quinta-feira, 14 de julho de 2011

Vamos passear? (Uma viagem "hard" através da "Loucura")

Maristela saiu leve do consultório do Dr. Osmar, seu psiquiatra/psicanalista com quem havia iniciado um processo de tratamento há alguns meses depois de sua ultima crise. Resolvera cuidar de velhas questões guardadas no baú de sua memória cruelmente infalível. Tinha dificuldades em esquecer.

Seus cabelos fininhos estavam ralos de novo e começaram a cair depois do ultimo baque. Também sua pele moreno-jambo já não mostrava o mesmo viço, de tanto que se protegia do sol. Estava amarelecida.

Ao procurar seu carro no estacionamento do prédio comercial, para sua surpresa, não o encontrou. Havia na vaga um automóvel preto antigo e dentro, um lindo homem de cabelos muito pretos e olhos muito azuis. Ficou hipnotizada, com uma estranha sensação de familiaridade, não lembrava o nome dele, tampouco se de fato havia  o encontrado alguma vez em sua vida. Até esqueceu o susto de não ter encontrado seu fusquinha onde deveria estar.

- Olá, Maristela. -saudou o belo rapaz.
-Oi...o que faz aqui?
-Vim te buscar. Vou te levar pra casa. Sei que trocou os ansiolíticos, seu carro está em local seguro, entra!- ordenou em voz de comando.

Ela entrou, cordata, estranhamente cordata. Ajeitou com as mãos o vestido florido meio amassado, apertando a bolsa de encontro ao corpo. Não conseguia falar nada, confiava nele, que logo tratou de preencher o silêncio.

-Gosta de música, não?- ao que ela respondeu com a cabeça afirmativamente. Ele botou para tocar "The End". Ele sabia que "The Doors", especialmente Jim Morrison, havia marcado sua adolescência.
-"This is the end"...- cantarolava ele com uma voz grave e afinada. E seguiu até virar em uma rua que os tirou do perímetro urbano que Maristela conhecia bem. A estrada Maristela nunca tinha visto. Era reta e lisa, e o horizonte se renovava a cada metro, como se fosse infinita. Um sol de cair da tarde e acostamento de vegetação ressequida completavam o cenário. E ela permanecia sentada, quieta, atenta, e atipicamente muda.
-Estava sentido sua falta, Maristela-  continuou ele - cheguei a acreditar que me abandonaria de vez...você quase conseguiu. Mas você sabe como é: eu sempre estou por perto. Eu nunca te abandono.
-Que bom-  murmurou finalmente, fechando os olhos. A sensação de ouvir que não estava abandonada aquecia-lhe o espírito.
-Eu sempre estive aqui, Maristela, desde seus primeiros tempos de vida. Ou "Télinha", como te chamavam quando criança...
-É...- concordou ela num fio de voz.
-Télinha, quando você nasceu, e sua mãe de sangue não sabia se te dava pra uma família de classe média ou para um casal canadense em troca de algum dinheiro, eu estava lá. Que bom que você ficou por aqui, prefiro o clima caótico do Rio de Janeiro, em todos os sentidos. E a cada surra por não comer tudo, eu também estava lá, bem do seu ladinho. Quando nos livros você se escondia da dor como uma autista.

Maristela baixou os olhos. Ele parecia "adivinha-la" como um anjo da guarda. Ele seguiu falando, sem tirar os olhos da reta.

