sexta-feira, 8 de julho de 2011

E o mundo girou (singela historinha de amor)...


Augusto entrou no café do pequeno hotel da ruazinha sem saída que nem imaginava mais existir, tantos anos passados...aquele lugar era repleto de recordações, quantos copos de coca-cola havia tomado ali em noites repletas de risos de um tempo que não parecia ter sido seu, embora nada houvesse à reclamar de seu presente....

Seus cabelos não mais existiam, usava óculos de grossas lentes e armações escuras que teimavam em escorregar sobre seu nariz bonito...passara a vida ouvindo das muitas mulheres que conheceu que tinha um nariz bonito, e se orgulhava disso. Aos sessenta e cinco anos, comemoraria no dia seguinte vinte anos de um casamento tranquilo. A paz que sempre procurou depois da ultima louca dentre tantas que cruzaram sua vida.

Ele tinha poucas rugas e um sorriso de menino. Também se orgulhava Augusto de ter todos os dentes em sua boca, e ainda mantinha o hábito de se exercitar pelo menos três vezes por semana. Gostava de fazer doces em compota para as duas filhas, seus maiores tesouros...elas que o faziam levantar todas as manhãs, e ainda continuar a compor. Era um violonista renomado. Compunha com a facilidade de quem coa um café, de forma genial. E fazia doces, e amava lua e flores...e amava a família, tinha os pais ainda vivos e gozando de plena saúde, apesar da avançada idade...nada à reclamar da vida. A única irmã, sua melhor amiga, lhe dera muitos sobrinhos, dos quais dois também eram músicos...um orgulho! Passavam fins de semana em Teresópolis sempre que podiam...

Chegou junto ao balcão. Uma mocinha de seus dezoito anos perguntou o que desejava.

-Uma coca-cola normal.

-Com limão?

-Sem limão. Gelada, mas sem gelo. Não é bom pra voz....

-Ah...-assentira a mocinha como se aquela informação mudasse sua vida e foi buscar o pedido.

Augusto olhou em volta. Tudo parecia meio congelado pelo tempo. As paredes  mantinham o mesmo forro com detalhes em vermelho, poltronas verdes estavam por todas as partes do saguão, onde pequenos aparadores de parede sustentavam livros e revistas para quem deles quisesse dispor. Pequenas mesinhas de mogno exibiam alguns copos vazios que não haviam sido recolhidos em tempo, sob a luz de delicados abajures. Na parede, algumas reproduções de grandes pintores completavam o charme decadente daquele lugar. Nem sabia dizer o que o levara ali para uma coca-cola.

Augusto foi pegar a coca-cola no balcão que a mocinha não havia dado o trabalho de entregar em mãos. Já estava sentada em sua cadeira atrás do balcão com seu olhar apático.

Ao voltar-se, viu uma senhora que parecia ter surgido do nada lendo "Grandes Esperanças", do Dickens, que embora reconhecesse como um grande autor, nunca tinha tido a paciência de ler, sabe-se lá porquê...
Não conseguia ver direito seu rosto escondido pelo livro. Já devia estar com a visão embaçada pelos anos...parecia ter uns setenta anos, dada a brancura de seus cabelos lisos presos em um coque. Notou também que era miúda e franzina, usava um belo vestido azul e sapatinhos pretos de verniz nos pés pequenos. Nos ombros, um xale também azul com flores bordadas a aquecia do friozinho daquela noite. Ela lia rápido, virando as páginas com dedos ágeis. Para seu espanto, a senhora baixou o livro revelando um rosto que jamais esqueceria. Os segundos de silêncio teve o peso de uma era...era ela, Graziela! Graziela, a menina bonita para quem dera aquele livro, dos cabelos e olhos escuros e pele clara como maizena que conhecera no auge de sua vida adulta, quando pouca ou nenhuma esperança alimentava em sua música e no sucesso que se seguiu em todas as áreas de sua vida! A menina de jeito alegre, feita de "som e fúria", e doçura também...lembrava de tê-la amado um dia...se é que um dia chegou a esquecer...os sapatinhos de verniz...ela amava sapatinhos de verniz...na verdade, como muitas mulheres, ela era louca por sapatos! Fora uma época repleta de alegrias e desencontros, até que um dia Augusto resolveu partir por achar que não daria conta de uma mulher que, na época, tinha tantos problemas...não sem dor, optou por caminhos mais suaves...a emoção sempre cobra um preço alto demais. A paixão é algo impagável.

-Não vai me dar boa noite, Augusto? - foi Graziela quem quebrou o silêncio diante de um Augusto atônito com seu copo vacilante entre os dedos.

-Boa noite...Graziela! Você está bonita ainda...

Graziela sorriu.

-Pra você, querido, parece que o tempo foi mais generoso...sente-se ao meu lado nessa poltrona...se puder, claro.

-Claro que posso...-  e sentou-se -quer um pouco? De coca-cola?

-Não bebo mais essas coisas. Faz mal pro meu estômago. Nem carne mais eu como...e você? Sei tudo ou quase tudo pelas revistas, vi que tem a família que sempre desejou...mas ainda faz aqueles doces gostosos?

-Faço...faço sim...minhas filhas adoram.

-Vi suas filhas em uma foto do prêmio que você recebeu. Me emocionei um bocado...sabia que faria sucesso...

