quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O grande Salão Vermelho (Justine).

imagem colhida no google




Desde que Justine desaparecera sem rastros, Fernando não sabia como coordenar seus passos. Magro e abatido, seguia seus dias com a força dos que, atavicamente, carregam em si o dom da sobrevivência, a despeito de qualquer calamidade...vinha de uma família essencialmente lutadora, que nunca desistia nem diante do aparente caos sem solução. Além da case com seu instrumento, trazia consigo junto ao corpo, dentro de uma ecobag creme, daquelas de lona que se vê por aí, o quadro de fundo vermelho que figurava o desfigurado rosto  de Justine impresso em carvão. Levou muito tempo para perceber que a queria junto dele, Doida ou Lúcida, estivesse ela pisando sobre fantasias ou esmagada de realidade...só a queria por perto...a doçura de "Sua Justine" que, num olhar rápido, era sempre enquadrada como uma sedutora funcional na tentativa de conseguir coisas, quando a única coisa que Ela de fato sempre perseguira fora o Amor...para o qual nunca lhe fora dado mapas ou caminhos seguros, para o qual não fora preparada...mas quem disse que o Amor afinal não é um sentimento fisiológico? Fernando agora percebia que ela o amara mais do quê pôde em sua precária e breve existência ao longo daqueles anos onde ela, só ela, o fez experimentar o Amor em todas as suas nuances...ele que conhecera tantas e belas e valorosas e ordinárias e diversas mulheres...só trazia em si o gosto amargo quase doce da saudade. Justine, calamitosa e encantadora... aquela do olhar de fúria e doçura no sorrir...ou do sorrir furioso e açucarado olhar...ou doçura pura, ou ainda, fúria em sua essência defendida...Justine, "sua Justine"...naquela noite, depois de três horas se apresentando em um pub decadente, ele entrou naquele hotelzinho da rua sem saída onde tantas noites ao lado dela terminaram em coca-cola e boas risadas, sobretudo quando ele era o "agente viabilizador do truque"...maldito Truque que deixara ainda mais sem lastros uma já tão flutuante Justine...


..............

imagem colhida no google


Perdida nos labirintos vermelhos e angulosos daquilo que parecia ser um cubo, em alguma dimensão paralela, Justine, envolta em um manto, caminhava tentando achar uma saída. Às vezes se deparava com portas, mas todas hermeticamente trancadas. Seria aquilo o Inferno? Se fosse, esperava ao menos uma explicação, ou algum tipo de "seja bem vinda!"...estranhamente, não era medo que a acompanhava em seus passos sem destino, mas a habitual tristeza de sua história repleta de lacunas, que ela, num ato desesperado, desistira de tentar preencher com verdades inventadas. Ingenuamente, sem perceber, chegou a acreditar que na falta de uma verdade absoluta, poderia ser dona de sua própria verdade, desconhecendo que, por mais que doa, a verdade é sempre uma só, sabedora dela ou não...enfim, entendia que só a própria Verdade era capaz de reconhecer a Verdade, todo o resto era o olhar do outro sobre si e vice-versa...não havia consenso definitivo para a Verdade em sua vida. E talvez na de ninguém...Talvez estivesse morta, mas se sentia muito cansada, o que não combinava muito com os que já não carregavam o peso da existência material. Andou, andou, andou...e parecia não sair do lugar. Ao fim de suas últimas energias, Justine escorregou o corpo junto a parede, disposta a não se mover mais...já não se pertencia mais...uma voz familiar a tirou do torpor...a Criatura, até ali, seja onde fosse "Ali...", bradou com vigor:


- Justine! Levante-se e vire a esquerda, caminhe até o final, lá está a porta que lhe cabe e toda a verdade que lhe foi sonegada! Ande, não temos muito tempo! Isso é decisivo para sua permanência ou saída daqui! É imperativo que me obedeça, vá!


......................
imagem colhida no google




Ao entrar em casa, Fernando foi direto ao quarto, onde depositou o quadro vermelho ao lado da máquina de escrever de "sua Justine", que ele tirara do ateliê junto com as palavras que começaram a ser escritas. Gostava de imaginar que eram para ele. No fundo, sabia que eram para ele aquelas palavras...talvez um poema, ela andava tentando poemas...Ela que para Ele, era o próprio Poema que, de forma dura, tentara editar tantas vezes...gostaria de poder voltar no tempo. Mas esse truque, ele não conhecia. Dormiu rápido, embalado pelo odor de Justine em suas narinas...


.......................


Justine se levantou diante da voz de comando, e obedeceu ato contínuo. A idéia de conhecer a tal "Verdade" de um modo que nunca lhe fora permitido a fazia seguir. Adentrou a sala, na verdade um salão. Pela primeira vez, todo aquele vermelho, mesmo que suntuoso, embrulhava seu estômago. Se lhe fosse permitido seguir em outro plano, talvez abolisse aquele tom de sua vida... estranhamente, ela desejou por um momento estar viva e quase chorou. Quase.


O salão parecia ter sido preparado para um grande jantar. Ficou alguns momentos olhando atentamente para tudo e tentando alcançar algum sentido.


-Justine...estão todos aqui! Vão entrar em poucos minutos...seu pai, sua mãe, seus irmãos e irmãs...e pasme, chegará também a criança que você foi um dia. Escute atentamente o que todos têm a lhe dizer...não tente camuflar seus ruídos internos com sua verborragia! Disso depende sua vida...ou sua não vida...posso com tudo, menos com o livre arbítrio...mas também ele tem um preço...no caso, que você ouça...ouça com atenção...e saiba que não se trata de fazer a escolha certa, mas de fazer a sua escolha. Depois...bom, depois é outra história.


Justine manteve-se quieta e cordata. Aquilo lhe parecia uma última oportunidade de caminhar, seja para onde fosse...o cheiro de Fernando invadiu suas narinas, e uma estranha paz tornou a espera menos doída...




Saiba o início em http://impressoesexpressas-claudia.blogspot.com/2011/08/elipse-temporal-o-truque.html e siga os links. Boa leitura!

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A Tela (Justine...)

arquivo pessoal

Então Justine atendeu novamente o chamado, e sem pensar duas vezes, desceu uma vez mais as escadas do subterrâneo para encontrar seu anjo-protetor-algoz que, aparentemente, tinha muito a lhe dizer. Estava enjoada, havia abusado expressivamente do álcool  nos últimos dias. A turnê pelo Japão foi especialmente degastante na companhia de Fernando, não havia alegria que se sustentasse entre os dois...Ela, imprecisa demais, ele, por demais obsessivo com tudo que é exato e supostamente incontestável, como seus complexos acordes de violão...

