terça-feira, 6 de setembro de 2011

Fernando muito antes do "Truque"...

HENRY MATISSE
L'atelier rouge, 1911

(O Atelier Vermelho)
óleo sobre tela

Em uma bar para putas, Fernando viu Justine pela primeira vez. Estava sentado no balcão do estabelecimento quando percebeu a linda Justine sentada na área externa fumando um cigarro, enquanto a outra mão sustentava um dry-martini. Ele gostava de conversar com as putas, "psicólogas/carentes" por excelência. Não era de comer putas, não sempre. Simplesmente gostava de suas histórias onde o Real transitava na fantasia e a Fantasia extrapolava o Real. Era divertido e seguro, não havia o Tal do Amor em jogo. Aquelas histórias alimentavam suas inspirações para novas canções. Justine usava um velho jeans, um par de All Star's surrados, uma camiseta branca que deixava a mostra os desenhos da renda de seu sutiã também branco e...um intrigante colar de pérolas, que por incrível que pareça, não brigava com a displicente aparência daquela mulher de madeixas escuras e meio desgrenhadas.

Fernando tinha acabado de tocar em um barzinho, coisa que ele odiava fazer. Não se sentia bem, como a maioria dos músicos, em ser música ambiente para bêbados e famintos que sempre gritam "Toca aquela do..."... ao que ele sempre respondia mentalmente "...toca aquela é o caralho!". Fato é que Fernando odiava executar qualquer música que não fosse a dele, não fosse a necessidade de ganhar algum e não deixar seu instrumento mofando dentro de uma case. Estava até pensando em fazer bolos pra fora e desistir da música...quando sentia isso, acabava indo no bar das putas. Elas faziam ele, um carismático por natureza, se sentir o máximo. Não tinha namorada, não tinha saco pra namoradas. Tinha um fuso horário e um tempo que dificilmente alguém acompanharia. Saía de vez em quando com uma atriz de quinta, que não lhe causava grandes problemas, era linda e não implicava em grandes gastos.

Em meio ao vai e vem de meninas, lá estava Justine e seu olhar fixo no Nada. Percebeu que ela dispensava com a cabeça as abordagens masculinas e um suave gesto com a mão. Percebeu também o momento em que ela travou uma longa conversa com uma das "meninas" que trajavam meio metro de pano naquela noite fria para os cariocas...seria uma cafetina? Estaria atrás de um programa? Assistiu atento ao diálogo, mas não conseguiu captar nada com seus ouvidos apurados o que elas diziam. Curiosidade foi o mínimo que começou a sentir naquele momento. Pediu uma dose de uísque, a oitava da noite, mas se conservava estranhamente lúcido.

Em dado momento, Justine entregou um cartão para a menina e se sentou em uma mesa na varanda. Ele não pensou duas vezes, e de uma só vez, num só impulso, foi até ela.

- Olá...posso me sentar?

-Não faço programa.

-Imaginei que não...

-Então pode...- consentiu olhando para o mar que espalhava cheiro de maresia no ar.

-O que faz aqui?

-Bebo...- respondeu sorrindo.

-Vamos tomar um vinho?

-Não acho que vá cair bem com seu uísque e meu martini...

-Vinho é sempre bom...

-Meu nome é Justine. E o seu? Não gosto de falar com estranhos...

-Fernando. Mas isso não nos faz menos estranhos...-ponderou rindo. Ela riu também, um riso contido, quase pra dentro.

-É o primeiro passo pra mudar essa condição...Fernando...veio fazer um programa?

-Não. Vim encher a cara. As doses aqui são especialmente generosas...deve ser pra baixar o senso crítico do sujeito, assim as garotas bombam mais...e você?

-Eu pinto. Vim atrás de modelos vivos. Gosto daqui, há todo tipo de mulher...pago o que seria um programa e as poupo de algum pau imundo...tenho um ateliê no Centro do Rio, onde moro.

-Então seu trabalho é quase o de uma assistente social...

-Claro que não...não sou bondosa assim...vejo na expressão dessas mulheres toda a loucura que não encontro no senso comum. É só minha opinião...algumas ficam minhas amigas. Outras, não vejo nunca mais...prostitutas somem o tempo todo...uma pena...sofrem um bocado...

-Talvez você seja boa sim...

-Ah, sou boa pintando...

-Você só pinta mulheres? Ou pinta homens? Vai atrás de michês para poupa-los de alguma buceta imunda?

-Não. Há sempre curiosos perdidos na noite como você...não é raro que venham a mim com facilidade. Por exemplo, você tem um nariz bonito e belos cachos, rosto anguloso...daria um belo estudo... olhos azeitados...

-Rárrárrá, boa! Me pagaria por isso?

-Claro.

-Sou um homem de quase quarenta anos...não me imagino numa pintura...

-Quem tem que imaginar aqui sou eu...eu tenho muita imaginação...se quiser, deixo fumar um baseado...sempre tenho algo em casa quando alguém precisa relaxar...embora não curta.

-Ah, eu também não curto...passei da fase...prefiro uma emoção mais forte e destilada...isso é um convite, entendi direito?

-É. Trezentos reais.

-Uau! Mais do que ganho tocando em uma noite...tentador, mas não sou modelo.

-Não gosto da arrogância dos modelos profissionais. Já tenho a minha pra administrar...sabe que me deu vontade de te pintar? Eu quero te pintar.

Justine conseguia quase tudo que queria.

-E qual seria a forma de pagamento?- perguntou, seguido de uma gargalhada sonora.

