sábado, 31 de março de 2012

Teimosia, hiperatividade e um tanto de melancolia.

Arquivo pessoal

Penso muito no que virou minha vida. Ou no que está virando. Onde vai dar? O que sou eu? Ou quem? Crise. Sempre escrevi, praticamente desde que me alfabetizei. Talvez antes até...em "letrinhas" que só faziam sentido para mim. Não fui uma boa aluna no segundo grau. Química e matemática me asfixiaram. Fui de "Nerd" à "Displicente", para desespero dos que me criaram. Aos dezoito anos, a sentença: "Não vamos mais investir em sua educação". Daí eu segui com minhas pernas. E continuei entulhando gavetas com escritos numa época em que pouco se falava em internet. Eu levei tempos para descobrir e me render a rede. Não sou boa com informática. Não raro, tenho vontade de voltar a estudar, levar uma faculdade até o fim, mas como e para quê?

Sinto que meu tempo passou, e sigo no fluxo da sobrevivência e da teimosia. Teste vocacional nunca foi muito preciso comigo. Sou boa em rabiscar desenhos, gosto de moda, sou boa em cuidar de velhinhos, gosto de gente, sou boa em fazer docinhos, gosto de culinária, sou péssima em administrar minhas "habilidades", tenho deficit de atenção. Não confundir com burrice. Concentrar-me em algo é um grande desafio. Meu melhor desempenho é como mãe, sem pai do lado para dividir grandes decisões. Tem dia que sou tomada de pânico. Também não sou boa em me esconder. Falo mesmo. Talvez deva aprender. Falo o que penso, o que sinto, o que quero, o que dói, o que me faz feliz...como se o mundo quisesse saber. Falo para quem? Penso em voz alta em palavras impressas. Solidão camuflada no Universo habitado e interligado da Matrix. E no fim das contas, tudo que quero mesmo é uma vida mais ordinária. Ordem mesmo, nesse fluxo de caos e relógio biológico anárquico que não difere noite e dia. Talvez um emprego convencional? Tive vários, e me saí bem. Era bem mandada. No entanto, minha sub qualificação acadêmica nunca me permitiu ir além. Na verdade, sempre esperaram muito da minha suposta bem dotada "inteligência". Falo daqueles que me criaram, aos quais pouco vejo. Fui uma decepção. Ainda causo a eles um bocado de constrangimento: não me encaixo bem entre médicos, engenheiros, administradores hospitalares, arquitetos e dentistas. Nasci doentinha de Arte. Na parede da minha sala aqui nesse agradável subúrbio, desenhei uma bailarina em uma das minhas paredes. Não tenho jeito. Ou meu jeito seja esse...combater com cores o cinza-chumbo que persegue meus humores. Meu humor não andou bom. Estou numa fase medrosa, ando faltando a psicoterapia, que entendo como uma poderosa bússola em minha vida. E olha que gosto por demais do meu terapeuta e do que ele já fez por mim. O cara é bom demais, sabe o que faz. Eu não sei direito o que faço, eu só faço. E sigo, como a "louca da cesta de vime" a vender poesia em livreto e botar pão na mesa...quem sabe fazer virar livro. Não estou aqui para despertar compaixão. Todo mundo fica triste, uns disfarçam melhor. Quando saio na noite, há quem me confunda com puta, mas sempre me safo bem. Viver é perigoso mesmo, e disso não duvido. Não é a toa que às vezes simplesmente não consigo atravessar a porta. O tal do medo...é, eu ando cansada. Não falo de um cansaço físico. Cansada de rotas aleatórias. De não saber nenhum destino. De não me saberem para além de fantasias rasas, umas de que sou feliz demais, outras, de que sou trágica demais. Não sei se vou insistir por muito tempo na escrita, mas por enquanto estou na lida. Mas se eu desistir dela, o que ficará? Sei lá. Vender doces, pagar contas...e continuar pensando em verso e prosa, principalmente quando ando de ônibus e vejo o mundo passar quadro a quadro diante dos meus olhos.  De todos os afetos dessa vida, o que mais despertei foi o estranhamento (estranhamento é afeto?).

Sabe, sou maquiadora também, e das boas. E faz tempo que não faço nada nessa área. Não por não querer. Seria falta de vontade? Não. Já fui boicotada em tempos em que minha aparência super nutrida não se encaixava no "fashion business". Aí brochei. Voltei a minha forma socialmente "normótica" e nada aconteceu. Até para ser maquiadora foi uma lida das boas...para variar, meus "educadores" não achavam a idéia bacana. Vendi minhas jóias para investir em minha formação como maquiadora, e vivi da maquiagem por um tempo. Viveria de novo. Disso, eu gosto bastante. Enfim, envolve Arte, e Arte sempre me envolve. Quando ficar velha (quero ficar velha, como na maquiagem com a qual transformei meu rosto na foto) só peço entender o sentido desse roteiro maluco que é estar viva...

Arquivo pessoal

2 comentários:

  1. A primeira coisa que me vem a cabeça é: você é linda, e emociona-me tanto sua imagem, como o que percebo de sua alma nos textos. Eu mesmo não tenho a capacidade de ser tão confessional.
    E, propriamente, a propósito do que li, saiba que sem nenhuma soberba eu conheço bem alma daquele que se espanta. Se precisar, vamos de mãos dadas saber o que diabos é isso, a vida.
    "Alguém perguntou a um homem vestido em andrajos: Sabe onde posso encontrar Francisco? E ele, Francisco, disse não, não sei, mas me dê a mão e vamos juntos procurá-los".

    No mais, Cláudia, por sua causa estou criando esse blog. Eu que já tinha esquecido desse "negócio de escrever". I. é, esse encontro com você me deu ganas de abandonar uma vida ordinária e lançar algumas cores onde tudo é opaco.
    Beijos.

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