segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Dividir senha é amor incondicional?

auto retrato.

Vou começar explicando beeem direitinho: quando falo em dividir senha, não falo em criar uma conta conjunta como acontece em alguns acordos bancários entre casais que levam uma vida em comum sob o mesmo teto ou algo que o valha. Falo de, em um determinado momento, o cara pedir sua senha para resolver um probleminha, mesmo que com boa intenção. À mim, a idéia não agrada nem um pouco, mas sou aberta à novos olhares, portanto, vamos em frente...

Só para dar uma ilustrada: Ao carregar um determinado programa, algo dá errado e o carinha que também é seu querido se dispõe a ajuda-la pedindo sua senha, que por acaso é a mesma de seu e-mail pessoal nesses tempos onde tudo está "interligado"...esse mesmo cara, que por alguma razão deixou de ser seu namorado, mas sempre está ao seu lado, tem um histórico de ciúmes (que eu também tenho, territorialista que sou em uma justa medida...) e portanto...acho uma burrice alimentar tentações. Digam o que quiser, eu ficaria tentada se fosse o contrário. Às vezes me vejo como um homem da idade da pedra, principalmente se eu estiver "desgraçadamente " apaixonada. Isso não me faz má. Tentação é inerente a condição humana, curiosidade nem se fala. Eu faria miséria com uma senha na mão, admito minha vocação para o monitoramento, por isso não me atrevo a querer saber além do necessário.

Como ghost writer, piorou. Nem tudo, salvo em meu computador. São anos alugando minha cabecinha fértil em troca de alguns trocados, aprendi a salvar muitas coisas em meu e-mail, vai que meu pc entra em colapso? Tem coisa que nem deixo salvo nele, sei lá se isso é burrice...sou só uma escritora de aluguel (por enquanto...), não sou boa em detalhes muito práticos. Como se vê, também não sou dona de um português impoluto (Obrigada, Mr. Houaiss, Mr. Dicionário Analógico e afins...mas quando a coisa é autoral, sou dona de uma preguiça confessa. Algumas virtudes ainda passam longe de mim), mas vou dando meu jeito há uns dezessete anos...algumas coisas estão em papel, outras queimei, outras salvei, enfim...são textos que deixam de me pertencer quando sou paga por eles. E ética é algo que prezo. Não tem nada com confiar ou não, mas não me cabe botar em meu curriculum "escrevi para Fulano de Tal". Aliás, tem sim. Essas pessoas PRECISAM confiar em mim e ponto final. Nenhum computador está livre de um ataque...não preciso de mais de uma máquina correndo riscos...

Retomando o tema central, senão eu viajo em mil coisas, não acho legal dividir tudo. Quem gosta de defecar na frente do amado? Tem gente que não liga, eu acho um puta corta-tesão. Uma coisa é o cara me conhecer do avesso, outra, é participar das coisas pequenas e fétidas horas da nossa existência.

Uma vez me contaram uma história muito bacaninha: um casal de velhinhos estavam casados há uns cinquenta anos, e dividiam tudo, até o banheiro...mas ele tinha uma gaveta no armário e pedia delicadamente que sua esposa nunca, em hipótese nenhuma, a abrisse. Um dia ele morreu, a velhinha sofreu muito...ao esvaziar o armário num ato de desapego e sobrevivência psíquica, não resistiu e acabou por abrir a "gaveta secreta". Lá dentro, apenas um pequeno papel amarelecido pelo tempo e as seguintes palavras: "Minha amada de toda vida...sei que partiria antes de você, e sou grato por ter respeitado esse pequeno Universo, a única coisa que pertencia só à mim...obrigada por ter me respeitado por todos esse anos...esse foi um jeito de ter um canto só meu, ainda que não consiga me entender...termino esse bilhete dizendo, pela última vez de tantas incontáveis, que te amo e te amarei de onde estiver...preencha essa gaveta como bem entender..." A velhinha verteu umas lágrimas doces, devolveu o bilhete ao compartimento e o trancou. Repleta de gratidão e saudade. Ali sempre seria o jardim secreto de seu amado, onde não caberia mais nada..." Tá, minha imaginação é fértil mesmo, dei uma "poetizada" na história, ok. Isso sim, entendo por um super Amor! Um pouco de mistério não faz mal à ninguém, e não tem nada de sacanagem nisso, não necessariamente. Mostrar um pouquinho, guardar um pouquinho...tem sua magia. Simbiose não é amor. Exponho um pouco de mim, guardo outro tanto...das formas ao pensar...nem tudo é para ser visto, e nem tudo deve ser posto à prova de tentação...e assim sigo amando numa razoável medida da minha existência única, eu que não nasci para ser metade de nada...e agora, finalizo com uma infame pérola sobre os rapazes de nosso tempo: "Existem duas palavras ofensivas para um homem: Não e Pára. Exceto quando usadas em conjunto." (A.D)