Justine estava cansada, abatida, o que não era raro. A porta do "Anjo" estava aberta, ela sentou-se em abandono. Pela primeira vez, se sentia em casa.

-Oi, querida...-saudou a Criatura com atípica cordialidade.

-Oi, estou aqui...ainda tem aquele canto guardado pra mim? Estou tão cansada...não aguento mais...não aguento essa tela em branco que é minha memória! Consigo pintar tudo, menos minha própria história. Não aguento mais tentar ser do tamanho exato dos sonhos de Fernando...nunca sou bela, ou boa, ou gostosa o bastante, nem sequer inteligente o bastante, nem lúcida o bastante...e não tenho ninguém nesse mundo...

-Tem sim. Está dentro de você.

-De que adianta uma história trancada em minha mente deletada?

-Não falo disso. Você está grávida.

Justine foi tomada de horror, não se via cuidando de ninguém, ela que não sabia cuidar nem de si mesma. Enquanto vomitava, movida ao stress da notícia, a criatura afagava seus cabelos.

-Calma, Justine, isso não é o fim. Pode ser um novo começo.

-Impossível, Criatura! Não trepo com ninguém há séculos! Não que me lembre...sou eu sempre quem toco Fernando  ele nunca esteve dentro de mim, isso é impossível!!! Acho até que ele me odeia!

-Isso não importa. Você está grávida, não é hora de desistir. É chegada a hora de tomar posse de sua verdade pouco a pouco...é chegada a hora!

-Eu nunca transei com Fernando, como pode?

-Simples...ele também conhece o Truque. Ele também produz elipses temporais com um estalar de dedos, onde, de volta ao tempo real, só ele é capaz de se lembrar do que houve...ele te conhece há muito mais tempo do que você imagina... também cuido dele. A diferença é que ele tem lastros mais concretos que o seu, e sempre se lembra de tudo. Ele conhece a arte do cinismo, não que ele seja mal...é um mentalista que sabe jogar com as palavras e transformar tudo em verdade absoluta. Mas não é mal. Ele até gosta de você...aliás, você voltou grávida do Japão. Depois do primeiro show, onde ele resolveu se despir dos cachos com uma navalha enquanto você babava, ele simplesmente estalou o dedo e te deu tudo que você sempre quis dele...sexo selvagem.
colhida no google


Justine ouvia congelada enquanto a Criatura subterrânea continuava.

-E não é a primeira vez. Quantos anos você tem, Justine? Trinta e três...Ele beira ou já alcançou a quarta década, algo assim...ele sim, é uma "puta velha...". Vocês se viram a primeira vez há vinte anos atrás. Em uma festa da Escola de Belas Artes, onde você trabalhava desnuda para futuros artistas plásticos. Ele estava lá, procurava uma mulher que topasse posar nua para seu primeiro cd. Ele queria você, mas você não topou. Depois da aula pública, teve uma festa,onde o professor os apresentou formalmente. Lembro a música que tocava. Black. Sua preferida, e de tantos de sua geração, pelo menos os pouco menos alienados...vocês ficaram mudos durante alguns segundos da música, e na falta do que ser dito, simplesmente se beijaram, como numa cena de filme. Se beijaram longamente, foram conversar tempos depois em um boteco comendo pizza gordurosa...e foderam naquela primeira noite, ele morava sozinho ao pé da serra... Você nunca tinha transado com ninguém , apesar do seu jeito moderninho e safado. Você sempre foi muito mais doce e ingênua do que imagina... Você se esqueceu, mas por muito tempo ele morou em suas lembranças. Ele deu um jeito e te achou. Nunca casou, nunca teve filhos, e garanto: nunca se esqueceu de você. Se isso é Amor, isso já é outra história. Você está grávida, não tome nenhuma atitude sem pensar direitinho.
colhida no google


-Criatura...ele vai se mudar para Miami...está tudo certo...não tem espaço para mim na vida dele...ele tem contatos lá, uma cantora loira e linda o aguarda!

-Não se faça de idiota, Justine, isso agora é o menos importante...você leva muito a serio as coisas que ele fala para retroalimentar sua suposta psicose. Mas acredite: ele faz mais por você que qualquer pessoa nesse mundo! Até germina-la...

- Não posso, não consigo.

-Pode e consegue. Nem que isso custe seu próprio sangue. Agora vá! Sua memória vai voltar aos poucos. VÁ! - gritou a Criatura, diante de uma apavorada Justine que, uma vez mais, ganhou a rua em passos quase tão rápidos quanto o som.
............................................................

Justine e suas lembranças, Justine e sua cabeça oca e ventre repleto de Fernando...caminhou pelas ruas enquanto imagens de um tempo só seu pipocavam em sua cabeça, ainda sem fazer sentido. Lembrou-se de um Fernando olhando para ela, tímida, que perguntou:

-Gosta do meu corpo, Fernando?-Aquela Justine não tinha mais que vinte e dois anos.

-Gosto muito.

-Mas não é um corpo bonito...minhas coxas são grossas demais...

Ao que Fernando respondeu antes de afundar o rosto entre as pernas de Justine:

-É você. É o que basta para serem lindas...suas pernas, seu corpo, seus cabelos, sua boca tão graaaande...

E de repente, num "fade-out", aquela imagem se desfez em sua cabeça, que Justine mal conseguia manter erguida de tanta dor.

Justine chegou trêmula ao ateliê vermelho. Trêmula e amedrontada como nunca. Queria a segurança de uma caixinha onde ninguém pudesse incomoda-la...não pensava exatamente em morrer, se esconder talvez...tinha muito medo de lembrar, o que ironicamente desejou por tanto tempo...Era tanta a dor que sentia que começou a arrancar com as unhas as próprias peles do braço, num inconsciente rito de desvio da dor...viu brotar a primeira gota de sangue. Aquilo a fez sentir-se viva como nunca. Na mesa, viu um estilete, na sua frente, uma tela em branco, e em sua cabeça, uma idéia de como se guardar...
...........................................

Fernando, cansado de tocar a campainha, meteu o pé na porta do ateliê-casa de Justine. Acabava de chegar de um encontro com a criatura e fora aconselhado a procurar pela mulher de quem nunca se esquecia enquanto fosse tempo e ela não sumisse de vez. Para seu horror, todo o chão estava lavado de sangue num caminho até a tela vermelha que se exibia no cavalete, com imprecisos traços de carvão. Encontrou ainda um estilete, também repleto de sangue. Revirou com desespero o apartamento onde Black tocava no replay infinitas vezes. Gritou num urro que nem ouvidos caninos alcançariam. "Justine, Justine!", onde estaria "Sua Justine e sua semente?"? Arrancou com violência a tela vermelha onde uma transfigurada face de Justine olhava para ele. Não havia evidências de que Justine não estivesse morta...nem viva...mais uma vez, nada era evidente. Chorou como criança abraçado à tela que tinha o cheiro de seu amor-ódio-amor...adormeceu exausto, com uma fagulha de esperança...com sorte, ele  encontraria...morta ou viva...nunca a desejou tanto por perto...


