terça-feira, 29 de maio de 2012

Turismo "inside me".

hoje.

Quero viajar para o mais misteriosos dos lugares. "Inside me".
Gostaria de um roteiro preciso. Meu manual (roteiro de viagem) seria um livro de anatomia humana (?).
Entraria boca a dentro de mim mesma. Passaria pelo meu esôfago, passaria apertada, como quase tudo que passa por mim. De comida a sentimentos. Chegaria ao meu estômago, torcendo para não ser rejeitada, eu que vomito tudo que me embrulha a alma, metafórica e literalmente. Frágil, esse meu estômago. Quase sempre, eu mesma me embrulho. Nem sempre em lindos papeis florais. Tem dia que eu amanheço envolta em folhas de antigos jornais...pegaria um atalho, se possível fosse, para o meu coração, meu descompassado coração cujo ritmo anárquico me pões em situações de pânico e sensação de morte iminente. Sempre passa, eu continuo aqui...observaria longamente seu ritmo, e que tipo de informação o faz sair de seu compasso sobre o qual pareço não ter muito (ou nenhum) controle. Das saudades que o estragam, das lembranças que ocupam espaço demais...me disseram, ontem, que dois terços de mim é lembrança. Espaço demais da conta para quem vive no agora. Sou boa em mandar, sem querer, para bem longe, pessoas que moram em meu "agora". Estou sempre tentando resgatar aquele tempo (que me parecia) perfeito. Enquanto isso, a cada respirar, tudo vai virando passado. Me debato em paredes carmins...sei que passaria algumas horas a observar meu coração. Tentando explicar pra ele que um belo presente pode me dar um futuro mais bonito. Acho que meu coração é surdo...faria um trajeto rápido por minhas veias, repletas de sangue quente como magma vulcânico, que ao resfriar, cria bloqueios ao trânsito do meu sentir. E ao se dissolver novamente (sempre se dissolve de novo!), parece queimar ainda mais...espero não ser derretida nesse caminho. Espero, de verdade, chegar ainda mais sólida (forte) em meu próximo destino. Provavelmente meu útero, aquele que gerou meu maior tesouro em meio a tempos de guerra (de novo, as lembranças...) e glória. Aproveitaria para agradecer meu ovário direito, que possibilitou minha condição materna. O esquerdo foi levado por um tumor, um tal de "teratoma", há vinte anos. Também a isso sobrevivi, e aparentemente, não me fez falta alguma. Eu, que já sou algo de "excesso". Em uma parada em meus intestinos, pediria gentilmente: leve tudo que não me cabe mais. Leve embora, através desses imensos labirintos de direção certa, tudo que não me soma. Desceria ao meu tornozelo direito, um tanto maior que o esquerdo. De tanto pisar com o vigor dos que temem/amam abismos, duas lesões o tornaram (esse destro de dona dos rumos canhotos) algo diferente do outro. Tudo bem, em nada há simetria (nem no Amor...). Subiria com a rapidez de um foguete. Tantos lugares insondáveis pelos meus olhos projetados pra fora...por trás de minha retina, lá estariam meus sonhos guardados. Devaneios que tentaram ser reais. Os olho com medo. Não os quero no comando. Só o real, e sonhos no lugar do sonhos, sob pena de irreversível loucura (será um estado pior que a lucidez?). Bom ou ruim, fico com a lucidez, tanto quanto possível. Vivo e preciso sobreviver no mundo dos normais. Que minha vocação para a loucura/criação more em espaços circunscritos, sob atenta vigilância. Antes que o sol se ponha, visitarei meu fígado. "Pegue leve na liberação de bile, please...já tenho minha dose de amargura!", esperando que também ele não seja surdo como meu coração. Eu, que de tanto amar, já amei até mais com o fígado que com o coração.  E o sentimento contrário também. Que ele possa a se limitar às suas funções fisiológicas (tantas para se ocupar!)...não é visita para uma só vez. Talvez eu deixe outras "cidades/órgãos" para um outro dia. Saio pelo ouvido...o mesmo por onde entra a música que me faz sentir viva e acreditar que, não "apesar", mas "com tudo que há", seguir na rota continua valendo a pena. Deixo um beijo para minha pele...o maior órgão do corpo humano. O guardião dos sentidos...voltarei logo, caso tenha coragem de realizar essa primeira "incursão". Nesses cantos repletos de alma (s).

