terça-feira, 30 de agosto de 2011

Elipse Temporal (O truque).


Justine e Fernando foram se encontrar em um evento gastronômico oriental. Justine andava estressada, em pleno inferno astral, mas seu sorriso contrariava, via de regra, tudo que atravessava sua alma: uma caixa preta a guardar seus mistérios.

Havia entre Justine e Fernando atração e estranhamento. Fernando era um grande artista de talentos múltiplos, a quem Justine tentava produzir à despeito de seu gênio indomável. Havia em Fernando um rico universo de idéias, e através dos olhos de Justine ele podia ver sua arte atravessando as fronteiras do próprio ego. Ela também não era uma criatura fácil: Nela habitavam "Anjos e Demônios", "Cucas e Narizinhos", "Médico e Monstro", "Lucidez e Abandono"...mas ela simplesmente sabia como conseguir coisas. Coisas. Conseguia até o que não queria: despertar ódio quando buscava amor e vice-versa, por exemplo. Fernando já conseguira quase tudo na vida, menos Justine na palma de sua língua...ela também o queria, e muito, em cada canto de seu corpo curvilíneo, mas não pretendia de modo algum misturar os canais. Seu desejo nesse plano era resolvido em seu quarto vermelho, ao cerrar das cortinas de um dia cheio, onde tudo era legítimo e possível.

O evento estava lotado: Pessoas iam e vinham buscando mesas, disputando senhas, apinhadas em filas que terminavam em uma escada em forma de caracol sobre a qual os dois ocupavam um lugar bem ao centro do salão. Entre salmões marinados, filhotes de enguia, lulas com ovas de bacalhau e tentáculos de polvo regado a saquê, tentavam chegar a um acordo. Ela achava que ele deveria virar a esquerda, ele sempre deslizava para a direita...se puxavam e se repeliam gerando uma trajetória em círculos, como em um tango de movimentos primários (ou seriam primitivos?).

- Justine, você é arrogante.

-É a quinta vez que você me diz isso desde que chegamos. Mais alguma coisa a acrescentar?

Minuto de silêncio. Entre uma garfada e outra, Fernando fitava com olhos cortantes a mulher de traços hispânicos. Os olhos de Justine pareciam amêndoas, ele adorava devorar amêndoas. Sua cabeleira escura seria a reprodução perfeita de uma película em preto e branco em contraposição à sua pele muito alva, não fosse a cor escarlate de sua veste acetinada a revelar os ombros angulosos. A boca de Justine o fazia lembrar uma daquelas almofadas bordôs muito fofas que convidam a sentar e esquecer o Tempo, que para ele não passava de um bobo da corte a satisfazer seus caprichos de Rei Leão. Ele imaginava conhecer todos os mistérios do Céu e da Terra, tão generosa é a imaginação e seus supostos poderes...

-Justine, você é arrogante...-repetiu como se falasse somente para si.

-Ok, mas o quê vai ser? Vamos lançar ou não seus trabalhos no Japão?

-Justine, você é tão direta. Por que não cuida um pouco de sua própria vida? Onde sua arte te levou? O que você sabe mais que eu?

-Sei uns truques. E sobre minha Arte, meus pinceis me levaram até você.

-Truques, Justine, truques! Me poupe. De onde você pensa que veio?

-Não penso nada. Só penso sobre o que sei, todo o resto imagino e recrio. Não sei de onde onde vim, mas sei onde quero chegar. E gosto de truques e magia.

-Você é de outra Galáxia.

-Acho que foi lá que te encontrei, Fernando.- afirmou em um sussurro matando de um só gole a sexta dose de saquê.

-Não quero ir para o Japão.

-Quer sim...você quer ir até para a Lua, mas morre de medo. Os termos do contrato são precisos, não dão margem ao erro, não há risco de prejuízo envolvido.

-O risco do prejuízo sempre existe.

-Bravo, Fernando! A isso, chamamos estar vivo. Não seja chato.

-Você é chata.

-Eu sei, Fernando. Verdades não me insultam. Já disse que sei o que quero. Quer conhecer um truque?

-PORRA, JUSTINE, DÁ PARA TENTAR SER NORMAL?

-Faço o possível. Chega, Fernando, vamos ao truque!- Justine estalou os dedos e o tempo congelou a sua volta, após um estridular de ensurdecer ouvidos caninos.

