sábado, 31 de março de 2012

Teimosia, hiperatividade e um tanto de melancolia.

Arquivo pessoal

Penso muito no que virou minha vida. Ou no que está virando. Onde vai dar? O que sou eu? Ou quem? Crise. Sempre escrevi, praticamente desde que me alfabetizei. Talvez antes até...em "letrinhas" que só faziam sentido para mim. Não fui uma boa aluna no segundo grau. Química e matemática me asfixiaram. Fui de "Nerd" à "Displicente", para desespero dos que me criaram. Aos dezoito anos, a sentença: "Não vamos mais investir em sua educação". Daí eu segui com minhas pernas. E continuei entulhando gavetas com escritos numa época em que pouco se falava em internet. Eu levei tempos para descobrir e me render a rede. Não sou boa com informática. Não raro, tenho vontade de voltar a estudar, levar uma faculdade até o fim, mas como e para quê?

Sinto que meu tempo passou, e sigo no fluxo da sobrevivência e da teimosia. Teste vocacional nunca foi muito preciso comigo. Sou boa em rabiscar desenhos, gosto de moda, sou boa em cuidar de velhinhos, gosto de gente, sou boa em fazer docinhos, gosto de culinária, sou péssima em administrar minhas "habilidades", tenho deficit de atenção. Não confundir com burrice. Concentrar-me em algo é um grande desafio. Meu melhor desempenho é como mãe, sem pai do lado para dividir grandes decisões. Tem dia que sou tomada de pânico. Também não sou boa em me esconder. Falo mesmo. Talvez deva aprender. Falo o que penso, o que sinto, o que quero, o que dói, o que me faz feliz...como se o mundo quisesse saber. Falo para quem? Penso em voz alta em palavras impressas. Solidão camuflada no Universo habitado e interligado da Matrix. E no fim das contas, tudo que quero mesmo é uma vida mais ordinária. Ordem mesmo, nesse fluxo de caos e relógio biológico anárquico que não difere noite e dia. Talvez um emprego convencional? Tive vários, e me saí bem. Era bem mandada. No entanto, minha sub qualificação acadêmica nunca me permitiu ir além. Na verdade, sempre esperaram muito da minha suposta bem dotada "inteligência". Falo daqueles que me criaram, aos quais pouco vejo. Fui uma decepção. Ainda causo a eles um bocado de constrangimento: não me encaixo bem entre médicos, engenheiros, administradores hospitalares, arquitetos e dentistas. Nasci doentinha de Arte. Na parede da minha sala aqui nesse agradável subúrbio, desenhei uma bailarina em uma das minhas paredes. Não tenho jeito. Ou meu jeito seja esse...combater com cores o cinza-chumbo que persegue meus humores. Meu humor não andou bom. Estou numa fase medrosa, ando faltando a psicoterapia, que entendo como uma poderosa bússola em minha vida. E olha que gosto por demais do meu terapeuta e do que ele já fez por mim. O cara é bom demais, sabe o que faz. Eu não sei direito o que faço, eu só faço. E sigo, como a "louca da cesta de vime" a vender poesia em livreto e botar pão na mesa...quem sabe fazer virar livro. Não estou aqui para despertar compaixão. Todo mundo fica triste, uns disfarçam melhor. Quando saio na noite, há quem me confunda com puta, mas sempre me safo bem. Viver é perigoso mesmo, e disso não duvido. Não é a toa que às vezes simplesmente não consigo atravessar a porta. O tal do medo...é, eu ando cansada. Não falo de um cansaço físico. Cansada de rotas aleatórias. De não saber nenhum destino. De não me saberem para além de fantasias rasas, umas de que sou feliz demais, outras, de que sou trágica demais. Não sei se vou insistir por muito tempo na escrita, mas por enquanto estou na lida. Mas se eu desistir dela, o que ficará? Sei lá. Vender doces, pagar contas...e continuar pensando em verso e prosa, principalmente quando ando de ônibus e vejo o mundo passar quadro a quadro diante dos meus olhos.  De todos os afetos dessa vida, o que mais despertei foi o estranhamento (estranhamento é afeto?).

