sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A Tela (Justine...)

arquivo pessoal

Então Justine atendeu novamente o chamado, e sem pensar duas vezes, desceu uma vez mais as escadas do subterrâneo para encontrar seu anjo-protetor-algoz que, aparentemente, tinha muito a lhe dizer. Estava enjoada, havia abusado expressivamente do álcool  nos últimos dias. A turnê pelo Japão foi especialmente degastante na companhia de Fernando, não havia alegria que se sustentasse entre os dois...Ela, imprecisa demais, ele, por demais obsessivo com tudo que é exato e supostamente incontestável, como seus complexos acordes de violão...

Justine estava cansada, abatida, o que não era raro. A porta do "Anjo" estava aberta, ela sentou-se em abandono. Pela primeira vez, se sentia em casa.

-Oi, querida...-saudou a Criatura com atípica cordialidade.

-Oi, estou aqui...ainda tem aquele canto guardado pra mim? Estou tão cansada...não aguento mais...não aguento essa tela em branco que é minha memória! Consigo pintar tudo, menos minha própria história. Não aguento mais tentar ser do tamanho exato dos sonhos de Fernando...nunca sou bela, ou boa, ou gostosa o bastante, nem sequer inteligente o bastante, nem lúcida o bastante...e não tenho ninguém nesse mundo...

-Tem sim. Está dentro de você.

-De que adianta uma história trancada em minha mente deletada?

-Não falo disso. Você está grávida.

Justine foi tomada de horror, não se via cuidando de ninguém, ela que não sabia cuidar nem de si mesma. Enquanto vomitava, movida ao stress da notícia, a criatura afagava seus cabelos.

-Calma, Justine, isso não é o fim. Pode ser um novo começo.

-Impossível, Criatura! Não trepo com ninguém há séculos! Não que me lembre...sou eu sempre quem toco Fernando  ele nunca esteve dentro de mim, isso é impossível!!! Acho até que ele me odeia!

-Isso não importa. Você está grávida, não é hora de desistir. É chegada a hora de tomar posse de sua verdade pouco a pouco...é chegada a hora!

-Eu nunca transei com Fernando, como pode?

-Simples...ele também conhece o Truque. Ele também produz elipses temporais com um estalar de dedos, onde, de volta ao tempo real, só ele é capaz de se lembrar do que houve...ele te conhece há muito mais tempo do que você imagina... também cuido dele. A diferença é que ele tem lastros mais concretos que o seu, e sempre se lembra de tudo. Ele conhece a arte do cinismo, não que ele seja mal...é um mentalista que sabe jogar com as palavras e transformar tudo em verdade absoluta. Mas não é mal. Ele até gosta de você...aliás, você voltou grávida do Japão. Depois do primeiro show, onde ele resolveu se despir dos cachos com uma navalha enquanto você babava, ele simplesmente estalou o dedo e te deu tudo que você sempre quis dele...sexo selvagem.
colhida no google


Justine ouvia congelada enquanto a Criatura subterrânea continuava.

-E não é a primeira vez. Quantos anos você tem, Justine? Trinta e três...Ele beira ou já alcançou a quarta década, algo assim...ele sim, é uma "puta velha...". Vocês se viram a primeira vez há vinte anos atrás. Em uma festa da Escola de Belas Artes, onde você trabalhava desnuda para futuros artistas plásticos. Ele estava lá, procurava uma mulher que topasse posar nua para seu primeiro cd. Ele queria você, mas você não topou. Depois da aula pública, teve uma festa,onde o professor os apresentou formalmente. Lembro a música que tocava. Black. Sua preferida, e de tantos de sua geração, pelo menos os pouco menos alienados...vocês ficaram mudos durante alguns segundos da música, e na falta do que ser dito, simplesmente se beijaram, como numa cena de filme. Se beijaram longamente, foram conversar tempos depois em um boteco comendo pizza gordurosa...e foderam naquela primeira noite, ele morava sozinho ao pé da serra... Você nunca tinha transado com ninguém , apesar do seu jeito moderninho e safado. Você sempre foi muito mais doce e ingênua do que imagina... Você se esqueceu, mas por muito tempo ele morou em suas lembranças. Ele deu um jeito e te achou. Nunca casou, nunca teve filhos, e garanto: nunca se esqueceu de você. Se isso é Amor, isso já é outra história. Você está grávida, não tome nenhuma atitude sem pensar direitinho.
colhida no google


-Criatura...ele vai se mudar para Miami...está tudo certo...não tem espaço para mim na vida dele...ele tem contatos lá, uma cantora loira e linda o aguarda!

-Não se faça de idiota, Justine, isso agora é o menos importante...você leva muito a serio as coisas que ele fala para retroalimentar sua suposta psicose. Mas acredite: ele faz mais por você que qualquer pessoa nesse mundo! Até germina-la...

