terça-feira, 20 de setembro de 2011

Furtiva lágrima presente (de Justine para Fernando)...


Chegaram ao ateliê tarde da noite, ou cedo de madrugada. Ao se despedir à porta do quarto de Justine, ele olhou para ela, inescapavelmente nos olhos. Pensava em agradecer, mas aquele olhar, entre o sorriso e a malícia, devolvia-lhe um "não disse que ia ser bárbaro!". Ele aquiesceu pra si mesmo e levou milissegundos para corresponder ao abraço  que Justine lhe dava. Era dela, sempre, o ímpeto da despedida, quase como fuga.

Novamente aquele abraço para o qual ele, inconfessadamente, nunca conseguia definir a não ser por paixão, tentando sempre escapar do pensamento. Prontamente convinha com sua consciência que Justine para quase tudo era intensa, como um jato de cachoeira, que quase nos derruba, mas parece levar pra longe quaisquer resquícios de problemas. Fernando adorava cachoeiras tanto quanto amava amêndoas...

Essa era a "Justine dele"! Parecia fria e cortante, mas não tinha desalento que não fosse capaz de revigorar. De repente, quase a soltou. Por sorte o abraço terminara, só então se deu conta que "Justine dele" era uma expressão quase tão sólida que passava a pesar sobre seu peito. Sorriu entre o abestalhado e o tímido que o compunham naquele momento. E concluiu ter sido uma boa noite, mais terna do que ele jamais se lembrara, ou tão terno como sempre fora. Ambos. Fernando teve a incômoda convicção de que esta seria uma noite de paradoxos. Daquelas em que uma sinfonia era despejada através de seus poros.

O tempo insuportável que por ele passava, sentado à cama de Justine que caminhava de um lado para o outro enquanto murmurava uma de suas canções, o arremessava braviamente contra as paredes das contradições. Ele queria a todo custo acreditar que o olhar sorridente e malicioso de Justine era paradoxal em relação à "minha Justine". Tal combinação seria necessariamente recusada por ela. De forma direta e afiada, como de costume, nos diálogos em que ele tentava em vão convencê-la de qualquer coisa. Justine já o convencera até mesmo que a roupa, que ela lhe escolhera certa vez, para um desses intermináveis eventos, não o deixava com frio, mas excitado com o acontecimento.

Diante do impasse, acolheu avidamente a primeira constatação que escapava daquele turbilhão entre o medo e (absurdo!) o desejo. Levantou, quase num salto, como se o turbilhão residisse naquela cama. Sim, ele iria dizer a Justine que ela de fato estava certa ao convencê-lo a ir ao Japão. Diria isso, lhe daria um beijo na testa e toda aquela contradição esse dissiparia. Fernando, quando encontrava uma escapatória para alguma confusão ou constrangimento, agia com determinação, lépido. Não notou como chegou à porta.
Já ia bater uma segunda vez, quando ouviu Justine: "Está aberta!". Não se lembrava de tê-la aberto, a cena que encontrou catapultou qualquer sensação, pensamento, intenção, ou dúvida que estivesse a menos de um metro de si.

Ele gostaria de não acreditar no que via e tenta fazê-lo com as forças que pareciam existir, mas sumiam em direção a Justine, que já não usava mais o vestido curto preto que quase sempre usava (era a cor dos produtores, nunca ameaçaria a atração principal, dizia ela), discreto, mas decotado o suficiente pra exigir sua atenção inúmeras vezes ao longo das noites...Justine era o centro de suas atenções, sempre, desde que a conhecia, concluiu, já a beira do pânico. Piscou tentando desmanchar a cena. Ela, sentada em uma cadeira um pouco adiante da porta, de perfil. Cigarro na mão, parecia brincar com a fumaça. Ele tentou esconder-se naquela fumaça, mas já se encontrava rendido à contemplação. O pânico aumentou quando ele percebeu não decidir se não conseguia, ou não queria tirar os olhos de Justine. Ela vestia agora algo como um blusão longo de tricô ou crochê (nunca lhe ocorria a diferença), cuja cor ele decidiu chamar de bordô. Provavelmente desceria até as coxas se ela estivesse de pé, blusão ou vestido, tentou polemizar consigo mesmo. Inútil.