-Estamos em outra órbita, Fernando.- seu par de amêndoas estavam impregnados de melancolia e desejo.

Tudo, absolutamente tudo, excluindo os dois, parou no exato estalar de dedos de Justine. Garçons com bandejas suspensas no ar, risos travados nas gargantas, lágrimas bailarinas nos olhos de uma criança, mãos que gesticulavam algo indizível, um guardanapo levado à boca, a fumacinha de pratos fumegantes na atmosfera...TUDO MESMO. Até o ponteiro do grande relógio na parede a esquerda da mesa em que sentavam.

-Justine, o que você fez?-havia indícios de pânico na voz entrecortada de Fernando.

-O truque. Calma, acho que você vai gostar.- sentenciou uma impassível Justine, se levantando da cadeira rumo ao seu objeto de anelo. Fernando quieto, esperando o devir.

Justine deu-lhe um rápido beijo na boca de linhas precisas, em seguida ajoelhou-se como uma gueixa abrindo-lhe as calças com dedos hábeis. Sem delongas, encheu a boca, faminta de um antigo sonho. Sugou com vontade, como uma executável em sua última ceia. Como uma jiboia pompoarista que vitimiza suas presas por constrição... mas não, ela não o vitimaria...ela beberia cada gota daquele momento paralelo até o fim. Os dedos de Fernando já traçavam rotas imprecisas nos longos cabelos de Justine, empurrando com frenesi sua cabeça numa inconsciente tentativa de fusão boca/falo. O dorso de Justine ajoelhada dançava um balé surrealista entre as pernas trêmulas de Fernando, que não conseguia nem gemer, tampouco tipificar o que sentia até explodir em gozo vulcânico de magna leitoso, que ela deglutiu e lambeu e sorveu até a última gota...feito isso, recompôs-se rapidamente. Gotículas de leite ainda brilhavam em sua face, e com os dedos, ela levou o pouco que sobrara até os lábios.

-Justine...- foi tudo que ele conseguiu dizer.

-Fernando...- dito isso, estalou de novo os dedos de unhas pintadas e tudo voltou ao seu curso terrestre linear.

Bandejas voltaram a circular, gargalhadas voltaram a ser audíveis, gestos suspensos concluíram suas intenções, lágrimas equilibristas se jogaram do abismo das faces, guardanapos de pano enfim cumpriam seus papéis originais e as fumacinhas perfumadas voltaram a preencher o vazio de tantas almas perdidas de si entre o "tiquetaquear" do grande relógio dourado...

Fernando não se lembrava de nada. Lá estava Justine, com o mesmo olhar aparentemente vazio e repleto simultaneamente, e um brilho atípico que ele não foi capaz de captar. Voltaram ao ponto exato em que o Tempo resolveu dormir por uns minutos enquanto os dois seguiam despertos da "Realidade".

-Sim, Fernando, dá para voltar a ser normal e chata como sempre...

-Justine, não quero brigar. Do que estávamos falando mesmo?

-Do quanto o Tempo é relativo, Fernando...

-Ah, sim, onde devo assinar o contrato, Justine?

-Aqui, no "X", bem no "X". E tem que rubricar as outras vias, amanhã eu levo a papelada no cartório e envio para os japoneses.

Estranhamente pacificado pela obliteração dos últimos acontecimentos, ele assinou os papéis sem nenhuma resistência ou debates típicos.

-Isso, Fernando, isso...

Justine sempre conseguia coisas, sempre, mesmo que precisasse busca-las em Universos longínquos. Ela sabia que seus desejos não poderiam ser realizados em uma única existência e raramente moravam no mesmo lugar. Principalmente o Amor, o alienígena quase intocável até mesmo por desbravadores astronautas. Pediu o sétimo saquê, ela que se sentia no sétimo céu envolto por sete luas...brindou a(s) existência(s) com um quase riso de dentes guardados.

Veja mais em : http://impressoesexpressas-claudia.blogspot.com/2011/09/justine-o-confronto.html




Conto do projeto em curso não linear "Justas Injustas Justines", de Claudia Cristina Tonelli.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Tá montada na grana ou é a grana que monta em você?



Sim, vivemos em um país movido a grana, somos reféns dela pra tudo, principalmente quando não a temos em uma justa medida...