-Lembra, Maristela, quando você perdeu a virgindade aos dezessete anos e foi recebida em casa com tapas na cara de sua mãe adotiva? E ainda foi chamada de puta por seu papai por ter chegado em casa uma hora além do horário em trajes de praia? Quando aos dezesseis você quis ir ao cinema com um namoradinho e seu irmão mais velho te situou com dois tabefes no meio da fuça com aquela mão enorme bem aberta? Eu estava lá. Você sempre teve uma cara bonita demais, boa de bater, né, Maristela? Acho que eles não queriam pra você o mesmo destino da sua mãe biológica, vai saber...e quando aquela sua prima, a Angelina, te disse aos treze anos que você seria a ultima a ser salva em caso de incêndio, e você ficou chocada por ser adotiva, eu também estava por perto. Quando você, muito novinha mesmo, uma mocinha, foi estuprada por dois homens e teve suas entranhas perfuradas por objetos pontiagudos, eu estava bem do seu lado, mas nada pude fazer, eles eram grandes demais...não se pode confiar nas pessoas, Maristela, parece que você só percebe isso agora...que está mais calminha, uma doçura. Quando você conheceu aquele cara que foi embora para os "Esteites", pouco antes dos seus vinte anos, vi como ficou chateada. Foi o primeiro de poucos que te deram algum valor. Mas ele tinha planos bem maiores que você, garota, mas fora isso era realmente bacana e não te fez mal algum. Nesse momento eu também não me ausentei. Lembro ainda daquelas "amigas" do ensino médio...mal olhavam para sua cara...muitas debochavam desse seu olhar distante...até acredito que rolava alguma inveja, você ouviu a vida inteira o quanto é linda...seu pai até dizia que isso era uma glória e uma danação. Você nunca teve amigas de fato. Eu via. Suas ultimas amigas, e muito poucas, ficaram na oitava série, quando você fez a vergonha de ser reprovada em matemática...e mudou-se de escola. Sempre muito "sensivelzinha", meio covarde, né? Sei que nunca mais foi a mesma, você que era tida como uma típica cdf...querida, você decepcionou seus pais adotivos no mesmo ano de sua linda festa de debutantes cheia de convidados que cagavam pra você. Creia: eu estava lá.
-É..-murmurou ela em mais um fio de voz.
-E aí, a grande virada de Maristela! Você se juntou com aquele cara que tinha usado loucamente todas as drogas do mundo, depois de tantas decepções com esse seu dedo podre...ficou grávida. O cara "pancou" e te enxotou com uma barriga de quase seis meses...e nessa sua solidão escrota, tudo que te importava era ser mãe. Acho que só como mãe você deu relativamente certo, né? Deve ser estranho ser uma jornalistazinha medíocre de uma coluninha de fofocas quando sei que tinha sonhos maiores...mas calma que eu estou aqui.

A voz do homem assumia um tom cada vez mais grave e pesado, enquanto Maristela já se encolhia no banco abraçando as próprias pernas flexionadas e começava a apresentar algum tremor no corpo miúdo como seu coração apertado. E ele não parou de falar.

-Maristela, calma, sou seu amigo. E quem é amigo sempre fala a verdade, não importa se ela pode te quebrar ao meio, não importa absolutamente nada. "Conheça tua verdade e tua verdade te libertará". Você não funciona. ninguém quer por perto uma figura triste. A depressão fede, e quando você reage a ela no extremo, se torna insuportável. Esse papinho de "luta e fuga" é balela. Sua carência fede mais que presunto desovado em terreno baldio. Fede demais, Maristela. Mas eu gosto de você, não é incrível? Eu só existo porque você existe. Lembro de você grávida, isso não dá pra esquecer, comendo restos de restaurantes a quilo...e dormindo na casa de um e outro. Você foi adotada. Poderia ter sido criada pela doidivana da sua progenitora, e não soube aproveitar direito. Todo mundo acha lindo adotar crianças, mas esquecem que no
final, todo mundo cobra de um adotado uma fatura triplicada. Você deu errado mesmo. Vou te lembrar mais: lembra quando o pai da sua filha te espancou a face até arrancar sangue e um dente? A primeira coisa que sua mãe adotiva perguntou foi o que você tinha feito com ele. Ninguém nunca te levou a sério...materialmente, você tinha quase tudo quando vivia com sua "família"...e essa ultima foi demais!!! Achou mesmo que podia ser feliz com mais uma cara bacana de família, nunca te vi tão apaixonada por alguém como por esse que desistiu de você outro dia, e fez ele muito bem!!! Nem pelo carinha que se mandou pros "Esteites" você ficou tão na merda! Tudo que você viveu é muito para esse cara de família "normal", pra eles, você nunca passou de uma louca mentirosa querendo chamar atenção...Eles até foram bons demais com você, até remédios já te compraram! Para eles, em que você foi útil? Nem precisa responder, você sabe a resposta. Você foi muito má. O que é uma "picuinha" à toa perto da tolerância que a família desse ultimo carinha tinha com você e essa sua fantástica história de vida? Uma vida de merda, diga-se de passagem. Quando você foi currada, muitos disseram que a culpa era de suas coxas grossas e seios pontudos. Até calada você está sempre sob julgamento. Ninguém nunca vai te levar a sério. Você é doida. Você delira em um mundo feito de provas materiais, o que adianta confiar nos outros? Vai criar uma máquina do tempo e levar alguém pra passear? Rárárá! Você merece ter a língua cortada, Maristela. E fica você indo a psicanalista e o escambau achando que pode colher algo de bom, não me faça rir, não quero que perca seu tempo, estou aqui para que não perca seu tempo!!! Passado é história. E você é muito eficiente em virar passado na história de vida das pessoas. Quando tua mãe enfartou, toda tua família adotiva te culpou, como pôde uma filha adotiva dar tantos desgostos? Como você pensa que pode continuar sendo uma boa mãe para Catarina? Tomando seus "remedinhos" controlados na hora certa? Preparando um dossiê de sua vida com provas e documentos que validem sua existência? Que necessidade de aprovação é essa? Isso é coisa de literatura, Maristela, "desce já daí"!

