quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O grande Salão Vermelho (Justine).

imagem colhida no google




Desde que Justine desaparecera sem rastros, Fernando não sabia como coordenar seus passos. Magro e abatido, seguia seus dias com a força dos que, atavicamente, carregam em si o dom da sobrevivência, a despeito de qualquer calamidade...vinha de uma família essencialmente lutadora, que nunca desistia nem diante do aparente caos sem solução. Além da case com seu instrumento, trazia consigo junto ao corpo, dentro de uma ecobag creme, daquelas de lona que se vê por aí, o quadro de fundo vermelho que figurava o desfigurado rosto  de Justine impresso em carvão. Levou muito tempo para perceber que a queria junto dele, Doida ou Lúcida, estivesse ela pisando sobre fantasias ou esmagada de realidade...só a queria por perto...a doçura de "Sua Justine" que, num olhar rápido, era sempre enquadrada como uma sedutora funcional na tentativa de conseguir coisas, quando a única coisa que Ela de fato sempre perseguira fora o Amor...para o qual nunca lhe fora dado mapas ou caminhos seguros, para o qual não fora preparada...mas quem disse que o Amor afinal não é um sentimento fisiológico? Fernando agora percebia que ela o amara mais do quê pôde em sua precária e breve existência ao longo daqueles anos onde ela, só ela, o fez experimentar o Amor em todas as suas nuances...ele que conhecera tantas e belas e valorosas e ordinárias e diversas mulheres...só trazia em si o gosto amargo quase doce da saudade. Justine, calamitosa e encantadora... aquela do olhar de fúria e doçura no sorrir...ou do sorrir furioso e açucarado olhar...ou doçura pura, ou ainda, fúria em sua essência defendida...Justine, "sua Justine"...naquela noite, depois de três horas se apresentando em um pub decadente, ele entrou naquele hotelzinho da rua sem saída onde tantas noites ao lado dela terminaram em coca-cola e boas risadas, sobretudo quando ele era o "agente viabilizador do truque"...maldito Truque que deixara ainda mais sem lastros uma já tão flutuante Justine...


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Perdida nos labirintos vermelhos e angulosos daquilo que parecia ser um cubo, em alguma dimensão paralela, Justine, envolta em um manto, caminhava tentando achar uma saída. Às vezes se deparava com portas, mas todas hermeticamente trancadas. Seria aquilo o Inferno? Se fosse, esperava ao menos uma explicação, ou algum tipo de "seja bem vinda!"...estranhamente, não era medo que a acompanhava em seus passos sem destino, mas a habitual tristeza de sua história repleta de lacunas, que ela, num ato desesperado, desistira de tentar preencher com verdades inventadas. Ingenuamente, sem perceber, chegou a acreditar que na falta de uma verdade absoluta, poderia ser dona de sua própria verdade, desconhecendo que, por mais que doa, a verdade é sempre uma só, sabedora dela ou não...enfim, entendia que só a própria Verdade era capaz de reconhecer a Verdade, todo o resto era o olhar do outro sobre si e vice-versa...não havia consenso definitivo para a Verdade em sua vida. E talvez na de ninguém...Talvez estivesse morta, mas se sentia muito cansada, o que não combinava muito com os que já não carregavam o peso da existência material. Andou, andou, andou...e parecia não sair do lugar. Ao fim de suas últimas energias, Justine escorregou o corpo junto a parede, disposta a não se mover mais...já não se pertencia mais...uma voz familiar a tirou do torpor...a Criatura, até ali, seja onde fosse "Ali...", bradou com vigor:


- Justine! Levante-se e vire a esquerda, caminhe até o final, lá está a porta que lhe cabe e toda a verdade que lhe foi sonegada! Ande, não temos muito tempo! Isso é decisivo para sua permanência ou saída daqui! É imperativo que me obedeça, vá!


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Ao entrar em casa, Fernando foi direto ao quarto, onde depositou o quadro vermelho ao lado da máquina de escrever de "sua Justine", que ele tirara do ateliê junto com as palavras que começaram a ser escritas. Gostava de imaginar que eram para ele. No fundo, sabia que eram para ele aquelas palavras...talvez um poema, ela andava tentando poemas...Ela que para Ele, era o próprio Poema que, de forma dura, tentara editar tantas vezes...gostaria de poder voltar no tempo. Mas esse truque, ele não conhecia. Dormiu rápido, embalado pelo odor de Justine em suas narinas...


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Justine se levantou diante da voz de comando, e obedeceu ato contínuo. A idéia de conhecer a tal "Verdade" de um modo que nunca lhe fora permitido a fazia seguir. Adentrou a sala, na verdade um salão. Pela primeira vez, todo aquele vermelho, mesmo que suntuoso, embrulhava seu estômago. Se lhe fosse permitido seguir em outro plano, talvez abolisse aquele tom de sua vida... estranhamente, ela desejou por um momento estar viva e quase chorou. Quase.


O salão parecia ter sido preparado para um grande jantar. Ficou alguns momentos olhando atentamente para tudo e tentando alcançar algum sentido.


-Justine...estão todos aqui! Vão entrar em poucos minutos...seu pai, sua mãe, seus irmãos e irmãs...e pasme, chegará também a criança que você foi um dia. Escute atentamente o que todos têm a lhe dizer...não tente camuflar seus ruídos internos com sua verborragia! Disso depende sua vida...ou sua não vida...posso com tudo, menos com o livre arbítrio...mas também ele tem um preço...no caso, que você ouça...ouça com atenção...e saiba que não se trata de fazer a escolha certa, mas de fazer a sua escolha. Depois...bom, depois é outra história.


Justine manteve-se quieta e cordata. Aquilo lhe parecia uma última oportunidade de caminhar, seja para onde fosse...o cheiro de Fernando invadiu suas narinas, e uma estranha paz tornou a espera menos doída...




Saiba o início em http://impressoesexpressas-claudia.blogspot.com/2011/08/elipse-temporal-o-truque.html e siga os links. Boa leitura!

2 comentários:

  1. "Transformai as velhas formas do viver"

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  2. "...gostaria de poder voltar no tempo...", Fernando, como sei ( ou acho que sei) a dor de ficarmos em silêncio sentindo o cheiro do ser amado.É UMA MISTURA DE SENTIMENTOS, um estar e não estar com a pessoa que se ama, porque o cheiro nos lembra a pele, o toque, a sensação do abraço, do coração pulsando....Pobre Fernando, poderosa Justine.A dor dos que amam demais!!!!!!!

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