Queremos comer bem e vice-versa, de alimentos a cultura. Queremos nos vestir bem, ir ao cinema nos sábados (dia mais caro na bilheteria), comer hortaliças, frutas e leguminosas sem defensivos (eufemismo para VENENO!), calçar os mais belos sapatos(belos sapatos me fazem chorar...), planejar uma viagem à Europa (eu quero!), ouvir boa música, criar nossos filhos com o que há de melhor...queremos ainda ser tão lindas e lindos quanto nossos pais diziam, e também isso requer algum investimento. E bota "algum" nisso. Queremos ainda poder comprar todos os livros que nos enchem os olhos, comer sushi quando der na telha, torrar grana de modo irresponsável vez por outra na famosa terapia do "shopping center"...gente, alguém aí consegue comprar um reles jeans por menos de cem pratas? Pelo menos um "reles digno" ? Foda. Queremos não estar nas mãos do SUS quando ficamos doentes, queremos um psicanalista de plantão para nos guiar nos descaminhos da alma, queremos ser reconhecidos pela tal  "meritocracia" em um país de Q. I's...


Vejam só: Claudinha, "uma mocinha lá não tão mocinha", toda prendadinha: Lava, passa, cozinha, cuida da filhinha com amor, escreve legal e ganha uns trocos deixando outros assinarem no melhor estilo "Pluft- o Fantasminha Camarada" (mais camarada ainda quando a grana do job bate na conta), desenha super bem, faz croquis de primeira, e ainda deu de vender palha italiana, a tal evolução crocante do brigadeirinho...como não bastasse, é uma super maquiadora...será esse o problema? De tantos imodestos talentos, mal sabe administra-los? Nem vou me estender demais nesse nesse post...outro dia, Claudinha (sim, estou falando de mim, não me importo em falar do meu próprio rabo) escreveu para alguém de sua família que está muito bem inserida na área de comunicação (Bravo! Ela fez por onde, justiça seja feita) pedindo que seu material de umas simulações de campanha fosse analisado pelo namorado da mesma (nobre redator publicitário na corrida do ouro, claramente indisposto a dividir informações relevantes), embora eu não duvide de sua qualidade. O moço deu a entender que meu texto é muito denso, que tenho perfil para institucionais por falar demais...quanta asneira, me perdoe...quem disse que uma campanha institucional fala demais? aff. 
Aqui no blog falo demais mesmo, entra quem quer, e todos são bem vindos. E agora ando mostrando demais. A cara e todo o resto que é meu, não tenho que pagar direitos autorais nem pra minha mãe...nada mais nosso do que a gente mesmo...

Gosto mais do que o dinheiro pode fazer do que dele em si. Relações de poder me deixam cansada. Fato é que uma "fotinho" ou outra tem ajudado a ser mais lida e mais ouvida, já me chamaram de puta por isso. Caguei. O mais legal é que se a "fotinho" ajuda a ter algum acesso, pelo menos tenho certeza de que essa "casinha virtual" não é um apartamento sem mobília, muito menos sem alma. Ser "jeitosinha" ajuda, então, "why not"? Deixemos as hipocrisias de lado. Continuem lendo, vamos trocar algo além da superfície, com ou sem "fotinho". Sei que tem gente que entra aqui por gostar das coisas que escrevo, e isso é bem legal. E é claro que gosto de ser jeitosinha também. Sonho com o dia que alguém se importará, ao menos por um segundo, exclusivamente com o que penso e com o que sou capaz de produzir. Para não ser injusta: as blogueiras maravilhosas do 3xtrinta e uns bons grandes amigos e amigas se importaram, e sou grata por isso. Início de uma colheita, muito bacana para mim...mas ainda é exceção. Um começo. Não me vejo, com todo o respeito sincero à todos os ofícios, atrás de um balcão de loja enquanto minha mente criativa e inquieta me come por dentro. Sou deslocadona mesmo, às vezes me sinto alienígena.

Nasci essencialmente escritora, e não há demanda de mercado que vá me "livrar" disso. E nem quero. E quero dar uma montada na grana sim , já que não existe almoço grátis. A posição inversa me faz doer a coluna... ;)

Fotos e produção: A. Sommer


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Dividir senha é amor incondicional?

auto retrato.