Saiba de primeira aparição em 
http://impressoesexpressas-claudia.blogspot.com/2011/08/elipse-temporal-o-truque.html e siga os links.

Até qualquer dia...




terça-feira, 20 de setembro de 2011

Furtiva lágrima presente (de Justine para Fernando)...


Chegaram ao ateliê tarde da noite, ou cedo de madrugada. Ao se despedir à porta do quarto de Justine, ele olhou para ela, inescapavelmente nos olhos. Pensava em agradecer, mas aquele olhar, entre o sorriso e a malícia, devolvia-lhe um "não disse que ia ser bárbaro!". Ele aquiesceu pra si mesmo e levou milissegundos para corresponder ao abraço  que Justine lhe dava. Era dela, sempre, o ímpeto da despedida, quase como fuga.

Novamente aquele abraço para o qual ele, inconfessadamente, nunca conseguia definir a não ser por paixão, tentando sempre escapar do pensamento. Prontamente convinha com sua consciência que Justine para quase tudo era intensa, como um jato de cachoeira, que quase nos derruba, mas parece levar pra longe quaisquer resquícios de problemas. Fernando adorava cachoeiras tanto quanto amava amêndoas...

Essa era a "Justine dele"! Parecia fria e cortante, mas não tinha desalento que não fosse capaz de revigorar. De repente, quase a soltou. Por sorte o abraço terminara, só então se deu conta que "Justine dele" era uma expressão quase tão sólida que passava a pesar sobre seu peito. Sorriu entre o abestalhado e o tímido que o compunham naquele momento. E concluiu ter sido uma boa noite, mais terna do que ele jamais se lembrara, ou tão terno como sempre fora. Ambos. Fernando teve a incômoda convicção de que esta seria uma noite de paradoxos. Daquelas em que uma sinfonia era despejada através de seus poros.

O tempo insuportável que por ele passava, sentado à cama de Justine que caminhava de um lado para o outro enquanto murmurava uma de suas canções, o arremessava braviamente contra as paredes das contradições. Ele queria a todo custo acreditar que o olhar sorridente e malicioso de Justine era paradoxal em relação à "minha Justine". Tal combinação seria necessariamente recusada por ela. De forma direta e afiada, como de costume, nos diálogos em que ele tentava em vão convencê-la de qualquer coisa. Justine já o convencera até mesmo que a roupa, que ela lhe escolhera certa vez, para um desses intermináveis eventos, não o deixava com frio, mas excitado com o acontecimento.

Diante do impasse, acolheu avidamente a primeira constatação que escapava daquele turbilhão entre o medo e (absurdo!) o desejo. Levantou, quase num salto, como se o turbilhão residisse naquela cama. Sim, ele iria dizer a Justine que ela de fato estava certa ao convencê-lo a ir ao Japão. Diria isso, lhe daria um beijo na testa e toda aquela contradição esse dissiparia. Fernando, quando encontrava uma escapatória para alguma confusão ou constrangimento, agia com determinação, lépido. Não notou como chegou à porta.
Já ia bater uma segunda vez, quando ouviu Justine: "Está aberta!". Não se lembrava de tê-la aberto, a cena que encontrou catapultou qualquer sensação, pensamento, intenção, ou dúvida que estivesse a menos de um metro de si.

Ele gostaria de não acreditar no que via e tenta fazê-lo com as forças que pareciam existir, mas sumiam em direção a Justine, que já não usava mais o vestido curto preto que quase sempre usava (era a cor dos produtores, nunca ameaçaria a atração principal, dizia ela), discreto, mas decotado o suficiente pra exigir sua atenção inúmeras vezes ao longo das noites...Justine era o centro de suas atenções, sempre, desde que a conhecia, concluiu, já a beira do pânico. Piscou tentando desmanchar a cena. Ela, sentada em uma cadeira um pouco adiante da porta, de perfil. Cigarro na mão, parecia brincar com a fumaça. Ele tentou esconder-se naquela fumaça, mas já se encontrava rendido à contemplação. O pânico aumentou quando ele percebeu não decidir se não conseguia, ou não queria tirar os olhos de Justine. Ela vestia agora algo como um blusão longo de tricô ou crochê (nunca lhe ocorria a diferença), cuja cor ele decidiu chamar de bordô. Provavelmente desceria até as coxas se ela estivesse de pé, blusão ou vestido, tentou polemizar consigo mesmo. Inútil.


Não eram os olhos amendoados, o sorriso confinado pelo batom vermelho vívido que centralizavam a atenção de Fernando, e sim uma das coxas de Justine que o blusão deixava descobertas – os joelhos permitiam que escapasse. Foi ainda pior. Nada! Os pés talvez. Como nunca notara aquelas coxas? Como nunca, nunca (!) notara aquelas coxas!?  Por alguns momentos sua existência dependia disso. A única coisa capaz de libertá-lo da eternidade foi o movimento de Justine que, ao olhá-lo, inclinou a cabeça e sorriu, novamente lábios e olhos. Aliás, muito, muito pior!

Agora não só estava absorto com a imagem de Justine, mas, era irresistivelmente sugado como num zoom por aquela combinação de brilho risonho e o carmim dos lábios. De nada mais sabia, talvez preferisse voltar às coxas. Ao menos morreria plantado próximo à porta. Tentou andar o mais calmamente possível em direção a ela. Teve convicção de que atravessara a porta, mas não se lembrava mesmo de tê-la fechado atrás de si.

Finalmente encontrava duas possibilidades para resistir àquela atração imperativa. A expressão de Justine, agora, denotava carinho. Era raro ele dar-se conta. Ou ainda, a maquiagem, qualquer que fosse o nome do que as mulheres usavam em torno dos olhos, revelando o percurso de uma única discreta lágrima, que por certo já encontrara repouso em alguma dobra de sentimento. Pretendia filosofar devotamente sobre a expressão e a lágrima. Quase conseguiu tempo de sentir-se aliviado.