Não eram os olhos amendoados, o sorriso confinado pelo batom vermelho vívido que centralizavam a atenção de Fernando, e sim uma das coxas de Justine que o blusão deixava descobertas – os joelhos permitiam que escapasse. Foi ainda pior. Nada! Os pés talvez. Como nunca notara aquelas coxas? Como nunca, nunca (!) notara aquelas coxas!?  Por alguns momentos sua existência dependia disso. A única coisa capaz de libertá-lo da eternidade foi o movimento de Justine que, ao olhá-lo, inclinou a cabeça e sorriu, novamente lábios e olhos. Aliás, muito, muito pior!

Agora não só estava absorto com a imagem de Justine, mas, era irresistivelmente sugado como num zoom por aquela combinação de brilho risonho e o carmim dos lábios. De nada mais sabia, talvez preferisse voltar às coxas. Ao menos morreria plantado próximo à porta. Tentou andar o mais calmamente possível em direção a ela. Teve convicção de que atravessara a porta, mas não se lembrava mesmo de tê-la fechado atrás de si.

Finalmente encontrava duas possibilidades para resistir àquela atração imperativa. A expressão de Justine, agora, denotava carinho. Era raro ele dar-se conta. Ou ainda, a maquiagem, qualquer que fosse o nome do que as mulheres usavam em torno dos olhos, revelando o percurso de uma única discreta lágrima, que por certo já encontrara repouso em alguma dobra de sentimento. Pretendia filosofar devotamente sobre a expressão e a lágrima. Quase conseguiu tempo de sentir-se aliviado.

Tarde demais, ele deu-se conta que saltara do abismo sem fim para o rio de lava. Justine lhe estendera a mão e ao aproximar-se, notou que não havia qualquer contenção entre o blusão e o corpo de Justine. Nada parecia mais urgente e crucial do que sucumbir blusão adentro. Para seu desespero, não sabia onde haveria menor perdição, no decote que lhe entreabria os seios e que, confessamente, sempre o capturavam, ou na discreta penugem que se insinuava abaixo do blusão.

Despertou com um leve e carinhoso aperto da mão de Justine. Providencialmente, Justine deixou escapar: "Conseguimos, não foi?". Naquele momento o encanto da voz de Justine nunca havia parecido tão doce. Mas era distração suficiente para que ele pudesse agachar-se ao lado dela, não sem dar um ligeiro passo ao lado, decidido a não arriscar um segundo confronto, talvez até diretamente com aquele púbis, como ele percebia, um desafio que seria capaz de livrá-lo até mesmo de uma singularidade cósmica. Entraria em outra, por certo. Sua voz nunca lhe pareceu mais decisiva, do que quando enfim disse a ela: "Justine desde o começo da noite estou para agradecer a você por ter me convencido a ..."

Um dedo de Justine desceu para calar suas palavras. Com a outra mão ela o erguia pelo ar, em direção à cama. Não havia sinal de lascívia em Justine, surpreso, notou que era quase uma constante... mais uma vez Fernando foi lançado em um corredor emocional. Queria repetir aquele gesto, e teria que ser com Justine. Andar de mãos dadas, passos erráticos ou sincronizados. Experimentava um carinho libertário pelas mãos daquela mulher que ia sendo revelada diante dele. Despertou aflito!

Felizmente Justine o havia colocado sentado na cama e, deitada, repousava a cabeça sobre suas pernas, os olhos dela vasculhavam languidamente um invisível horizonte além das paredes. O silêncio preencheu o ambiente, não como impasse. Ambos cumpliciavam-se de uma felicidade morna e serena. A turnê pelo Japão já era consagradora e prenunciava outras por países da Europa e Ásia (novos ricos sempre tentam, em vão, ostentar a cultura – esta que, fatalmente, reduz-se ao seu nível). Como se estivessem comentando o assunto, Fernando diz: "...mas precisamos programar um tempo pra conhecermos de fato esses lugares e não apenas passar por eles. Você já nos conduziu a uma boa estabilidade financeira, vamos curtir um pouco."

Justine, que trazia um olhar contemplativo pareceu acender. Olhou nos olhos de Fernando como que tentando se certificar que ouvira mesmo aquelas palavras. "Realmente incomuns, partindo dele", pensou Justine. Confuso, Fernando já começava a se censurar...