Debussy

domingo, 27 de maio de 2012

...o primeiro dia depois do último.

arquivo pessoal
Bianca enfim se libertara das grades. Veria o Sol sem a circunscrição de muros cinzentos e aramados pela primeira vez em quinze anos. Nem lembrara o que a levara para lá. Sentiu um embrulho nas entranhas ao cruzar o portão. Fora enfim devolvida ao "mundo normal". Um sol a espiava por entre nuvens que derramavam uma chuvinha fina...

(continua).

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Rito.

recorte do google
Algo carmim, em tramas de rendas vermelhas, um rastro de cauda bailando a cada passo...uma estola marfim há de bloquear o frio junino. Vai ser assim. E levarei, de mais caro, o meu melhor (verdadeiro) sorriso. Só dessa forma fará sentido. Que o Amor possa ser o Sentido dessa Direção a cruzar oceanos...a possibilidade do Amor em (re)construção.  


Chico canta "Gota d'água".

terça-feira, 22 de maio de 2012

"Like a Funny Falling Girl"

funny falling girl


Corpo entregue.
"Te quiero para siempre"
Queda livre.
Vôo cego.
Da pele, o sangue irriga o Novo.
Onde nada brota sem dor.
But... "funny falling girl"... 
(Te quiero, para siempre)
Se atira de trens em movimento.
Faz do tormento o fomento
Da Arte que a salva da queda.
O eterno convite dos abismos.
Abismada. Asas batem na marra.

Claude Debussy

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Dos Sentidos.

arquivo pessoal




Não darei doces à quem há muito perdeu o paladar.
Não falarei meus versos à quem há muito se fez surdo por sorte ou azar.
Não me embalarei nas mais belas cores à quem se faz cego pra tudo.
Não me banharei em perfumes de figos à quem não me reconhece o rastro no Ar.
Não pousarei minhas mãos quentes em quem desconhece o Tato e o Calor do Amar.
Sentidos meus, para mim.
E para quem sabe que existo para além de papeis...


quinta-feira, 17 de maio de 2012

O audaz atirador de facas.