Tarde demais, ele deu-se conta que saltara do abismo sem fim para o rio de lava. Justine lhe estendera a mão e ao aproximar-se, notou que não havia qualquer contenção entre o blusão e o corpo de Justine. Nada parecia mais urgente e crucial do que sucumbir blusão adentro. Para seu desespero, não sabia onde haveria menor perdição, no decote que lhe entreabria os seios e que, confessamente, sempre o capturavam, ou na discreta penugem que se insinuava abaixo do blusão.

Despertou com um leve e carinhoso aperto da mão de Justine. Providencialmente, Justine deixou escapar: "Conseguimos, não foi?". Naquele momento o encanto da voz de Justine nunca havia parecido tão doce. Mas era distração suficiente para que ele pudesse agachar-se ao lado dela, não sem dar um ligeiro passo ao lado, decidido a não arriscar um segundo confronto, talvez até diretamente com aquele púbis, como ele percebia, um desafio que seria capaz de livrá-lo até mesmo de uma singularidade cósmica. Entraria em outra, por certo. Sua voz nunca lhe pareceu mais decisiva, do que quando enfim disse a ela: "Justine desde o começo da noite estou para agradecer a você por ter me convencido a ..."

Um dedo de Justine desceu para calar suas palavras. Com a outra mão ela o erguia pelo ar, em direção à cama. Não havia sinal de lascívia em Justine, surpreso, notou que era quase uma constante... mais uma vez Fernando foi lançado em um corredor emocional. Queria repetir aquele gesto, e teria que ser com Justine. Andar de mãos dadas, passos erráticos ou sincronizados. Experimentava um carinho libertário pelas mãos daquela mulher que ia sendo revelada diante dele. Despertou aflito!

Felizmente Justine o havia colocado sentado na cama e, deitada, repousava a cabeça sobre suas pernas, os olhos dela vasculhavam languidamente um invisível horizonte além das paredes. O silêncio preencheu o ambiente, não como impasse. Ambos cumpliciavam-se de uma felicidade morna e serena. A turnê pelo Japão já era consagradora e prenunciava outras por países da Europa e Ásia (novos ricos sempre tentam, em vão, ostentar a cultura – esta que, fatalmente, reduz-se ao seu nível). Como se estivessem comentando o assunto, Fernando diz: "...mas precisamos programar um tempo pra conhecermos de fato esses lugares e não apenas passar por eles. Você já nos conduziu a uma boa estabilidade financeira, vamos curtir um pouco."

Justine, que trazia um olhar contemplativo pareceu acender. Olhou nos olhos de Fernando como que tentando se certificar que ouvira mesmo aquelas palavras. "Realmente incomuns, partindo dele", pensou Justine. Confuso, Fernando já começava a se censurar...

Preservando o sorriso, ela estendeu um dos braços a frente. "Já comentei que sei alguns truques?"
Sem pensar ele afastou o cabelo distraído sobre os olhos dela. "Sempre preferi você com seus próprios recursos, não foram seus truques que nos trouxeram até aqui"

Ele pode sentir um trepidar pelo corpo de Justine. Sem entender o que ela fazia, sentiu-se grato, seu impulso era de tomar Justine pelo corpo até conseguir alcançar-lhe a alma, supunha ele, refundando a anatomia, mas ela agora havia virado o rosto para ele e começava a abrir-lhe o zíper da calça mais uma vez... Ele levou alguns segundos para entender a finalidade daquele movimento. Na verdade, entendeu prontamente, o que não fazia sentido era acreditar que estava, de fato, acontecendo. Atônito, ainda imaginou que Justine estava habituada a manipular seu corpo. Ele não teve tempo de decidir se reagia ou observava. Já arqueava levemente o colo para facilitar-lhe o acesso das mãos.

Justine trouxe seu membro para fora. E lançava para ele um olhar que, agora sim, despejava lascívia pelo quarto todo. "É seu!", sussurrou ele, obviamente possuído por algum íncubo oriental residente no saquê tomado dias atrás, bem no último segundo em que Fernando ainda era algo além de um pênis. Ela não esperou pelo seu espanto. E Fernando teve a sensação de que sentia falta daquela boca. Teve, então, a certeza de que sua razão o abandonara. E ele todo era saborosamente devorado de um modo que nunca lhe pareceu tão eloquente. Era puro sentido e prazer, enquanto Justine demonstrava inacreditável intimidade com os caminhos que seu prazer percorria.

Houve um tempo suspenso que Fernando gostaria de cristalizar em holografia. Enquanto sentia seu corpo inteiro anunciar o êxtase, teve a lúcida certeza de que não era a primeira vez que aquele mesmo prazer lhe inundava. Se tivesse algo de racional em si, teria entendido que o truque de Justine era uma maldição, o milagre era o que ocorria durante o truque, pelo poder e ação da própria Justine. Desejou-a como sempre, entendia agora. Como se nunca tivesse sido diferente e aquela mulher, que comandava como seu prazer se daria, muito além de companheira e protetora, fosse sua estrela de paz, esperança e virtudes. Esta era a síntese do prazer que se esvaía de seu corpo, como que voltando à sua origem: Justine. Ela, de fato, parecia se alimentar do que descia boca adentro, riso afora.

Ele precisou de muitos segundos para que a realidade conseguisse alcança-lo. Brigou com a consciência que queria a todo custo lhe roubar do espaço-tempo que era verdadeiramente seu e onde, descobrira, vivia com Justine. Fora do tempo, dos truques, da consciência e acima de qualquer distração que a suposta vida real lançava sobre ambos. Ali vivam suas próprias suas verdades, sem receios, sem certezas, em suma, livres.
Quase triste, Fernando percebeu-se violentado pela própria lucidez. O único sinal de coerência verdadeira que conseguiu encontrar estava sobre ele, que agora deitado, tinha à sua frente os mesmos olhos de longos cílios que construíam seu destino e a boca rubra, ainda mais viva – descobrindo que isso era possível. O sorriso de Justine ... sempre estivera ali, nunca tão lindo, mas efetivamente presente.

Sua expressão novamente expunha risonha malícia. Ele tranquilizou-se por ter o privilégio de ser devorado por aquela mulher, muito mais fascinante e impressionável, como ele nunca vira, mas que sempre soube estar presente. Preferiu não interpretar naquele momento o sentido que a razão daria àquela conjunção de sinais.
Aquela imagem era cada vez mais inescapável. Queria possui-la totalmente, mas seu corpo não queria mais que abraçá-la, beijá-la, ou seja, tornar-se parte das suas virtudes. Mal teve tempo de entender as palavras que seus lábios emitiram: "Minha Justine, eu vou tomar você pra mim."

