve ser estranho ser uma jornalistazinha medíocre de uma coluninha de fofocas quando sei que tinha sonhos maiores...mas calma que eu estou aqui.

A voz do homem assumia um tom cada vez mais grave e pesado, enquanto Maristela já se encolhia no banco abraçando as próprias pernas flexionadas e começava a apresentar algum tremor no corpo miúdo como seu coração apertado. E ele não parou de falar.

-Maristela, calma, sou seu amigo. E quem é amigo sempre fala a verdade, não importa se ela pode te quebrar ao meio, não importa absolutamente nada. "Conheça tua verdade e tua verdade te libertará". Você não funciona. ninguém quer por perto uma figura triste. A depressão fede, e quando você reage a ela no extremo, se torna insuportável. Esse papinho de "luta e fuga" é balela. Sua carência fede mais que presunto desovado em terreno baldio. Fede demais, Maristela. Mas eu gosto de você, não é incrível? Eu só existo porque você existe. Lembro de você grávida, isso não dá pra esquecer, comendo restos de restaurantes a quilo...e dormindo na casa de um e outro. Você foi adotada. Poderia ter sido criada pela doidivana da sua progenitora, e não soube aproveitar direito. Todo mundo acha lindo adotar crianças, mas esquecem que no
final, todo mundo cobra de um adotado uma fatura triplicada. Você deu errado mesmo. Vou te lembrar mais: lembra quando o pai da sua filha te espancou a face até arrancar sangue e um dente? A primeira coisa que sua mãe adotiva perguntou foi o que você tinha feito com ele. Ninguém nunca te levou a sério...materialmente, você tinha quase tudo quando vivia com sua "família"...e essa ultima foi demais!!! Achou mesmo que podia ser feliz com mais uma cara bacana de família, nunca te vi tão apaixonada por alguém como por esse que desistiu de você outro dia, e fez ele muito bem!!! Nem pelo carinha que se mandou pros "Esteites" você ficou tão na merda! Tudo que você viveu é muito para esse cara de família "normal", pra eles, você nunca passou de uma louca mentirosa querendo chamar atenção...Eles até foram bons demais com você, até remédios já te compraram! Para eles, em que você foi útil? Nem precisa responder, você sabe a resposta. Você foi muito má. O que é uma "picuinha" à toa perto da tolerância que a família desse ultimo carinha tinha com você e essa sua fantástica história de vida? Uma vida de merda, diga-se de passagem. Quando você foi currada, muitos disseram que a culpa era de suas coxas grossas e seios pontudos. Até calada você está sempre sob julgamento. Ninguém nunca vai te levar a sério. Você é doida. Você delira em um mundo feito de provas materiais, o que adianta confiar nos outros? Vai criar uma máquina do tempo e levar alguém pra passear? Rárárá! Você merece ter a língua cortada, Maristela. E fica você indo a psicanalista e o escambau achando que pode colher algo de bom, não me faça rir, não quero que perca seu tempo, estou aqui para que não perca seu tempo!!! Passado é história. E você é muito eficiente em virar passado na história de vida das pessoas. Quando tua mãe enfartou, toda tua família adotiva te culpou, como pôde uma filha adotiva dar tantos desgostos? Como você pensa que pode continuar sendo uma boa mãe para Catarina? Tomando seus "remedinhos" controlados na hora certa? Preparando um dossiê de sua vida com provas e documentos que validem sua existência? Que necessidade de aprovação é essa? Isso é coisa de literatura, Maristela, "desce já daí"!

Maristela já estava prestes a explodir em pranto.

-Cara, o que você quer de mim?- perguntou ela segurando o choro.
-Que não se iluda mais com tratamentos que não vão te livrar de nada, que aceite sua sina, que entenda que a vida, por mais sórdida, é como é e ninguém sai vivo de toda essa merda. Sua alegria é feita de plástico e tarjas pretas, nunca convenceu ninguém, nem comer você consegue direito!

