terça-feira, 8 de novembro de 2011

Pastelaria.

imagem colhida no google

Na porta do antigo prédio comercial da Avenida Copacabana, ela olhava para pulso por puro instinto, não estava habituada a usar "algemas do tempo", como costumava dizer sempre que se referia à relógios. Haviam marcado um novo encontro depois do reencontro no "Bar Antigamente".

Para a surpresa de Flora, cinco minutos antes do combinado, lá estava Vitório. O mesmo olhar sorridente. Reparou um detalhe que havia passado invisível desde que se viram há pouco mais de uma semana: seus cabelos, outrora longos, já desenhavam entradas em sua cabeça bonita. Ele continuava bonito, bem bonito. Talvez um pouco mais estrábico, coisa que só ela talvez percebesse. Ainda movimentava bastante as mãos quando falava. Sorria sempre, junto com os olhos. Parecia ainda mais doce, ainda mais doce...passado tantos anos, que quase sempre fazem as pessoas mais amargas.

Em um segundo, quis derrubar sobre ele um caminhão de arrependimentos e pedidos de perdão que certamente não faziam mais sentido: "Vitório, perdoa eu não ter brigado por você, perdoa eu ter brigado com você, perdoa minhas mentiras adolescentes para lhe parecer mais interessante, perdoa eu ter flertado com aquele menino quando você viajou para ver seu pai, perdoa as vezes em que invadi sua natação por puro ciúmes, perdoa cada palavra mal colocada e meus gritos que você nunca devolveu, sempre tão educado, perdoa as vezes em que inutilmente tentei lhe fazer ciúmes por não ter amado ninguém tanto assim, perdoa por eu ter querido você só pra mim...perdoa pelas vezes em que achei suas irmãs umas chatas e sua mãe mais ainda...perdoa por eu ter quase jogado a "matrioska" pela janela no dia em que você demorou chegar da academia...perdoa minha pesada melancolia sobre seus ombros tão jovens...perdoa não ter te acompanhado, perdoa minha precariedade, minha natureza mambembe...perdoa ter chorado até o fim quando você me deixou de ônibus na porta da minha casa como se eu  fosse a vítima e  você, o culpado. Perdoa aquele dia, que certamente você  nem se lembra, em que fui garçonete por um dia no bar daquele nosso amigo e 'sem querer' derrubei um tanto de vinho na blusa de sua então namorada...aquela que eu nunca mais seria...perdoa as vezes em que eu fui mesquinha em meu imenso querer..." isso e muito mais passou na cabeça fervilhante de uma emocionada Flora que tinha agora ao alcance de seus olhos, e agora quase de sua pele, aquele que a fizera sentir tudo ao extremo como nenhum outro.

"Oi, Flora, como você está bonita de preto."

A voz suave e firme de Vitório a tirou de pronto de seu transe auto-vitimizador. Em um segundo se situou no tempo e no espaço, e com alívio percebeu que aquelas palavras não cabiam mais em sua boca, tampouco em suas verdades. Muito tempo se passou, afinal. Menos o carinho, e era só isso o que precisamente a fazia estar ali. Entendia que seu querer ainda era imenso, bem como entendia também, tantas topadas dadas vida a fora, que nenhum afeto se sustentava com posse. Não existia amor no cativeiro. Não para ela, que experimentara ser a cativa em outros momentos de sua vida, tendo quase chegado à total asfixia.

"Oi, Vitório, vamos sair daqui.", de forma resoluta, o conduziu pelo ombro para longe do prédio.

"O que vamos fazer?"

"O que queremos fazer, Vitório, o que queremos fazer...vamos ficar juntos um pouco, longe de tudo, longe desse calor infernal, longe do mundo."

Caminhavam sem saber para onde iam durante o breve diálogo.

"Flora, estou cansado, pensei em beber algo rapidinho, tenho que ir para casa..."

"Claro, Vitório, claro, não disse que vamos dormir juntos, só quero resolver essa saudade, só isso, vamos, Vitório", e assim, o conduzia com sua voz, que apesar de feminina, não era menos firme que a dele.

Sem mais delongas estavam, sob a condução de Flora, na porta de um motel em Copacabana, daqueles desprovidos de qualquer luxo. Vitório era o único luxo que Flora queria se dar por algumas horas...

"Vamos entrar, Vitório?"

"Melhor não, estou can..." a frase ficou suspensa no ar quando ele se percebeu já na recepção do local.  Uma chave de número duzentos e treze os conduziu ao segundo andar.

O quarto era pequeno, não tinha geladeira, não tinha espelhos no teto, mas tinha uma cama com lençóis limpos e ar-condicionado, além de um banheiro digno. Era o que bastaria...

Despiram-se com delicadeza, como se não quisessem acordar de algum tipo de delírio. Poucas palavras. Umas "saudades" murmuradas entre beijos longos, e abraços que pareciam a tentativa de aglutinação de duas partículas de mercúrio.

"Senti saudade dos seus olhos. Eles me dão tesão".

Flora desviou o olhar que ameaçou transbordar rumo a janela, por onde um cheiro de maresia entrava continuamente. Aquele cheiro só não era mais forte que o de frutas que o hálito de Vitório exalava desde sempre.

"Eu senti saudade de tudo em você." dito isso Flora afundou o rosto em seu pescoço. Queria cada memória sensorial daquele momento, mesmo tendo a nítida impressão de que ele se repetiria...

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Na estação do metrô, comeram em quase absoluto silêncio um daqueles salgados fritos e baratos. Estavam gostosos como iguaria fina...tudo parecia gostoso desde que se reencontraram. Ao fim do breve lanche, seguiram em pistas opostas. Vitório parecia à Flora um balão vermelho a levitar rumo para um mundo que não era o seu. Mas dessa vez sabia que de algum modo, ainda se esbarrariam. E talvez comessem outros pastéis com o gosto bom do desapego...

imagem colhida no google

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