Como que acionados por aquelas palavras, os olhos de Justine prontamente brilharam libertando por um deles a segunda lágrima furtiva da noite. A derradeira daquela Justine, violentada de medo e descrença. Agora pertencia apenas a si mesma. Como sempre fora...




quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Dos Escombros (Mais de Justine e Fernando)

imagem colhida no google

Ela, que sempre andou na contramão de todas as coisas
Não por convicção ou rebeldia
Só por não saber ser de outro jeito...
Um dia deu de cara com ele
Em uma de suas andanças contra o vento
Ela, que sempre quis sentir todas as coisas ao extremo
Da ternura ao tormento
Vislumbrou nos longos braços dele um ninho de paz
Onde nada era triste, nem mau, nem grave
e seu jeito calmo substituiu o vendaval
e o banzo do cair das tardes.
Ela desejou ficar ali quase pra sempre
Como nos contos de fada
Onde tudo é selado com um encontro de lábios
e acordo de almas (onde andará a dela?)
As mãos macias dele apagavam suas dores
Como borracha suave que apaga os erros sem rasgar o papel
Dizimando um sem fim de rancores
Ele também era paixão etérea
Um dia disse pra ela com seu jeito de dizer coisas sérias:
"Tudo é foco, Justine, tudo é foco."
Ela, inexata e perdida por natureza
Desejou viver por um minuto em seu mundo de cálculos seguros
Fórmulas, medidas e certezas
Quis ainda ser do tamanho do seu sonho
Sem mesmo saber se ele sonhava (teria Fernando sonhos ao dormir?)
Ele que, não raro
Beijava de olhos bem abertos
Desconfiados, despertos...
A louca e o cartesiano
Buscando em uma linha reta a menor distância
Dois pontos no oceano
Justine, que nunca soube a justa medida de nada
Perdeu seus abraços como quem perde braços
Perdeu seus beijos como quem perde alimento
Perdeu seu corpo como quem perde abrigo
Perdeu a terra, seu grande elemento
Perdeu-se de si, perdeu o juízo.
Foi se acreditando má e perversa,
Afogada em egoísmo e dor
Má e perversa?
Pois assim não são as que andam na contramão?
A causar acidentes?
A desviar a rota dos que caminham decentes?
Extremidades frias...
Dele não restaria nem a semente
No máximo um afago clemente
E uma Justine quase demente
Sem saber o que é amar diferente...



segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Justine e o Renascimento.




arquivo pessoal

Justine, meses antes de encontrar Fernando pela primeira vez, pensou mais uma vez em desistir de sua existência repleta de nuvens, onde nada se encaixava em sua cabeça. Sua vida era uma sequencia de dias vazios de sentido e direção, pintando quadros que dificilmente saiam de seu ateliê vermelho-útero. Levava uma vida livre, se esquivava do amor como uma gazela foge de um leão, sorvia dos homens o prazer bruto (e as vezes, também das mulheres, mas o cheiro masculino sempre a emocionava mais...), desprovido de qualquer sentimento maior. Ela amava o Amor, mas tinha certeza de que esse tal de Amor não caberia em seu corpo, tampouco alcançaria sua alma que nem mesmo a própria Justine sabia por onde andava.

Naquela noite, abriu os olhos colados por trinta e seis horas seguidas de sono. Abriu com dificuldade. O chão frio do banheiro não a incomodava mais que a tênue luz acesa no recinto. Do vaso, um cheiro de vômito impregnava o ar. Enfim, havia sobrevivido de novo. E de novo, e de novo...teimosa pulsão de vida sempre a driblar a Loucura...

-Boa noite, Senhorita Justine.

-Você aqui?- Impaciente, Justine deixou escapar um suspiro. Lá estava a criatura que fazia o papel de anjo da guarda de modo nada convencional...

Muitas vezes Justine se perguntava se aquela mulher (tinha a tal criatura uma aparência feminina) não seria uma enviada do oitavo halo infernal de Dante. E não havia um "Virgílio" a conduzi-la de volta em tantos descaminhos do espírito. Somente aquela "Mulher" em vestes medievais e temperamento frio, que naquele dia se apresentava tão nua quanto Justine, deixando a mostra asas tatuadas nas costas que vez por outra ganhavam vida de modo bizarro.

imagem capturada no google

-Te esperei no subterrâneo, você não apareceu. Dezesseis quadros em uma semana, e você não faz nada com essa merda.

-Um dia vou expô-los...- Justine pousou o rosto no chão frio, sua cabeça doía.

-Duvido muito. Você no máximo se deixa ver em coletivas medíocres, sua insegurança nojenta não lhe deixa avançar. Levante agora desse chão!

Justine se levantou com dificuldade, vestiu uma calcinha vermelha jogada sobre a velha banheira e caminhou alheia ao "blablablá" até a janela do quarto de entulhos. Mas o "Anjo" nunca desistia fácil.

-Justine, eu ainda me importo com você, e nem fui eu quem escolhi essa ingrata missão de cuidar de sua vida. Até quando você vai encarar seus demônios em duelos de esgrima empunhando palitos de dentes? Você sempre se fere, mas não abate o inimigo. Isso me enche demais.

-Não quero abater nada além do meu mal estar.

-O mundo odeia gente deprimida. Da próxima vez, que tal se atirar dessa janela?

-Boa idéia.

-Você sabe que te resgato até em céu aberto...mas vai que eu mudo de idéia.

-É um direito seu.

-O cara com quem você dormiu não estava mais ao seu lado quando acordou, e mais uma vez você se sentiu um lixo...mas como? Você diz que não liga para amor.

-Não ligo mesmo. Mas me canso. Você apagou minha memória, nem tenho para onde ou quem voltar...

-Acredite, melhor assim...esse aqui é seu lugar. Você tem uma casa, é um começo. Você tem um talento, é um caminho. Você tem dois pés, faça-os caminhar! Pare com essa histeria pra chamar atenção, ninguém está aqui pra ver.

-Você está.

-Eu não sou gente, Justine, não conta.

-Gostaria que você fosse embora...já que estou viva, quero terminar mais quatro quadros, é minha meta. Vinte obras nessa série.

-Ok, então pare de foder com estranhos. Você é muito mais sentimentaloide do que pode supor.- Dito isso, a Figura se desfez em fumaça.

 Justine caminhou até a janela. Do outro lado da rua, duas crianças fumavam crack. Por um minuto, teve vontade de chorar, mas não o fez. Voltou para o ateliê, ainda faltavam quatro quadros afinal... quatro quadros, depois...bom, quatro quadros para seguir teimando em vida.

Acompanhe a história e siga os links a partir de : http://impressoesexpressas-claudia.blogspot.com/2011/08/elipse-temporal-o-truque.html?spref=fb

Leiam ainda: Justine (O Confronto após o Truque)Fernando muito antes do "Truque"...