colhida a dedo no google


Marcel era muito bom em tudo que fazia. Atirava facas como ninguém no entorno de seu alvo humano, a bela Sophie. Eram nômades circenses. Não ficavam mais de uma semana na mesma cidade. Eram alegria por onde passavam, entre outros números da trupe. Entre anões que faziam graça, animais enjaulados e sub alimentados, trôpegos trapezistas, frágeis contorcionistas, mágicos fanfarrões, palhaços tristes e singelos malabares...o atirador de facas era, de longe, o que fazia mais sucesso. Nada contra o circo, mas esse, em particular, era campeão em tratos precários com suas "espécies". Talvez por isso não esquentassem o mesmo solo por muito tempo. O que pouca gente sabe é que Marcel também era dono do "empreendimento", mas isso não chega a ser o dado de maior relevância. Ele gostava de ser dono de tudo, e também da sensação de poder sobre Vida e Morte que sua "Arte" sugeria. Ele e Sophie eram a dupla perfeita: Ele, feroz feito tigre faminto, ela, desajuízada como alguém cuja alma se perdera  em algum chão sem brilho de estrelas. Eram lindos. Às vezes trepavam depois de algum número. Ele adorava passar a faca entre suas coxas, deslizá-las em seu alvo pescoço, e não raramente, "decepar" um naco de seus cabelos tão dourados quanto os dele ("Veja, Sophie, levo mais um tanto de seu juízo, o que sobrou só pode estar em seus cabelos, hahaha!"). Vez por outra, cortava-lhe de leve sua pele só para verter algo de sangue, que "curava" com sua saliva e sede de felino. Ela o amava sem pejo algum. Era dele, ela, sua propriedade predileta. Marcel mandava no circo e também em Sophie, aliás, como bom ditador, mandava em tudo e todos à sua volta... a sua louca Sophie. Quando ela não fazia algo que o agradasse, era posta de castigo e substituída por alguma boneca de cera (com as quais, de modo inexplicável, eventualmente "fodia" também, "só eventualmente", pois gostava do calor das mucosas.). Quando Sophie chorava, Marcel a agradava com o som de uma gaita. Às vezes, muitas vezes, ela chorava do "nada". Sophie fora mais uma dessas aquisições sem lastro achada pelas estradas, coisa de muitos anos, já nem sabiam mais. Era setembro, quase outubro, a noite que mudaria, mais uma vez, a vida de Marcel. Casa cheia como nunca, em algum lugarejo repleto de endinheirados. Naquela manhã, Sophie acordou com idéias estranhas na cabeça, que manteve em silêncio. Cabeça e boca em silêncio. Já não era mais de muito falar, já praticamente perdera a voz . Aquele silêncio, ainda maior, não causava estranhamento. Até ela já não reconhecia direito o som do próprio timbre, outrora grave, por fim tênue como o sussurro de um passarinho em estado de agonia permanente. Arrumou-se com o esmero de sempre e um tanto mais: duas rosas ao invés de uma, vermelhíssimas, adornavam seus loiros suaves.   Ele, por sua vez, penteou para trás seus cabelos, mantendo-os domados com gomalina. Tinha ele um belíssimo rosto, nada poderia velar a visão se seus lindos olhos azuis. Marcel tinha um par de intensos azuis. Recapitulando:  Casa cheia. Número final. O atirador de facas e seu alvo humano (?). Ela lá, entregue como sempre, com seu olhar vazio e repleto de nada e tudo. Cinco facas precisas acertaram a tábua em forma de lápide (o que dava um "quê" ainda mais dramático ao número.), que pareciam sangrar. Truque do mágico que também era seu irmão. Pof! A cada lance, a platéia uivava como se estivesse em um coliseu. O ego de Marcel parecia explodir. Sophie era mais estática que as bonecas de cera, não tinha como errar. Sophie, cansada Sophie...na sexta faca voadora, ela, sem aviso algum, deslocou-se para a direita. Tum. A faca fincara em seu peito. Era uma faca grande e pontiaguda, quase uma espada. Não tombou. A platéia silenciou. Ela ficou ali, cravada na tábua/lápide. Olhos bem abertos. Peito rasgado que não arfava mais. Não sentira nada. Marcel entendera rápido. Achou que esse momento já demorava a chegar. Num gesto brusco para o operador de luz, tudo se fez penumbra, a lápide removida por fiéis assistentes. "Viram que belo truque?", Marcel já sob a luz colorida da grande tenda; ovacionado pela platéia. Não parecia perturbado. Depois de contar os tostões daquela noite, recolheu-se aos seus aposentos. Tirou a faca da inerte Sophie. "Pensei que demoraria a tomar essa decisão", disse alto enquanto a limpava, empalhava e por fim, a banhava em cera. Sua mais nova aquisição. Era o melhor artesão em sua não divulgada aptidão de imortalizar corpos defuntos...Ela ficara particularmente linda. O brilho da cera a fazia etérea. Levou dezessete horas, sem dormir (ele pouco dormia), para concluir o processo. Teve o cuidado de preservar os orifícios livres ao acesso. Assim, ela passou a fazer companhia à sua coleção de dezoito bonecas de cera em tamanho natural. Naquela manhã cor de rosa, fez uma orgia com todas elas...de Amélie à Rosalie. Sophie ainda não estava seca o bastante...teria que esperar um tanto mais para se juntar às suas novas irmãs. Na mesma tarde, saiu em busca de uma nova parceira de espetáculo...haveria de encontrar outra bela de órbitas vazias, sem ninguém que a procurasse, sem história e sedenta de amor (qualquer amor...).

Danzing - Killer Wolf







quarta-feira, 16 de maio de 2012

Lisboa.

arquivo pessoal

Um dia ela se mudou para Lisboa. Daquela distância prudente, poderia observar seus afetos. Com olhos derramados de uma trágica Florbela sem triste fim. Protegida em finas telas. De cristal banhado em Sal. Foi para Lisboa e seus Fados. Mas ainda sentia a vida seguir como água rumo ao (a)mar. Lisboa e algo de recomeço. Na caixa de veludo azul, suas maiores relíquias junto ao peito. Lá fez Poesia e fios de ovos. Comeu toucinhos do céu. E não se perdeu no Oceano...já era afogada em seus próprios olhos, sempre marejados de lindas lembranças. E um tanto de esperança.