Sabe, sou maquiadora também, e das boas. E faz tempo que não faço nada nessa área. Não por não querer. Seria falta de vontade? Não. Já fui boicotada em tempos em que minha aparência super nutrida não se encaixava no "fashion business". Aí brochei. Voltei a minha forma socialmente "normótica" e nada aconteceu. Até para ser maquiadora foi uma lida das boas...para variar, meus "educadores" não achavam a idéia bacana. Vendi minhas jóias para investir em minha formação como maquiadora, e vivi da maquiagem por um tempo. Viveria de novo. Disso, eu gosto bastante. Enfim, envolve Arte, e Arte sempre me envolve. Quando ficar velha (quero ficar velha, como na maquiagem com a qual transformei meu rosto na foto) só peço entender o sentido desse roteiro maluco que é estar viva...

Arquivo pessoal

quarta-feira, 28 de março de 2012

Carência? Wagner Moura, Baiano na veia.

e nem engorda...

Tenho uma amiga que diz que quinze minutos de áudio do Wagner Moura faz milagres em meu humor.É verdade. O baiano é muito bem casado, família linda, que siga em paz e feliz, não chego a ser uma fã espumante (quase...). Mas quem mandou ser tão charmoso além daquele talento todo? Duvido que muitas mulheres não comunguem desse meu olhar. Aquele jeito de cachorro que caiu da mudança...dá vontade de recolher, dar casa, comida, roupinha lavada, "ração da melhor qualidade" e todo o carinho que houver nessa vida...espero não ser processada por isso, sou só uma admiradora desse cara que é simplesmente foda em tudo que faz. E eu nem conheço todo "o seu fazer" :p
Em dias carentes, nada como um videozinho para embalar bobos devaneios da menina que resiste em mim. Vê se não tenho razão, se não é melhor que chocolate:


Wagner Moura recita Clarice Lispector 

...e pode até desafinar um pouquinho, que a gente perdoa...


                                

Verso Livre.


imagem colhida no google


Verso Livre do metro
disforme e desconexo
cacos de cerâmica
vidro
espelho
mosaico
sem linha
sem rima
só devaneio
expressão catártica
sou só verborrágica
só conto nos dedos
dessas minhas mãos
e nelas não cabem
meus tantos desvãos
não sigo calada
Palavra escrita
faz leve a morada
da minha cabeça
vivida e inventada
meu verso é livre
por falta de prática
nunca fui amiga
da tal matemática.

Nouvelle Vague-Dancing with Myself

terça-feira, 27 de março de 2012

Boa Viagem.

arquivo pessoal
Agora você vai mesmo. Boa viagem. Desejo-lhe toda a sorte do Novo em suas novas trilhas, todas elas. Que cheguem à você cheiro de mares novos e uma sempre renovada vocação para o Amor. À Vida, a tudo que te faz prosseguir. Que a saudade possa ser uma visitante rápida, o tempo de um café curto. Que nada atrapalhe sua estrada. Que nela se encontre novas letras, melodias, cordéis, poesias, pessoas, futas e rimas. E sempre um cheiro de maresia, você que é feito de Mar, sempre o mar...Copacabana e suas calçadas sinuosas sempre hão de guardar um tanto de ti, que deixou um tanto bem grande em mim, em alguns passos compartilhados. Que o reencontro com Sua Natureza o faça pleno. Para além de mim, que espero ter sido, em algum momento, uma brisa rápida de cheiro bom. Guardarei no palato a lembrança gostosa de seus doces...e todo o grande Sentir que experimentei ao seu lado. Desejo-lhe ainda grandes descobertas. Não olhe para trás.

Ney Matogrosso- Viajante...

quinta-feira, 22 de março de 2012

A Chata do chato poema ou das dezesseis latinhas.

imagem colhida no google

A chata da menininha
Fez um bolo bem gostoso
que Ele nunca provara...
 Mas quando Ele a chamava, "ai" d'Ela
se não se mostrava,
fosse tarde ou madrugada
Disposta à saudade d'Ele
enquanto a D'Ela penava
A menininha carente
era d'uma paixão indecente
A cada fora tomado,
O desespero a inundava
O bolo ficou na cozinha
enquanto a massa murchava
Naquela tarde vazia
Enquanto as formigas comiam
Ela apenas chorava...
Saiu assim por aí
Tomou dezesseis cervejas
todas muito geladas
Ficou então a mocinha
com a cara e a alma lavada.
do resto, nem se lembrava...
"Depois diz que gosta de mim
Isso não é gostar"
Disse o carinha que
Ela, a doida, ainda amava.