Ravel plays Ravel, Pavane pour une Infante Defunte



terça-feira, 6 de setembro de 2011

Fernando muito antes do "Truque"...

HENRY MATISSE
L'atelier rouge, 1911

(O Atelier Vermelho)
óleo sobre tela

Em uma bar para putas, Fernando viu Justine pela primeira vez. Estava sentado no balcão do estabelecimento quando percebeu a linda Justine sentada na área externa fumando um cigarro, enquanto a outra mão sustentava um dry-martini. Ele gostava de conversar com as putas, "psicólogas/carentes" por excelência. Não era de comer putas, não sempre. Simplesmente gostava de suas histórias onde o Real transitava na fantasia e a Fantasia extrapolava o Real. Era divertido e seguro, não havia o Tal do Amor em jogo. Aquelas histórias alimentavam suas inspirações para novas canções. Justine usava um velho jeans, um par de All Star's surrados, uma camiseta branca que deixava a mostra os desenhos da renda de seu sutiã também branco e...um intrigante colar de pérolas, que por incrível que pareça, não brigava com a displicente aparência daquela mulher de madeixas escuras e meio desgrenhadas.

Fernando tinha acabado de tocar em um barzinho, coisa que ele odiava fazer. Não se sentia bem, como a maioria dos músicos, em ser música ambiente para bêbados e famintos que sempre gritam "Toca aquela do..."... ao que ele sempre respondia mentalmente "...toca aquela é o caralho!". Fato é que Fernando odiava executar qualquer música que não fosse a dele, não fosse a necessidade de ganhar algum e não deixar seu instrumento mofando dentro de uma case. Estava até pensando em fazer bolos pra fora e desistir da música...quando sentia isso, acabava indo no bar das putas. Elas faziam ele, um carismático por natureza, se sentir o máximo. Não tinha namorada, não tinha saco pra namoradas. Tinha um fuso horário e um tempo que dificilmente alguém acompanharia. Saía de vez em quando com uma atriz de quinta, que não lhe causava grandes problemas, era linda e não implicava em grandes gastos.

Em meio ao vai e vem de meninas, lá estava Justine e seu olhar fixo no Nada. Percebeu que ela dispensava com a cabeça as abordagens masculinas e um suave gesto com a mão. Percebeu também o momento em que ela travou uma longa conversa com uma das "meninas" que trajavam meio metro de pano naquela noite fria para os cariocas...seria uma cafetina? Estaria atrás de um programa? Assistiu atento ao diálogo, mas não conseguiu captar nada com seus ouvidos apurados o que elas diziam. Curiosidade foi o mínimo que começou a sentir naquele momento. Pediu uma dose de uísque, a oitava da noite, mas se conservava estranhamente lúcido.

Em dado momento, Justine entregou um cartão para a menina e se sentou em uma mesa na varanda. Ele não pensou duas vezes, e de uma só vez, num só impulso, foi até ela.

- Olá...posso me sentar?

-Não faço programa.

-Imaginei que não...

-Então pode...- consentiu olhando para o mar que espalhava cheiro de maresia no ar.

-O que faz aqui?

-Bebo...- respondeu sorrindo.

-Vamos tomar um vinho?

-Não acho que vá cair bem com seu uísque e meu martini...

-Vinho é sempre bom...

-Meu nome é Justine. E o seu? Não gosto de falar com estranhos...

-Fernando. Mas isso não nos faz menos estranhos...-ponderou rindo. Ela riu também, um riso contido, quase pra dentro.

-É o primeiro passo pra mudar essa condição...Fernando...veio fazer um programa?

-Não. Vim encher a cara. As doses aqui são especialmente generosas...deve ser pra baixar o senso crítico do sujeito, assim as garotas bombam mais...e você?

-Eu pinto. Vim atrás de modelos vivos. Gosto daqui, há todo tipo de mulher...pago o que seria um programa e as poupo de algum pau imundo...tenho um ateliê no Centro do Rio, onde moro.

-Então seu trabalho é quase o de uma assistente social...

-Claro que não...não sou bondosa assim...vejo na expressão dessas mulheres toda a loucura que não encontro no senso comum. É só minha opinião...algumas ficam minhas amigas. Outras, não vejo nunca mais...prostitutas somem o tempo todo...uma pena...sofrem um bocado...

-Talvez você seja boa sim...

-Ah, sou boa pintando...

-Você só pinta mulheres? Ou pinta homens? Vai atrás de michês para poupa-los de alguma buceta imunda?

-Não. Há sempre curiosos perdidos na noite como você...não é raro que venham a mim com facilidade. Por exemplo, você tem um nariz bonito e belos cachos, rosto anguloso...daria um belo estudo... olhos azeitados...

-Rárrárrá, boa! Me pagaria por isso?

-Claro.

-Sou um homem de quase quarenta anos...não me imagino numa pintura...

-Quem tem que imaginar aqui sou eu...eu tenho muita imaginação...se quiser, deixo fumar um baseado...sempre tenho algo em casa quando alguém precisa relaxar...embora não curta.

-Ah, eu também não curto...passei da fase...prefiro uma emoção mais forte e destilada...isso é um convite, entendi direito?

-É. Trezentos reais.

-Uau! Mais do que ganho tocando em uma noite...tentador, mas não sou modelo.

-Não gosto da arrogância dos modelos profissionais. Já tenho a minha pra administrar...sabe que me deu vontade de te pintar? Eu quero te pintar.

Justine conseguia quase tudo que queria.

-E qual seria a forma de pagamento?- perguntou, seguido de uma gargalhada sonora.

-Cash. Cento e cinquenta agora- Justine já abria a carteira-  e cento e cinquenta depois...- concluiu, pousando três notas de cinquenta na mesa.

-Mas você já não arrumou uma menina?

-Isso é pra outra hora...hoje queria mesmo uma face masculina...não precisaria nem tirar a roupa...

-Dependendo do contexto, não seria um problema...-riu-se Fernando.

-Nesse contexto seria. Estamos falando de trabalho.-rebateu, de pronto, Justine.

-Quer saber? Tô bêbado. Deus protege os bêbados e as crianças...eu topo.

....

Chegaram no ateliê de Justine, um apartamento de muitas paredes vermelhas, pé direito alto, pouquíssimos móveis, uma cortina de filó protegendo precariamente a visão da grande sala contra olhares curiosos do prédio em frente. Ela parecia não ligar.

-Quer beber alguma coisa?

-Água.

Justine ofereceu um cantil de barro sobre um aparador.

