sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Justine (O encontro no salão)

imagem colhida no google

Justine se acomodou em uma das confortáveis cadeiras do Salão Vermelho. A Criatura enfim apareceu e sentou-se ao seu lado. Justine já estava presa naquele cubo há um tempo difícil de precisar...desde que tentara fazer de seu sangue a matéria prima de seu último quadro antes de tentar buscar seu auto extermínio. Depois disso, não se lembrava de mais nada. É sabido que Justine de muito pouco se lembrava, e na ausência de lembranças, era comum "criar" verdades para preencher lacunas. Isso já havia lhe custado caro demais, e enfim, teria a chance de compreender minimamente o sentido de toda "aquela merda" (assim ela, distímica por natureza, (?) se referia a própria existência.)

Entraram, um a um, alguns de seus fantasmas quase sem rosto. A mãe que lhe criara. O pai que não a assumira. A irmã mais velha, da qual mal se lembrava, com suas grossas sobrancelhas e dedo sempre em riste...o irmão mais velho, que passara a vida acusando-a de "sedutora funcional"...(disso ela se lembrava agora, essa frase recorrente em algumas discussões perdidas no tempo), o outro que passara a vida mal olhando em seus olhos...estavam todos mudos. E no fim, uma pequena Justine. Para o espanto da própria, lá estava Ela, Justine, com no máximo oito anos de idade. Todas essas pessoas foram coaptadas para dentro de uma tela de cinema, dentro da qual Justine, a crescida Justine, não tinha como interferir. Sentia-se entorpecida e cansada, ainda sem ver propósito algum naquilo. Parecia pesadelo ou viagem de ácido.

Várias cenas lhe foram mostradas como num filme. Justine chegando no lar em que fora criada. Justine crescendo. Justine sendo exigida ao máximo em excelência e infalibilidade. Justine apanhando com fivelas de cinto. Justine trancada no banheiro...Justine sendo mordida pelo cachorro da família ao obedecer uma voz de comando de sua "mãe"...e tantas e tantas...e enfim, uma Justine de quase vinte anos com uma muda de roupas e olhos de órbitas vazias, e também uma profunda vontade de ser outra pessoa indo embora sem dar "Tchau" pra ninguém.

De um modo estranhíssimo, o filme rodou de trás pra frente, até o ponto em que a pequena Justine, aquela pequenininha mesmo, saltou da tela e foi ter com ela. A crescida Justine paralisada diante de sua própria criança.

-Justine...eles não vão mais nos machucar...estão todos ocupados demais em suas vidas.- Havia algo de precoce e adulto na voz da criança.- Justine, me dá um abraço...me abraça, por favor! Só de você posso esperar um abraço...você é tão bonita...é assim que vou ficar?

Justine, de olhos riscados d'água, abraçou a pequena "Ela Mesma". Era o primeiro abraço que se dava. Não conseguiu falar nada para a criança, mas abraçou, afagou-lhe os cabelos, encheu-a de beijos, inundando-se de um infinito amor.

-Justine, deixa eu viver! Deixa, Justine, só você pode deixar eu viver!

....

Em uma UTI, uma mulher sem nome nem documentos dava os primeiros sinais de saída de um longo estado comatoso... Ela sobreviveria.



O início compilado em http://impressoesexpressas-claudia.blogspot.com/2011/11/justas-injustas-justines-na-sequencia.html. Continua em breve.

2 comentários:

  1. Clau,
    Eu ja deveria estar acostumada com o que você escreve... São anos de amizade, de convivência, te ouvindo, te lendo e me alegrando com sua alegria incessante de viver ... Quantos telefonemas e encontros começam aos soluços e viram gargalhadas?
    Mas não dá, você sempre me impacta.
    Justine me deixou com a emoção a flor da pele, uma mistura de tristeza e encanto.

    Sucesso,
    Bjs da Luluzinha

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