quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Justine (A reciclagem) - continuando...

imagem colhida no google

Depois de um semestre em coma profundo, Justine adentrou seu velho ateliê vermelho e foi distribuindo ordens aos homens contratados com o dinheiro que "a estranha Criatura" que sempre seguia ao seu lado deixara em suas mãos. Esse era o primeiro sopro de recomeço.

Ainda haviam resíduos de seu sangue pelo chão. Cheiro de mofo e casa fechada faziam arder as narinas. Algumas malas no canto da sala estavam prontas, e ela imaginava quem havia providenciado...sempre a "Criatura", que de boazinha, nunca teve nada, mas sempre fora direta e cortante como uma faca. "Cada um tem o Anjo que merece", Justine pensou para si.

"Rapazes, quero tudo absolutamente branco. Voltarei amanhã pela manhã. Vocês são em seis, vão conseguir. Instalem aquelas luminárias sobre a mesa, foi um presente. Bom trabalho".  Justine ainda lançou um último olhar antes de sair porta a fora com suas duas malas. Estava cansada, cara lavada, cabelos arrematados com um palito em um coque. Não sabia o que esperar da vida. Entretanto, sabia o que não esperar...não esperaria Fernando, certamente ele já estava seguindo outros caminhos. Fernando sempre fora, mesmo sem querer, seu maior descaminho. Por ele, chegou a querer ser outra pessoa que não ela...mas ela ainda começava a se conhecer. Suas memórias embaçadas ainda anunciavam os primeiros traços de nitidez.

Lembrou-se da voz da "Criatura" ecoando em seus ouvidos: "Faça o que fizer em sua nova chance, não o procure. E se ele te achar, não espere nada. E o mais importante: Não use o truque! Permaneça no tempo real!"

Ao descer as escadas, ainda checou a caixa de correio: nem contas. Também isso deveria ter sido sanado por alguém. Fernando? Não. Ela sabia que ele fora com ela até o limite humano da loucura. Tinha que deixa-lo em paz para ter paz também.

Caminhando pelas ruas do Centro, entrou ao acaso em uma galeria. Deu de cara com uma de suas telas inacabadas, e de um jeito estranho e pacífico, deu de ombros. Um funcionário parou ao seu lado e puxou assunto.

"Moça, louca essa pintura...parece que foi feita a sangue...com sangue mesmo...tá encalhada há meses, mas todo mundo conta muitas histórias sobre ela. Só tem um 'J' na assinatura. Saberia dizer algo sobre ela?"

"Não. Apenas que todas as histórias podem ser reais. E que acho essa pintura uma bela merda, vai ficar aí até apodrecer, imagino..."

Dito isso, Justine saiu correndo dali. Queria dançar. Queria ver gente. Queria algum contato humano, qualquer um. Queria ter a certeza de que sobrevivera a tudo e a todos. Sentou-se num banco de praça para respirar um pouco. O coração tinha o descompasso de um samba experimental. Suava frio, entre o medo e excitação.

Uma mulher de cabelos loiros e nórdicos se aproximou de mansinho e sentou-se ao seu lado. Justine era expert em atrair estranhos.

"Quero ficar só". Disse para a estranha.
"Ninguém quer ficar só, moça".
"Qual o seu nome?"
"Maria".
"Maria, então me leve para dançar"...
"Hoje tem uma festa nas Laranjeiras...música, dança...e muita gente...é uma festa de pegação, mas é divertida..."
"Serve"- finalizou Justine, enfiando um chiclete na boca e espantando um bando de pombos ao atirar o papel... Abandonou as malas no parque. Aquelas roupas não lhe cabiam mais.



"Encontro pela vida milhões de corpos; desses milhões posso desejar centenas; mas dessas centenas, amo apenas um. O outro pelo qual estou apaixonado me designa a especialidade do meu desejo."
Roland Barthes 

Continua...

Eis o longo fio da meada (Justine "compilada"), para quem ainda não conhece a personagem:
http://impressoesexpressas-claudia.blogspot.com/2011/11/justas-injustas-justines-na-sequencia.html

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