Haja o que houver (Madredeus)

terça-feira, 15 de maio de 2012

Pródigo.


memórias guardadas lá dentro




Peito aberto, acoberto.
Peito ao verde, com sede.
Peito que arde, que bate.
Que apanha e late.
Sentindo a dor de mil cães famintos.
Peitos com a fome de quinhentos mendigos
Por um só abraço de um tempo perdido.
Em rancores insolúveis de um amor banido.
Peito punido.
Peito que busca no verde. 
Uma gota de chuva vermelha.

domingo, 13 de maio de 2012

Brechó.


arquivo pessoal 
Mora no lado esquerdo, entre a primeira e segunda costela abaixo do coração.
Não vendo, não me desfaço dos meus guardados, eles se comprimem entre meus vãos.
Guardo agora o que quero eterno, nem que seja em lembrança. A Ceci dourada que eu pedalava na infância. Vou jogando lixo fora, pouco a pouco.
Guardo aquilo que sempre será meu. Passem mil anos depois de algum Adeus.
A boneca de pano fininho e florezinhas no vestido. Guardo as folhinhas catadas no caminho da praça.
Nada disso pega traça. Nem o queijo com cebolinha pega mofo. Ele mora em meu gosto.
Abro espaço para coisas novas, assim a Vida resiste. Mas não existe sem história. Erva mate com baunilha.
E para as coisas novas, mais um espaço entre meus ossos...às vezes, me espeta uma ou outra relíquia. Difícil dividir espaços...no final, tudo sou eu e tudo se mistura. Vai ficando orgânico. O velho fertiliza o novo, ensina como dar certo...ou a errar de um jeito inédito. Quase nada de fantasia.
Um dia vou  escrever em linhas retas, mesmo sem pautas a me guiar.
Coisa difícil para quem é de muito sonhar. Às vezes, penso que vou delirar.
Chuva fina vai fazendo poças em mim...agora engrossou. Um tanto de frio, tentativa de agasalho bordô.
Mas minhas memórias sabem nadar...até mais que eu. Ah, hoje é dia das mães. Beijo para elas...beijo para mim. Que também sou mãe de princesa...e cada vez mais mãe de mim mesma. Nada de realeza, só realidade, não sou rainha.
Acho que sempre vou delirar. Cada vez mais consciente. Acolho o novo tear. Quero tramas diferentes. Que me protejam do frio. Do calor. Do esquecimento. E até de mim, como não?
Quero entender esse tal de Amor. Não, não quero não. Nem tudo se entende. Se nem eu me entendo, como entendê- "Lo"? Quero senti-lo. Sem rasgar-me as juntas. Mares calmos. Em tempestades, me afogo...em grama verde, me seco. O Sol sempre me acha. Há graça em minha Vida. Cada vez mais Viva. Entre risos e dores,as coisas novas e as relíquias do meu brechó...vou ficando cada vez mais sólida. E sem enganos (bússola sempre à mão). Hoje chorei um bocado: reguei uma folhinha verde-esperança brotando bem no meio do peito, mesmo vertendo algo de sangue. Sangue Vivo. Nascido em nove de outubro, como John. O que isso quer dizer? Absolutamente nada. Só que gosto dele. E de joaninhas também.

The Beatles-Because.

sábado, 12 de maio de 2012

Caminha.

arquivo pessoal

Com uma bússola caminha.
Pés que pisam sobre cacos
e não sangram...
Pisam com cuidado.
Só querem o (próprio) Destino
sem esmagar ninguém. 