Vou começar explicando beeem direitinho: quando falo em dividir senha, não falo em criar uma conta conjunta como acontece em alguns acordos bancários entre casais que levam uma vida em comum sob o mesmo teto ou algo que o valha. Falo de, em um determinado momento, o cara pedir sua senha para resolver um probleminha, mesmo que com boa intenção. À mim, a idéia não agrada nem um pouco, mas sou aberta à novos olhares, portanto, vamos em frente...

Só para dar uma ilustrada: Ao carregar um determinado programa, algo dá errado e o carinha que também é seu querido se dispõe a ajuda-la pedindo sua senha, que por acaso é a mesma de seu e-mail pessoal nesses tempos onde tudo está "interligado"...esse mesmo cara, que por alguma razão deixou de ser seu namorado, mas sempre está ao seu lado, tem um histórico de ciúmes (que eu também tenho, territorialista que sou em uma justa medida...) e portanto...acho uma burrice alimentar tentações. Digam o que quiser, eu ficaria tentada se fosse o contrário. Às vezes me vejo como um homem da idade da pedra, principalmente se eu estiver "desgraçadamente " apaixonada. Isso não me faz má. Tentação é inerente a condição humana, curiosidade nem se fala. Eu faria miséria com uma senha na mão, admito minha vocação para o monitoramento, por isso não me atrevo a querer saber além do necessário.

Como ghost writer, piorou. Nem tudo, salvo em meu computador. São anos alugando minha cabecinha fértil em troca de alguns trocados, aprendi a salvar muitas coisas em meu e-mail, vai que meu pc entra em colapso? Tem coisa que nem deixo salvo nele, sei lá se isso é burrice...sou só uma escritora de aluguel (por enquanto...), não sou boa em detalhes muito práticos. Como se vê, também não sou dona de um português impoluto (Obrigada, Mr. Houaiss, Mr. Dicionário Analógico e afins...mas quando a coisa é autoral, sou dona de uma preguiça confessa. Algumas virtudes ainda passam longe de mim), mas vou dando meu jeito há uns dezessete anos...algumas coisas estão em papel, outras queimei, outras salvei, enfim...são textos que deixam de me pertencer quando sou paga por eles. E ética é algo que prezo. Não tem nada com confiar ou não, mas não me cabe botar em meu curriculum "escrevi para Fulano de Tal". Aliás, tem sim. Essas pessoas PRECISAM confiar em mim e ponto final. Nenhum computador está livre de um ataque...não preciso de mais de uma máquina correndo riscos...

Retomando o tema central, senão eu viajo em mil coisas, não acho legal dividir tudo. Quem gosta de defecar na frente do amado? Tem gente que não liga, eu acho um puta corta-tesão. Uma coisa é o cara me conhecer do avesso, outra, é participar das coisas pequenas e fétidas horas da nossa existência.

Uma vez me contaram uma história muito bacaninha: um casal de velhinhos estavam casados há uns cinquenta anos, e dividiam tudo, até o banheiro...mas ele tinha uma gaveta no armário e pedia delicadamente que sua esposa nunca, em hipótese nenhuma, a abrisse. Um dia ele morreu, a velhinha sofreu muito...ao esvaziar o armário num ato de desapego e sobrevivência psíquica, não resistiu e acabou por abrir a "gaveta secreta". Lá dentro, apenas um pequeno papel amarelecido pelo tempo e as seguintes palavras: "Minha amada de toda vida...sei que partiria antes de você, e sou grato por ter respeitado esse pequeno Universo, a única coisa que pertencia só à mim...obrigada por ter me respeitado por todos esse anos...esse foi um jeito de ter um canto só meu, ainda que não consiga me entender...termino esse bilhete dizendo, pela última vez de tantas incontáveis, que te amo e te amarei de onde estiver...preencha essa gaveta como bem entender..." A velhinha verteu umas lágrimas doces, devolveu o bilhete ao compartimento e o trancou. Repleta de gratidão e saudade. Ali sempre seria o jardim secreto de seu amado, onde não caberia mais nada..." Tá, minha imaginação é fértil mesmo, dei uma "poetizada" na história, ok. Isso sim, entendo por um super Amor! Um pouco de mistério não faz mal à ninguém, e não tem nada de sacanagem nisso, não necessariamente. Mostrar um pouquinho, guardar um pouquinho...tem sua magia. Simbiose não é amor. Exponho um pouco de mim, guardo outro tanto...das formas ao pensar...nem tudo é para ser visto, e nem tudo deve ser posto à prova de tentação...e assim sigo amando numa razoável medida da minha existência única, eu que não nasci para ser metade de nada...e agora, finalizo com uma infame pérola sobre os rapazes de nosso tempo: "Existem duas palavras ofensivas para um homem: Não e Pára. Exceto quando usadas em conjunto." (A.D)



sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Partícula.

