sábado, 16 de julho de 2011

O sabor doce dos frutos maduros.


Sempre gostei das pessoas mais vividas e das histórias que tinham para me contar. Desde que me entendo por gente...como se em cada ruga de um rosto maduro eu pudesse ler as palavras impressas de uma biografia riquíssima de quem já viveu bem mais que eu.

Em Uberaba, onde morei quase meia dúzia dos anos da minha infância, conheci Dona Ermelinda. Morava em uma casa colada a minha, era bem velhinha mesmo, alguns diziam que ela devia ter uns cem anos...um exagero, mas apurar esse detalhe nunca me interessou. O que eu gostava mesmo era de ouvi-la falar de sua vida enquanto comíamos bolo de milho em sua sala pequena com jeito de casinha de boneca. Eram histórias fantásticas, repletas de discrições dignas de uma grande escritora. Falava de seu marido que havia morrido na guerra, nunca perguntei em que guerra, e na falta que ele fazia. Ela estava sempre bonita, achava que o marido estava de olho mesmo lá do "Céu", gostava de usar xales coloridos e chegou a me ensinar alguns pontos de tricô durante um de nossos encontros. Eu amava estar com essa elegante senhora, que sempre me dizia que eu era uma menina especial. Que um dia eu faria sucesso em qualquer coisa, sobretudo por minha (suposta) humanidade, no que espero que ela tenha acertado...essa coisa de ser humano é algo bem relativo, visto que a condição humana está em franca decomposição...e sucesso para mim não representa status social público, tampouco ilustrar capas de revista exibindo peitos e bunda, isso eu mostro para quem eu quiser (cada um na sua), ou ser protagonista de uma matéria sobre a vida dos bem aventurados pelo destino ($$$). Sucesso é algo que entendo por ser feliz e realizada nas coisas que são caras para mim: Poder cuidar da minha filha, ganhar o suficiente para não ter que parcelar faturas que vez por outra extrapolam, fazer compras no supermercado sem a obsessiva preocupação com o preço dos alimentos e afins, me sentir bonita o bastante para não me incomodar com o espelho, ser amada, ser uma escritora lida pelo que escrevo e não pelo que supostamente eu possa ser...até porque não sou mais uma garotinha gostosona de vinte anos. Em nove de outubro, farei trinta e oito anos com várias lacunas a serem preenchidas e tantas outras que já foram completas...a vida é assim mesmo, há sempre novos campos a serem preenchidos.

Bom, eu estava falando da Dona Ermelinda e do quanto eu gostava de ouvi-la do alto de sua experiência. Ela nunca recebia visitas além da minha e do carteiro que só levava contas. Um dia lhe escrevi uma carta, mesmo morando tão pertinho, dizendo o quanto era querida para mim, e ela gostou muito...naquela época não tinha e-mail, mas admito que ainda vejo encanto em missivas feitas sobre o papel...me incomodava o fato daquela mulher cuja verdade absoluta de vida eu desconhecia ( e isso pouco me importava) ter o telefone sempre quieto e a caixa postal sempre vazia de coisas pessoais...e passei a lhe escrever outras cartinhas semanalmente, que ela começou a aguardar com uma alegria quase infantil. Adorava ver-lhe o sorriso no rosto. Nas cartinhas eu falava da minha escola, da bronca que minha mãe tinha me dado por ter chegado tarde de um passeio de bicicleta, e da primeira vez que derramei meu primeiro olhar romântico sobre um menino da minha rua que também era meu coleguinha de sala de aula. Eu tinha quase dez anos nessa ocasião. Ela me disse que eu era muito nova para namorar, mas que eu já estava prestes a ficar mocinha e isso era natural...que eu deveria guardar meus melhores "afetos" (ela adorava essa palavra, que passei a adorar também) para quem realmente viesse a me merecer um dia. Uns mereceram, outros não, mas isso agora não vem ao caso.

Um dia ela pediu para fazer tranças em meus cabelos muito lisos, e disse que se tivesse uma neta, gostaria que fosse como eu e que também amaria trançar-lhe as madeixas. Ficou lindo. Foi quando descobri que não tinha netos...eu pouco fazia perguntas, sempre acreditei que as pessoas se revelam quando bem entendem, e que naturalmente isso vem com o tempo, e tempo também é uma coisa relativa. E ela foi além: seu filho fora tentar a vida em são Paulo e nunca mais deu notícias, portanto era possível que tivesse netos e netas e nem soubesse.
Nesse dia, dei um abraço bem apertado nela  e disse que se ela tivesse uma neta, essa neta seria a menina mais sortuda do mundo tendo uma vovó tão doce. Foi uma amiga muito especial ela...e gosto de imagina-la como um anjo bom, esteja onde estiver.

Quando soube que voltaria para o Rio, fui me despedir dessa minha querida. Já estava com doze anos. Choramos juntas em silêncio, de mãos dadas, e ela me disse que sabia que esse dia chegaria, e que meus sonhos não cabiam naquela cidade, que em minha terra natal eu certamente seria mais feliz . Comemos juntas nosso último bolo de milho, ouvimos Francisco Alves e Dalva de Oliveira de mãos dadas, que ela gostava muito. Lindas vozes.

Dona Ermelinda dizia que meus olhos lembravam os da Sophia Loren, e isso me fazia rir...e coincidência ou não, achei um vídeo que vou publicar ao fim desse texto com imagens da atriz e a música que ouvimos juntas...que ela possa ouvir, de onde estiver. Com certeza, deve estar num lugar bem bacana.

Quando cheguei de volta ao Rio de Janeiro, escrevi algumas cartas para minha doce velhinha, que me respondia de pronto. Ela gostava dos selos, eu achava isso divertido. Um dia essas cartas deixaram de ser respondidas, e eu entendi que sua temporada na Terra havia terminado. Ainda tenho algumas dessas cartinhas, que se não provam a veracidade das histórias de Dona Ermelinda, mostra o afeto que nos unia, esse sentimento que não requer provas...é algo experenciado e pronto.

Essa noite sonhei com ela sussurrando em meu ouvido: "Pequena, o Tempo é o Senhor da Razão". Senti uma saudade doce e o acolhimento das lembranças boas...

3 comentários:

  1. Que texto lindo, doce, humano, que nem vc, minha amada Claudinha. Confesso que me emocionei bastante ( sou uma "manteiga derretida"), mas não me envergonho de dizer isso....Chorar me faz um bem danado!!!!!
    Dona Ermelinda, de onde estiver, com certeza está torcendo pela sua felicidade, quiçá ela já tenho encontrado alguém da família dela aonde estiver.
    E que delícia deviam ser estes encontros com bolo de milho.....Até consigo sentir o gostinho , não só do bolo como também da sabedoria e experiência de vida que esta senhora te deu....
    Beijo com sabor de bolo de milho da sua amiga que muito te estima.......Gi

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  2. EMOCIONANTE!
    BELÍSSIMO TEXTO CLAUDINHA!!!
    UM BRINDE A MEMÓRIA!

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