segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Justine e o Renascimento.




arquivo pessoal

Justine, meses antes de encontrar Fernando pela primeira vez, pensou mais uma vez em desistir de sua existência repleta de nuvens, onde nada se encaixava em sua cabeça. Sua vida era uma sequencia de dias vazios de sentido e direção, pintando quadros que dificilmente saiam de seu ateliê vermelho-útero. Levava uma vida livre, se esquivava do amor como uma gazela foge de um leão, sorvia dos homens o prazer bruto (e as vezes, também das mulheres, mas o cheiro masculino sempre a emocionava mais...), desprovido de qualquer sentimento maior. Ela amava o Amor, mas tinha certeza de que esse tal de Amor não caberia em seu corpo, tampouco alcançaria sua alma que nem mesmo a própria Justine sabia por onde andava.

Naquela noite, abriu os olhos colados por trinta e seis horas seguidas de sono. Abriu com dificuldade. O chão frio do banheiro não a incomodava mais que a tênue luz acesa no recinto. Do vaso, um cheiro de vômito impregnava o ar. Enfim, havia sobrevivido de novo. E de novo, e de novo...teimosa pulsão de vida sempre a driblar a Loucura...

-Boa noite, Senhorita Justine.

-Você aqui?- Impaciente, Justine deixou escapar um suspiro. Lá estava a criatura que fazia o papel de anjo da guarda de modo nada convencional...

Muitas vezes Justine se perguntava se aquela mulher (tinha a tal criatura uma aparência feminina) não seria uma enviada do oitavo halo infernal de Dante. E não havia um "Virgílio" a conduzi-la de volta em tantos descaminhos do espírito. Somente aquela "Mulher" em vestes medievais e temperamento frio, que naquele dia se apresentava tão nua quanto Justine, deixando a mostra asas tatuadas nas costas que vez por outra ganhavam vida de modo bizarro.

imagem capturada no google

-Te esperei no subterrâneo, você não apareceu. Dezesseis quadros em uma semana, e você não faz nada com essa merda.

-Um dia vou expô-los...- Justine pousou o rosto no chão frio, sua cabeça doía.

-Duvido muito. Você no máximo se deixa ver em coletivas medíocres, sua insegurança nojenta não lhe deixa avançar. Levante agora desse chão!

Justine se levantou com dificuldade, vestiu uma calcinha vermelha jogada sobre a velha banheira e caminhou alheia ao "blablablá" até a janela do quarto de entulhos. Mas o "Anjo" nunca desistia fácil.

-Justine, eu ainda me importo com você, e nem fui eu quem escolhi essa ingrata missão de cuidar de sua vida. Até quando você vai encarar seus demônios em duelos de esgrima empunhando palitos de dentes? Você sempre se fere, mas não abate o inimigo. Isso me enche demais.

-Não quero abater nada além do meu mal estar.

-O mundo odeia gente deprimida. Da próxima vez, que tal se atirar dessa janela?

-Boa idéia.

-Você sabe que te resgato até em céu aberto...mas vai que eu mudo de idéia.

-É um direito seu.

-O cara com quem você dormiu não estava mais ao seu lado quando acordou, e mais uma vez você se sentiu um lixo...mas como? Você diz que não liga para amor.

-Não ligo mesmo. Mas me canso. Você apagou minha memória, nem tenho para onde ou quem voltar...

-Acredite, melhor assim...esse aqui é seu lugar. Você tem uma casa, é um começo. Você tem um talento, é um caminho. Você tem dois pés, faça-os caminhar! Pare com essa histeria pra chamar atenção, ninguém está aqui pra ver.

-Você está.

-Eu não sou gente, Justine, não conta.

-Gostaria que você fosse embora...já que estou viva, quero terminar mais quatro quadros, é minha meta. Vinte obras nessa série.

-Ok, então pare de foder com estranhos. Você é muito mais sentimentaloide do que pode supor.- Dito isso, a Figura se desfez em fumaça.

 Justine caminhou até a janela. Do outro lado da rua, duas crianças fumavam crack. Por um minuto, teve vontade de chorar, mas não o fez. Voltou para o ateliê, ainda faltavam quatro quadros afinal... quatro quadros, depois...bom, quatro quadros para seguir teimando em vida.

Acompanhe a história e siga os links a partir de : http://impressoesexpressas-claudia.blogspot.com/2011/08/elipse-temporal-o-truque.html?spref=fb

Leiam ainda: Justine (O Confronto após o Truque)Fernando muito antes do "Truque"...

Ravel plays Ravel, Pavane pour une Infante Defunte



12 comentários:

  1. Justine á tão real, tão humana e, ao mesmo tempo,tão etérea. Estou acompanhando suas histórias e ansiosa pelos próximos diálogos-reflexões-desabafos-capítulos...

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  2. Ler seus textos é sempre um passaporte para a inspiração.
    "encarar seus demônios em duelos de esgrima", achei sensacional e vou adotar. :)

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  3. Sempre querida e especial Mariana...sua poesia alimenta meu Sentir!

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  4. Gosto da Justine. Me identifico, acho. Não por viver o mesmo, mas ser o contrário, o peso da balança. Uma vontade de ser o anjo da guarda, sem asas, sem fumaça. Apenas, um anjo. Real.

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  5. Lindo! Emocionante! Original! Sem palavras...

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  6. Belíssimo texto que nos envolve e nos leva a estar lá...ao lado de Justine....sofrendo, amando, sofrendo, delirando, amando.....E , a figura de Justine nos fascina a tal ponto que não queremos que ela vá embóra ....Ela não se "comanda" mais, ela já é nossa também, já faz parte da nossa vida, ávidos leitores do seu lindo e humano blog, Claudinha!Te amo , minha amiga <3

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  7. Olá!
    Vim parar aqui seguindo a indicação do Cairo lá no facebook.
    Justine foi uma gratíssima surpresa.
    Abraço

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  8. Seja bem vindo :) Uma honra e uma alegria :)))

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