Poema de Alan Sommer 

Um belo poema de Alan Sommer, que além de músico e compositor, é um cara repleto de múltiplos talentos, me fez parar para pensar no que estamos fazendo Aqui. Esse cara que me conhece demais por razões óbvias, afinal, ele é parte da minha história, e de um modo muito particular, do meu presente.

Somos todos meras formiguinhas, nesse universo incomensurável, para as quais foi dada a capacidade do pleno Sentir, através desses sentidos que são a consciência plena de estarmos vivos...

Corremos como loucos, e esquecemos que o fim é um só...temos um tempo de estada nesse mundo definido por uma Força Maior, então, que façamos valer a pena...que possamos espalhar boas sementes, e não sejamos reféns do pesadelo do "Nada". Preenchamos esse "Nada" com tudo que realmente importa. Vamos botar Amor em nossas ações, das mais Divinas às mais Prosaicas... Que possamos aglomerar partículas de esperança que façam nossa passagem por aqui valer a pena...Viver é uma linda e louca viagem, a mais cara delas. Que possamos guardar não só os rancores, mas a Poesia que está em tudo que nos cerca...já que a vida sem Poesia seria por demais enfadonha...

Hoje acordei doida por um pouco de romance...com minha própria existência!

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Imagine Mais...



Quem é ela? Será que ela é de família? Será que ela escreve mesmo, será que é uma puta "destrajada" a fazer barulho por nada? Será ela uma grande maquiadora? Será ela uma boa mãe? Será que bota a filha pra vender bala no sinal? Quem é ela afinal? Quem dá mais? Quem dá menos? Quem é essa criatura a tomar seu tempo em linhas que possivelmente não mudarão em nada suas vidas?

Pois é...a humanidade adora lucubrar sobre o alheio e emitir sentenças em um primeiro olhar...e como já disse antes a autora desse "testículo" (corruptela infame de texto) que vos fala, esse primeiro olhar dificilmente atinge o olhar do interlocutor...o mundo está repleto de estímulos visuais, para quê prestar atenção em detalhes? Imagine mais, é mais fácil.

Vemos uma pessoa mal vestida na rua e o primeiro pensamento: "Coitada, ou não tem noção ou é pobre de dar dó." Vai ver a criatura é "imunda de rica" e apenas se protege da violência óbvia que nos rodeia...em um segundo momento, uma menina cheirando a perfume francês, embalada em grifes e cheiro de chiclete da loja "Jelly" (as Melissas, lembram?) nos pés e cabelos recém saídos do coiffeur, "Phina de doer nos olhos" nos passa a sensação de tranquilidade e paz dos que não conhecem nenhum tipo de privação material...de repente a Tal se endivida pra morar num cubículo de merda no metro quadrado mais caro do Leblon, essa sim "pobre de dar dó" e todo mundo achando a tal uma mocinha pra lá de bem posta na vida que mostra ter...tudo em nome de uma sociedade do "somos o que parecemos ser"...acho tudo isso uma grande bosta, eu que prometi evitar falar em primeira pessoa, mas quem disse que aguento tamanha isenção por muito tempo? Vamos imaginar, galera! Conhecer dá muito trabalho. Para quê visitar um amigo em tempos de facebook? Para que assar uma fornada de pães de queijo, coar um café e estabelecer um contato real? Para quê? O mundo corre demais...se deixar, passamos mais tempo na frente de um monitor do que contando histórias para um filho...e não estou me excluindo desse senso comum alienante, eu mesma coleciono saudades de pessoas importantes em minha história que vou sanando precariamente através de um comentário na rede social ou emails, ou chats (odeeeio chats, ainda prefiro o telefone), a única coisa que me recuso é limitar meu conhecimento do outro ao que imagino...pois sei que minha imaginação é fértil demais, as vezes bem sórdida, sou capaz de julgar e sentenciar e condenar e banir da minha vida tudo que me cheire mal...e vai ver nem tem nada de tão podre no ar, todo mundo já teve chulé um dia...pois eu não boto mais minha vida real nas mãos da minha imaginação. Isso já me custou caro e me afastou de gente que eu amava. Enfim...hoje alguém me questionou minha condição materna por conta de uma foto supostamente sexy e bacana que postei em minha página da tal rede social, acontece né? Mãe tem que passar uma imagem de "Santa" (olha "Eu" em primeira pessoa de novo, vamos em frente, não consigo evitar ao tocar nesse assunto...)...mãe não sofre, mãe não sente raiva, mãe não faz cocô, mãe não tira a roupa, mãe não goza e nem chora...a não ser que seja a Adriane Galisteu, aí pode...e nada contra, mas ninguém vai chamar de puta uma mulher com a vida aparentemente ganha. Houve uma época em que frequentei amiúde um evento literário. Às vezes levava comigo minha filha, e tempos depois "rumores" deram conta de que eu provavelmente era uma desesperada querendo um otário na minha vida e um pai suplente para a pequena! E eu lá, querendo mostrar minha humilde escrita...ah, o típico clima das intrigas românticas dos saraus que permeiam a história de todos os tempos... Hahahahhahaha! Só rindo mesmo. Vamos usar a imaginação: Tenho lá cara de mal amada? Tenho lá cara de quem precisa implorar para ser percebida? Aparentemente não, mas vamos deixar a imaginação trabalhar...Dá menos trabalho. E agora, mais uma foto a suscitar que me exponho demais...muito melhor que expor o rabo alheio. Aqui me desnudo de todo medo, pois realmente não muda minha vida ser "Santa" ou "Puta" à olhos apressados e incautos. Gosto de quem sou numa justa medida para não me afogar em meu ego, mas, me conhecer mesmo, só quem já no mínimo pôde tomar um café coado por mim e viu lágrimas brotarem de minha boca e gargalhadas saltarem de meus olhos...e mais...nem para minha família tenho reputação à zelar a essa altura da vida... estou muito velha para bom-mocismo, outra coisa que me nauseia...

Vamos imaginar mais e mais...talvez eu seja só uma ególatra carente querendo ser vista, talvez não...a imaginação pode ser uma coisa boa, sem ela eu não escreveria histórias...mas enfim...todo mundo encerra em si uma ilha. Boa noite...hora de me livrar de tantas vestes e máscaras, e nua de todo pensar pré-concebido, dormir como criança o sono dos que seguem em relativa paz...desejando a todos sonhos repletos de imaginação e cor...


Foto: Alan Sommer

terça-feira, 9 de agosto de 2011

"O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso." (Sábio Mário Quintana)



Um dia Margô acordou antes da filha de dois anos e tudo que encontrou na geladeira foi uma caixa de maisena e água. E duas laranjas colorindo o ambiente branco também. A pequena Louise ainda dormia, em sonhos coloridos que talvez só fizessem sentido para ela...a benção dos inocentes.


Margô sentiu um aperto no peito, já sabia da geladeira quase vazia...e por alguma razão, abriu, como quem aguarda um milagre. Ligou para alguns amigos. Com muita vergonha, chegou a pedir socorro. Uma caixa de leite, uma dúzia de ovos...alguns disseram que a vida não era assim, quem pode ter filhos os têm, quem não pode, padece da própria insanidade. Uns poucos ofereceram trabalho, diziam estar precisando de uma faxineira. "Topo, posso levar Louise comigo? Ela é boazinha."; "Claro que não, Margô, aí você já tá querendo demais, pede ajuda pra sua família!"; "Querida, se eu tivesse uma, não estaria em TÃO maus lençóis", "Boa sorte, Margô, eu tentei ajudar"; "Obrigada, Julinha, você é muito legal!"; click, welcome, Margô, esse é o mundo real!


Mário Quintana sabia o quê estava dizendo acerca dos problemas...cada um com a sua bagagem. Assim segue a humanidade de um modo geral. Ajuda é coisa para gente bem relacionada, e raramente gente bem relacionada se fode em um nível tão profundo.