-Beba. A geladeira quebrou, ainda não tive saco nem tempo pra mandar consertar. Está boa e é mineral.

Fernando bebeu a água, estava com muita sede, e curioso além da conta com o desfecho daquela insólita noite. Quando parava na casa de estranhas, invariavelmente era para trepar. Fernando buscava com os olhos algo que contasse um pouco dela...tinha um certo receio de perguntar. Nas paredes, telas penduradas sem simetria denunciavam de fato um grande talento. Outras estavam apinhadas nas paredes impregnadas de cheiro de solventes. Não havia uma foto sequer, senão um óbvio auto retrato onde apenas as pérolas a vestia. Nenhum bibelô, nenhum enfeite típico de moradas femininas. Aquele lugar guardava segredos, era a sensação que tinha. Talvez o vermelho falasse um pouco dela...tinha algo de beligerante no olhar de Justine.

-Preciso relaxar, minhas pernas doem...andei muito hoje...-Justine, sem mais, tirou as roupas, para o susto de Fernando, que à essa altura não via se chocando com quase nada...mas com Justine...estava perdido, sem saber o que pensar.

Justine tirou as roupas, jogou as pernas sobre uma cadeira de balanço atrás da qual uma lona velha escondia uma parede (de que cor seria?). No pescoço, o colar de pérolas que chamara sua atenção. Ela respirava profundamente.

-Justine...você disse que não teria esse papo de ficar pelado...

-Fernando...desculpe, não gosto de me vestir em casa. Te incomoda? Nem está tão frio...eu falava de você, não de mim.

-Claro...fique à vontade...você gosta desse colar, não?

Justine levou a mão o pescoço, seu semblante assumiu um ar ainda mais distante.

-Foi a única coisa que meu pai me deixou -(Bingo! Provavelmente ela tinha um pai!)-, na verdade um presente para minha mãe, que morreu há muitos anos...sou filha de um banqueiro, mas filha bastarda...isso não resolve em nada minha vida...

-Sinto muito por sua mãe.

-Não sinta. Eu não sinto.

-E seu pai? Ele está vivo, sabe de você? Que história louca...

-Isso não é história! Ele é uma figura perigosa, não faço questão de manter contato!- havia um "quê" violento no timbre de uma defendida Justine.

-Calma...modo de dizer...quer falar mais disso?- Fernando teve um lampejo de carinho naquele instante.

-Quero pintá-lo, quem sabe não falamos disso e outras coisas, outro dia? Você aproveita e  me conta porque não está estourando. Caso não saiba, eu o vi tocar essa noite. Você é muito bom pra'quela merda de lugar...

-Então você me seguiu???- Fernando começava a se assustar.

-Claro que não...coincidências acontecem, pode acreditar. Sou boa fisionomista por razões óbvias!- rebateu Justine que já circulava pela sala organizando seu material no cavalete como se estivesse vestida.

-Tá...-Fernando continuava sem saber o que achar daquilo tudo, mas simplesmente não pensava em recuar.

-Agora arruma uma posição confortável de frente pra mim e fica quieto. Vamos começar! Daqui a pouco amanhece...

Fernando sentou como um iogue e sustentou o rosto com os olhos fixos em Justine. Encantadora, perturbadora Justine.

Justine começou a traçar os contornos de Fernando da mesma forma que se recriava todos os dias ao levantar...com a cabeça livre de muitos registros, aberta ao novo, sempre ao novo...dela, Fernando só sabia ser uma surreal e bela Justine. Ele fechou os olhos ao mesmo tempo em que Justine fez ecoar do pequeno sonzinho o "Inverno" de "Vivaldi". Aquilo, pelo menos naquele momento, deu-lhe uma relativa paz, a despeito das notas intensas...e ela seguia, com os olhos fixos e glaciais dos invernos russos, concentrada em sua obra...


sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Justine (O Confronto após o Truque).


Justine saiu do evento gastronômico com os papéis devidamente assinados por Fernando, ele que era sua "Glória e Danação". Feliz por sempre conseguir coisas...Estava zonza de tanto saquê e argumentações, mas levava na boca o gosto daquele homem que a fazia sonhar com olhos despertos, tanto quanto era capaz de leva-la à subterrâneos pesadelos de absoluta impotência...anyway, fato é que a turnê estava fechada no Japão...gostava do mundo de ponta-cabeça...

Depois de caminhar umas três quadras, seu celular tocou. Ao ver a sequência de asteriscos no visor, sentiu um arrepio percorrendo do cóccix à nuca...Ela sempre ligava nas horas mais inusitadas, e não raro, era obrigada a atender, querendo ou não. Dela dependia a sobrevivência e os pequenos poderes e "truques" de Justine.

-Alô...-atendeu em um vacilante fio de voz.

-Venha, Justine, temos que conversar. Sei que conseguiu o que queria, mas há regras que devo relembrá-la. Você não deve se esquecer de quem é e para onde vai.

-Mas se nem mesmo eu tenho essa resposta...-havia temor na então frágil voz de Justine.

-Você tem quinze minutos para descer aquelas escadas e me encontrar no lugar de sempre...tenho muitas almas perdidas como a sua para me preocupar...-click! Ela desligou o telefone sem mais delongas.


Justine apressou os passos. De tão nervosa, tirou o par de saltos-agulha e pôs-se a correr com os calçados na mão. Em dez minutos já descia as escadas para atender a demanda de quem orientava cada passo de sua vida. Após atravessar o escuro corredor que se apresentava quase infinito, ao fim dos degraus, respirou aliviada. Na porta cheia de asteriscos marcados, Ela aguardava Justine...a bela e atormentada Justine. Entrou delicadamente, sem bater, e lá estava a Criatura que vigiava atenta cada passo de seus "protegidos". A Criatura de semblante feminino estava displicentemente sentada em uma cadeira de mogno, sobre a qual outra vazia esperava ser ocupada para uma conversa de olhos contrapostos...nada mais havia naquela sala quase escura, senão as cadeiras e uma parede com inscrições em alguma língua morta ou desconhecida. Justine sentou e respirou fundo, em silêncio. Sabia que cabia a Ela iniciar as conversas.

-Justine, Justine...vejo que conseguiu mais coisas...mas conseguiu o que queria?

-Ele assinou o projeto...

-Então é isso mesmo tudo que você queria? Marioneta-lo ao seu bel prazer? Chupa-lo ao seu bel prazer? Ele nem lembra, Justine...para ele, você não passa de uma pintora metida a produtora extremamente mimada e ditatorial.

-Não acho que seja assim...