- Não posso, não consigo.

-Pode e consegue. Nem que isso custe seu próprio sangue. Agora vá! Sua memória vai voltar aos poucos. VÁ! - gritou a Criatura, diante de uma apavorada Justine que, uma vez mais, ganhou a rua em passos quase tão rápidos quanto o som.
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Justine e suas lembranças, Justine e sua cabeça oca e ventre repleto de Fernando...caminhou pelas ruas enquanto imagens de um tempo só seu pipocavam em sua cabeça, ainda sem fazer sentido. Lembrou-se de um Fernando olhando para ela, tímida, que perguntou:

-Gosta do meu corpo, Fernando?-Aquela Justine não tinha mais que vinte e dois anos.

-Gosto muito.

-Mas não é um corpo bonito...minhas coxas são grossas demais...

Ao que Fernando respondeu antes de afundar o rosto entre as pernas de Justine:

-É você. É o que basta para serem lindas...suas pernas, seu corpo, seus cabelos, sua boca tão graaaande...

E de repente, num "fade-out", aquela imagem se desfez em sua cabeça, que Justine mal conseguia manter erguida de tanta dor.

Justine chegou trêmula ao ateliê vermelho. Trêmula e amedrontada como nunca. Queria a segurança de uma caixinha onde ninguém pudesse incomoda-la...não pensava exatamente em morrer, se esconder talvez...tinha muito medo de lembrar, o que ironicamente desejou por tanto tempo...Era tanta a dor que sentia que começou a arrancar com as unhas as próprias peles do braço, num inconsciente rito de desvio da dor...viu brotar a primeira gota de sangue. Aquilo a fez sentir-se viva como nunca. Na mesa, viu um estilete, na sua frente, uma tela em branco, e em sua cabeça, uma idéia de como se guardar...
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Fernando, cansado de tocar a campainha, meteu o pé na porta do ateliê-casa de Justine. Acabava de chegar de um encontro com a criatura e fora aconselhado a procurar pela mulher de quem nunca se esquecia enquanto fosse tempo e ela não sumisse de vez. Para seu horror, todo o chão estava lavado de sangue num caminho até a tela vermelha que se exibia no cavalete, com imprecisos traços de carvão. Encontrou ainda um estilete, também repleto de sangue. Revirou com desespero o apartamento onde Black tocava no replay infinitas vezes. Gritou num urro que nem ouvidos caninos alcançariam. "Justine, Justine!", onde estaria "Sua Justine e sua semente?"? Arrancou com violência a tela vermelha onde uma transfigurada face de Justine olhava para ele. Não havia evidências de que Justine não estivesse morta...nem viva...mais uma vez, nada era evidente. Chorou como criança abraçado à tela que tinha o cheiro de seu amor-ódio-amor...adormeceu exausto, com uma fagulha de esperança...com sorte, ele  encontraria...morta ou viva...nunca a desejou tanto por perto...


Saiba de primeira aparição em 
http://impressoesexpressas-claudia.blogspot.com/2011/08/elipse-temporal-o-truque.html e siga os links.

Até qualquer dia...




7 comentários:

  1. Claudinha, você me deixou sem ar, mal conseguia respirar até ver o final disso tudo, e lógico, como excelente escritora, nos deixa aquele "gostinho de quero mais", nos deixa com aquela sensação de que se não tivermos mais Justine e Fernando no nosso dia-a-dia ficaremos órfãos de boa leitura, de uma boa ficção , que de tão boa nos leva a acreditar que tudo aquilo , em algum dia, em lugar, realmente aconteceu.Seu texto conseguiu transitar entre o romance, o drama, o suspense, tudo isso com pintadas de pornografia, não aquela pornografia de "filmes de quinta categoria", mas aquela sensualidade/sexualidade que é própria de Justine......Torço tanto para que esta história vire livro, minha amiga. Estou aqui na torcida SEMPRE por vc....te adoro! Gi

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  2. Gostei muito. Texto limpo cheio de nuances metafóricas, de caminhos complexos, de diálogos que não são e ao mesmo tempo são - como se não existissem. Reflete a alma humana, a condição humana, e revela o inconsciente pertencente a todos, e que pode se situar em qualquer dimensão. A dor é transitória assim como a felicidade. A trama do texto é bela. É livro desde o começo. Um grande e original livro, dotado da marca incólume da grande escritora!

    Um beijo..

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  3. Claudia, que belo domínio da narrativa. A inqueitação de Justine salta da tela e nos alcança.Os desdobramentos são cada vez mais surpreendentes. Você realmente não deixa nossa imaginação se acomodar em um momento único. Bravo, querida!

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  4. Muito bom!!

    Sonoro
    Deslumbrante ...

    Muito bom!!!

    Obrigado!!!

    Lerei muito mais!!

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