segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Justine - Crua- continuando...

obra de Ania Bocek



Sentiu que estava acordada, o barulho intermitente da rua não deixava mentir. Em algum momento, haveria de abrir os olhos, mas estava tão bom ali. O corpo abandonado sobre um colchão que parecia ser de plumas e pernas que não sabiam de onde vinham entrelaçadas nas suas...devia estar fazendo calor lá fora. Justine também podia escutar um zumbido suave de ar-condicionado ligado, clima da montanha indoor. Gostava de montanhas.

Tentou se lembrar da última noite. A noite que começou em uma tarde. Ordens dadas aos homens da obra, uma volta pelo Centro, uma passada na galeria, o tédio quebrado num banco de praça por uma estranha que não lembrava o nome, apenas dos cabelos muito loiros e da voz aguda a convida-la à uma festa. A festa. Muitas pessoas. Shots de tequila, um, dois, três, oito...cabeça rodando. Música alta, mãos que se aproximavam e deslizavam em e através do seu corpo. Alguns beijos que não eram beijos, pra ela beijo lembrava outra coisa. Era uma fome de devorar o mundo. Contato concreto com formas de vida aparentemente humanas...ainda pensava em Fernando, por onde andaria(?). Pensou tê-lo visto outro dia no Mirante do Leblon, quase fim de Carnaval, não reparou se estava com ou sem seu violão. Deve ter delirado, saudade pode causar efeitos estranhos. Fernando disse que só tocaria agora se fosse em Paris...uma Paris que ela conhecia bem, de seu imaginário, dos livros, de sua paixão por grandes pintores, de sua fértil imaginação. Justine já dera dez voltas ao mundo. Em livros e "google maps", além de algumas viagens com ele, principalmente para o Japão, quando raramente saía do quarto de hotel enquanto ele cumpria sua agenda de shows. Isso parecia ter acontecido em outra existência, o que não deixava de ser verdade.

Por fim, resolvera abrir os olhos quando as pernas que sobrepunham às suas se desvencilharam. Estava em um quarto cheio de móbiles sobre sua cabeça, muitas cores. Pequenos cataventos coloridos dançavam sobre ela com delicadeza. À sua frente, aquela com quem certamente desabara depois da festa. A mulher de cabelos muito claros, a praça, etc.

- Qual é mesmo seu nome?- perguntou uma Justine sem dedos.

-Pode me chamar de Fernando.- respondeu a mulher que não vestia nada além de sua própria pele, ainda mais branca que a de Justine.

-Isso não tem graça.

-Imagino que não. Mas foi assim que você me chamou por toda a noite, principalmente depois da terceira tequila alternada com cerveja. Tenho um amigo que diz que mulheres e tequila não se misturam.

-Seu amigo é um idiota.

-Só às vezes. Todo mundo é idiota às vezes. Justine. Gosto desse nome. Vi um filme do Lars Von Trier. Tem uma Justine que lembra você. Ela é louca.

-Louca? Você não entendeu o filme, Maria. Acabo de lembrar seu nome. Eu vi outro dia. Só acredito mesmo na lucidez dos loucos.

-Viu? Ela lembra você. Melancolia...você é tão bonita, Justine...e tão gostosa...gostei de ser seu Fernando. Posso ser o que você quiser que eu seja.

-Não seja estúpida. Nada é mais estúpido que querer ser a projeção do desejo de alguém. Sei o que estou falando. Loucura é uma coisa, entendo como algo amplo...mas isso é o cúmulo da insanidade.- aquilo parecia algo improvável de sair da boca de Justine.

-Quer um cigarro?-Ofereceu Maria, acendendo um, como quem não dá ouvidos ao que acabara de escutar.

-Agora não. Estou acordando. Onde estão minhas roupas?

-Você vomitou. Botei para lavar. Ontem, você sorria e chorava...em algum momento, virou o Centro das atenções. Beijou alguns homens e mulheres, e pediu claramente que te trouxesse comigo. Um privilégio.

-Não, não é, acredite.

-Você é sempre pessimista?

-Eu nunca sou pessimista. Só não dou ouvidos à toda essa baboseira de felicidade. Querem nos empurrar felicidade goela abaixo a todo custo. Querem nos vender arco-íris todo tempo. Acredito em alguma alegria, e na rota de colisão, só isso.

-Rota...?

-Rota de colisão, jovem menina.

-Não sou tão menina. Já fiz vinte e cinco, e você?

-Fiz mais um dia nessa rota. Também não acredito em aniversário. Estou de saco cheio dessas ritualizações que nunca vão nos tirar da rota. No máximo, dar uma enfeitada no caminho. No fim, é só o fim mesmo- Justine prosseguia como se pensasse em voz alta.- Já parou para pensar na rota? Já nascemos jurados de morte, querida.É a única promessa que se pode cumprir. Um atestado de óbito, se você não for uma indigente, há de ser seu ultimo diploma de honra ao mérito. O mérito de sobreviver tanto quanto possível nesse sadomasoquismo que chamam de Vida.

