quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Sépias (lembranças "su- reais"), parágrafo único

arquivo pessoal

Então o que era azul ficou sépia. O que era verde idem. Magentas, laranjas vibrantes, o vermelho- sangue e o rosa-bebê também. Encontro farelos de pão francês  embaixo da cama do quase abandonado ateliê que ficou com cara de depósito de sonhos e ilusões. Farelos de mim, de uma tarde sorridente de sanduíche de mortadela com coca-cola. Nem me lembrava, talvez por não ter esquecido. Memória que não raro, ainda se mistura com sonho e fantasia. Um tanto de saudade, aquela pontadinha aguda, bem fininha, do lado esquerdo, bem na primeira costela, me faz lembrar que estou viva. Fico feliz ao achar o cadarço da minha botinha clownesca  predileta ao vasculhar o armário. Ganhei da minha irmã e mandei pintar de preto. Sou clownesca. Rio quando quero chorar, choro quando quero rir. Mas também sei ser genuinamente feliz. Vejo na parede verde água o solidário trajeto das formigas em busca de alimento ou quiça o "caminho de casa", e também isso me faz sorrir. Olho para uma camiseta que lá está, por detrás da banqueta, esquecida pelo velho (ainda jovem) Amor que partiu. Ele customizou com água sanitária e "mandou" uma estampa bacana. Tantos talentos...para além das geleias de insólitos sabores e suas músicas geniais. Caminho até a cozinha e vejo uma pilha de potes vazios com suas tampas douradas. Lá viveram mil sabores, de nozes à flores exóticas com gosto açucarado. Me vejo como um fantasminha vagando sem rumo através de minhas mobílias afetivas, fragmentos que falam de mim e para mim, e para quem saiba me ler. E olha que sou feita de garranchos e tortos horizontes, mesmo que em mim possa se encontrar palavras bonitas e doces como aquela geleia...dá trabalho (como posso gostar de cadernos sem pautas se ainda estou aprendendo a escrever em retas linhas?). Cato um dos potes bem lavados e secos, guardo meus brincos coloridos que brincam em minhas orelhas. Adoro brincos e brincadeiras. Eram boas as brincadeiras em meu ateliê. Da janela, um cheiro de maresia atravessa meu paladar. Sim, sinto o gosto do mar...lembro que era bom amar com gosto de mar em minha boca. Estou à duas quadras da praia que atravessa meus melhores dias da minha condição feminina. Ali fui absurdamente feliz. E ainda sou feliz, pois o que vivi, ninguém roubará. Ainda que Ele encontre outros amores, nada nos rouba a história, essa matéria invisível que nos constrói a cada despertar. Olho com ternura para uma flanela alaranjada que ele carregava em sua case. Nunca soube para o que servia. Acho de repente umas letras de música sobre a escrivaninha( Ah, "Pintura"!). E me surpreendo ao encontrar uma de suas crônicas que transcrevi sobre uma transparência com uma caneta permanente. Palavras dançantes no infinito contra a luz... Mentira, não acho nada dessas coisas. Elas nunca saíram de lá. Estão junto à receita de brigadeiro que ele me passou um dia e que já sei de cor...um tantinho de leite e mais um "truquezinho" deixa o sabor inigualável. Lembro da maneira como ele movia as mãos muito brancas ao me explicar algo com seu jeito detalhado me explicar coisas sérias. Movimentava os lábios de um jeito bonito, nem sempre era fácil prestar atenção. Um pedaço da minha alma mora nesses dias idos que ainda trago comigo. Não sei mais caminhar pelas adjacências sem a esperança de reencontrá-lo. Sou ré confessa de uma incomensurável Saudade, da qual não sei se quero viver sem. Acho que estamos ficando amigas( Eu e a "Dona saudade")...não sinto amargura. Não sinto raiva. Não sinto vontade de sumir. Já senti isso tudo. Ter ficado a saudade é lucro. Nunca mais comprei geleias depois que conheci as d'Ele. As melhores do mundo. Nunca mais amei ninguém depois dele, pelo mesmo motivo. Enfim...sorrio de novo e de novo, ao ver que as formigas estavam atrás de meus farelos..os de pão...os "meus" eu recolho para me reconstruir sempre que penso que vou desabar. Viver é rápido e perigoso. Mas não abro mão disso. Não sou eu quem vou decidir meu tempo "por aqui". É algo bem maior que eu (Ontem sonhei que vimos o Sol nascer dentro dessas mesmas paredes verdes...e que pude senti-lo em mim e através de mim...Só não sei se dormia ou se um pedaço de realidade invadiu os meus sonhos...mas isso não é o mais importante...). Me deu grande vontade de comprar um caderno de caligrafia...acredito em recomeços...sozinha ou não.

P.S: Mas como é boa a sensação daqueles dedos suaves entrelaçados aos meus...

P.S2: Claro que essa postagem é um desdobramento da anterior.

4 comentários:

  1. "O tempo não comprou passagem de volta. Tenho lembranças e não saudades." Mario Lago. Bjs.

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  2. É desdobramento que me dói tanto quanto a postagem anterior.

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