terça-feira, 30 de agosto de 2011

Elipse Temporal (O truque).


Justine e Fernando foram se encontrar em um evento gastronômico oriental. Justine andava estressada, em pleno inferno astral, mas seu sorriso contrariava, via de regra, tudo que atravessava sua alma: uma caixa preta a guardar seus mistérios.

Havia entre Justine e Fernando atração e estranhamento. Fernando era um grande artista de talentos múltiplos, a quem Justine tentava produzir à despeito de seu gênio indomável. Havia em Fernando um rico universo de idéias, e através dos olhos de Justine ele podia ver sua arte atravessando as fronteiras do próprio ego. Ela também não era uma criatura fácil: Nela habitavam "Anjos e Demônios", "Cucas e Narizinhos", "Médico e Monstro", "Lucidez e Abandono"...mas ela simplesmente sabia como conseguir coisas. Coisas. Conseguia até o que não queria: despertar ódio quando buscava amor e vice-versa, por exemplo. Fernando já conseguira quase tudo na vida, menos Justine na palma de sua língua...ela também o queria, e muito, em cada canto de seu corpo curvilíneo, mas não pretendia de modo algum misturar os canais. Seu desejo nesse plano era resolvido em seu quarto vermelho, ao cerrar das cortinas de um dia cheio, onde tudo era legítimo e possível.

O evento estava lotado: Pessoas iam e vinham buscando mesas, disputando senhas, apinhadas em filas que terminavam em uma escada em forma de caracol sobre a qual os dois ocupavam um lugar bem ao centro do salão. Entre salmões marinados, filhotes de enguia, lulas com ovas de bacalhau e tentáculos de polvo regado a saquê, tentavam chegar a um acordo. Ela achava que ele deveria virar a esquerda, ele sempre deslizava para a direita...se puxavam e se repeliam gerando uma trajetória em círculos, como em um tango de movimentos primários (ou seriam primitivos?).

- Justine, você é arrogante.

-É a quinta vez que você me diz isso desde que chegamos. Mais alguma coisa a acrescentar?

Minuto de silêncio. Entre uma garfada e outra, Fernando fitava com olhos cortantes a mulher de traços hispânicos. Os olhos de Justine pareciam amêndoas, ele adorava devorar amêndoas. Sua cabeleira escura seria a reprodução perfeita de uma película em preto e branco em contraposição à sua pele muito alva, não fosse a cor escarlate de sua veste acetinada a revelar os ombros angulosos. A boca de Justine o fazia lembrar uma daquelas almofadas bordôs muito fofas que convidam a sentar e esquecer o Tempo, que para ele não passava de um bobo da corte a satisfazer seus caprichos de Rei Leão. Ele imaginava conhecer todos os mistérios do Céu e da Terra, tão generosa é a imaginação e seus supostos poderes...

-Justine, você é arrogante...-repetiu como se falasse somente para si.

-Ok, mas o quê vai ser? Vamos lançar ou não seus trabalhos no Japão?

-Justine, você é tão direta. Por que não cuida um pouco de sua própria vida? Onde sua arte te levou? O que você sabe mais que eu?

-Sei uns truques. E sobre minha Arte, meus pinceis me levaram até você.

-Truques, Justine, truques! Me poupe. De onde você pensa que veio?

-Não penso nada. Só penso sobre o que sei, todo o resto imagino e recrio. Não sei de onde onde vim, mas sei onde quero chegar. E gosto de truques e magia.

-Você é de outra Galáxia.

-Acho que foi lá que te encontrei, Fernando.- afirmou em um sussurro matando de um só gole a sexta dose de saquê.

-Não quero ir para o Japão.

-Quer sim...você quer ir até para a Lua, mas morre de medo. Os termos do contrato são precisos, não dão margem ao erro, não há risco de prejuízo envolvido.

-O risco do prejuízo sempre existe.

-Bravo, Fernando! A isso, chamamos estar vivo. Não seja chato.

-Você é chata.

-Eu sei, Fernando. Verdades não me insultam. Já disse que sei o que quero. Quer conhecer um truque?

-PORRA, JUSTINE, DÁ PARA TENTAR SER NORMAL?

-Faço o possível. Chega, Fernando, vamos ao truque!- Justine estalou os dedos e o tempo congelou a sua volta, após um estridular de ensurdecer ouvidos caninos.

-Estamos em outra órbita, Fernando.- seu par de amêndoas estavam impregnados de melancolia e desejo.

Tudo, absolutamente tudo, excluindo os dois, parou no exato estalar de dedos de Justine. Garçons com bandejas suspensas no ar, risos travados nas gargantas, lágrimas bailarinas nos olhos de uma criança, mãos que gesticulavam algo indizível, um guardanapo levado à boca, a fumacinha de pratos fumegantes na atmosfera...TUDO MESMO. Até o ponteiro do grande relógio na parede a esquerda da mesa em que sentavam.

-Justine, o que você fez?-havia indícios de pânico na voz entrecortada de Fernando.

-O truque. Calma, acho que você vai gostar.- sentenciou uma impassível Justine, se levantando da cadeira rumo ao seu objeto de anelo. Fernando quieto, esperando o devir.