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Guilhotina


imagem colhida no google


Tive um sonho ruim, botaram meus dedos das mãos (não tinha um rosto) em uma guilhotina, o barulho seco, o estalar da lâmina e meus pequenos dedos voando...muito sangue, uma angustia prolongada, demorei a acordar...mas estou aqui...desperta e usando meus dedos para falar através deles, seja lá para quem for...tenho uma voz intensa, alta, que pode ser tão agradável quanto incômoda...segue assim meus escritos, em forma de sussurros ou gritos que não não venham a ferir sensíveis ouvidos (quanto às almas, nada a fazer, mesmo sem dolo...). Ainda posso acarinhar ou unhar com minhas próprias mãos. Escrevendo. Meus dedos, não raro, mais fortes que minhas pernas. Essas que também me levam onde eu quiser...

(Tão bom ver meus dedos aqui...todos eles, todos meus). 

terça-feira, 8 de maio de 2012

Tudo é espelho.

...onde mora a joaninha...


Vemos imagens invertidas. Tudo espelhos, nem percebemos...de afetos bons a medos sem tamanho...quase (ou tudo) espelho. Amamos o que vemos em nós através do outro, em maior ou menor grau. Hostilizamos o que vemos em nós através do outro, em maior ou menor grau. Empatia é espelho. Tem empatia que nem se percebe. Ouvi uma vez que a cada dedo em riste na direção de uma face gera, automaticamente, pelo menos  outros três voltados para nosso próprio rosto...espelhos multiplicadores de imagens de nossas pequenas grandes (des)crenças. Até gosto de espelhos: aquele onde vejo minha própria face...já os outros...prefiro quebrá-los, e assim , poder ver o mundo para além de mim e minhas pequenas e grandes neuroses e projeções de traumas que não me pertencem. Parece fácil. Não é. É um exercício do qual não pretendo fugir...há muita vida para além de mundos projetados por minha visão de curto alcance. Quero mais. Uma medida quase justa da minha percepção... não raro, hiperbolizada do todo que me cerca.

ilusão


Esse trevo em minha minha clavícula,
onde sobrevoa a joaninha
é só minúscula partícula
do mundo que me transita.
À esquerda de mim,
espelha-se, assim, joaninha,
não se entenda esquerda em minha pele
Uma de minhas poucas coisas "direitas"...
(Vejam só...)

Lil  Wayne e Bruno Mars-Mirror

P.S: Beijos para uns queridos lá do Nordeste.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Dos restos diurnos no velho sofá.

sofá.

E então ela se jogou no sofá depois de horas de mais uma daquelas conversas com a velha tia, que levam do nada ao lugar nenhum. Um sofá fofo, antigo, ranhuras craquelês e suas histórias de cochilos fora de hora. Três pequenas almofadas compradas em um brechó retendo sonhos outros de quem as teve um dia. Aquele lugar era repleto de coisas transbordadas de "histórias outras", somadas as dela. Pois ela desabou em cansaço dos que correm sem ver a linha de chegada, mesmo sabendo onde queria chegar. Onde teria guardado sua bússola? Ela sempre perdia coisas. Um túnel...dentro do metrô. Escuro. Com muitas bifurcações e inúmeras possibilidades (aparentemente do nada ao lugar nenhum...), imperava a necessidade de sair dali. Daquele angustiante buraco. Andava sobre os paralelos ferros aquecidos pelo atrito de rodas maciças, quase queimavam-lhe os pés. Onde daria a próxima estação? Ouvia gritos ao longe, initelígiveis palavras de ordem. "Vire a direita", foi a única coisa que conseguiu entender. Carregava um saco de pedras preciosas só para ela, colhidas em algum leito de rio. Tornava mais pesada a caminhada. Na garganta, um secular bolo de choro obstruía qualquer possibilidade de fala. Algo de pânico. Outra voz, dessa vez mais alta em sua cabeça: "também isso é obsoleto". Sua trajetória marcada por coisas e sentidos obsoletos. O livro vermelho de Jung ficara preso nos sépias de suas lembranças embaçadas...e também obsoletas. Às vezes, lembrava do livro. E daquele pai. Pronto, já não se lembrava mais, nem do livro, nem do pai...seguia dessa vez em passos mais largos...já brotavam bolhas em suas solas descalças. Ela que amava sapatinhos de verniz com tiras cruzadas de bailarina. Uma luz forte quase cegou-lhe, um trem em sua direção, dentro daqueles subterrâneos...não tinha para onde fugir. Fechou com forças os olhos antes que a Morte a levasse. Comprimiu com força o corpo miúdo contra uma parede fria, muita força, muito frio...o trem passou por ela com um barulho ensurdecedor, levando-lhe o saco com as preciosas pedras. Sentiu algo se desprendendo de seu pescoço...a pequena Estrela de Davi dentro de uma singela mandala, presente de uma outra tia distante. Já perdera e encontrara aquela estrela um sem número de vezes. A parede fria e dura...foi ficando mole, mole, cada vez mais mole, como se fosse derreter nela...parede se fez sofá...já de olhos despertos e batimentos descompassados...com uma mão, sentiu as ranhuras da superfície que a acolhia, lembravam-lhe mapas hidrográficos. Com a outra, tocou o pescoço...lá estava sua estrelinha. Querida Estrela de metal fino. A Estrela que sempre reaparecia a cada despertar.