"Too drunk to fuck (áudio)"

Pensando em versos durante o trajeto.

arquivo pessoal

Ontem, rumo ao Centro da Cidade, meu Pensar se construía em versos. Não tinha um bloco em minha bolsa (nem uma pena!)...Olhava pela janela, transeuntes e suas imagináveis demandas. Eu sabia qual era a minha. E em versos, cheguei ao meu destino. Meus versos se fundiram à multidão absorta em seus próprios sonhos, como nuvem branca. E eu fui atrás do meu. Tudo bem, versos sempre voltam. E tem sempre a Prosa,. Toda Palavra me encanta e me faz caminhar...

                     (Fui comprar os livros da minha filha...com a benção dos versos!)


      Penso em versos
      Não careço do nexo
      Sinto-me Prosa
      Poesia
      Sinto-me aquecida
      na corrida do ouro
      o "Saber" é meu maior tesouro...

terça-feira, 20 de março de 2012

Claudita pensando alto ("ouve quem quer").

Arquivo pessoal


Algumas considerações sobre isso e aquilo:
  • Sentido e direção não são a mesma coisa. Uma das poucas lições de física que grudou na minha cabeça, um dia explico o motivo (ou não).
  • Insônia me faz sofrer. 
  • Saudade, idem.
  • Coleciono joaninhas.  
  • Minha filha me faz feliz.
  • Gosto mais das minhas três cadelas do que podia imaginar.
  • Gosto de geleia de nozes e de maracujá mais ainda. Na ausência delas, suspiros...inclusive aqueles, que nascem das claras de neve com um monte de açúcar e uma tonelada de carência. No dia seguinte como saladas e tudo ok.
  • A vida não é doce o tempo todo. Ainda bem, senão eu enjoava dela. 
  • Às vezes, viver é divino. Tento aproveitar direitinho esse "às vezes".
  • Sou melhor escrevendo do que falando.
  • Sou melhor falando do que calando.
  • Um dia aprendo a calar minha boca (Há momentos em que é preciso calar, disse preciso, não necessário...).
  • Papeis não são certidões de "verdades". Aprendi isso da pior maneira possível. Tudo pode ser produzido, a verdade deveria bastar em si. Não se prova uma verdade com 100% de segurança. Nem em DNA.
  • Mentira é uma grande merda.
  • Todo mundo já mentiu. Inclusive eu.
  • Banho me ressuscita. 
  • Demoro a entender o fechamento de certos ciclos, sobretudo os que envolvem afetos (talvez por má vontade...).
  • Tenho menos vestidos, sapatos e maquiagem do que desejaria ter, beeem menos. Crucifiquem-me. 
  • Não gosto de política. Chego a ser rasa. Mas já trabalhei pra ela. Me dá quase vergonha. Minto: Me dá vergonha.
  • Estou envelhecendo a olhos vistos. 
  • Tem dia que me acho linda. A mais linda de todas.
  • Hoje, evitei espelhos.
  • De estudos à tatuagens, coleciono processos inacabados. Sou boa nisso.
  • Sou escritora. Tanto que você está me lendo, entenda como quiser. 
  • O mundo está cheio de gente chata e arrogante, inclusive eu. Mas eu sou um pouco mais legal.
  • Odeio sentir calor (Odeio, não faço por menos).
  • Odeio bancos. Esses, odeio muito.
  • Andei perdendo muito tempo em rede social, "networks" que não me levaram a lugar algum "de concreto" que mudasse substancialmente minha vida. Também já me expus em excesso por carência ou alegria demasiada (crucifiquem-me de novo). 
  • Não penso em encerrar minha conta no facebook. Tem gente que amo, tem gente que gosto, tem  gente que tolero, tem gente que não é gente, tem gente que nem conheço, tem gente que não vou ver nunca mais, tem gente que bloqueio. Próxima.
  • Gosto de falar "foda-se" bem alto pra relaxar. Quando estou "precisada", escolho a janela da sala.
  • Não curto meus vizinhos do "predinho". Eles também não me curtem. Em alguma coisa, concordamos.
  • Gosto muito da Luiza. Na verdade, amo. Não aquela que foi para o Canadá, mas aquela minha amiga que é craque em História e me atura em qualquer humor. Descobri, com ela, que em Santa Cruz tem a coca-zero mais gelada no mundo. Numa birosca muito da simpática, por sinal. 
  • Com cinco cervejas, fico bêbada. Mas não ofereço perigo, nem sei dirigir, por exemplo.
  • Nunca fiz uma viagem internacional. Não que me lembre. Viajo no "google maps".
  • Tem gente que gosta de mim. Que bom. Sorte de quem pode me conhecer de perto.
  • Faço a melhor omelete do mundo. Minhas preferidas levam mussarela.
  • Há um excesso de azul em meu quarto.
  • Não quero morrer na merda. Também não quero viver nela.
  • Tomo rivotril para dormir. Adoro.
  • Tenho muitas direções. Vivo buscando sentidos. Nunca esqueci a tal lição de física...
P.S: Estou escrevendo um livro muito foda. Quem viver, verá.