Justine deu-lhe um rápido beijo na boca de linhas precisas, em seguida ajoelhou-se como uma gueixa abrindo-lhe as calças com dedos hábeis. Sem delongas, encheu a boca, faminta de um antigo sonho. Sugou com vontade, como uma executável em sua última ceia. Como uma jiboia pompoarista que vitimiza suas presas por constrição... mas não, ela não o vitimaria...ela beberia cada gota daquele momento paralelo até o fim. Os dedos de Fernando já traçavam rotas imprecisas nos longos cabelos de Justine, empurrando com frenesi sua cabeça numa inconsciente tentativa de fusão boca/falo. O dorso de Justine ajoelhada dançava um balé surrealista entre as pernas trêmulas de Fernando, que não conseguia nem gemer, tampouco tipificar o que sentia até explodir em gozo vulcânico de magna leitoso, que ela deglutiu e lambeu e sorveu até a última gota...feito isso, recompôs-se rapidamente. Gotículas de leite ainda brilhavam em sua face, e com os dedos, ela levou o pouco que sobrara até os lábios.

-Justine...- foi tudo que ele conseguiu dizer.

-Fernando...- dito isso, estalou de novo os dedos de unhas pintadas e tudo voltou ao seu curso terrestre linear.

Bandejas voltaram a circular, gargalhadas voltaram a ser audíveis, gestos suspensos concluíram suas intenções, lágrimas equilibristas se jogaram do abismo das faces, guardanapos de pano enfim cumpriam seus papéis originais e as fumacinhas perfumadas voltaram a preencher o vazio de tantas almas perdidas de si entre o "tiquetaquear" do grande relógio dourado...

Fernando não se lembrava de nada. Lá estava Justine, com o mesmo olhar aparentemente vazio e repleto simultaneamente, e um brilho atípico que ele não foi capaz de captar. Voltaram ao ponto exato em que o Tempo resolveu dormir por uns minutos enquanto os dois seguiam despertos da "Realidade".

-Sim, Fernando, dá para voltar a ser normal e chata como sempre...

-Justine, não quero brigar. Do que estávamos falando mesmo?

-Do quanto o Tempo é relativo, Fernando...

-Ah, sim, onde devo assinar o contrato, Justine?

-Aqui, no "X", bem no "X". E tem que rubricar as outras vias, amanhã eu levo a papelada no cartório e envio para os japoneses.

Estranhamente pacificado pela obliteração dos últimos acontecimentos, ele assinou os papéis sem nenhuma resistência ou debates típicos.

-Isso, Fernando, isso...

Justine sempre conseguia coisas, sempre, mesmo que precisasse busca-las em Universos longínquos. Ela sabia que seus desejos não poderiam ser realizados em uma única existência e raramente moravam no mesmo lugar. Principalmente o Amor, o alienígena quase intocável até mesmo por desbravadores astronautas. Pediu o sétimo saquê, ela que se sentia no sétimo céu envolto por sete luas...brindou a(s) existência(s) com um quase riso de dentes guardados.

Veja mais em : http://impressoesexpressas-claudia.blogspot.com/2011/09/justine-o-confronto.html




Conto do projeto em curso não linear "Justas Injustas Justines", de Claudia Cristina Tonelli.

10 comentários:

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  2. Sem delongas, Claudia Tonelli tem uma narrativa concisa, às vezes cortante. Como se a expressão de sua fértil criação precisasse ser ligerira para não retornar à egrégora. Claudia, parece, sempre consegue coisas, sempre, mesmo que precise busca-las em Universos longínquos.

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  3. Um texto cortante e irrestritamente promíscuo no sentido literário, onde as acepções psicológicas se ferem umas às outras e informam ao filtro cerebral que há uma intenção maior que a própria literatura, e que é gregágria a possibilidade da alma, como se um latifúndio pudesse ser engolido pela cria. O Gozo pleno da paixão nos leva a crer que há mistério em cada olhar, e em cada palavra, há um pedunculo de sustentáculo. Obra maravilhosa. Nos corrige os erros temporaís ao estanca-lo, dando brusca freiada no tempo. Inventa o conto erótico fantástico e preenche as palavras de cromossomos febrís, onde os caminhos colidem e os sonhos se separam, captando a realidade como ela é. Mais que Rodriguiana, mais que Queiroz, mais que Dostoievsky. Sublime cometa literário. Nos mata de leitura.

    Alan Sommer
    www.desentupidorcultural.blogspot.com

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  4. Uma boa escritora e uma escritora boa. Não há dicionário analógico capaz de descrevê-la.

    (Julio da Adelaide)

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  5. Bem-vindos ao deserto do real de Claudia Tonelli.

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  6. Bem vindos ao meu Espaço Sideral/Virtual/Real sempre, e obrigado pelo carinho e olhares atentos!

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  7. U A U ! extasiada fiquei enquanto expectadora da obra. Os recursos poético-metafóricos que usou são verdadeiros bálsamos para a inspiração. Seguidos de doses homeopáticas de viagra fantástico, que saciam mentes férteis da mais fina poesia. Uma delícia desvendar o que há de espetacular em seu conto.

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  8. há algo do divino marquês, mas eu preciso de uma leitura mais profunda e detalhada para degustar todos os seus nuances.
    Texto envolvente e delicioso

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