-Obrigada, Grazi...você acreditava nisso mais que eu...e você? Por onde andou por todo esse tempo? E seu filho? Lembro dele com carinho, era um molequinho que também adorava violão. Chegamos a ensaiar umas aulas, ele tinha uns dez ou onze anos quando nos vimos pela última vez...

-Oito. Ele tinha oito anos. Vicente está em Nova York, e apesar de não ser tão jovem, se espelha em sua história como músico pra não desistir...Eu sempre digo a ele que a vida pode começar a qualquer momento, e que D'us bem sabe o tempo das coisas...e Vicente segue fazendo sua parte da melhor forma possível...ele sabe que pode contar comigo, tudo que me interessa é que ele seja feliz...

-E você, Graziela? E sua família?

-Quase todos mortos, exceto por meu irmão Mauro e alguns sobrinhos ocupados demais...o tempo tem seu capricho pra cada destino, não? Minha família é o meu filho Vicente, e só tenho a agradecer por isso...

Augusto baixou os olhos, não sem antes perceber que aquela mulher inviável que amara tanto ainda conservava a boca bonita bem desenhada.

-Vicente...um grande garoto...gosto dele...-Augusto tentava não se emocionar com a lembrança do garoto por quem havia nutrido um carinho quase paternal- mas e você? Seu marido? Você, sempre tão bonita...não se casou...não amou mais? Não tem alguém?

-Tenho pessoas que vão e vem...trocam um dedo de prosa como você e seguem seus caminhos...comprei esse hotel com um dinheiro que meu pai me deixou...o resto é do Vicente, para que ele alcance seus sonhos.
Mas entendi a pergunta...depois de um ano sem você, tive uns três casos...depois da terceira vez sem sentir nada, nada mais nesse sentido vale tentar, né? Cuido do bem estar dos meus hóspedes...comprei esse hotel  à beira da falência...confesso que ele me lembra muito nossas madrugadas nas mesinhas de fora...mas isso não tem mais importância...é só lembrança...Você foi mesmo importante pra mim. Gosto de pensar naquele tempo feliz. E de sabe-lo feliz. Como vê, continuo verborrágica, falando demais...confesso que no fundo sempre tive a esperança de vê-lo de perto outra vez...e bem perto...vou aos seus shows e sento em uma poltrona discreta, e saio sem fazer alarde...confesso.

-Deveria vir falar comigo!

-Prometi que não causaria mais problemas com meu temperamento, com minhas loucuras, com minhas questões...e cumpri, Augusto...mas ainda escuto todas as noites a música que só tocou em nossas cabeças enquanto a gente dançava numa noite quente na varanda da casa de seus pais...e tantas coisas boas que só parecem possíveis em romances de banca de jornal...eu te amei.

-Graziela...tanta coisa hoje não faz mais sentido...será que fui duro e defendido demais?

-Como você bem disse, Augusto, tanta coisa não faz mais sentido...você tem uma vida boa. É o que importa, e antes que pergunte, a meu modo, também tenho. Claro...você sabe que tudo que sempre quis foi viver cem anos ao seu lado adormecendo como um bicho-preguiça...ainda lembro do peso suave do seu braço, e essas lembranças já me valem a pena...agora tenho que subir...tenho remédios para tomar...não é só meu estômago que dói...

-Queria poder te abraçar, também te amei...

Dito isto, Augusto abriu seus olhos sobressaltado...estava em seu quarto, deitado em seu futon...e tudo parecera tão real, que sonho!...Graziela, avançada no tempo, o mesmo jeito de falar...Graziela...sentiu saudade!

Há seis meses não se falavam. Se completavam em muitas coisas, e batiam de frente em tantas outras... Graziela às vezes parecia louca...ao olhar no espelho, viu o jovem homem prestes a completar quarenta
anos...e com tantos sonhos à realizar! Sonhos possíveis...e se não demorasse muito, ainda poderia dar tempo de escolher quem de fato estaria ao seu lado nessa caminhada...com quem ficaria velho dormindo como um bicho preguiça...pegou o telefone com as mãos trêmulas, e, mesmo inundado de medo, ligou para Graziela, cujo número e as formas e o cheiro e tudo dela, louca e linda Graziela, ainda sabia de cor...


6 comentários:

  1. Ana Carolina Tavares3 de novembro de 2011 21:44

    Um daquelas histórias de amor perdida durante o passar dos anos em que o final é repleto de "pq não fiz, pq não encarei"... medo de ser uma pessoa assim cheia de arrependimentos!!! Viver o agora, aproveitar o amor, falar bobagens romanticas até podem te envergonhar agora, mas te poupam de um vazio provocado pelo medo, insegurança e excesso de zelo para se proteger simplesmente de ser feliz!
    PS: LINDA TRILHA SONORAAA!

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  2. Fico me perguntando, todas estórias saem da sua cabeça ou vc coleciona almas?

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  3. Eu passeio nos olhos das pessoas que cruzam meus caminhos...mesmo as que não conheço. Muito me interessa a natureza humana! Obrigada, Marcos, por me ler com carinho.

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  4. Claudia, muito bom! Me deu uma sensação de alguma coisa que não vivi mas que sei como é..uma saudade não sei muito bem do que..despertou umas coisas do meu inconsciente..com essa música de fundo então..
    Beijos

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