sexta-feira, 29 de julho de 2011

A Pessoa Excluída.


O que é uma pessoa excluída? Logo se pensa naquela criancinha morando em habitações precárias ou perambulando pelas ruas sem destino que o valha, e outras atrocidades desse mundo cão. Sim, esses são claros exemplos de exclusão. Os "sem -tetos" e afins, que muitas vezes sobrevivem subtraindo do outro aquilo que o mundo não deu. As vezes pedem, as vezes roubam, as vezes se drogam até a morte, as vezes "apenas" perambulam com suas órbitas oculares desprovidas de alma...

Quero falar de um outro tipo de exclusão, mais sutil e difícil de ser identificada, e ainda com efeitos devastadores a seu modo. A absoluta exclusão afetiva. Aquela que não depende de fatores socioeconômicos para se fazer presente. Aquela que começa no seio familiar, quando um de seus membros não se encaixa no senso comum. Aquela criatura que, por alguma razão, caiu na vida de para-quedas, sem ao menos ter sua existência desejada desde os primeiros tempos. Nada a ver com grana. Uma exclusão avassaladora. Uma exclusão que centrifuga o espírito, e faz o corpo caminhar à deriva...por caminhos tortos. Uns, ávidos por amor, outros com medo, e ainda outros que simplesmente desconhecem esse tal de "Amor", se perdendo em tresloucados caminhos mentais. Ontem conversei um pouco sobre isso com alguém com quem falo sobre vários assuntos, e admito que fiquei chocada com alguns insights que tive. Tenho a sensação de que a exclusão afetiva deixa marcas indeléveis em qualquer pessoa que passe por ela. Como se carregasse um câncer de difícil remissão. Como se não houvesse caminho possível de felicidade para esse tipo de excluído para o qual não existe ação social instituída...é aquela criatura cujos olhares buscam razões para sua sina. "O que terá feito essa criatura para merecer isso? Boa coisa não deve ser..."  É sempre mais fácil seguir o rebanho que olhar dentro dos olhos de alguém, onde moram as verdades que não carecem de palavras... A pessoa excluída é aquela que sempre vê o amor como um balão de gás inalcançável...é aquela que, consciente ou não, é capaz de se editar para suprir as demandas desse mundinho de merda em que nascemos. É aquela com indiscutível vocação para a loucura. Aquela que, quando se fere, não tem colo para chorar. "Peça ajuda para sua família...", que família? Estamos falando dos excluídos, palavra intencionalmente repetida nessa publicação. Intencionalmente "incluída" repetidas vezes! Sei de crianças adotadas que sofreram dobradas cobranças que não puderam quitar ao longo da vida e por isso foram excluídas. Adoção não é caridade, é na verdade um outro caminho para a maternidade e a paternidade....e sei de pessoas que são contra a adoção, pois vai saber que tipo de "informação genética" trás consigo aquela criança...já ouvi isso de mais de uma pessoa. Particularmente, essa visão me soa bem desconfortável. Quase ninguém pensa nisso quando adotam um cachorro que pode ter um transtorno de comportamento...nada contra cães, eu mesma tenho três cadelas. Transtornadas, chatinhas e adoradas...e não pretendo joga-las no olho da rua. Amo loucamente minha filha, e tenho certeza de que não se deve ao simples fato d'ela ter sido gerada em meu útero. Hoje conheci uma menininha de origem muuuuito humilde com grandes olhos falantes, "sedenta" de carinho, e naquele momento me senti inundada de um inexplicável amor...olhei naqueles olhos que sorriam para mim, e meu dia valeu por ter transformado o ânimo de um ser humano por ao menos cinco minutos...

Ainda sobre os excluídos por uma adoção inconsequente, não resisto em citar algo que li a respeito: " uma mistificação da adoção. Cansei de ver pessoas mostrarem desejo em adotar para fazer uma boa ação, não por desejarem um filho. Sempre aconselho que nesses casos é melhor ajudar orfanatos, apadrinhar crianças em orfanatos. A adoção não é ação social. Aí acham que a criança nunca vai poder ser ingrata, cuspir na comida, como se ela fosse obrigada a ser boazinha para sempre pelo ato de amor que fizeram. É um filho como outro qualquer e ainda com algumas sequelas de abandono. Com possível raiva da vida porque seus pais verdadeiros não o quiseram". Isso é bem escroto, mas fazer o quê? Fazer diferente. Entender que gente não é gado, e que até gado merece respeito e humanidade. Que alguém que foi excluído não é necessariamente um mau caráter, tampouco pode ser resumido em uma incógnita...tão óbvio é seu abandono...e para quem se percebe em situação de exclusão afetiva, deixo umas palavrinhas, pois quem sou eu para dar conselhos (?): exclusão não precisa ser pena eterna. Plante uma árvore, escreva um livro, componha uma música, e se achar que pode, tenha um filho, expressão máxima do amor...adotado ou não...abuso não é algo que precisa ser repassado. Ninguém precisa morrer refém da própria história. Procure um médico. Um psicanalista ou algo que o valha. Olhe-se no espelho e perceba algo de belo além da aparência. Ser é muito mais que Ter. Que seja uma religião, um modo de se conectar a Deus. Não dependa de quem sempre cagou para você para mudar seu curso...sempre existe uma saída. Se você, excluído afetivamente, se sente "desenganado", lembre-se que, acidentalmente ou não, foi, ao nascer, incluído nessa vida, sabe-se lá porquê...já é um começo.

7 comentários:

  1. Adorei o texto Claudia!
    Muito legal. Adorei essa frase "É sempre mais fácil seguir o rebanho que olhar dentro dos olhos de alguém"
    Muito legal essa abordagem sobre adoçnao, confesso que não tinha pensado nisso tão a fundo quanto você.
    Outra coisa: acho que existem também os "excluintes"(excluídos-inteligentes). São discriminados por não seguirem o rebanho :-)
    beijos
    Eduardo

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  2. Eduardo, muito bom ser lida por vc e trocar impressões! Com todo seu bom humor, vc não perde seu olhar sensível sobre as coisas! Afinal, bom humor não é lobotomia! beijosss!

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  3. Claudinha, vc , como sempre, tocando em assuntos delicados de maneira realista e ao mesmo tempo poética.......um beijo no seu coração.

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  4. A última frase é um banho de esperança. E que banho gostoso!

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  5. Que bom que gostaram...estarei postando bastante nos próximos dias! Que bom é poder trocar sempre!

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  6. Adorei e pretendo seguir o blog... minha vida realmente não está boa... nesses últimos três anos tive muito mais perdas que vitorias...não me sinto bem de verdade a anos... esse texto mostra um pouco da realidade em que vivo!

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  7. Excelente reflexão para discussão. "A adoção não é ação social. Aí acham que a criança nunca vai poder ser ingrata, cuspir na comida, como se ela fosse obrigada a ser boazinha para sempre pelo ato de amor que fizeram. É um filho como outro qualquer e ainda com algumas sequelas de abandono". Tal postura do adulto mostra uma disposição para a chantagem quando na verdade, o que a criança realmente não pode e não merece é ser chantageada. Olhares atentos é providencial.

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