13 comentários:

  1. é uma coisa terrível, isso de se ter acesso à um pedaço da cabeça do outro.
    Na dúvida, mantenho uma política de espaço aberto, vai, mexe no que quiser, me entender e sacar como tudo está interligado são outros quinhentos.
    Mas tenho UM45 QU4R3NT4 S3NH45 por aí, também quero ver saber até onde vai o que está fora de mim.
    No filme O Cavaleiro Sem Cabeça, o investigador vai pensando e ocasionalmente anotando uma ou outra palavra num papel. De repente, ele olha para o papel, e aquelas palavras ao acaso formam uma frase, alguém a se investigar... erroneamente. Acho que ver a vida do outro nos arquivos, e daí assumir que entendeu tudo, é um horror.
    E sobre coisinhas do dia a dia, namoro uma menina e o banheiro é ligado ao quarto aqui. Fico sinceramente aliviado de saber que ela vai lá, não é um alienígena sintético. Não fico fiscalizando, nem procurando nada. Mas se ao acaso encontro um organismo humano funcionando perto de mim, fico aliviado.

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  2. "Quem gosta de defecar na frente do amado? Tem gente que não liga, eu acho um puta corta-tesão. Uma coisa é o cara me conhecer do avesso, outra, é participar das coisas pequenas e fétidas horas da nossa existência"

    Adorei isso! Acho que a escatologia compatilhada é o túmulo do amor! E realmente não somos metade de nada. Me recuso a ser metade de alguém. Ninguém merece carregar esse fardo :-)

    bjss
    edu

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  3. Heinz, Edu...muito bacana tê-los por aqui! Honra :)

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  4. Bom vamos lá...
    Penso que vida pessoal é vida pessoal e vida virtual é vida pessoal, enfim, uma não tem nada a com a outra (reforçando aqui, o que escrevo aqui é minha humilde opinião pessoal).

    Mesmo sendo amigo, parente, vizinho, pior ainda namorado senha é senha, pessoal e intransferível. Caso seja necessário, como no caso que especificou acima acho interessante que o manuseio da conta seja feito na sua presença e após terminado alterar as senhas imediatamente.

    Sou a favor da liberdade. Sei a senha das contas do meu marido mas não entro, tanto é que se ele mudou essa senha eu nem sei, não me interessa, separo bem as coisas. O que não acontece com ele, então, não forneço minha senha.

    É como falou, um espaço que é só seu. Dividir amor não significa um viver a vida do outro em todos os detalhes.

    Bacana seu espaço.

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  5. Obrigada! Todo mundo mundo precisa de uma cota de oxigênio para chamar de sua, afinal...! ;)

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  6. Oi Claudia,

    Concordo com vc: é preciso preservar algo sim. Sou contra dividir senhas.

    Beijo grande,

    Bela - A Divorciada e A Noiva

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  7. Em outros momentos eu já tive dessas crises de curiosidade de sair vasculhando emails, gavetas, bolsos, carteiras, agendas e descobrindo coisas além da imaginação de como uma pessoa conseguiu descobrir. Mas juro que não faço mais isso, não porque é feio ou invasão de privacidade, mas porque eu fazia e não me sentia bem fazendo. Fiz nos momentos que se fizeram necessários. Nos momentos que me senti enganada. Pois toda mulher equilibrada sabe quando está sendo passada pra trás.
    Eu não divido minha senha de email, de cartão de crédito, de nada. E detesto que mexam nas minhas coisas para vasculhar e procurar pistas, pois se se derem ao trabalho de me perguntar, eu respondo honestamente.
    Mas que dá uma curiosidade razoável, dá... de ler a mente da pessoa pelos seus textos secretos. Coragem eu não tenho, não gosto de correr risco à toa. Mas eu mesma sei que às vezes escrevo coisas que são só pra mim, que tem um valor só pra mim e que só eu sei em que grau elas são verdadeiras ou meros devaneios de uma sensação do momento.
    No mais, cagar todo mundo caga. Mijar, todo mundo mija. Todo mundo arrota e solta pum. Não acho que precisa ter, mas acho que dá pra se acostumar dependendo do nível de intimidade que se tem com a pessoa.

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  8. Minha senha é MINHA senha.

    não acho que isso é prova de nada, muito pelo contrario... é prova de insegurança da outra parte.

    email posso ter 1000.

    Então é: confia ou não confia.

    adorei o texto, só discordei da ultima frase sobre os homens...deixando claro que nem todos são assim, acho que saber parar e ouvir um não, são coisas normais, assim a gente vai aprendendo e crescendo.

    bjos

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  9. Quem ama cuida, CONFIA e RESPEITA. Invadir privacidade da(o) amada(o) vai no sentido contrário dos dois últimos. Se a(o) outra(o) deu motivos para desconfiança, então o relacionamento tem problema, e sério.

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  10. Senha é material, amor é imaterial !!!!

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