-Cash. Cento e cinquenta agora- Justine já abria a carteira-  e cento e cinquenta depois...- concluiu, pousando três notas de cinquenta na mesa.

-Mas você já não arrumou uma menina?

-Isso é pra outra hora...hoje queria mesmo uma face masculina...não precisaria nem tirar a roupa...

-Dependendo do contexto, não seria um problema...-riu-se Fernando.

-Nesse contexto seria. Estamos falando de trabalho.-rebateu, de pronto, Justine.

-Quer saber? Tô bêbado. Deus protege os bêbados e as crianças...eu topo.

....

Chegaram no ateliê de Justine, um apartamento de muitas paredes vermelhas, pé direito alto, pouquíssimos móveis, uma cortina de filó protegendo precariamente a visão da grande sala contra olhares curiosos do prédio em frente. Ela parecia não ligar.

-Quer beber alguma coisa?

-Água.

Justine ofereceu um cantil de barro sobre um aparador.

-Beba. A geladeira quebrou, ainda não tive saco nem tempo pra mandar consertar. Está boa e é mineral.

Fernando bebeu a água, estava com muita sede, e curioso além da conta com o desfecho daquela insólita noite. Quando parava na casa de estranhas, invariavelmente era para trepar. Fernando buscava com os olhos algo que contasse um pouco dela...tinha um certo receio de perguntar. Nas paredes, telas penduradas sem simetria denunciavam de fato um grande talento. Outras estavam apinhadas nas paredes impregnadas de cheiro de solventes. Não havia uma foto sequer, senão um óbvio auto retrato onde apenas as pérolas a vestia. Nenhum bibelô, nenhum enfeite típico de moradas femininas. Aquele lugar guardava segredos, era a sensação que tinha. Talvez o vermelho falasse um pouco dela...tinha algo de beligerante no olhar de Justine.

-Preciso relaxar, minhas pernas doem...andei muito hoje...-Justine, sem mais, tirou as roupas, para o susto de Fernando, que à essa altura não via se chocando com quase nada...mas com Justine...estava perdido, sem saber o que pensar.

Justine tirou as roupas, jogou as pernas sobre uma cadeira de balanço atrás da qual uma lona velha escondia uma parede (de que cor seria?). No pescoço, o colar de pérolas que chamara sua atenção. Ela respirava profundamente.

-Justine...você disse que não teria esse papo de ficar pelado...

-Fernando...desculpe, não gosto de me vestir em casa. Te incomoda? Nem está tão frio...eu falava de você, não de mim.

-Claro...fique à vontade...você gosta desse colar, não?

Justine levou a mão o pescoço, seu semblante assumiu um ar ainda mais distante.

-Foi a única coisa que meu pai me deixou -(Bingo! Provavelmente ela tinha um pai!)-, na verdade um presente para minha mãe, que morreu há muitos anos...sou filha de um banqueiro, mas filha bastarda...isso não resolve em nada minha vida...

-Sinto muito por sua mãe.

-Não sinta. Eu não sinto.

-E seu pai? Ele está vivo, sabe de você? Que história louca...

-Isso não é história! Ele é uma figura perigosa, não faço questão de manter contato!- havia um "quê" violento no timbre de uma defendida Justine.

-Calma...modo de dizer...quer falar mais disso?- Fernando teve um lampejo de carinho naquele instante.

-Quero pintá-lo, quem sabe não falamos disso e outras coisas, outro dia? Você aproveita e  me conta porque não está estourando. Caso não saiba, eu o vi tocar essa noite. Você é muito bom pra'quela merda de lugar...

-Então você me seguiu???- Fernando começava a se assustar.

-Claro que não...coincidências acontecem, pode acreditar. Sou boa fisionomista por razões óbvias!- rebateu Justine que já circulava pela sala organizando seu material no cavalete como se estivesse vestida.

-Tá...-Fernando continuava sem saber o que achar daquilo tudo, mas simplesmente não pensava em recuar.

-Agora arruma uma posição confortável de frente pra mim e fica quieto. Vamos começar! Daqui a pouco amanhece...

Fernando sentou como um iogue e sustentou o rosto com os olhos fixos em Justine. Encantadora, perturbadora Justine.

Justine começou a traçar os contornos de Fernando da mesma forma que se recriava todos os dias ao levantar...com a cabeça livre de muitos registros, aberta ao novo, sempre ao novo...dela, Fernando só sabia ser uma surreal e bela Justine. Ele fechou os olhos ao mesmo tempo em que Justine fez ecoar do pequeno sonzinho o "Inverno" de "Vivaldi". Aquilo, pelo menos naquele momento, deu-lhe uma relativa paz, a despeito das notas intensas...e ela seguia, com os olhos fixos e glaciais dos invernos russos, concentrada em sua obra...


5 comentários:

  1. Há algum tempo não lia uma sequência de diálogos tão sucinta (mas não lacônica)e condizente com o contexto dos personagens.Além disso, em alguns momentos tive a impressão de estar, não diante de um texto, mas de um quadro a óleo.

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  2. Ótima história,quero ver mais sobre Justine e Fernando.To adorando,Bjs,Carina Pettezzoni

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  3. Vejo Justine e Fernando como personagens interessantes justamente pela loucura que os inunda a alma.São pessoas fictícias e ao mesmo tempo muito reais que me deixam instigada e querendo saber cada vez mais sobre a estória de vida de cada um, como se eu quisesse entrar no texto e conviver com eles, conversar com eles....
    Não páre de escrever sobre estas criaturas estranhas e ao mesmo tempo excitantes, cada uma ao seu jeito......
    Beijo no coração, Claudinha!!!!!!

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