quinta-feira, 7 de julho de 2011

Permutas.

Elizete era uma devotada dona de casa, mãe de gêmeos idênticos, Gladson e Vladson. Morava na Delfim Moreira, em um prédio de proporções faraônicas, onde seu marido, o doce Vlagemir, atuava como porteiro, manobrista e lavador de carros bacanas aos domingos.

O chefe de família tinha uma vida boa. Seu rendimento era o bastante não para uma vida de luxo, mas suficiente para garantir a carne moída de acém de cada dia. Também dera a esposa um cartão da C&A com limite (pasmem) de mil reais, que ela podia dispor como bem entendesse. Era uma gostosona, e Vlagemir se orgulhava disso e gostava de exibir a "Mulher-Troféu". Ela não precisava trabalhar, desde que mantivesse em plena ordem a casa destinada ao porteiro naquele sofisticado endereço, e fosse com ele e os pequenos à todas as missas dominicais, religiosos que eram. Os meninos, de doze anos, eram bons alunos, afinal, tinham uma mãe atenta e presente. Família feliz e completa. Típica família de comercial de manteiga. Eram, inclusive, dizimistas: Dez por cento para obra do Senhor, sem choro nem vela. Tinham que manter suas bençãos!

Depois de arrumar a casa, alimentar e despachar os meninos para a escola, Elizete enfim se dedicava a cuidar da própria beleza: Escovava umas cem vezes suas longas madeixas louras "gema-de-ovo" que ela mesma fazia questão de pintar, passava um batom carmim, botava um vestido floral, sapatos de salto sempre, às vezes atava os cabelos em um displicente coque, às vezes não...estava sempre linda, dentro do que aprendera do que era ser linda. Que era sexy, isso não se discute. Não havia esquina por onde Elizete passasse que não fizesse com que meia duzia de homens virassem a cabeça para checar-lhe o "derrière"...até as madames de bom gosto inquestionável olhavam para Elizete com uma quase indisfarçável inveja. Até puxando carrinho de feira, a loiraça tinha estilo.

Assim como Vlagemir exigia dela uma atenção devotada às questões familiares, também ela tinha uma condição para ser plenamente feliz: três vezes por semana fazia questão de botar seus panos mais bonitos e encontrar suas amigas em Copacabana, lá pelo Posto 2, para um carteado inocente. Era mulher direita, afinal...justo encontrar as colegas da igreja.

"Amorzão, tem bolo de carne no forno, suco de melancia na jarra e goiabada na geladeira...só esquentar no microondas e também não esqueci do arroz soltinho...e todas as roupas já estão lavadas e passadas", ao que ele respondia, "Claro, minha santa, mas são quatro da tarde...e hoje é dia, viu?" anunciava o maridão com um olhar gaiato, "vê se não demora, você sempre chega quase meia noite, olha que eu tô doidinho pra te pegar de jeito". Em dias de carteado, ele "a pegava de jeito", talvez um jeito de mostrar que nada na vida era mais importante que o amor que os unia...sabe como é, todo homem morre de medo de não dar assistência e abrir concorrência, mesmo que não admita.

De fato, Elizete sabia que não existia marido melhor nesse mundo. Era cheia de amor por ele. Exceto por um detalhe que ela não confessava nem para o padre: não conseguia gozar com Vlagemir, nem que ele a chupasse por horas à fio. Mas enfim, ela era sabedora que nessa vida nem tudo sempre se acha no mesmo lugar...

E lá ia ela para seu carteado, as vezes usando uma meia arrastão, afinal, na volta, o maridão "prometia"...tudo bem, domingo ela se confessava de novo e tudo ficaria na mais perfeita ordem...no seu carteado, o que poucos sabiam, o buraco era mais embaixo...

Era no calçadão que encontrava suas colegas. Era a mais linda de todas, parecia uma atriz saída dos anos 40...todas as meninas adoravam Elizete, que precavida, sempre levava camisinhas extra fortes para dividir, afinal, era uma jovem senhora (no máximo trinta aninhos...) muito limpa, além de não oferecer concorrência direta na mais antiga atividade do mundo. Explicando melhor: Elizete não cobrava de um jeito convencional. Elizete não aceitava dinheiro, até se ofendia quando algum cara tentava pagar por seu corpinho. Elizete só queria gozar.

"E aí, gata, quanto vale o seu show? Olha, tenho dinheiro, viu?"
"Não quero seu dinheiro. Quero gozar, e muito, e em troca prometo te fazer gozar mil vezes. Faço tudo, e quero que faça de tudo comigo. Meu marido é o melhor homem do mundo, não quero seu dinheiro".
"Como assim?"
"Assim. E só vou em motel com hidro, gosto de dar na banheira, entendeu? Sai mais barato que pagar um programa. TEM que me fazer gozar até eu cambalear."
"Então tá..."

Elizete entrava no carrão ou carrinho, isso pouco importava, e o acordo era cumprido...ao final do programa, ou dos programas, de acordo com a satisfação de seu furor uterino, ela voltava para casa sabendo que seu marido a pegaria de jeito. Não pretendia levar essa vida para sempre, até fazia novena para conseguir gozar com seu esposo. Não era uma puta qualquer, era uma mulher de família.

Vlagemir a recebia com um longo beijo...as crianças invariavelmente já estavam dormindo. Olhava para a mulher como quem estivesse diante de uma miragem. Aquele carteado sempre dava algo de sereno e lânguido na expressão de Elizete. As vezes Elizete se perguntava se todo macho gostava de mulher com cheiro de outro...e por isso não tomava banho. Corria logo para a cama para cumprir seu papel de esposa. Havia se casado muito nova, ciente de que o matrimônio era um laço indissolúvel. Ela fingia orgasmo como ninguém, Vlagemir ficava todo bobo, afinal, era fiel até o fio do ultimo pentelho e não conhecera muitas mulheres. E Elizete alimentava sempre dentro de si a esperança de gozar com o homem de sua vida, pai de seus filhos, sua sagrada família.
Ao fim do coito, Vlagemir perguntava se ela estava satisfeita. Sua resposta era um sorriso de deusa e um longo beijo acompanhado de um pensamento: "Amorzão, uma mulher que goza está sempre satisfeita"...

3 comentários:

  1. É girls, se eles podem, nós também podemos, heheheheh, algo bem NELSON RODRIGUES..." A vida como ela é".......

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  2. Que máximo!!!
    Parabéns, adorei,
    beijo beijo

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