sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Justine (O Confronto após o Truque).


Justine saiu do evento gastronômico com os papéis devidamente assinados por Fernando, ele que era sua "Glória e Danação". Feliz por sempre conseguir coisas...Estava zonza de tanto saquê e argumentações, mas levava na boca o gosto daquele homem que a fazia sonhar com olhos despertos, tanto quanto era capaz de leva-la à subterrâneos pesadelos de absoluta impotência...anyway, fato é que a turnê estava fechada no Japão...gostava do mundo de ponta-cabeça...

Depois de caminhar umas três quadras, seu celular tocou. Ao ver a sequência de asteriscos no visor, sentiu um arrepio percorrendo do cóccix à nuca...Ela sempre ligava nas horas mais inusitadas, e não raro, era obrigada a atender, querendo ou não. Dela dependia a sobrevivência e os pequenos poderes e "truques" de Justine.

-Alô...-atendeu em um vacilante fio de voz.

-Venha, Justine, temos que conversar. Sei que conseguiu o que queria, mas há regras que devo relembrá-la. Você não deve se esquecer de quem é e para onde vai.

-Mas se nem mesmo eu tenho essa resposta...-havia temor na então frágil voz de Justine.

-Você tem quinze minutos para descer aquelas escadas e me encontrar no lugar de sempre...tenho muitas almas perdidas como a sua para me preocupar...-click! Ela desligou o telefone sem mais delongas.


Justine apressou os passos. De tão nervosa, tirou o par de saltos-agulha e pôs-se a correr com os calçados na mão. Em dez minutos já descia as escadas para atender a demanda de quem orientava cada passo de sua vida. Após atravessar o escuro corredor que se apresentava quase infinito, ao fim dos degraus, respirou aliviada. Na porta cheia de asteriscos marcados, Ela aguardava Justine...a bela e atormentada Justine. Entrou delicadamente, sem bater, e lá estava a Criatura que vigiava atenta cada passo de seus "protegidos". A Criatura de semblante feminino estava displicentemente sentada em uma cadeira de mogno, sobre a qual outra vazia esperava ser ocupada para uma conversa de olhos contrapostos...nada mais havia naquela sala quase escura, senão as cadeiras e uma parede com inscrições em alguma língua morta ou desconhecida. Justine sentou e respirou fundo, em silêncio. Sabia que cabia a Ela iniciar as conversas.

-Justine, Justine...vejo que conseguiu mais coisas...mas conseguiu o que queria?

-Ele assinou o projeto...

-Então é isso mesmo tudo que você queria? Marioneta-lo ao seu bel prazer? Chupa-lo ao seu bel prazer? Ele nem lembra, Justine...para ele, você não passa de uma pintora metida a produtora extremamente mimada e ditatorial.

-Não acho que seja assim...

-Schhhhhhhhhiii...silêncio! Você não sabe nada, Justine. Você não sabe nada além do que deixo você saber. Nem tudo é para ser sabido nessa vida, sobretudo sobre sua vida...talvez eu deva situa-la melhor...

-Pensei que você fosse um Anjo em minha vida, mas sempre tão dura...na verdade, acho que não sei de mais nada.

-E quem disse que Anjos são bonzinhos? Essa história de Anjo é coisa da sua cabeça. Estou aqui para te orientar, e seu espírito voluntarioso e libidinoso me dá trabalho demais. Você me cansa. Acho que, de algum modo, você cansa todo mundo...você é linda...mas ninguém banca te conhecer. Te consumir é menos trabalhoso do que te conhecer. A Hilda Hilst, aquela autora que você gosta, já dizia..."beleza é uma coisa que dá vontade de comer". Tudo que se come acaba em merda, Justine. Você não quer ser amada. Você é uma recalcada querendo usar sua carinha para se dar bem. Acha sempre que o mundo lhe deve algo. Fala de si sem saber se inventa ou não...sua memória é um cocô. E melhor que seja...talvez, se lembrasse tudo, se mataria.

-Não sei se estou disposta a ouvir tanta besteira....se tão pouco se encaixa em minha história, tudo pode ser real...-ali se inaugurava a primeira resistência ao discurso de seu "Oráculo", "Anjo", ou "Algo que o Valha"...

-Quanto atrevimento...não me faça perder a paciência e destruir suas ilusões...você é essencialmente carne, pele, ossos e beleza quase estática...sabe lá por onde anda sua alma...não me faça perder a paciência...você  não passa de uma "Filha do Vento"...

Justine respirou beeem profundamente, como se ganhasse forças. Ela continuou.

-Você não faz jus a nova vida que tento lhe dar. Você é ingrata, desde que nasceu. Ingrata. Justine, ironicamente, não há justiça para você...só você pode alcançar esse entendimento, só posso lhe sinalizar...Fernando é bom demais pra você. Ele tem família, foi amado e desejado. E você, quer mesmo saber?

-Parece que você quer proteger Fernando...

-Quero lhe proteger de seus delírios românticos. Você é uma criatura sem lastro. Não cabe de modo convencional na vida de ninguém...e Fernando tem mulheres bem mais completas na vida dele...mulheres loucas para fazê-lo feliz...mulheres lindas que sabem quem são, que não caíram nesse mundo por acaso...o que definitivamente não é seu caso...acho que se você pudesse lembrar, repito, provavelmente se mataria! Talvez seja um caminho.