-Você goza como quem ama a Vida.

-Eu gozo antes da colisão. Não sou contra me divertir no caminho. Isso não é felicidade. Sabe quando dá uma coceira, você alcança o ponto exato e experimenta uma grande sensação de alívio? Gozar é isso. É aliviar as aflições dos nossos corpos perecíveis.

-E o amor?

-Ópio, querida, ópio. E dá ressaca. Gozar é mais fácil.

-Fernando é seu ópio...

-Isso. Não uso mais. Vou para além da loucura se usar. Com ele, quase me esqueci de que estamos apenas caminhando para o nada. Comprei o arco-íris. Já mandei devolver. Minto...já tomaram de volta.

-Quem tomou de volta?

-Uma coisa que quase ninguém suporta, e não me excluo disso, mas me conformo: a realidade. Não tem pote de ouro no final dele. Não tem Amor eterno. Somos felizes para sempre por alguns períodos de entorpecimento. Se todo mundo soubesse disso, acho que a humanidade pararia de distribuir penas de morte ao casar e ter filhos que mal podem amar sem enviar cobranças impagáveis, ou que um dia simplesmente vão tomar seus rumos e cagar para todo o suposto esforço "abnegado" dos pais. Você vai morrer, Maria. Eu também vou. Não precisamos de um planeta, como aquele do filme, para acabar com a porra toda. Nesse exato momento, o fim do mundo está chegando para um "sem número" de pessoas. Nesse exato momento, há muita gente chorando...outras, simplesmente sendo esquecidas...e repare...depois de uns dias, ficam umas lembranças e todo mundo continua seu caminho, esperando, mesmo sem saber, seu apocalipse particular. Enquanto isso, vamos sanando nossas coceiras...é prazeroso sanar coceiras, querida-
dito isso, Justine se levantou e deu um longo beijo em Maria, uma atônita Maria que chorava em silêncio ao ouvir uma mulher falar o óbvio de forma tão crua.

Pularam de novo na cama, em um novo ballet de pernas e bocas.

-Me chame de Fernando, Justine. Quero um pouco de arco-íris.

-Fernando está morto. Não trepo com assombrações e não falo dos mortos à noite, combinado? Podemos passar o dia aqui com nossas coceiras...romance também é ópio, Maria. Se você não quiser adiantar a sua colisão, evite drogas...pelo menos, as pesadas.

-Acho que tive sorte em te conhecer...você é tão bonita, parece de outro mundo.

-Não, Maria. Você não teve sorte- Justine calou a jovem mulher afundando-lhe o rosto entre as pernas.

4 comentários:

  1. Claudinha, fico FELIZ em rever a Justine, inclusive já tinha feito esta pequena analogia com a Justine , do filme "Melancolia", do maravilhoso Lars Von Trier.Mas AQUELA Justine representa uma espécie de "ode a tristeza", o que não vejo na SUA JUSTINE. Lógico que todos temos dentro de si uma tristeza inata, e SUA JUSTINE também possui , porém ela vive tal tristeza, tal melancolia da maneira mais PLENA possível...Para mim, a citação/frase mais marcante foi justamente a seguinte:"Querem nos empurrar felicidade goela abaixo a todo custo. Querem nos vender arco-íris todo tempo.". Cacete, isso é absurdamente INSUPORTÁVEL! Já senti muita CULPA por não ser FELIZ "full time", mas quer saber? Ninguém é!!!!Aliás, já está mais do que provado que os países mega desenvolvidos, ou seja, aqueles que têm "melhor qualidade de vida", são também os de maiores taxas de suicídio. Por quê? Então, todas nós somos um pouco a Justine ( ou seríamos muito?). Era isso, beijo grande e ainda quero ver um livro , uma peça com a história de Justine......

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    1. Concordo, Gi. E sim, acho que a condição feminina imprime um "quê" de Justine em cada uma de nós...e sim, Justine caminha para um livro, quiça uma peça, e, sonho dos sonhos, quem sabe um filme? Gosto de contruí-la a olhos vistos, com vocês por perto ;)

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  2. Só agora tomei contato com este seu romance aos pedaços... e como te conheci de fotos em eventos de poesia e de fazedora de doces... me surpreendi com esta sua verve erótico\sensual...
    Quantos temos realmente dentro de nós, não é?
    Não só Justines ou Fernandos, mas uma imensidão de seres...
    Vou te acompanhar aqui para ver quando o seu livro realmente sair...ou peça...

    (Aliás, vou dar uma sapeada por aqui, para encontrar mais fragmentos desta história)

    Aliás, pode me chamar de Fernando

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