Ela permaneceu calada, nada mais queria falar depois de tudo aquilo. mais alguns metros e ele, que já havia dito tudo que queria, parou diante de um portão enferrujado e alto. Ali era o destino de Maristela.
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Passado um tempo, Maristela se adaptou bem ao novo "lar". Estava mais calma, usava um vestido azul com seu nome bordado e tipo sanguíneo também. Havia muito verde, mulheres faziam rabiscos ao ar livre, conversavam com árvores e gambás, às vezes com criaturas invisíveis. Diziam que ali estava repleto de gnomos. Haviam outras pessoas de branco que furavam seu braço a cada duas horas, mantendo-a sempre gentil. Lembrava-se vagamente da filha Catarina, e quando acontecia, sentia muita saudade, mas se chorasse, iria para o castigo. Ficaria amarrada pelos pulsos e tornozelos por um ou dois dias. Uns homens de branco chegaram a toca-la de modo inadequado em uma dessas ocasiões, e ela sentiu muito medo. Melhor que se comportasse. Tinha muito medo de ser machucada mais uma vez. Certamente, alguém estava cuidando de sua filha...e todas as tardes, ao cair das luzes diurnas, o lindo Anjo que a levara para lá atravessava o portão para conversar e levar balas de gengibre e cigarros de filtro amarelo. Ele sempre chegava sorrindo, e sua voz estava mais doce:

-Veja como você está melhor, Maristela. E o mundo segue bem sem você. Eu cuido de ti para que nada saia dos planos. Dos meus planos. Lá fora você gerava ódio nas pessoas, despertando o pior de todo mundo. Aqui você realmente está mais protegida.

Maristela deu uma risadinha, coisa rara de acontecer.

-É, cara? E quem você pensa que é para ter tanta certeza sobre mim? Sempre quis saber.

-Nossa! Você não sabe? Me chamo "Trauma". Sou e guardo todos os seus traumas, e estou atento para que nada saia do roteiro! Nunca vou te abandonar. Vem cá, Maristela, deixa eu te abraçar...eu sou o único que realmente te quer incondicionalmente!

Maristela reassumiu o olhar vazado e deitou no ombro do velho amigo, enquanto mais um dia se despedia...

                                                                       Fim.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Ser inteiro (nós que não somos metade de nada).



Eu, e grande parte das pessoas, sobretudo mulheres, fomos criados para acreditar que temos que existir aos pares. Hoje questiono um pouco isso...claro que amar é bom, mas se amar antes de tudo é melhor ainda. D'us, que sabe de todas as coisas que nunca vamos saber, já nos deu pares de coisas para seguirmos vida à fora. Nos deu dois olhos para enxergar, dois ouvidos para ouvir, dois braços para realizar trabalhos e sonhos, duas pernas para nos levar onde bem queiramos, dois rins para filtrar impurezas, dois seios para nutrir rebentos (no caso das mulheres, claro) e outros prazeres, dois pulmões para respirar tanto ar quanto possível, dois ovários para procriar, e certamente a lista não pára aí...e é um plano tão perfeito que na falta de um, há o outro para nos manter vivos ou até salvar uma vida. Somos inteiros, com pares ou não. E penso naqueles que, desprovidos da plena faculdade das funções corpóreas, caminham como podem com um sorriso no rosto...pintores amputados que pintam com os pés ou com a boca..."Escutar atrás de si o ressoar dos passos de um gigante", disparou ainda o compositor Johannes Brahms sobre a nona sinfonia de Beethoven, ele, o gênio subtraído do sentido da audição...a história está repleta de exemplos como esse, seja de grandes nomes ou de pessoas cuja luta não foi registrada. 


Mesmo amputados, metaforicamente ou não, temos a divina capacidade da inteireza, da reconstrução, da redescoberta, da transmutação...temos a pulsão de vida em nosso favor. E D'us, tão perfeito, nos deu um só coração...que de tanta capacidade de sentir, irrigar, fazer circular sangue...nos explodiria na primeira emoção sentida se viesse duplicado! Um coração vale por mil, tanta coisa que se guarda, se sente, se experimenta...não resisto em citar a bailarina Mickaella Dantas, que com uma só perna, dança com a doçura de uma fada e, aparentemente, desconhece a auto piedade. Uma linda mulher. Inteira, inteirinha...inteirissima na vida que escolheu para si. Nada a deteve. Nada a paralisa. Nem a tristeza profunda, necessariamente, pode deter uma alma criativa...as vezes vira até combustível...vale lembrar que esterco faz bem às plantas...tudo tem um propósito...tudo pode ser adubo.


Quero ser inteira, independente de ter alguém ao meu lado ou não...sempre fui minha companhia mais presente, nunca descobri (ainda bem!) um jeito de fugir de mim. Então, que eu seja sempre minha melhor parceira nessa trilha, sobre campos floridos ou brasas ardentes! Que nada me detenha. Que a solidão não me detenha. Que o medo não me detenha. Que a dor não me detenha. Sou boa em sobreviver, quero VIDA!...choro litros e rego minha plantinha, e ela sempre brota mostrando que nascemos de novo a cada amanhecer.


Quero me levar para passear. Me levar ao cinema. Me vestir com minhas cores mais belas. Ouvir minhas músicas prediletas. Me dar amor, me fazer carinho, me abraçar, amar o que encontro no espelho, cuidar do corpo e da mente...porque sei que valho a pena, em primeiro lugar, para mim. Isso poderia valer para todos que se sentem sobrecarregados demais. Saibam que a estrada não tem fim...o mundo é redondo. Não despencaremos ao fim de um caminho de um angulo de noventa graus, a menos que a gente desista. Desistir não vale a pena. Não estamos no mundo a passeio. Ninguém está. Minha alma chama por mim, e eu, abençoada por todos os sentidos, não me farei surda à esse chamado...


Um beijo a todos. Um beijo em minha face. Todos merecem. Eu mereço.



sexta-feira, 8 de julho de 2011

E o mundo girou (singela historinha de amor)...


Augusto entrou no café do pequeno hotel da ruazinha sem saída que nem imaginava mais existir, tantos anos passados...aquele lugar era repleto de recordações, quantos copos de coca-cola havia tomado ali em noites repletas de risos de um tempo que não parecia ter sido seu, embora nada houvesse à reclamar de seu presente....

Seus cabelos não mais existiam, usava óculos de grossas lentes e armações escuras que teimavam em escorregar sobre seu nariz bonito...passara a vida ouvindo das muitas mulheres que conheceu que tinha um nariz bonito, e se orgulhava disso. Aos sessenta e cinco anos, comemoraria no dia seguinte vinte anos de um casamento tranquilo. A paz que sempre procurou depois da ultima louca dentre tantas que cruzaram sua vida.

Ele tinha poucas rugas e um sorriso de menino. Também se orgulhava Augusto de ter todos os dentes em sua boca, e ainda mantinha o hábito de se exercitar pelo menos três vezes por semana. Gostava de fazer doces em compota para as duas filhas, seus maiores tesouros...elas que o faziam levantar todas as manhãs, e ainda continuar a compor. Era um violonista renomado. Compunha com a facilidade de quem coa um café, de forma genial. E fazia doces, e amava lua e flores...e amava a família, tinha os pais ainda vivos e gozando de plena saúde, apesar da avançada idade...nada à reclamar da vida. A única irmã, sua melhor amiga, lhe dera muitos sobrinhos, dos quais dois também eram músicos...um orgulho! Passavam fins de semana em Teresópolis sempre que podiam...

Chegou junto ao balcão. Uma mocinha de seus dezoito anos perguntou o que desejava.

-Uma coca-cola normal.

-Com limão?

-Sem limão. Gelada, mas sem gelo. Não é bom pra voz....

-Ah...-assentira a mocinha como se aquela informação mudasse sua vida e foi buscar o pedido.

Augusto olhou em volta. Tudo parecia meio congelado pelo tempo. As paredes  mantinham o mesmo forro com detalhes em vermelho, poltronas verdes estavam por todas as partes do saguão, onde pequenos aparadores de parede sustentavam livros e revistas para quem deles quisesse dispor. Pequenas mesinhas de mogno exibiam alguns copos vazios que não haviam sido recolhidos em tempo, sob a luz de delicados abajures. Na parede, algumas reproduções de grandes pintores completavam o charme decadente daquele lugar. Nem sabia dizer o que o levara ali para uma coca-cola.

Augusto foi pegar a coca-cola no balcão que a mocinha não havia dado o trabalho de entregar em mãos. Já estava sentada em sua cadeira atrás do balcão com seu olhar apático.

Ao voltar-se, viu uma senhora que parecia ter surgido do nada lendo "Grandes Esperanças", do Dickens, que embora reconhecesse como um grande autor, nunca tinha tido a paciência de ler, sabe-se lá porquê...
Não conseguia ver direito seu rosto escondido pelo livro. Já devia estar com a visão embaçada pelos anos...parecia ter uns setenta anos, dada a brancura de seus cabelos lisos presos em um coque. Notou também que era miúda e franzina, usava um belo vestido azul e sapatinhos pretos de verniz nos pés pequenos. Nos ombros, um xale também azul com flores bordadas a aquecia do friozinho daquela noite. Ela lia rápido, virando as páginas com dedos ágeis. Para seu espanto, a senhora baixou o livro revelando um rosto que jamais esqueceria. Os segundos de silêncio teve o peso de uma era...era ela, Graziela! Graziela, a menina bonita para quem dera aquele livro, dos cabelos e olhos escuros e pele clara como maizena que conhecera no auge de sua vida adulta, quando pouca ou nenhuma esperança alimentava em sua música e no sucesso que se seguiu em todas as áreas de sua vida! A menina de jeito alegre, feita de "som e fúria", e doçura também...lembrava de tê-la amado um dia...se é que um dia chegou a esquecer...os sapatinhos de verniz...ela amava sapatinhos de verniz...na verdade, como muitas mulheres, ela era louca por sapatos! Fora uma época repleta de alegrias e desencontros, até que um dia Augusto resolveu partir por achar que não daria conta de uma mulher que, na época, tinha tantos problemas...não sem dor, optou por caminhos mais suaves...a emoção sempre cobra um preço alto demais. A paixão é algo impagável.

-Não vai me dar boa noite, Augusto? - foi Graziela quem quebrou o silêncio diante de um Augusto atônito com seu copo vacilante entre os dedos.

-Boa noite...Graziela! Você está bonita ainda...

Graziela sorriu.

-Pra você, querido, parece que o tempo foi mais generoso...sente-se ao meu lado nessa poltrona...se puder, claro.

-Claro que posso...-  e sentou-se -quer um pouco? De coca-cola?

-Não bebo mais essas coisas. Faz mal pro meu estômago. Nem carne mais eu como...e você? Sei tudo ou quase tudo pelas revistas, vi que tem a família que sempre desejou...mas ainda faz aqueles doces gostosos?

-Faço...faço sim...minhas filhas adoram.

-Vi suas filhas em uma foto do prêmio que você recebeu. Me emocionei um bocado...sabia que faria sucesso...

-Obrigada, Grazi...você acreditava nisso mais que eu...e você? Por onde andou por todo esse tempo? E seu filho? Lembro dele com carinho, era um molequinho que também adorava violão. Chegamos a ensaiar umas aulas, ele tinha uns dez ou onze anos quando nos vimos pela última vez...