-Definitivamente não é.

-Nossa...algo mudou em você...experimentou o Amor por um cara que CAGA para você e nunca vai querer uma vida ao seu lado. Amor tira tudo dos eixos, você já foi mais grata, querida...você brinca de congelar o presente, mas isso só se perpetua em sua lembrança...nunca se tem tudo...além de não conseguir acessar seu próprio passado e origem...você anda querendo demais. Está por demais rebelde pro meu gosto. Ele não te ama. De um modo avesso, ele é tão especial quanto você, Justine. Você é uma perdida com ares de poderosa, ele sente isso...ele tem História. Pode provar quem é para além de uma corrompida carteira de identidade como a sua. Você acessa em Fernando uma "Síndrome da Salvador", e um certo tesão, mas isso não é amor. Se toca.

-O  que sua suprema sabedoria sugere?- Justine não resistiu em cair em raivosa ironia.

-Na porta ao lado há pessoas como você que tentaram ir além do que se pode e acabaram loucas...eu cuido delas...saíram de cena antes de causar danos maiores...se mataram para esse mundo que se estende sobre esse subterrâneo...há lugar também para você e sua história, que só Eu tenho o Poder de desvendar...Da mesma forma que te dei "alguns poderes", os retiro a hora que Eu bem entender.

-Você não é Deus.

-Claro. Por isso existo. Para dar conta daquilo que Ele acha que não vale a pena. Alguém olha pelos desvalidos...

-Deus está para tudo e todos. Não preciso de você para saber disso. Faça o que quiser, não quero mais ouvi-la...

-Mas deixe te contar de você, já disse que aqui tem vaga!!!

-BASTA! Não confio mais em suas histórias editadas! Quem me garante que esses poderes me foram dados por você? Nem sei como isso começou! Você sempre fala o que quer, eu sempre engulo! Vou para o Japão! BASTA!

-Tenho gente minha lá fazendo o que faço...estou em Toda parte! Vou te contar...e depois, te levo ao seu novo aposento...te garanto tintas e pincéis para se distrair nas paredes...

-NÃÃÃO! Eu disse BASTA! Há outra forma de saber quem sou...e se não houver, posso levar minha vida como se tivesse nascido AGORA! Hoje pode ser meu dia "1", com ou sem poderes estúpidos! Não sou Santa, mas não vou ser a palmatória do Mundo!

Justine levantou-se sem olhar para trás, sem perceber os olhos tracejados de preto pelo choro vertido, e saiu em disparada rumo a luz do Mundo. Subiu de três em três degraus e ganhou a rua...em momento nenhum foi perseguida, ainda reinava a soberania do livre arbítrio, em algum momento Justine saberia disso...

Caminhou cansada até uma praça e abandonou o corpo exaurido em um banco pintado de verde. Tentava lembrar de sua infância, mas não vinha nada. Uma mulher amamentava um bebê, deixando-a comovida. De algum modo, cenas como aquela geravam empatia em Justine, que sempre viveu sozinha em seu quarto vermelho...um casal de pombos namorando distraía seus olhos quando o celular tocou. Não sentiu medo, não pensava "Naquela Coisa" e isso era raro.

Era Fernando. Atendeu quase feliz.

-Oi, Justine!

-Oi, Fernando! Nos falamos ainda há pouco...

-Acho que tenho sido bem chato contigo. Depois daquele almoço cheio de especiarias, que tal um singelo sorvete de baunilha para refrescar a alma e comemorar nossa ida para a "Terra do Sol Nascente"?...dizem que lá o dia chega primeiro, não é?

-Um sorvete?-um sorriso inteiro se desenhou em Justine.

-De baunilha. Vamos comemorar o recomeço. Pelo menos, é uma tentativa...
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Saiba mais do começo de Justine e Fernando em:  http://impressoesexpressas-claudia.blogspot.com/2011/08/elipse-temporal-o-truque.html e dê uma passadinha em http://impressoesexpressas-claudia.blogspot.com/2011/09/fernando-muito-antes-do-truque.html  ...



Conto em projeto não linear "Justas Injustas Justines", de Claudia Cristina Tonelli.

10 comentários:

  1. Sua escrita deveria virar um seriado de primeiro mundo. Você é foda, garota.

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  2. Sensacional! A Novell! Mas coitado desse Fernando. rs

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  3. Você existe? adorei seu conto que se liga ao outro. curioso se vai ter mais. com todo respeito, vc é linda. parece mini série. (o conto)

    Zé Luis.

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  4. Conto simplesmente LINDO! E Damien Rice no final fechou com chave de ouro. Quando eu crescer, quero escrever como você! Parabéns! ;-)

    Beijos n'alma!

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  5. Você acaba de me fazer um carinho na alma, querida Du...bom tê-la por aqui... delicadeza vale ouro em tempos de cólera!...

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  6. Gosteia do apelo lésbico e da recusa.

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  7. Anônimo, nem acho que vc seja anônimo(tsc tsc), não gosto de engessar o entendimento do leitor, mas enfim... definitivamente vc não entendeu nada.

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