terça-feira, 9 de agosto de 2011

"O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso." (Sábio Mário Quintana)



Um dia Margô acordou antes da filha de dois anos e tudo que encontrou na geladeira foi uma caixa de maisena e água. E duas laranjas colorindo o ambiente branco também. A pequena Louise ainda dormia, em sonhos coloridos que talvez só fizessem sentido para ela...a benção dos inocentes.


Margô sentiu um aperto no peito, já sabia da geladeira quase vazia...e por alguma razão, abriu, como quem aguarda um milagre. Ligou para alguns amigos. Com muita vergonha, chegou a pedir socorro. Uma caixa de leite, uma dúzia de ovos...alguns disseram que a vida não era assim, quem pode ter filhos os têm, quem não pode, padece da própria insanidade. Uns poucos ofereceram trabalho, diziam estar precisando de uma faxineira. "Topo, posso levar Louise comigo? Ela é boazinha."; "Claro que não, Margô, aí você já tá querendo demais, pede ajuda pra sua família!"; "Querida, se eu tivesse uma, não estaria em TÃO maus lençóis", "Boa sorte, Margô, eu tentei ajudar"; "Obrigada, Julinha, você é muito legal!"; click, welcome, Margô, esse é o mundo real!


Mário Quintana sabia o quê estava dizendo acerca dos problemas...cada um com a sua bagagem. Assim segue a humanidade de um modo geral. Ajuda é coisa para gente bem relacionada, e raramente gente bem relacionada se fode em um nível tão profundo.


Margô tentou ainda mais uma vez: "Alex, você pode me encaixar em algum trabalho seu? Sou boa no que faço! Louise é boazinha, e não tenho com quem deixa-la!"; "Margô, pede para o pai dela olha-la, aí podemos conversar"; "Alex, o pai dela sumiu!"; "Viu, Margô, você e essa sua loucura em querer ser mãe...ia acabar em merda..."; "Alex, vai se fuder, Louise é a única coisa boa da minha vida! É o que fica de tudo que não ficou!"; Click! Questionar a existência de Louise era algo que enlouquecia Margô. Ela não era uma mulher idiota, era apenas mais uma brasileira atravessando a tempestade. Ainda tinha sorte (?) do telefone ainda não ter sido cortado. Desde que botara o ex-marido na justiça para que ele ao menos contribuísse com alimentação, a influente família do mesmo cortara a "caridade" de pagar uma creche em boas condições de receber uma criança para ela trabalhar. Agora teria que esperar a abertura das matrículas no próximo ano e tentar a sorte na educação pública...e seguir em frente.


Louise acordou chorando. Margô olhou com pena para os próprios seios que não produziam mais o leite que suprira a filha por mais de um ano. Deu um beijinho na filha, um brinquedinho de borracha para ela morder enquanto inventava algo. Foi até a cozinha. Encheu um copinho com água, espremeu uma laranja para dar um cheirinho bom, o açúcar acabara...três colheres de maisena engrossaram o preparado em fogo brando. A menininha tomou com avidez seu café da manhã, enquanto seus olhinhos de azeitona sorriam...Abraçou a mãe, que respirou aliviada até a próxima refeição...mas problema se administra cada um em seu tempo...e naquele momento, nada valia mais que a doçura daquele abraço.

2 comentários:

  1. Só mais uma brasileira, no meio de tantos outros brasileiros e incapazes de entender, lindo Cláudia!

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  2. "Só eu sei, o que é não ter e ter que ter pra dar"

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