Ney Matogrosso/Bicho de Sete Cabeças


quarta-feira, 2 de maio de 2012

Pedacinhos de mim.

Nessa manhã...


Assim, pisou de macio sobre meus cacos.
Reduzida a contas de pouca cor.
Juntou com carinho toda essa dor.
Dela se formando lindo mosaico...
Ah, eu sei o quanto soa prosaico!
Mas sempre prosaico há de ser o Amor.

(Devagar também é pressa)


Tiê- Dois (Hope...)




terça-feira, 1 de maio de 2012

Poética do Cotidiano.

"Brincando em mim"


Querido Diário,
(...)
Ah, mas se nascemos e morremos em sentimentos diversos umas mil vezes entre o espaço do acordar e dormir...quantas páginas precisaríamos para precisar o impreciso? Uns dois cadernos de cento e noventa e seis páginas talvez...e eu, que ainda sigo amando os cadernos sem pautas e ainda não aprendi a me equilibrar sem uma linha condutora...também imprecisas são as (minhas) palavras. Quanto de poesia cabe no prosaico? Não, isso não é um diário. Algumas palavras resvalam em minha existência, outras são meros inventos, todas cabíveis em qualquer vida humana. É comum ao ser humano rir, chorar, amar, desamar, sonhar, fingir, cair, levantar, sonhar, sonhar e sonhar, sentir algo ou muito de saudade e ainda assim caminhar...alguns pensam em voz alta. Voz que esbarra, não raro, na vida alheia, tão parecida com a nossa, "que nascemos originais e morremos plágio" (até de nós mesmos...).
Nesse diário correr de horas frias, derramei meu Amor sobre minha maleta cinza, guardadora de cores ávidas por telas humanas...descobri que minha sina é de Amor, Amor por pessoas e coisas que me enchem de sentido. Pessoas e coisas que me apontam sentidos...pois ainda me lembro de uma daquelas poucas lições de física que  grudaram em minha cabeça...de nada vale uma direção sem sentido. Olho pra frente por que tenho coragem de também olhar pra trás: lá estão impressos os passos que me conduziram por estradas de pedras. Isso me conta que devo buscar sentidos novos, não sem pedras, como saber? Mas vou aprendendo a pisar sem me ferir tanto, pé ante pé. Quando olho para trás, vejo desejos suspensos no ar: uns merecem ser resgatados, outros, melhor que fiquem por lá. Vejo uma menina que já quis ser até bailarina. Até malabarista já quis ser. Que já teve no quarto dos fundos de sua casa um pequeno ateliê onde a dança de pinceis esvaziava sua mente e lhe trazia um tanto de paz. Um quartinho rosa chá encubador de ideias "brilhantes" só aos olhos dela. Gravuras de cores doloridas...dores que estavam no papel, mas pelo menos saíram de mim...tem "disso" a Arte...essa coisa de arrancar dor do peito quando materializamos nossos medos via música/pintura/desenho/grito/música/poesia/música (principalmente a música, para qual nunca tive o talento para além da imensa apreciação)...hoje esse quarto virou um canto de entulhos, mansamente aguardando uma ação que lhe devolva o sentido, já que a direção ainda permanece...lá se escondem contas coloridas da artesã que eu fui (?) um dia, vários manuscritos fora de sequencia, uns tocos de lápis pastel seco, uns tubinhos de tintas óleo e acrílica dentro de um pote amarelo com um adesivo de joaninha, um copo de pinceis velhos de cerdas duras (e tanto mais que ainda não me atrevo a fuçar). Tem também um armário, esse um pouco mais organizado, com minhas vestes inverno, prestes a ganhar a rua. Ouvi por aí que um dos invernos mais rigorosos está para chegar. Sobre a cama de alvenaria, uns tecidos bonitos esperando o dia de virar vestido, ou saia, quem sabe cortina ou anágua. Talvez fantasia. Talvez traça, talvez traço, tecidos de muita história...ávidos, como quase tudo em mim, de uma "resignificação". Sentidos...eu que tanto sinto em minhas inúmeras direções.