segunda-feira, 19 de março de 2012

Parir-se mãe.

grávida !


Dezoito de março de dois mil e doze. Minha filha faz dez anos e meio. Gosto de comemorar meses, dias, horas, em que essa mocinha me pariu mãe. Minha vida não é um conto de fadas, mas uma fadinha mora nela, e é de carne e osso. Minha pequena-grande Letícia.
Ela nasceu as dezenove horas e quarenta e dois minutos do dia dezoito de setembro de dois mil e um, depois de dezoito horas após a ruptura da bolsa, de parto normal (?), sem analgesia. SUS. Entre altos e baixos, ali também nasceria uma Claudia mais forte, acumuladora feliz de papéis na vida dessa mocinha. Ela está ficando mocinha...
Nasceu na Pro-Matre, entre estagiários que dividiam uma pizza enquanto eu gemia de dor e expectativa, no coração do Rio de Janeiro.
Meu espanto ao vê-la sair de dentro de mim levou minha voz. Chorei um choro que bastava em si mesmo, indefinível, nas horas seguintes ao seu nascimento.  Olhava para ela com espanto, ao lado do mini leito anexo. Não tinha berçário. Dava de mamar quando ela chorava e trocava fraldas de modo instintivo. Um espanto que se prolongava, em meu quase indefinido sentir. No dia seguinte de uma noite em claro de contemplação/assimilação, uma enfermeira a leva para "exames de rotina" e diz que não posso acompanhar, será em um setor mais estéril, dado o parto prolongado e o índice de Apgar 6/9, terá que ser submetida a mais algumas avaliações. Ela quase entrara em sofrimento fetal dado o prolongado processo de ver a luz...
Pirei. Como assim, levariam minha filha? Como assim, eu não poderia estar perto? Ali, vi que definitivamente, não viveria mais sem ela em meus dias. Ali, "pari-me" mãe por completo. Fiquei na porta que me separava dos exames que nunca me foram explicados, me pareceram séculos. Imaginei-a querendo leite, não suportava a ideia de, ali, alguém trocando-lhe as fraldas que não eu. Eu parecia uma leoa. Era minha, toda minha, minha carne, meu coração, minha vida, minha rosa dos ventos que um dia trilhará caminhos só dela em passos de bailarina...quando foi devolvida aos meus braços com um "tudo bem", chorei de novo. Foi nosso primeiro reencontro, expressão máxima do meu Amar. Não sei como vivi quase vinte e oito anos em ela...esse amor que não perece...esse Amor a prova de tudo. Esse amor que me faz melhor. Não sou perfeita, mas amo em demasia, um amor que nunca é demais. Olho para ela e me pego emocionada até hoje, em momentos diversos. Hoje ela me lembrou que idéia se escreve ideia, perdeu o acento, segundo o acordo ortográfico. O tal índice de Apgar não a afetou em nada. É perfeita, lúcida, inteligente, sensível, amiga e linda. Enfeita meus dias quando tudo está cinza. Enfeita todo o meu existir. Dá vontade de chorar agora mesmo, só de pensar...
Sabe que agora é ela quem pinta minhas unhas? E as dela também. Caminhamos juntas. Dormimos abraçadas, às vezes, lado a lado. Às vezes, em nossos quartos colados...mas quase sempre, absolutamente juntas. Fico feliz de ser amada por ela. Tenho a maior sorte do mundo, que nenhum dinheiro pode comprar. Sou milionária desse Sentir...
Quero que ela cresça dentro de suas plenas verdades, que erre seus próprios erros e tenha em mim  seu colo vitalício. Quero comemorar suas vitórias e comprar seus sonhos tangíveis. Quero-a livre. Os livres sempre voltam. Só prisioneiros fogem...sinto-me profundamente grata por minha irreversível condição materna! Amor maior que Eu.