-Oito. Ele tinha oito anos. Vicente está em Nova York, e apesar de não ser tão jovem, se espelha em sua história como músico pra não desistir...Eu sempre digo a ele que a vida pode começar a qualquer momento, e que D'us bem sabe o tempo das coisas...e Vicente segue fazendo sua parte da melhor forma possível...ele sabe que pode contar comigo, tudo que me interessa é que ele seja feliz...

-E você, Graziela? E sua família?

-Quase todos mortos, exceto por meu irmão Mauro e alguns sobrinhos ocupados demais...o tempo tem seu capricho pra cada destino, não? Minha família é o meu filho Vicente, e só tenho a agradecer por isso...

Augusto baixou os olhos, não sem antes perceber que aquela mulher inviável que amara tanto ainda conservava a boca bonita bem desenhada.

-Vicente...um grande garoto...gosto dele...-Augusto tentava não se emocionar com a lembrança do garoto por quem havia nutrido um carinho quase paternal- mas e você? Seu marido? Você, sempre tão bonita...não se casou...não amou mais? Não tem alguém?

-Tenho pessoas que vão e vem...trocam um dedo de prosa como você e seguem seus caminhos...comprei esse hotel com um dinheiro que meu pai me deixou...o resto é do Vicente, para que ele alcance seus sonhos.
Mas entendi a pergunta...depois de um ano sem você, tive uns três casos...depois da terceira vez sem sentir nada, nada mais nesse sentido vale tentar, né? Cuido do bem estar dos meus hóspedes...comprei esse hotel  à beira da falência...confesso que ele me lembra muito nossas madrugadas nas mesinhas de fora...mas isso não tem mais importância...é só lembrança...Você foi mesmo importante pra mim. Gosto de pensar naquele tempo feliz. E de sabe-lo feliz. Como vê, continuo verborrágica, falando demais...confesso que no fundo sempre tive a esperança de vê-lo de perto outra vez...e bem perto...vou aos seus shows e sento em uma poltrona discreta, e saio sem fazer alarde...confesso.

-Deveria vir falar comigo!

-Prometi que não causaria mais problemas com meu temperamento, com minhas loucuras, com minhas questões...e cumpri, Augusto...mas ainda escuto todas as noites a música que só tocou em nossas cabeças enquanto a gente dançava numa noite quente na varanda da casa de seus pais...e tantas coisas boas que só parecem possíveis em romances de banca de jornal...eu te amei.

-Graziela...tanta coisa hoje não faz mais sentido...será que fui duro e defendido demais?

-Como você bem disse, Augusto, tanta coisa não faz mais sentido...você tem uma vida boa. É o que importa, e antes que pergunte, a meu modo, também tenho. Claro...você sabe que tudo que sempre quis foi viver cem anos ao seu lado adormecendo como um bicho-preguiça...ainda lembro do peso suave do seu braço, e essas lembranças já me valem a pena...agora tenho que subir...tenho remédios para tomar...não é só meu estômago que dói...

-Queria poder te abraçar, também te amei...

Dito isto, Augusto abriu seus olhos sobressaltado...estava em seu quarto, deitado em seu futon...e tudo parecera tão real, que sonho!...Graziela, avançada no tempo, o mesmo jeito de falar...Graziela...sentiu saudade!

Há seis meses não se falavam. Se completavam em muitas coisas, e batiam de frente em tantas outras... Graziela às vezes parecia louca...ao olhar no espelho, viu o jovem homem prestes a completar quarenta
anos...e com tantos sonhos à realizar! Sonhos possíveis...e se não demorasse muito, ainda poderia dar tempo de escolher quem de fato estaria ao seu lado nessa caminhada...com quem ficaria velho dormindo como um bicho preguiça...pegou o telefone com as mãos trêmulas, e, mesmo inundado de medo, ligou para Graziela, cujo número e as formas e o cheiro e tudo dela, louca e linda Graziela, ainda sabia de cor...


quinta-feira, 7 de julho de 2011

Permutas.