Margô tentou ainda mais uma vez: "Alex, você pode me encaixar em algum trabalho seu? Sou boa no que faço! Louise é boazinha, e não tenho com quem deixa-la!"; "Margô, pede para o pai dela olha-la, aí podemos conversar"; "Alex, o pai dela sumiu!"; "Viu, Margô, você e essa sua loucura em querer ser mãe...ia acabar em merda..."; "Alex, vai se fuder, Louise é a única coisa boa da minha vida! É o que fica de tudo que não ficou!"; Click! Questionar a existência de Louise era algo que enlouquecia Margô. Ela não era uma mulher idiota, era apenas mais uma brasileira atravessando a tempestade. Ainda tinha sorte (?) do telefone ainda não ter sido cortado. Desde que botara o ex-marido na justiça para que ele ao menos contribuísse com alimentação, a influente família do mesmo cortara a "caridade" de pagar uma creche em boas condições de receber uma criança para ela trabalhar. Agora teria que esperar a abertura das matrículas no próximo ano e tentar a sorte na educação pública...e seguir em frente.


Louise acordou chorando. Margô olhou com pena para os próprios seios que não produziam mais o leite que suprira a filha por mais de um ano. Deu um beijinho na filha, um brinquedinho de borracha para ela morder enquanto inventava algo. Foi até a cozinha. Encheu um copinho com água, espremeu uma laranja para dar um cheirinho bom, o açúcar acabara...três colheres de maisena engrossaram o preparado em fogo brando. A menininha tomou com avidez seu café da manhã, enquanto seus olhinhos de azeitona sorriam...Abraçou a mãe, que respirou aliviada até a próxima refeição...mas problema se administra cada um em seu tempo...e naquele momento, nada valia mais que a doçura daquele abraço.

sábado, 6 de agosto de 2011

Meretriz por um triz...


Então foi assim...eles se adoraram e se amaram e tudo o mais por quase dois anos, até que o namoro propriamente dito foi para o ralo, acontece...mas ainda se adoravam, o que também acontece. Sobretudo, havia uma afinidade sexual "de outro mundo" que impedia o afastamento pleno dos dois. E carinho também. Ela fazia tudo para parecer sexy aos olhos do amado que não era mais seu namorado...não era difícil, era bem bonita. Manu sempre foi bem bonita. E Cadu sempre gostou de tudo que é belo, tinha os olhos de um esteta...era músico, vivia cercado de belas mulheres que parecem ter um certo fetiche por esse tipo de artista. Manu morria de ciúmes. Um dia, Manu virou para ele e disparou: "Cadu, quero brincar de ser puta.", "Como assim, Manu?", "É isso, Cadu, quero brincar de ser puta...aí eu te escolho, já que brincando eu posso escolher, e você me leva , vai, quero brincar de ser puta! Você me leva em um lugar cheio de 'meninas', eu circulo, dou um mole para uns caras e aí você me leva mesmo, hein!?"

Cadu ficou tenso. Como a maioria dos homens de todos os tempos, claro que ele adorava uma "sacanagenzinha mais hard", mas ela tinha sido sua namorada...ainda morria de tesão por ela, era estranha a ideia de outros caras babando, e também muito excitante... Estavam tomando um suco de laranja no Centro do Rio enquanto Manu tentava convencê-lo entre um gole e outro.

"Olha, Cadu, a gente é adulto, você pode encarar isso como uma brincadeira de gente grande..."

"Manu, você é tarada?"

"Sou. Sou tarada por você."

"Claro...tarada por mim."

"É. Tarada por você. Se for pra brincar, tem que ser com você, bobão!"

"E se eu não quiser? Daqui a pouco vai estar brincando disso com outro..."

"Claro que não. Não quero estragar o clima nem azedar o suco, mas desde que não somos namorados, só sigo pensando em você...e não sou uma mulher jogada fora, detonada...é uma opção. Acho que nem é uma opção, você sabe que eu te adoro. E adoro seu pau e todo o resto..."

"Manu, fala baixo! Tá todo mundo ouvindo!"

"Cadu, as pessoas têm mais com que se preocupar. Não somos importantes para o mundo desse jeito...esse seu superego vai acabar te deixando doente..."

"Tá, Manu! Quer ser puta? Puta por um dia? Vai dar pra outro? Vai chupar o pau de outro?", se exaltou ele num sussurro.