Alegria!

domingo, 18 de março de 2012

Factual.

ilustração de Marcos Antunes


Transbordada de ausência
Nesse momento, nada a brindar
Só poeira vulcânica
Partículas de Amor
suspensas no ar
A Natureza, em seu tempo
Talvez queira acomodar
Cada Sentir em seu lugar
Agora Ela corre, pés em brasas
Face coberta de cinzas e pó
De tudo que um dia foram
Cheia de apertados "Nós".
Como quem corre e se esquiva da dor
Que sabe a dor da morte do Amor
E o gosto amargo do alheio rancor
Busca Ela campos floridos
Que desate cordas e a lamba as feridas
Que consiga seguir, tão leve quanto brisa
Que apazígua-lhe pesadelos
Que nos sonhos a visita
Ela lembra de quando riam acordados
Ele que a sabia de cor, na palma da mão e da língua
Tudo de sua miúda anatomia
Ele fora sua Vida...
Nada a celebrar.
É só poeira vulcânica,
partículas de um Amor
suspensas no ar
Haverá tempo para a Natureza
botar tudo em seu lugar?


Billie Holiday

sexta-feira, 16 de março de 2012

E ela acordou...

Foto de Luiza Novaes


Bob Dylan!

Depois de litros chorados, encharcando de lenços às cortinas, passando por lençóis e toalhas, bem como mangas de camisas, ela acordou estranhamente lúcida. Sobrevivera. Ele enfim se fora suas dementes esperanças. Percebeu que não há dor (pelo menos de amor) que fosse eterna. Não se arrependia das vezes que implorou perdão até do que não entendia como dolo, ao menos fora ao limite do seu sentir. Acordou leve, parecia até mais magra. Só parecia, pois seu apetite pela vida foi voltando ao desejável sem que mesmo percebesse.
Entendeu ainda que não era vilã de nada, que essas divisões de papeis só cabiam em folhetins. Ela errou, Ele errou, Eles erraram. Não os mesmos erros, mas não há como viver sem errar. Quando erramos novecentos e noventa e nove vezes, ao menos descobrimos novecentos e noventa e nove formas de "como não fazer". É como nos aproximamos do êxito. Tentando caminhos mais concretos, sem confortáveis pavimentos. O melhor caminho raramente é o mais fácil.
Ela estava livre. Não cabia mais remorso, pedidos de clemência, papel de bandida ou louca, tampouco acusações contra Aquele que por um tempo foi o oxigênio que lhe faltava...
O ar sempre esteve ali. E também a possibilidade do recomeço, que é sempre uma trilha particular e intransferível, compartilhada ou não.
Ah, ele também errara...não que isso a fizesse feliz. Até gostava mais dele, agora sem o ópio da paixão. Isso o tornara mais humano diante dos olhos dela. Era um homem bom. Mais não era um super-herói. Manteve a gratidão dos tempos bons. Não foi em vão.
(Parou de acreditar em super-herói e também de tentar ser uma super-heroína).
Viver ficou um pouco mais fácil.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Caderno sem pauta.

Arquivo pessoal


Ela gostava tanto das folhas lisas...mas ainda não aprendera a desenhar em linhas retas. Sempre perdia o meio que levaria ao final. Só sabia começar...

terça-feira, 13 de março de 2012

Medo? Vide as formigas!

arquivo pessoal.