Elizete era uma devotada dona de casa, mãe de gêmeos idênticos, Gladson e Vladson. Morava na Delfim Moreira, em um prédio de proporções faraônicas, onde seu marido, o doce Vlagemir, atuava como porteiro, manobrista e lavador de carros bacanas aos domingos.

O chefe de família tinha uma vida boa. Seu rendimento era o bastante não para uma vida de luxo, mas suficiente para garantir a carne moída de acém de cada dia. Também dera a esposa um cartão da C&A com limite (pasmem) de mil reais, que ela podia dispor como bem entendesse. Era uma gostosona, e Vlagemir se orgulhava disso e gostava de exibir a "Mulher-Troféu". Ela não precisava trabalhar, desde que mantivesse em plena ordem a casa destinada ao porteiro naquele sofisticado endereço, e fosse com ele e os pequenos à todas as missas dominicais, religiosos que eram. Os meninos, de doze anos, eram bons alunos, afinal, tinham uma mãe atenta e presente. Família feliz e completa. Típica família de comercial de manteiga. Eram, inclusive, dizimistas: Dez por cento para obra do Senhor, sem choro nem vela. Tinham que manter suas bençãos!

Depois de arrumar a casa, alimentar e despachar os meninos para a escola, Elizete enfim se dedicava a cuidar da própria beleza: Escovava umas cem vezes suas longas madeixas louras "gema-de-ovo" que ela mesma fazia questão de pintar, passava um batom carmim, botava um vestido floral, sapatos de salto sempre, às vezes atava os cabelos em um displicente coque, às vezes não...estava sempre linda, dentro do que aprendera do que era ser linda. Que era sexy, isso não se discute. Não havia esquina por onde Elizete passasse que não fizesse com que meia duzia de homens virassem a cabeça para checar-lhe o "derrière"...até as madames de bom gosto inquestionável olhavam para Elizete com uma quase indisfarçável inveja. Até puxando carrinho de feira, a loiraça tinha estilo.

Assim como Vlagemir exigia dela uma atenção devotada às questões familiares, também ela tinha uma condição para ser plenamente feliz: três vezes por semana fazia questão de botar seus panos mais bonitos e encontrar suas amigas em Copacabana, lá pelo Posto 2, para um carteado inocente. Era mulher direita, afinal...justo encontrar as colegas da igreja.

"Amorzão, tem bolo de carne no forno, suco de melancia na jarra e goiabada na geladeira...só esquentar no microondas e também não esqueci do arroz soltinho...e todas as roupas já estão lavadas e passadas", ao que ele respondia, "Claro, minha santa, mas são quatro da tarde...e hoje é dia, viu?" anunciava o maridão com um olhar gaiato, "vê se não demora, você sempre chega quase meia noite, olha que eu tô doidinho pra te pegar de jeito". Em dias de carteado, ele "a pegava de jeito", talvez um jeito de mostrar que nada na vida era mais importante que o amor que os unia...sabe como é, todo homem morre de medo de não dar assistência e abrir concorrência, mesmo que não admita.

De fato, Elizete sabia que não existia marido melhor nesse mundo. Era cheia de amor por ele. Exceto por um detalhe que ela não confessava nem para o padre: não conseguia gozar com Vlagemir, nem que ele a chupasse por horas à fio. Mas enfim, ela era sabedora que nessa vida nem tudo sempre se acha no mesmo lugar...

E lá ia ela para seu carteado, as vezes usando uma meia arrastão, afinal, na volta, o maridão "prometia"...tudo bem, domingo ela se confessava de novo e tudo ficaria na mais perfeita ordem...no seu carteado, o que poucos sabiam, o buraco era mais embaixo...

Era no calçadão que encontrava suas colegas. Era a mais linda de todas, parecia uma atriz saída dos anos 40...todas as meninas adoravam Elizete, que precavida, sempre levava camisinhas extra fortes para dividir, afinal, era uma jovem senhora (no máximo trinta aninhos...) muito limpa, além de não oferecer concorrência direta na mais antiga atividade do mundo. Explicando melhor: Elizete não cobrava de um jeito convencional. Elizete não aceitava dinheiro, até se ofendia quando algum cara tentava pagar por seu corpinho. Elizete só queria gozar.