"Não. Vou me exibir, andar pra lá e pra cá, deixar que os caras pensem que podem me levar...depois eu vou com você."

"E se alguém te oferecer uma grana alta?"

"Foda-se. Eu não quero grana alta. Não assim. Não sou uma puta profissional, sou sua..."

"Sei...tá, Manu. Amanhã...conheço um lugar na Zona Sul...já enchi a cara de cerveja por lá, com uns amigos..."

"Tá...tá bom...mas você me leva. Não vou chegar toda produzida sozinha."

"Quer brincar, faz direito. Posso te acompanhar uns passos atrás de você."

"Ok. Agora deixa eu ir, Cadu. Amanhã? Nove da noite? Deixa eu ir que essa hora o trem vai lotado pro meu bairro..."

"Tá, Manu...olha lá hein?"

"Olha você. Você vai amar.", dito isso, deixou três pratas do suco na mesa, deu um beijinho no cara que ainda amava além da imaginação e foi...cheia de grandes ideias.

..................................................................................

Já dentro do táxi, Manu ligou para Cadu. Não dava pra pegar um ônibus com aquelas roupinhas...estava bem bonita, talvez não para um almoço em família...usava um espartilho de bom gosto, presente que uma amiga trouxe de uma temporada em Nova York. Outros pequenos detalhes faziam a diferença, a maquiagem com a boca vermelha marcada, o cabelo "a la garçon"...Parecia uma pin-up saída de uma folhinha.

"Cadu, estou chegando, passo na porta da sua casa e você diz o destino final pro motorista, tá?"

"Tá. Acho que você vai amarelar, vai ter muito cara querendo te comer."

"Vou não. Você vai me comer. Estou chegando." De tão excitada, quase se masturbou dentro do táxi.

Quando chegou na porta de seu querido, ele já esperava. Entrou rapidamente e deu o endereço. Um endereço relativamente sofisticado, onde muitas das meninas deixavam o benefício da dúvida. Ao saltarem do carro, ela foi caminhando na frente, toda rebolativa. Chegou a ser abordada por um carro, mas a ideia não era essa. Não queria brincar no meio da rua. Ele se sentou no balcão do pub enquanto ela circulava na área externa. Rapidamente foi sendo abordada por várias nacionalidades...as meninas a receberam bem, Manu era educada, delicada até. Trocou figurinhas, disse que estava começando, recebeu algumas dicas...enfim, estava convincente em seu papel. Um austríaco de inglês sofrível chegou a oferecer quatro mil por uma gangbang...ela discretamente perguntou o que era isso para uma das garotas, e ficou meio passada, disse pro cara que tinha um programa agendado, e quando voltasse, combinaria melhor...saiu pela tangente, queria emoção, mas isso não a emocionava nem um pouco...de vez em quando buscava Cadu com os olhos, que vestindo um gorro preto chegava a ter cara de mau. Ele ria de tudo, enquanto tomava uma vodka. Ela tomou duas ou três coca-colas, nas quais investiu doze Reais. Se tivesse aceito todas as propostas, estaria com a vida ganha por um mês...dependendo do ponto de vista. Chegou a ter simpatia pela maioria das meninas, umas muito novas, uma vontade louca de perguntar: "Guria, que tal estudar? Que tal um emprego de vendedora em uma boutique bacana?"  Mas enfim, ela não estava ali como assistente social. E não queria arrumar problemas. Ao perguntarem seu nome, respondia ser Marina. Marina era um nome legal e bonito.
A certo ponto, já estava morta de frio...chegou discretamente para seu "anjo protetor" e disse bem baixinho:

"Cansei dessa parte da brincadeira. Me leva."

"Ah, brinca mais um pouco"

"Já estou aqui há uma hora"

"Vi que recebeu boas propostas", rebateu Cadu entre brincalhão e irônico.

"Te faço desconto, já que é pra brincar...tudo que você desejar por doze Reais...meu gasto com refrigerantes..."

Ele lhe deu um beijo no pescoço e a levou dali. Ela não ganhou milhares de reais, mas por doze experimentou todos os prazeres em uma só noite...para ela, em Cadu estavam todos os homens dessa vida...não precisava conhecer mais nada. Ok, não eram mais namorados...mas com amantes...bom, todo mundo deve imaginar...