Tanta coisa dá medo. Medo de caminhar sozinha, medo de nada dar certo, medo da inveja sobre nossos possíveis sucessos, medo de cair...medo das pessoas que parecem gostar de nós, medo de dividir caminhos, medo do apego, medo do desapego, medo de ser esquecida pra sempre, medo de não ser boa mãe, medo de não ser boa filha...medo de ser uma eterna escritora virtual, de não ir além dos livretos que vendo pelo Rio a fora...medo de não esquecer nunca o que precisa ser esquecido, de lembrar aquilo que só pode trazer dor...medo de envelhecer sem ter realizado um quinto dos meus anelos...medo do desamor, medo da dor...medo da verdade, medo da mentira, medo da fantasia, medo da realidade...medo dos que te abraçam querendo te apunhalar, dos que se distanciam por medo do impulso de abraçar...medo das saudades que parecem que não vão passar...medo de desabar...medo da exclusão afetiva, medo do preconceito, medo da miséria...medo do velho e do novo...medo do mofo, das idéias fixas que atravancam passos. Medo de afogar, medo de queimar, medo do medo do medo...
Sábado observei o trajeto das formigas. Lá no parque Lage, onde estava com minha filha. Aproximei minha camerazinha e elas continuaram seu curso, aparentemente alheias a mim e sem medo. O outono está chegando, elas carregavam várias folhinhas e outros fragmentos, comida talvez, pedaços de líquens, enfim...não pareciam ter medo algum, dividiam o mesmo caminho, não tinha segredo, não tinha receio da tal inveja...às vezes, se esbarravam em um contra fluxo e seguiam mesmo assim. Bravas e doces. Pareciam dançar. Estavam comprometidas com a Vida, e não com o medo. O que me leva a crer que o grande antídoto deve ser o foco...e a solidariedade das trilhas divididas. Ação: juntas são muitas, e muitas podem mais...

Tenho muito que aprender com as formigas (Sobretudo a confiar mais...tenho medo dos que desconfiam de tudo, imagino que projetam seu próprio modo operante...mas essa é uma outra história).

Tenho medo de não ser feliz um pouquinho mais que já sou...muito medo...que venham novos ares. Minha melancolia torna a rota mais pesada. Não sou, percebo nesse momento, uma melancólica resignada...

Vide formigas:
http://www.youtube.com/watch?v=gYBW3ZB9Aho&feature=youtu.be

segunda-feira, 12 de março de 2012

A Grande Cama.

colhido no google

Ela dormia em uma grande cama. Era linda aquela mulher, ao menos é o que diziam. Dormia em uma cama grande e vazia, e a solidão de algumas noites enluaradas a faziam parecer ainda maior. Ela era praticamente feliz. Tinha casa, criança, bicho de estimação, televisão e até ex-marido...e a tal cama gigante, tantas vezes amiudada em noites de romance que já não estavam mais lá.

Começou, então, a se sentir cansada de amanhecer todos os dias na diagonal. Ainda sonhava, mesmo não sendo assim tão jovem, com o grande amor que lhe atropelaria o corpo com pernas e braços depois de alguma erupção ou mesmo depois de um dia cansado. Era triste, muito triste, pensar-se bem velhinha e acordando invariavelmente na diagonal. Triste pensar em homens partindo um minuto antes do primeiro raiar de luz sob a alegação de que "dormir é mais que sexo". E para Ela, era mesmo...Ainda sentia saudade daquele queixo encaixado em suas costas, aquele único queixo que lhe dava a sensação de que nada no mundo a faria desabar em pleno voo. Aquele queixo que quase sempre ia embora, tão apegado que era ao seu futton...

Pois sim, Ela queria mais. E menos. Mais afeto, menos espaço. Não queria soterrar de vez sua condição feminina. Não queria ter que, Ela, sair na ponta dos pés "para não se sentir demais" sempre que um novo dia se anunciava. Não queria homens leais à sua própria "cama-mãe", compartilhada com extrema parcimônia dos que não se jogam no Amor/Paixão sem paraquedas.

Não teve jeito. Diante de tanta impossibilidade de transformar o outro mundo, o mundo que habita individualmente cada vida humana, comprou uma cama de solteiro. Miúda como ela, que sempre gostou de vermelho. E parou com seus devaneios de piqueniques em arranha-céus e parques floridos com toalhas xadrezas e margaridinhas. Aprendeu a andar sozinha. Será que desaprenderia? 


Mentiras...

sexta-feira, 9 de março de 2012

Etamina Azul.

etamina: imagem colhida no google.

História bordada em ponto de cruz
Cores lançadas em fundos azuis
Fina etamina trançando caminhos
Em des(a)tinos dos que voam sozinhos...



quinta-feira, 8 de março de 2012

8 de março e a "(h)istória de Manu".

imagem colhida no google


"No Dia 8 de março de 1857, operárias de uma fábrica de tecidos, situada na cidade norte americana de Nova Iorque, fizeram uma grande greve. Ocuparam a fábrica e começaram a reivindicar melhores condições de trabalho, tais como, redução na carga diária de trabalho para dez horas (as fábricas exigiam 16 horas de trabalho diário), equiparação de salários com os homens (as mulheres chegavam a receber até um terço do salário de um homem, para executar o mesmo tipo de trabalho) e tratamento digno dentro do ambiente de trabalho. A manifestação foi reprimida com total violência. As mulheres foram trancadas dentro da fábrica, que foi incendiada. Aproximadamente 130 tecelãs morreram carbonizadas, num ato totalmente desumano."