"E aí, gata, quanto vale o seu show? Olha, tenho dinheiro, viu?"
"Não quero seu dinheiro. Quero gozar, e muito, e em troca prometo te fazer gozar mil vezes. Faço tudo, e quero que faça de tudo comigo. Meu marido é o melhor homem do mundo, não quero seu dinheiro".
"Como assim?"
"Assim. E só vou em motel com hidro, gosto de dar na banheira, entendeu? Sai mais barato que pagar um programa. TEM que me fazer gozar até eu cambalear."
"Então tá..."

Elizete entrava no carrão ou carrinho, isso pouco importava, e o acordo era cumprido...ao final do programa, ou dos programas, de acordo com a satisfação de seu furor uterino, ela voltava para casa sabendo que seu marido a pegaria de jeito. Não pretendia levar essa vida para sempre, até fazia novena para conseguir gozar com seu esposo. Não era uma puta qualquer, era uma mulher de família.

Vlagemir a recebia com um longo beijo...as crianças invariavelmente já estavam dormindo. Olhava para a mulher como quem estivesse diante de uma miragem. Aquele carteado sempre dava algo de sereno e lânguido na expressão de Elizete. As vezes Elizete se perguntava se todo macho gostava de mulher com cheiro de outro...e por isso não tomava banho. Corria logo para a cama para cumprir seu papel de esposa. Havia se casado muito nova, ciente de que o matrimônio era um laço indissolúvel. Ela fingia orgasmo como ninguém, Vlagemir ficava todo bobo, afinal, era fiel até o fio do ultimo pentelho e não conhecera muitas mulheres. E Elizete alimentava sempre dentro de si a esperança de gozar com o homem de sua vida, pai de seus filhos, sua sagrada família.
Ao fim do coito, Vlagemir perguntava se ela estava satisfeita. Sua resposta era um sorriso de deusa e um longo beijo acompanhado de um pensamento: "Amorzão, uma mulher que goza está sempre satisfeita"...

terça-feira, 5 de julho de 2011

Lista de desejos para o devir (o futuro é agora).

Antes de falar dos desejos, vou falar um pouco de Melancolia e Saudade. Acredito que a melancolia é algo inerente a nós todos, afinal, não estamos exatamente no paraíso...e também não creio que precisamos transformar nossa estada por aqui em um inferno, em um tormento sem fim. Uma vez, há anos, ouvi em algum lugar de um jovem poeta que a tristeza tem sua beleza, e é verdade. Mas tem a beleza de uma sereia, devemos tomar cuidado para não ir mar a dentro seduzidos pelo seu canto...

A Melancolia anda me visitando ultimamente, e eu olho para ela com olhos complacentes e digo: "Melancolia, você é bela, mas pesada demais para estar ao meu lado o tempo todo...me deixe seguir e vá dar uma volta por outras almas sensíveis, mas não vitimize ninguém". Posso parecer louca, mas essa é a sina dos que sentem tudo à flor da pele.

Quero, e muito, a Alegria dos dias ensolarados, ainda que chova, que faça frio...quero minha alma ensolarada. Quero luz. Esperança. Vida. Saúde. Risada. Amigos de verdade mais perto de mim. Quero omeletes fininhos com a borda crocante...quero tanto e tão pouco, esse pouco que para mim é tudo...