Maristela já estava prestes a explodir em pranto.

-Cara, o que você quer de mim?- perguntou ela segurando o choro.
-Que não se iluda mais com tratamentos que não vão te livrar de nada, que aceite sua sina, que entenda que a vida, por mais sórdida, é como é e ninguém sai vivo de toda essa merda. Sua alegria é feita de plástico e tarjas pretas, nunca convenceu ninguém, nem comer você consegue direito!

Ela permaneceu calada, nada mais queria falar depois de tudo aquilo. mais alguns metros e ele, que já havia dito tudo que queria, parou diante de um portão enferrujado e alto. Ali era o destino de Maristela.
..................................................................................................................................................................
Passado um tempo, Maristela se adaptou bem ao novo "lar". Estava mais calma, usava um vestido azul com seu nome bordado e tipo sanguíneo também. Havia muito verde, mulheres faziam rabiscos ao ar livre, conversavam com árvores e gambás, às vezes com criaturas invisíveis. Diziam que ali estava repleto de gnomos. Haviam outras pessoas de branco que furavam seu braço a cada duas horas, mantendo-a sempre gentil. Lembrava-se vagamente da filha Catarina, e quando acontecia, sentia muita saudade, mas se chorasse, iria para o castigo. Ficaria amarrada pelos pulsos e tornozelos por um ou dois dias. Uns homens de branco chegaram a toca-la de modo inadequado em uma dessas ocasiões, e ela sentiu muito medo. Melhor que se comportasse. Tinha muito medo de ser machucada mais uma vez. Certamente, alguém estava cuidando de sua filha...e todas as tardes, ao cair das luzes diurnas, o lindo Anjo que a levara para lá atravessava o portão para conversar e levar balas de gengibre e cigarros de filtro amarelo. Ele sempre chegava sorrindo, e sua voz estava mais doce:

-Veja como você está melhor, Maristela. E o mundo segue bem sem você. Eu cuido de ti para que nada saia dos planos. Dos meus planos. Lá fora você gerava ódio nas pessoas, despertando o pior de todo mundo. Aqui você realmente está mais protegida.

Maristela deu uma risadinha, coisa rara de acontecer.

-É, cara? E quem você pensa que é para ter tanta certeza sobre mim? Sempre quis saber.

-Nossa! Você não sabe? Me chamo "Trauma". Sou e guardo todos os seus traumas, e estou atento para que nada saia do roteiro! Nunca vou te abandonar. Vem cá, Maristela, deixa eu te abraçar...eu sou o único que realmente te quer incondicionalmente!

Maristela reassumiu o olhar vazado e deitou no ombro do velho amigo, enquanto mais um dia se despedia...

                                                                       Fim.

3 comentários:

  1. Garota, obrigado por me convidar para devorar teus escrito... estou lendo... beijos

    ResponderExcluir