Há quem diga ainda que se trata de lenda. Vou então dividir uma verossímil "historinha":

Era uma vez uma Mulher, só mais uma entre tantas que tem por aí. Não fora carbonizada no referido incêndio que fez da cor lilás ( a mesma do tecido que estava na linha de produção por ocasião da barbárie) o símbolo de uma luta sem fim. A luta por visibilidade livre de falsas validações. Vamos chama-la de Manu.

Manu era assim, feita de paradoxos humanos para além da questão de gênero. Feita de doçura e um tanto de fúria também, adicionado ao medo, que mesmo estando ali, não a  impedia de avançar em seus sonhos. Manu gostava de Arte, Manu gostava de dançar, Manu gostava de pintar, bordar e comer mousse de chocolate. Manu gostava de trapezistas, sempre torcia para que asas brotassem no instante final. Gostava de leões e pequenos insetos, principalmente aqueles vermelhinhos com bolinhas pretas. Manu gostava de crianças e de contar histórias (para crianças e adultos). Manu sonhava de olhos abertos e por vezes vivia de olhos fechados quando o medo vinha lhe visitar...depois abria esses mesmos olhos e continuava a andar.

Um dia Manu resolveu ser mãe. Manu nunca trabalhara em uma fábrica. Minto: Trabalhara uma vez numa fabriqueta de pizzas onde a meta era congelar mil disquetes de mussarela por dia. Tinha como companhia seu constante Sonhar. Sonhava com família, mesa posta, janela em forma de arco, amor e comunhão. Sonhava em ser mãe.

Um dia, se descobriu grávida. Como grávida? Oras, como engravidam a maioria das mulheres...contou a novidade ao então "companheiro".

"Manu, tem certeza de que quer ter esse filho?"
"Claro, querido."
"não vai ser fácil."
"Não conto que seja fácil."
"Ok".

Esse "ok" lacônico foi o anúncio de tempos de guerra. Enquanto a barriga de Manu crescia, rumo ao nascimento de uma "Manu-mãe" e sua menina (havia uma garotinha dentro dela), seu companheiro enlouquecia. Parecia vibrar com a gravidez, mas não raro, era tomado de acessos de ódio.

"Manu, você não é a mãe certa pra um filho meu. Você sonha demais, Manu, o que você vai ensinar pra essa criança? Arte?"
"Vou ensina-la a ser feliz", respondia Manu entre enjoos, vômitos e sorrisos a cada pontapé da criança.
"Ok".

O "companheiro" começou a enlouquecer mais. Primeiro, Botou-a na rua com uma barriga de quase seis meses:

"Vá embora, Manu, senão te encho de porrada. Não estou preparado."
"Estou grávida..."
"Problema seu".

E lá se foi Manu, sem lar nem lastro, uma mochila nas costas e a certeza de que seu bebê veria a luz. Dormiu em bancos de posto de gasolina, tentou fugir para outro estado, voltou, dormiu sobre nacos de papelão e sob o frio de chuvas finas. E a barriga teimava em crescer. Um dia, o "companheiro", movido pela vergonha(?), chamou-a de volta "pra casa".

"Manu, aqui é seu lugar."

A assustada Manu voltou.

"Manu"-ele começou-"agora que você vai ser mãe, tente ser mais discreta...mãe cuida de criança. Mãe não faz arte".

Olívia nasceu. Dezoito horas depois de a bolsa estourar. Entre estagiários que dividiam uma pizza na sala do pré-parto, bem na Praça Mauá. Sem analgesia, veio alegria à vida de Manu.

Manu deu peito ainda na mesa de parto. Manu nasceu "Mãe" junto com sua menininha de olhos vivos e muita fome de leite. Olívia era sua Arte maior.


Manu espalhou arte por toda parte: Tons lilases, amarelos e rosas no quarto da menininha. Músicas de ninar em várias línguas de um cd encontrado no Centro: até em iídiche.  Havia uma atmosfera de sonho na nova realidade.