Para o devir, eis um pouco mais em "minha lista", se não for pedir demais da Vida:

.Saúde.
.Alegria
.Minha mãe
.Minha filha, sempre!!!
.Amor em seu sentido pleno
.Transparência nas relações humanas
.Coragem para seguir meu caminho
.Não perder minha capacidade de perdoar
.Ser perdoada, feita de imperfeições que sou como qualquer pessoa
.Música
.Palavras doces
.Virar minha melhor companhia
.Abraçar velhos amigos
.Ser a melhor mãe que eu puder ser
.Estar em paz com minha condição feminina
.Abrir mão de velhas mágoas (dizem que a mágoa é um veneno que bebemos esperando que o outro morra. Uma metáfora, claro)
.Dançar mais, eu amo dançar, nem que seja em minha sala com mais chão do que mobílias.
.Viajar
.Sonhar sonhos bons...
.Confiança
.Cheiro de mar e de flores...

Isso é o que me ocorre por hora. E sobre a Saudade...ela é aquela que anda de mãos dadas com a melancolia. Aquela que senta ao meu lado quando pego um ônibus e ao olhar pela janela me inundo de lembranças...a Saudade não é má...ela me lembra que tenho histórias que me contam que meu Existir, até aqui, não foi em vão. Hoje é um dia repleto de saudades e lembranças. E é por isso que vou botar em pratica alguns dos itens da minha lista de desejos: Vou me levar para passear, me dar carinho e rever velhos amigos...quero celebrar a benção de estar viva.

domingo, 3 de julho de 2011

Palavras não voltam.

Alguém disse que palavras são como flechas: uma vez ditas, não fazem o caminho de volta. Crava em seu alvo, e ainda que feche a ferida, a cicatriz sempre estará lá. Por quê as vezes falamos sem pensar? Tem hora que a língua domina a mente e o bom senso. Não há remédio que cure completamente uma palavra mal colocada. Ainda que a culpa se dissipe, permanece a responsabilidade.

Isso serve para o que falamos e também para o que ouvimos...vivemos em um mundo refém de palavras, meio "civilizado" de comunicação, onde nem sempre conseguimos achar o tom. Magoamos quem amamos por pura intolerância, revidamos bobagens sem considerar o sistema de crenças do interlocutor, na maior parte do tempo por coisas tão pequenas...e as marcas de flechas vão se multiplicando, e fechando em seu tempo, muitas vezes um tempo com peso secular...e também se multiplicam as cicatrizes impressas na alma que vão contando histórias de alegria e dor...afinal, as belas palavras que proferimos, e com a qual somos presenteados, também deixam marcas que fazem nossa caminhada valer a pena.

Quando criança, eu gostava de imaginar que palavras são feitas de açúcar quando bonitas, e isso é verdade. Tem palavra que eu achava bonita apenas pela sonoridade, ainda que eu não alcançasse seu sentido pleno, como por exemplo, "compaixão". Hoje sei porque a achava (e ainda acho) tão bonita, o mundo carece de compaixão, todos, em maior ou menor grau, carece de compaixão.

Gostaria de saber respirar mais e melhor, e não tem nada a ver com ser asmática ou não...assim como digo palavras bonitas, eu que amo tudo que é belo e remete ao amor pelo meu semelhante, sou capaz de derrubar muros e trancar portas quando tomada de ira, esse maldito pecado capital com jeito de pecado mortal...que isso seja entendido como metáfora, posto que não sou terrorista, apenas "demasiadamente humana", o que muitas vezes, é uma danação.

Se as palavras não voltam, e isso é fato, espero ao menos que sempre existam novas chances para novas palavras (sempre seremos feitos de erros e acertos), daquelas feitas com açúcar União, restabelecendo afetos que sempre estiveram ali, suspensos no ar por ditos mal postos... Aquele açúcar dos doces de compota com gosto de infância e pureza. Acho que o mundo, e cada um de nós, merece isso. Eu que ando tristinha ao me dar conta que passei grande parte da minha vida pensando em voz alta quase o tempo todo...e distribuindo marcas de todos os tipos...e recebendo também.

Se eu quero doçura, que comece sempre por mim, pois minha vida é a única que posso conduzir da forma que bem entendo...não serei perfeita, ainda lançarei flechas ao léu como qualquer pessoa. Mas vou aprender a respirar. Vou me dar amor. Vou cuidar de mim...