Preservando o sorriso, ela estendeu um dos braços a frente. "Já comentei que sei alguns truques?"
Sem pensar ele afastou o cabelo distraído sobre os olhos dela. "Sempre preferi você com seus próprios recursos, não foram seus truques que nos trouxeram até aqui"

Ele pode sentir um trepidar pelo corpo de Justine. Sem entender o que ela fazia, sentiu-se grato, seu impulso era de tomar Justine pelo corpo até conseguir alcançar-lhe a alma, supunha ele, refundando a anatomia, mas ela agora havia virado o rosto para ele e começava a abrir-lhe o zíper da calça mais uma vez... Ele levou alguns segundos para entender a finalidade daquele movimento. Na verdade, entendeu prontamente, o que não fazia sentido era acreditar que estava, de fato, acontecendo. Atônito, ainda imaginou que Justine estava habituada a manipular seu corpo. Ele não teve tempo de decidir se reagia ou observava. Já arqueava levemente o colo para facilitar-lhe o acesso das mãos.

Justine trouxe seu membro para fora. E lançava para ele um olhar que, agora sim, despejava lascívia pelo quarto todo. "É seu!", sussurrou ele, obviamente possuído por algum íncubo oriental residente no saquê tomado dias atrás, bem no último segundo em que Fernando ainda era algo além de um pênis. Ela não esperou pelo seu espanto. E Fernando teve a sensação de que sentia falta daquela boca. Teve, então, a certeza de que sua razão o abandonara. E ele todo era saborosamente devorado de um modo que nunca lhe pareceu tão eloquente. Era puro sentido e prazer, enquanto Justine demonstrava inacreditável intimidade com os caminhos que seu prazer percorria.

Houve um tempo suspenso que Fernando gostaria de cristalizar em holografia. Enquanto sentia seu corpo inteiro anunciar o êxtase, teve a lúcida certeza de que não era a primeira vez que aquele mesmo prazer lhe inundava. Se tivesse algo de racional em si, teria entendido que o truque de Justine era uma maldição, o milagre era o que ocorria durante o truque, pelo poder e ação da própria Justine. Desejou-a como sempre, entendia agora. Como se nunca tivesse sido diferente e aquela mulher, que comandava como seu prazer se daria, muito além de companheira e protetora, fosse sua estrela de paz, esperança e virtudes. Esta era a síntese do prazer que se esvaía de seu corpo, como que voltando à sua origem: Justine. Ela, de fato, parecia se alimentar do que descia boca adentro, riso afora.

Ele precisou de muitos segundos para que a realidade conseguisse alcança-lo. Brigou com a consciência que queria a todo custo lhe roubar do espaço-tempo que era verdadeiramente seu e onde, descobrira, vivia com Justine. Fora do tempo, dos truques, da consciência e acima de qualquer distração que a suposta vida real lançava sobre ambos. Ali vivam suas próprias suas verdades, sem receios, sem certezas, em suma, livres.
Quase triste, Fernando percebeu-se violentado pela própria lucidez. O único sinal de coerência verdadeira que conseguiu encontrar estava sobre ele, que agora deitado, tinha à sua frente os mesmos olhos de longos cílios que construíam seu destino e a boca rubra, ainda mais viva – descobrindo que isso era possível. O sorriso de Justine ... sempre estivera ali, nunca tão lindo, mas efetivamente presente.

Sua expressão novamente expunha risonha malícia. Ele tranquilizou-se por ter o privilégio de ser devorado por aquela mulher, muito mais fascinante e impressionável, como ele nunca vira, mas que sempre soube estar presente. Preferiu não interpretar naquele momento o sentido que a razão daria àquela conjunção de sinais.
Aquela imagem era cada vez mais inescapável. Queria possui-la totalmente, mas seu corpo não queria mais que abraçá-la, beijá-la, ou seja, tornar-se parte das suas virtudes. Mal teve tempo de entender as palavras que seus lábios emitiram: "Minha Justine, eu vou tomar você pra mim."

Como que acionados por aquelas palavras, os olhos de Justine prontamente brilharam libertando por um deles a segunda lágrima furtiva da noite. A derradeira daquela Justine, violentada de medo e descrença. Agora pertencia apenas a si mesma. Como sempre fora...




4 comentários: