segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Justine - Crua- continuando...

obra de Ania Bocek



Sentiu que estava acordada, o barulho intermitente da rua não deixava mentir. Em algum momento, haveria de abrir os olhos, mas estava tão bom ali. O corpo abandonado sobre um colchão que parecia ser de plumas e pernas que não sabiam de onde vinham entrelaçadas nas suas...devia estar fazendo calor lá fora. Justine também podia escutar um zumbido suave de ar-condicionado ligado, clima da montanha indoor. Gostava de montanhas.

Tentou se lembrar da última noite. A noite que começou em uma tarde. Ordens dadas aos homens da obra, uma volta pelo Centro, uma passada na galeria, o tédio quebrado num banco de praça por uma estranha que não lembrava o nome, apenas dos cabelos muito loiros e da voz aguda a convida-la à uma festa. A festa. Muitas pessoas. Shots de tequila, um, dois, três, oito...cabeça rodando. Música alta, mãos que se aproximavam e deslizavam em e através do seu corpo. Alguns beijos que não eram beijos, pra ela beijo lembrava outra coisa. Era uma fome de devorar o mundo. Contato concreto com formas de vida aparentemente humanas...ainda pensava em Fernando, por onde andaria(?). Pensou tê-lo visto outro dia no Mirante do Leblon, quase fim de Carnaval, não reparou se estava com ou sem seu violão. Deve ter delirado, saudade pode causar efeitos estranhos. Fernando disse que só tocaria agora se fosse em Paris...uma Paris que ela conhecia bem, de seu imaginário, dos livros, de sua paixão por grandes pintores, de sua fértil imaginação. Justine já dera dez voltas ao mundo. Em livros e "google maps", além de algumas viagens com ele, principalmente para o Japão, quando raramente saía do quarto de hotel enquanto ele cumpria sua agenda de shows. Isso parecia ter acontecido em outra existência, o que não deixava de ser verdade.

Por fim, resolvera abrir os olhos quando as pernas que sobrepunham às suas se desvencilharam. Estava em um quarto cheio de móbiles sobre sua cabeça, muitas cores. Pequenos cataventos coloridos dançavam sobre ela com delicadeza. À sua frente, aquela com quem certamente desabara depois da festa. A mulher de cabelos muito claros, a praça, etc.

- Qual é mesmo seu nome?- perguntou uma Justine sem dedos.

-Pode me chamar de Fernando.- respondeu a mulher que não vestia nada além de sua própria pele, ainda mais branca que a de Justine.

-Isso não tem graça.

-Imagino que não. Mas foi assim que você me chamou por toda a noite, principalmente depois da terceira tequila alternada com cerveja. Tenho um amigo que diz que mulheres e tequila não se misturam.

-Seu amigo é um idiota.

-Só às vezes. Todo mundo é idiota às vezes. Justine. Gosto desse nome. Vi um filme do Lars Von Trier. Tem uma Justine que lembra você. Ela é louca.

-Louca? Você não entendeu o filme, Maria. Acabo de lembrar seu nome. Eu vi outro dia. Só acredito mesmo na lucidez dos loucos.

-Viu? Ela lembra você. Melancolia...você é tão bonita, Justine...e tão gostosa...gostei de ser seu Fernando. Posso ser o que você quiser que eu seja.

-Não seja estúpida. Nada é mais estúpido que querer ser a projeção do desejo de alguém. Sei o que estou falando. Loucura é uma coisa, entendo como algo amplo...mas isso é o cúmulo da insanidade.- aquilo parecia algo improvável de sair da boca de Justine.

-Quer um cigarro?-Ofereceu Maria, acendendo um, como quem não dá ouvidos ao que acabara de escutar.

-Agora não. Estou acordando. Onde estão minhas roupas?

-Você vomitou. Botei para lavar. Ontem, você sorria e chorava...em algum momento, virou o Centro das atenções. Beijou alguns homens e mulheres, e pediu claramente que te trouxesse comigo. Um privilégio.

-Não, não é, acredite.

-Você é sempre pessimista?

-Eu nunca sou pessimista. Só não dou ouvidos à toda essa baboseira de felicidade. Querem nos empurrar felicidade goela abaixo a todo custo. Querem nos vender arco-íris todo tempo. Acredito em alguma alegria, e na rota de colisão, só isso.

-Rota...?

-Rota de colisão, jovem menina.

-Não sou tão menina. Já fiz vinte e cinco, e você?

-Fiz mais um dia nessa rota. Também não acredito em aniversário. Estou de saco cheio dessas ritualizações que nunca vão nos tirar da rota. No máximo, dar uma enfeitada no caminho. No fim, é só o fim mesmo- Justine prosseguia como se pensasse em voz alta.- Já parou para pensar na rota? Já nascemos jurados de morte, querida.É a única promessa que se pode cumprir. Um atestado de óbito, se você não for uma indigente, há de ser seu ultimo diploma de honra ao mérito. O mérito de sobreviver tanto quanto possível nesse sadomasoquismo que chamam de Vida.

-Você goza como quem ama a Vida.

-Eu gozo antes da colisão. Não sou contra me divertir no caminho. Isso não é felicidade. Sabe quando dá uma coceira, você alcança o ponto exato e experimenta uma grande sensação de alívio? Gozar é isso. É aliviar as aflições dos nossos corpos perecíveis.

-E o amor?

-Ópio, querida, ópio. E dá ressaca. Gozar é mais fácil.

-Fernando é seu ópio...

-Isso. Não uso mais. Vou para além da loucura se usar. Com ele, quase me esqueci de que estamos apenas caminhando para o nada. Comprei o arco-íris. Já mandei devolver. Minto...já tomaram de volta.

-Quem tomou de volta?

-Uma coisa que quase ninguém suporta, e não me excluo disso, mas me conformo: a realidade. Não tem pote de ouro no final dele. Não tem Amor eterno. Somos felizes para sempre por alguns períodos de entorpecimento. Se todo mundo soubesse disso, acho que a humanidade pararia de distribuir penas de morte ao casar e ter filhos que mal podem amar sem enviar cobranças impagáveis, ou que um dia simplesmente vão tomar seus rumos e cagar para todo o suposto esforço "abnegado" dos pais. Você vai morrer, Maria. Eu também vou. Não precisamos de um planeta, como aquele do filme, para acabar com a porra toda. Nesse exato momento, o fim do mundo está chegando para um "sem número" de pessoas. Nesse exato momento, há muita gente chorando...outras, simplesmente sendo esquecidas...e repare...depois de uns dias, ficam umas lembranças e todo mundo continua seu caminho, esperando, mesmo sem saber, seu apocalipse particular. Enquanto isso, vamos sanando nossas coceiras...é prazeroso sanar coceiras, querida-
dito isso, Justine se levantou e deu um longo beijo em Maria, uma atônita Maria que chorava em silêncio ao ouvir uma mulher falar o óbvio de forma tão crua.

Pularam de novo na cama, em um novo ballet de pernas e bocas.

-Me chame de Fernando, Justine. Quero um pouco de arco-íris.

-Fernando está morto. Não trepo com assombrações e não falo dos mortos à noite, combinado? Podemos passar o dia aqui com nossas coceiras...romance também é ópio, Maria. Se você não quiser adiantar a sua colisão, evite drogas...pelo menos, as pesadas.

-Acho que tive sorte em te conhecer...você é tão bonita, parece de outro mundo.

-Não, Maria. Você não teve sorte- Justine calou a jovem mulher afundando-lhe o rosto entre as pernas.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Justine (A reciclagem) - continuando...

imagem colhida no google

Depois de um semestre em coma profundo, Justine adentrou seu velho ateliê vermelho e foi distribuindo ordens aos homens contratados com o dinheiro que "a estranha Criatura" que sempre seguia ao seu lado deixara em suas mãos. Esse era o primeiro sopro de recomeço.

Ainda haviam resíduos de seu sangue pelo chão. Cheiro de mofo e casa fechada faziam arder as narinas. Algumas malas no canto da sala estavam prontas, e ela imaginava quem havia providenciado...sempre a "Criatura", que de boazinha, nunca teve nada, mas sempre fora direta e cortante como uma faca. "Cada um tem o Anjo que merece", Justine pensou para si.

"Rapazes, quero tudo absolutamente branco. Voltarei amanhã pela manhã. Vocês são em seis, vão conseguir. Instalem aquelas luminárias sobre a mesa, foi um presente. Bom trabalho".  Justine ainda lançou um último olhar antes de sair porta a fora com suas duas malas. Estava cansada, cara lavada, cabelos arrematados com um palito em um coque. Não sabia o que esperar da vida. Entretanto, sabia o que não esperar...não esperaria Fernando, certamente ele já estava seguindo outros caminhos. Fernando sempre fora, mesmo sem querer, seu maior descaminho. Por ele, chegou a querer ser outra pessoa que não ela...mas ela ainda começava a se conhecer. Suas memórias embaçadas ainda anunciavam os primeiros traços de nitidez.

Lembrou-se da voz da "Criatura" ecoando em seus ouvidos: "Faça o que fizer em sua nova chance, não o procure. E se ele te achar, não espere nada. E o mais importante: Não use o truque! Permaneça no tempo real!"

Ao descer as escadas, ainda checou a caixa de correio: nem contas. Também isso deveria ter sido sanado por alguém. Fernando? Não. Ela sabia que ele fora com ela até o limite humano da loucura. Tinha que deixa-lo em paz para ter paz também.

Caminhando pelas ruas do Centro, entrou ao acaso em uma galeria. Deu de cara com uma de suas telas inacabadas, e de um jeito estranho e pacífico, deu de ombros. Um funcionário parou ao seu lado e puxou assunto.

"Moça, louca essa pintura...parece que foi feita a sangue...com sangue mesmo...tá encalhada há meses, mas todo mundo conta muitas histórias sobre ela. Só tem um 'J' na assinatura. Saberia dizer algo sobre ela?"

"Não. Apenas que todas as histórias podem ser reais. E que acho essa pintura uma bela merda, vai ficar aí até apodrecer, imagino..."

Dito isso, Justine saiu correndo dali. Queria dançar. Queria ver gente. Queria algum contato humano, qualquer um. Queria ter a certeza de que sobrevivera a tudo e a todos. Sentou-se num banco de praça para respirar um pouco. O coração tinha o descompasso de um samba experimental. Suava frio, entre o medo e excitação.

Uma mulher de cabelos loiros e nórdicos se aproximou de mansinho e sentou-se ao seu lado. Justine era expert em atrair estranhos.

"Quero ficar só". Disse para a estranha.
"Ninguém quer ficar só, moça".
"Qual o seu nome?"
"Maria".
"Maria, então me leve para dançar"...
"Hoje tem uma festa nas Laranjeiras...música, dança...e muita gente...é uma festa de pegação, mas é divertida..."
"Serve"- finalizou Justine, enfiando um chiclete na boca e espantando um bando de pombos ao atirar o papel... Abandonou as malas no parque. Aquelas roupas não lhe cabiam mais.



"Encontro pela vida milhões de corpos; desses milhões posso desejar centenas; mas dessas centenas, amo apenas um. O outro pelo qual estou apaixonado me designa a especialidade do meu desejo."
Roland Barthes 

Continua...

Eis o longo fio da meada (Justine "compilada"), para quem ainda não conhece a personagem:
http://impressoesexpressas-claudia.blogspot.com/2011/11/justas-injustas-justines-na-sequencia.html

Arrumando a Casa.



arquivos pessoais

Sou da prosa, do conto, da poesia e dos textos intimistas...mas esse blog estava uma coisa...quase um muro de lamentações disfarçado de Poema. Não vou menosprezar a forma, mas quero fazer direito o que me propus a fazer: Contar histórias e estórias sem me afogar em meu profundo umbigo.

Quem me conhece, sabe que vendo livretos, em parte para sobreviver, e de quebra, divulgar minha escrita da forma mais honesta e presencial possível (e também, a seu tempo, viabilizar meu livro, eu que já plantei árvore e tive minha filha). Há quem ache quixotesco, mas o mundo carece de sonhadores...estou aprendendo a sonhar com pelo menos um dos pés bem apoiados no chão. Meus livretos fazem parte do Projeto Despertando leitores, do qual pretendo contar com mais calma, já que a hora tarda e o carnaval deve ter deixado muita gente com a alma cansada. A minha está tão cansada quanto faminta por renovação. Estou arrumando a casa em todos os sentidos. Para trabalhar melhor, funcionar melhor...ter mais qualidade de vida em todas as estações...poder me dar ao luxo de ligar meu ar-condicionado sem medo da conta de luz, por exemplo... estar Vivo, definitivamente, não é para amadores.  Mas vamos aguardar a próxima história. Como já disse, não quero morrer afogada em meu próprio umbigo...

Tenho certeza de que esse espaço de literatura há de ficar cada vez melhor. Se é para dividir, que vá o melhor de mim. Boa noite, Pessoas. Vou terminar uma de minhas paredes com a bailarina verde, que também dará uma linda história...gosto de desenhar e pintar...eita, Arte...obrigada por me ajudar a seguir!

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

E aí o "meu blog" ficou "de mal" com o "seu blog"...

arquivo pessoal, Mamma Rosa, Laranjeiras.


Tempos modernos. Antes as pessoas brigavam e simplesmente não deixavam rastros, se mudavam para outra Galáxia.  Hoje, nesse Universo de cristal líquido, é difícil desaparecer sem deixar vestígios. Até minha filha tem blog...todo mundo tá aí dividindo idéias ou buscando um tanto de atenção, por esse ou aquele motivo. Não sou diferente. É irresistível aquela "clicada" no link daquele ou daquela a quem se tanto amou... e o que não faltam são alfinetes voadores, reais ou imaginários, de "Lá" e de "Cá". Eu sou ré confessa...passei tempo me inspirando nesse velho Amor que partiu pra sempre, de onde surgiram textos pungentes e disfarçadas, mal disfarçadas tentativas de entendimento. E como em todo diálogo extenuado, quando a palavra dita não pode mais ser ouvida, ficam as palavras escritas...o que um dia falava de amor, hoje fala de tristeza, fim, morte e melancolia. De algodão à "kriptonita" . Fala de alguém que não sabe para onde ir nem onde se quer chegar...tá, eu não sei exatamente meu destino, mas sigo caminhando e uma hora vou reconhecê-lo. Meu foco é me manter Viva, com ou sem esse Velho Amor. Corrijo: Sem esse Velho Amor. Pode morrer o Amor, mas que permaneça a possibilidade do recomeço, que não se mate o Amor, coitado...Ele não tem nada a ver com isso. 

Pois a maior culpada, eu que detesto esse rótulo, sou eu..."péra", corrigindo: a maior responsável sou eu. Eu fui quem mais tentou provar que tudo poderia ser diferente, em caminhos novos, quando esperança e confiança já estavam destruídas. Minha teimosia é boa em muita coisa, mas quando mal dirigida, só serve para prolongar sofrimentos. Isso é uma metáfora: Algumas faturas são impagáveis e ponto final. Eu nunca coube na justa medida do sonho de ninguém, talvez por não ter descoberto a justa medida do meu próprio sonho. Quero olhar para dentro, cansei de olhar pra fora. Não quero só sonhar, Jung dizia que quem olha pra dentro, "acorda". E aí sim, posso derramar meu olhar pela Vida com menos devaneio... 

Alguém disse ainda que meu "Blog" dialoga com o "Dele" e vice-versa. É quase um movimento inconsciente da minha parte, talvez da "Dele" também. Sou uma romântica "power-brega-terminal", mas nisso, não sei se quero mudar. Só não quero continuar me ferindo em nome de sentir algo diferente de "Nada". Dei ao "Moço" o poder de me sentir "Viva", e o fato é que esse texto não está sendo psicografado. Estou "Vivinha da Silva Cristina Tonelli". Passei quase 37 anos da minha Vida sem o cara, posso conseguir mais 37...e de preferência, sem raiva, sem ódio, sem acusações sem fim...é só andar, andar e plantar algo diferente de milho de pipoca, para que a colheita não seja a mesma e me enfade o paladar e o gosto pela Existência. 

Eu sempre tive para Ele um olhar "derramado" de sonhos, aí eu sonhei além do que se deve sonhar...não quero mais assunto com a loucura. Nem com o "Blog dele"...com quem o "meu Blog" resolveu ficar de mal. Sei que corro o risco de clicar "lá" a cada atualização e dar aquelas piradas achando que tem algo sendo dito para mim. Ele sempre me dizia, com propriedade, que artistas são egocêntricos. Hora de pôr o desapego total em prática. É possível que ele nem lembre que eu existo, e eu aqui...pelo menos, numa honesta decisão de fechar o ciclo. Com Ele, eu não fico de mal, que vá em Paz. Pois o que quero mesmo, é um pouco de alegria nessa vida (não acredito em felicidade em tempo integral), para mim e para todos. 

Que venha a quarta-feira de cinzas junto com todas as realidades que ainda quero experimentar. Que meu Blog siga com mais literatura e menos lamúria. Esse é o propósito.


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Segunda - Cinza

imagem colhida no google

Abraço quebrado
sem samba, só fado
sem beijo nem tchau
em plena segunda
Adeus Carnaval.
o último cheiro
Foi depois do Natal...
na cabeça uma velha canção
"Nãnãnã"...
Canta pra mim que não foi em vão.

Pretérito que se fará presente num futuro pra sempre ausente.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Hoje tem Poesia? Tem, sim senhor! Hoje tem brigadeiro? Tem, sim senhor!

arquivo pessoal


A palhaça que vos fala
vende chocolate e poesia
quer virar "Primavera"
pra não ficar "prima velha"
Alegria! Que venha, com Chocolate e Poesia...


arquivo pessoal


Ah, fantasia...

arquivo pessoal

O que gosto da fantasia
é a possibilidade de brincar "de mim"              
sem perder o meu "Norte"
posso ser Fada ou Arlequim
despida das antigas dores
me permito às diversas cores
desabo em poesia
imagino amores
relembro saudades
acordo inteira, rosto borrado...
e gosto!!!
Eu sou de verdade
Com ou sem flores.


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Etérea.

arquivo pessoal

O medo da altura é a vertigem do desejo, Ele um dia me explicou. Do abandono do corpo a céu aberto, numa quase ilusão de que as asas brotem a tempo.
Em meus tresvairos, meu olhos traçam retas rumo ao mar. Cerro meus cílios, queria ser bolha de sabão e saber voar...mas sou densa. Leve por fora, mil toneladas carrego "lá dentro".
Desço vinte e dois andares, no caminho esbarro com alguma esperança. Não, não sei voar. Só sei andar, às vezes correr. Pé ante pé. Falta aprender a não olhar para trás, sob pena de perpétua prisão das "impagáveis penas".
Só pode (espero) existir marco zero para alguns descaminhos. Apenas o "hoje, aqui, agora e nunca mais!".
Ondas vão e vêm (como velhos amores), sem ligar pra ninguém. E de novembro a novembro, o "Rio" segue seu curso. Sigo seu fluxo, fujo de rancores que me levem o fígado. Já me basta o que a Vida me custou de juízo...

A Vertigem:







domingo, 12 de fevereiro de 2012

Ao Mar.

imagem colhida no google

A Pessoa sentou-se bem em frente ao mar. Olhos fixos no horizonte onde dois tons de azul se encontravam, desses mesmos olhos escorreram água salgada por horas a fio. Dissolvida no oceano, foi levada ao Pacífico. Nem assim a Pessoa encontrou a Paz.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O número chamado não existe mais.

imagem colhida no google

O número chamado não existe
aproveita e te liberta
faz de conta que nunca existiu
se é de tanto Doer
fecha a janela
Azul, só se for anil
e se for pra doer, põe-te a correr
não olhes pra trás...
deixaste um cheiro ruim...
perfuma-te de anis estrelado
come de frutas em bruto estado...
(Realidade fora de potes, salpicando árvores que ainda existem!!!)
"Coma a ti mesma"
veja que se amar
vale a pena.


imagem colhida no google


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

"Verde-Forte"

arquivo pessoal

Acho que, pela primeira vez na vida, me comprometo seriamente com a sobrevivência de uma plantinha. Ela é a ligação palpável e simbólica com minha família, hoje distante geograficamente, entretanto, tão presente quanto possível. Bato "altos papos" com Ela, que vai ficando cada dia mais verdinha (o que no caso de folhas, é um bom sinal...) e com uma "carinha feliz". Foi colhida no recanto dos gatos de minha mãe, lá no Sul do país, ao pé de uma palmeira imperial abusada de linda...bem no quintal! Minha mãe teve o cuidado de fazer uma "encubadora" com garrafa pet ao me presentear com as mudinhas, com um tantinho de água no fundo que a fizesse sobreviver à viagem. E ela sobreviveu. Está na janela, olhando o movimento e "paquerando" as árvores. Normalmente, fica aqui ao meu lado, na mesa do computador. Mamãe disse que não é uma planta de "grandes passeios", mas outro dia eu não a levei à janela e ela ficou com um jeitinho meio "pidão". Estamos nos conhecendo. Toda vez que acho que a Vida tá dura demais, penso em minha Mãe cor-de-rosa, sobrevivente nata. E na plantinha que fez Sul-Sudeste de ônibus em janeiro e hoje está aqui, bem pertinho de mim. Sorrio pra mim e acredito, definitivamente, que posso ser tão ou mais forte que elas. Em tese, tenho o tempo em meu favor...apesar de precisar de bem mais que duas gotinhas de cloro para espantar mosquitos e água gelada...não dependo de ninguém para me levar até a janela e ver o Azul à me convidar à infinitas possibilidades! Vou onde eu bem queira. Liberdade de trilhar através de minhas escolhas, e mudar o trajeto sempre que necessário :)

arquivo pessoal



terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Tangerinas.

imagem colhida no google

Ela gostava de descascar tangerinas com as mãos (haveria outro modo?), e principalmente das micro gotículas ácidas que espirravam em seu rosto fazendo cosquinha e exalando aquele cheiro tão "infância" a cada investida contra a casca que separava a expectativa do prazer. Gostava de acordar no meio da noite e encontrar o fruto alaranjado na geladeira a convida-la à uma degustação fora de hora, daquelas que funcionam como adstringentes da alma quando o sono não vem. Gostava da lembrança daquela árvore lotada de frutos na casa de sua mãe, que tantas vezes saciou sua fome quando nada parecia querer permanecer em seu estômago e sua única necessidade era um sabor agradável brincando em seu palato. Um sabor cuja saudade era sanada com uma ida na feira, e mais nada...

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A mulher economicamente inviável.

imagem colhida no google


"A Mulher economicamente inviável"


...ela ouvira, olhos arregalados, que era uma mulher economicamente inviável. Resumindo em uma palavra: Pobre.
Perplexa, tentou explicar que Dele só precisava de Amor, e que gostava de trabalhar, até vendia palavras... Ele, calmamente, tentou explicar também que não poderia amar Aquela que Ele não se sentia em condições plenas de ajudar. Dele, só interessava à Ela o Amor, Ela ainda tentou explicar mais uma vez. Essa parte (parece) Ele não entendeu. Ela perguntou se Ele queria que Ela sumisse. Ele disse que sim.
Ela se rendeu, entendeu o quão obsoleto é o amor (dessa vez, em letra minúscula). Caminhou para a cozinha e foi fazer os seus doces.

                                                                        Fim




sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Apagão ( e Luz...)



Desabei em cansaço. E olha eu aqui falando de novo de Amor...e não falo de lembranças românticas editadas, ou "quase ficções", ou o que se queira entender nesse sentido. Falo do Grande Amor. Da Vida que gerei dentro de mim há dez anos atrás, minha filha. Minha Letícia. Ainda que não seja rigorosamente minha, lembrando as palavras de Kahlil Gibran:

"Vossos filhos não são vossos filhos. 
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. 
Vêm através de vós, mas não de vós. 
E embora vivam convosco, não vos pertencem. 
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos, 
Porque eles têm seus próprios pensamentos. 
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas; 
Pois suas almas moram na mansão do amanhã, 
Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho. 
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós, 
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados. 
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas. 
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força 
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe. 
Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria: 
Pois assim como ele ama a flecha que voa, 
Ama também o arco que permanece estável."

Pois é...essas palavras me dizem muito. Sou mãe...quando a digo "minha", falo em Amor mesmo, não em propriedade. Falo da obrigação que tenho, pois assim escolhi no momento em que a gerei, de prepará-la para a Vida e gerar possibilidades mínimas para a concretização de seus sonhos e projetos em construção. É uma menininha "quase mocinha" de dez anos. Daquelas repletas de talentos e sensibilidades que não são visíveis apenas aos meus olhos maternos, mas aos olhos de quem tem a sorte de conhecê-la, pois conhecê-la é uma sorte sim! Tê-la em minha Vida é uma benção que dinheiro nenhum no mundo pode mensurar. Mas também vale lembrar que não vivo (e nem quero) em uma sociedade alternativa onde pão e água bastam para se ter uma vida plena. Sei que grana é necessária para tocar a vida e ponto.

Sobre o apagão (eu que desabei em sono feito pedra)...passei os últimos meses pensando em como driblar uma crise material que já se desenha há tempos, entre altos e baixos. Ela não pôde continuar na escola que estava e eu não quis apelar para a rede pública por razões das quais acho que não preciso nem quero justificar. Minha "aluna nota 10" (por mérito, não por exigência) quer bastante de sua existência. Quer fazer diferença. Tem ideais só dela. Pensa em um dia ir para o Bolshoi , estudar em esquema de internato (olha como tenho que treinar meu desapego!) e rodopiar sobre suas hábeis sapatilhas. Quer ecoar sua linda voz por aí, nasceu mordida de arte...quer estudar muito, quer abraçar o mundo com força, agora deu para dormir com seu violão como se fosse um ursinho de pelúcia...e eu quero estar ao seu lado fazendo-a acreditar que, mesmo não sendo fácil, não é impossível. Pois sim...corri sobre brasas. Redigi e revisei manuais insólitos de "furadeiras" e afins para além da conta, vendi poesia, escrevi para outros, fiz de um tudo para gerar receita. Agora voltarei aos meus doces, sem abandonar a palavra escrita e dita. O vil metal deixa a vida menos vilã, fato. Posso estar parecendo ou sendo prolixa nesse texto...acabei de acordar, desabei bem antes das dez da noite. Ontem consegui o restante necessário para matriculá-la na escola, e também a taxa mínima do novo ballet (taxa mínima- bolsista por teste de aptidão!) onde ela vai agora encarar a tal sapatilha de ponta no meio do ano, e não foi pedindo esmola. Achei que não ia conseguir. Tive quem me apoiasse de várias formas. Meu "pai afetivo" Lucito, alguns bons amigos que me viram chorar, Luiza que levou minha pequena para sua casa para brincar e poupá-la de minha adrenalina na corrida contra o tempo nesses últimos dias...Alan me apontando a trilha dos doces que podem virar dinheiro (esse me apoiou de várias formas, independente de nossas "semelhanças-diferenças"), Leandro que também me viu chorar e atravessou o túnel de um bobo divisor social carioca para me injetar ânimo e me fazer companhia em noites de poesia vendida honestamente... e outros nomes que tornariam esse post um tanto extenso(mas não muito....). Mas quero em tempo agradecer meu psicoterapeuta, o Sérgio Mello, que me ajuda a caminhar em solos concretos sem pirar. Não sou a mulher-Maravilha. Achei por um momento que perderia o chão sob meus pés. Mas o chão continua aqui, bem como um longo caminho a trilhar. Ser "pãe" é tão bom quanto trabalhoso. E mais uma vez não cabe uma reclamação. É mais um fato. Venho dando conta há uma década, e vou seguir conseguindo. Quando cuido de mim, estou cuidando dela. Simplesmente, não posso deprimir. Deitei cedo para "dar uma descansada" e só fui abrir os olhos, sem noção do tempo, depois das cinco da matina. 

Minha nova meta é uma nada singela nem econômica lista de livros e materiais que tenho que dar conta em uma semana. Ela começará o ano letivo com seus cadernos (um deles novo, presente da Luiza, capa da Capricho -um "capricho", presente dado de coração, coisa de meninas!!!), mas começará!!!


Em algumas horas, estarei abraçando minha filhinha de novo. E sem lágrimas, acho que desidratei de tanto chorar nas ultimas 72 horas...rs...minhas forças estão renovadas. Para o trabalho, para a luta, para a lúcida esperança. Mesmo que às vezes me dê um embrulho no estômago e um nó no peito. Eu desembrulho, desato e sigo...pois assim são os grandes Amores...

Antes que me perguntem se ela tem pai, respondo: tem. Mas essa é uma longa e desnecessária história para se jogar na rede. Quero manter meu bom astral.


Beijos dessa escritora que vos fala. Bom dia!

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Sépias (lembranças "su- reais"), parágrafo único

arquivo pessoal

Então o que era azul ficou sépia. O que era verde idem. Magentas, laranjas vibrantes, o vermelho- sangue e o rosa-bebê também. Encontro farelos de pão francês  embaixo da cama do quase abandonado ateliê que ficou com cara de depósito de sonhos e ilusões. Farelos de mim, de uma tarde sorridente de sanduíche de mortadela com coca-cola. Nem me lembrava, talvez por não ter esquecido. Memória que não raro, ainda se mistura com sonho e fantasia. Um tanto de saudade, aquela pontadinha aguda, bem fininha, do lado esquerdo, bem na primeira costela, me faz lembrar que estou viva. Fico feliz ao achar o cadarço da minha botinha clownesca  predileta ao vasculhar o armário. Ganhei da minha irmã e mandei pintar de preto. Sou clownesca. Rio quando quero chorar, choro quando quero rir. Mas também sei ser genuinamente feliz. Vejo na parede verde água o solidário trajeto das formigas em busca de alimento ou quiça o "caminho de casa", e também isso me faz sorrir. Olho para uma camiseta que lá está, por detrás da banqueta, esquecida pelo velho (ainda jovem) Amor que partiu. Ele customizou com água sanitária e "mandou" uma estampa bacana. Tantos talentos...para além das geleias de insólitos sabores e suas músicas geniais. Caminho até a cozinha e vejo uma pilha de potes vazios com suas tampas douradas. Lá viveram mil sabores, de nozes à flores exóticas com gosto açucarado. Me vejo como um fantasminha vagando sem rumo através de minhas mobílias afetivas, fragmentos que falam de mim e para mim, e para quem saiba me ler. E olha que sou feita de garranchos e tortos horizontes, mesmo que em mim possa se encontrar palavras bonitas e doces como aquela geleia...dá trabalho (como posso gostar de cadernos sem pautas se ainda estou aprendendo a escrever em retas linhas?). Cato um dos potes bem lavados e secos, guardo meus brincos coloridos que brincam em minhas orelhas. Adoro brincos e brincadeiras. Eram boas as brincadeiras em meu ateliê. Da janela, um cheiro de maresia atravessa meu paladar. Sim, sinto o gosto do mar...lembro que era bom amar com gosto de mar em minha boca. Estou à duas quadras da praia que atravessa meus melhores dias da minha condição feminina. Ali fui absurdamente feliz. E ainda sou feliz, pois o que vivi, ninguém roubará. Ainda que Ele encontre outros amores, nada nos rouba a história, essa matéria invisível que nos constrói a cada despertar. Olho com ternura para uma flanela alaranjada que ele carregava em sua case. Nunca soube para o que servia. Acho de repente umas letras de música sobre a escrivaninha( Ah, "Pintura"!). E me surpreendo ao encontrar uma de suas crônicas que transcrevi sobre uma transparência com uma caneta permanente. Palavras dançantes no infinito contra a luz... Mentira, não acho nada dessas coisas. Elas nunca saíram de lá. Estão junto à receita de brigadeiro que ele me passou um dia e que já sei de cor...um tantinho de leite e mais um "truquezinho" deixa o sabor inigualável. Lembro da maneira como ele movia as mãos muito brancas ao me explicar algo com seu jeito detalhado me explicar coisas sérias. Movimentava os lábios de um jeito bonito, nem sempre era fácil prestar atenção. Um pedaço da minha alma mora nesses dias idos que ainda trago comigo. Não sei mais caminhar pelas adjacências sem a esperança de reencontrá-lo. Sou ré confessa de uma incomensurável Saudade, da qual não sei se quero viver sem. Acho que estamos ficando amigas( Eu e a "Dona saudade")...não sinto amargura. Não sinto raiva. Não sinto vontade de sumir. Já senti isso tudo. Ter ficado a saudade é lucro. Nunca mais comprei geleias depois que conheci as d'Ele. As melhores do mundo. Nunca mais amei ninguém depois dele, pelo mesmo motivo. Enfim...sorrio de novo e de novo, ao ver que as formigas estavam atrás de meus farelos..os de pão...os "meus" eu recolho para me reconstruir sempre que penso que vou desabar. Viver é rápido e perigoso. Mas não abro mão disso. Não sou eu quem vou decidir meu tempo "por aqui". É algo bem maior que eu (Ontem sonhei que vimos o Sol nascer dentro dessas mesmas paredes verdes...e que pude senti-lo em mim e através de mim...Só não sei se dormia ou se um pedaço de realidade invadiu os meus sonhos...mas isso não é o mais importante...). Me deu grande vontade de comprar um caderno de caligrafia...acredito em recomeços...sozinha ou não.

P.S: Mas como é boa a sensação daqueles dedos suaves entrelaçados aos meus...

P.S2: Claro que essa postagem é um desdobramento da anterior.