Manu voltou a trabalhar aos nove meses de Olivia. Era cenógrafa. Quando não estocava o próprio leite, levava sua pequena para as coxias de teatro. Não tinha babá e queria ver a filha crescer sob seus olhos.

Um dia, chegou em casa e botou a pequena já adormecida no berço. Tomou de seu companheiro o primeiro grande tapa na cara: "Isso não é um jeito certo de ser mãe".


Manu se recolheu ao quarto, onde se trancou com sua filha enquanto seu companheiro rumava porta a fora para tomar "uns tragos". Era muito difícil se pai...

Após sucessivos tapas na cara, Manu foi evitando o espelho. Deprimiu, parou de trabalhar, se afogou em doce de leite protegendo-se com mais "carne" em seu corpo o frio que a tomava cada vez que seu companheiro se aproximava.

"Meu projeto foi aprovado...aquele roteiro de cinema"...disse um dia Manu, Olívia já com um ano e meio.

A resposta veio em forma de soco. Depois vários, seguidos de chutes. Um dente a menos. Uma lesão no crânio feita a pontapé que não chegou a atingir a meninge. Cusparadas sobre todo o corpo. Ofensas rebuscadas, de "puta" à "louca". Havia sangue em todo o assoalho. Uma vizinha entrou na sala que não estava trancada.

"Corre, Manu! Pra minha casa!".

Manu pegou a chorosa Olívia e ganhou a rua. Teve medo de ir à polícia e nunca mais voltou. Demorou a voltar até para si mesma. Também nunca se separou da filha. Era seu vínculo com a Vida. A Arte foi voltando aos poucos e a Coragem também. Conquistou uma casa com janela em forma de arco, que se não tinha príncipe, ao menos não era proibido sonhar. Por muito pouco, não fora carbonizada. E nunca mais se deixou "apanhar".

Em um eventual encontro com seu ex-companheiro, não teve dúvidas ao ser ameaçada: polícia e medida protetiva. Não acabaria em brasa nem carvão. Tampouco seria reduzida à mais uma história silenciada em tantas paredes protegidas por hipocrisias. Agora, só lhe interessava Vida.

Não é mais necessário o consentimento da vítima, muitas vezes paralisadas pelo medo, para denunciar todo tipo de violência contra a mulher. Silêncio pode matar. Denuncie: Disque 180. Quantas "Manus" existem por aí?



quarta-feira, 7 de março de 2012

Poema de água.

imagem colhida no google

Reter o tempo como quem aprisiona a água
Tênue tentativa de manter a Vida
Que um dia há de nos abandonar

Abandonar-se em vida não acelera nada
E como a água derramada em carne Viva
Só faz arder ainda mais a dura caminhada.

Resta mirar a rota, caminhar, caminhar...
Escorreremos feito a água no abismo.
Só quando a Hora chegar.
Um diabinho sussurra: podemos adiantar isto.

(Faço-me de surda)

segunda-feira, 5 de março de 2012

Qualquer nota.


por Claudia Cristina Tonelli, pastel seco sobre canson


Talvez ela se transformasse em poeira de tapete
só para que ele marchasse sobre ela
e o calor dos pés muito brancos
aquecesse seu corpo em pranto
Talvez ela se transformasse em um livro velho
perdido na estante dele de velhos desencantos
e sentir de novo seus dedos a vasculhar seus recantos
Talvez ela se transformasse em jornal velho no canto da cozinha
e servir de embrulho para um maço de alecrim ou algo assim
e sentir de novo o toque a lhe fuçar a pele já sem o cheiro do jasmim
Talvez ela se transformasse em escada
só para ser pisada, e pisada, e pisada, mesmo que para nunca mais ser lembrada...
apenas permanecer existindo sob seus pés de música e estrada...

(Ou pote
    Ou Sacola
       Ou bloco de notas
            Ou resto de doce no fundo do tacho
                   Ou camiseta velha em um canto do quarto
                       Ou poeira de estrelas a seguir o seu rastro...
                                    Ou ainda tango inacabado, de acordes  no ar
                                                                     Ou nada, nada, nada, nada, nada, nada.........................)

domingo, 4 de março de 2012

Precariedade.

arquivo pessoal


Como a raposa da Fábula, às vezes prefiro acreditar no azedume das uvas diante da impossibilidade de alcança-las. Que merda é ser humana.