-Schhhhhhhhhiii...silêncio! Você não sabe nada, Justine. Você não sabe nada além do que deixo você saber. Nem tudo é para ser sabido nessa vida, sobretudo sobre sua vida...talvez eu deva situa-la melhor...

-Pensei que você fosse um Anjo em minha vida, mas sempre tão dura...na verdade, acho que não sei de mais nada.

-E quem disse que Anjos são bonzinhos? Essa história de Anjo é coisa da sua cabeça. Estou aqui para te orientar, e seu espírito voluntarioso e libidinoso me dá trabalho demais. Você me cansa. Acho que, de algum modo, você cansa todo mundo...você é linda...mas ninguém banca te conhecer. Te consumir é menos trabalhoso do que te conhecer. A Hilda Hilst, aquela autora que você gosta, já dizia..."beleza é uma coisa que dá vontade de comer". Tudo que se come acaba em merda, Justine. Você não quer ser amada. Você é uma recalcada querendo usar sua carinha para se dar bem. Acha sempre que o mundo lhe deve algo. Fala de si sem saber se inventa ou não...sua memória é um cocô. E melhor que seja...talvez, se lembrasse tudo, se mataria.

-Não sei se estou disposta a ouvir tanta besteira....se tão pouco se encaixa em minha história, tudo pode ser real...-ali se inaugurava a primeira resistência ao discurso de seu "Oráculo", "Anjo", ou "Algo que o Valha"...

-Quanto atrevimento...não me faça perder a paciência e destruir suas ilusões...você é essencialmente carne, pele, ossos e beleza quase estática...sabe lá por onde anda sua alma...não me faça perder a paciência...você  não passa de uma "Filha do Vento"...

Justine respirou beeem profundamente, como se ganhasse forças. Ela continuou.

-Você não faz jus a nova vida que tento lhe dar. Você é ingrata, desde que nasceu. Ingrata. Justine, ironicamente, não há justiça para você...só você pode alcançar esse entendimento, só posso lhe sinalizar...Fernando é bom demais pra você. Ele tem família, foi amado e desejado. E você, quer mesmo saber?

-Parece que você quer proteger Fernando...

-Quero lhe proteger de seus delírios românticos. Você é uma criatura sem lastro. Não cabe de modo convencional na vida de ninguém...e Fernando tem mulheres bem mais completas na vida dele...mulheres loucas para fazê-lo feliz...mulheres lindas que sabem quem são, que não caíram nesse mundo por acaso...o que definitivamente não é seu caso...acho que se você pudesse lembrar, repito, provavelmente se mataria! Talvez seja um caminho.

-Definitivamente não é.

-Nossa...algo mudou em você...experimentou o Amor por um cara que CAGA para você e nunca vai querer uma vida ao seu lado. Amor tira tudo dos eixos, você já foi mais grata, querida...você brinca de congelar o presente, mas isso só se perpetua em sua lembrança...nunca se tem tudo...além de não conseguir acessar seu próprio passado e origem...você anda querendo demais. Está por demais rebelde pro meu gosto. Ele não te ama. De um modo avesso, ele é tão especial quanto você, Justine. Você é uma perdida com ares de poderosa, ele sente isso...ele tem História. Pode provar quem é para além de uma corrompida carteira de identidade como a sua. Você acessa em Fernando uma "Síndrome da Salvador", e um certo tesão, mas isso não é amor. Se toca.

-O  que sua suprema sabedoria sugere?- Justine não resistiu em cair em raivosa ironia.

-Na porta ao lado há pessoas como você que tentaram ir além do que se pode e acabaram loucas...eu cuido delas...saíram de cena antes de causar danos maiores...se mataram para esse mundo que se estende sobre esse subterrâneo...há lugar também para você e sua história, que só Eu tenho o Poder de desvendar...Da mesma forma que te dei "alguns poderes", os retiro a hora que Eu bem entender.

-Você não é Deus.

-Claro. Por isso existo. Para dar conta daquilo que Ele acha que não vale a pena. Alguém olha pelos desvalidos...

-Deus está para tudo e todos. Não preciso de você para saber disso. Faça o que quiser, não quero mais ouvi-la...

-Mas deixe te contar de você, já disse que aqui tem vaga!!!

-BASTA! Não confio mais em suas histórias editadas! Quem me garante que esses poderes me foram dados por você? Nem sei como isso começou! Você sempre fala o que quer, eu sempre engulo! Vou para o Japão! BASTA!

-Tenho gente minha lá fazendo o que faço...estou em Toda parte! Vou te contar...e depois, te levo ao seu novo aposento...te garanto tintas e pincéis para se distrair nas paredes...

-NÃÃÃO! Eu disse BASTA! Há outra forma de saber quem sou...e se não houver, posso levar minha vida como se tivesse nascido AGORA! Hoje pode ser meu dia "1", com ou sem poderes estúpidos! Não sou Santa, mas não vou ser a palmatória do Mundo!

Justine levantou-se sem olhar para trás, sem perceber os olhos tracejados de preto pelo choro vertido, e saiu em disparada rumo a luz do Mundo. Subiu de três em três degraus e ganhou a rua...em momento nenhum foi perseguida, ainda reinava a soberania do livre arbítrio, em algum momento Justine saberia disso...

Caminhou cansada até uma praça e abandonou o corpo exaurido em um banco pintado de verde. Tentava lembrar de sua infância, mas não vinha nada. Uma mulher amamentava um bebê, deixando-a comovida. De algum modo, cenas como aquela geravam empatia em Justine, que sempre viveu sozinha em seu quarto vermelho...um casal de pombos namorando distraía seus olhos quando o celular tocou. Não sentiu medo, não pensava "Naquela Coisa" e isso era raro.

Era Fernando. Atendeu quase feliz.

-Oi, Justine!

-Oi, Fernando! Nos falamos ainda há pouco...

-Acho que tenho sido bem chato contigo. Depois daquele almoço cheio de especiarias, que tal um singelo sorvete de baunilha para refrescar a alma e comemorar nossa ida para a "Terra do Sol Nascente"?...dizem que lá o dia chega primeiro, não é?

-Um sorvete?-um sorriso inteiro se desenhou em Justine.

-De baunilha. Vamos comemorar o recomeço. Pelo menos, é uma tentativa...
....................................................................................................................


Saiba mais do começo de Justine e Fernando em:  http://impressoesexpressas-claudia.blogspot.com/2011/08/elipse-temporal-o-truque.html e dê uma passadinha em http://impressoesexpressas-claudia.blogspot.com/2011/09/fernando-muito-antes-do-truque.html  ...



Conto em projeto não linear "Justas Injustas Justines", de Claudia Cristina Tonelli.