Volto para a maleta cinza. Ela mora em baixo da minha mesinha verde e fúcsia, em meu quarto de dormir tão azul , também um tanto entulhada (a mesinha...), mas bem mais fácil de resolver. Falava de meu olhar derramado para ela e seus preciosos guardados. De tudo que fui e sou, resiste a maquiadora. Ofício conquistado à custa da venda de algumas jóias de família, há quase vinte anos atrás, que me foram dadas um dia. Jóias trocadas por um ofício...mesmo sem tanto trabalho no momento, ainda acho que foi uma troca realista para a minha realidade. Minha realidade acridoce. Gosto desse gosto, então, tudo ok. Nunca subtraí nada, senão de mim mesma, os recursos para encontrar meus caminhos. Sempre fui minha grande mecenas de sonhos singelos. Claro que encontrei vida a fora (uns poucos) seres especiais que me estenderam a mão, e por isso serei sempre grata. A que adora escrever, e ainda na impossibilidade de um livro, vende livretos...cada vez menos, com menos frequência...pois tem aí uma coisa que faz sentido: para tudo, ou quase, há de se ter o vil e necessário metal. Para mim, sempre será maior minha paixão pela escrita, sem entrar no mérito de qualidade, já que falo aqui de pura paixão. E vejo, nessa hora fria e embalada em meu casaco bordô, que devo esquecer um pouco, momentaneamente (seja lá quanto tempo dure isto) meus livretos para que ele um dia vire livro e livros. Leia-se: ganhar o pão de cada dia sem depender da chuva ou do sol. O tempo manda na escoação de produção da Arte de Rua, e "quem tem fome tem pressa". Em maior ou menor grau. Não quero ver a fome extrema de frente pra mim. Abro a maleta e posso namorar por horas cada item dela...pinceis bem preservados, produtos escolhidos a dedo dentro do prazo de validade...estou sempre repondo produtos e esperanças dentro dela. Sei que sou boa nisso que faço. Me sobra o talento onde ainda me falta o marketing. E nisso, modéstia às favas, sem pudor algum. Vejo a massa de expressão com a qual posso dar quarenta anos a mais a qualquer rosto...o sangue cenográfico onde faço "mortos" a tiros de mentirinha. Fadas e monstros. Ou simplesmente acentuar o que há de beleza em toda gente. Não é uma maleta parada: também eu gosto de me enfeitar, nem que seja para meus espelhos. Preciso de algo lúdico em todas as horas, frias ou quentes. Vejo ainda batons de cores diversas e algumas histórias tão minhas...histórias de beijos que não me roubavam a cor ("menina, esse batom tão vermelho sai com beijo? - sai não, é a prova de fogo" - respondi ao namoradinho que um dia tive.), máscaras de cílios que deixam qualquer mulher com cara de diva também tem espaço garantido...acho tudo lindo. Acho lindo o poder de transformação de minhas mãos de posse desse mágicos pertences. É a mais concreta de todas as Artes que assolam minha existência. Tenho a benção de poder transformar arte em pão sem precisar ser divina, embora acredite que tudo que está aqui é divino: de pedras à pessoas. Não que eu acredite que tudo que é divino é bom...mas essa é uma outra história. E ao fim dessas horas ainda frias, lá vou eu cuidar dos meus pinceis de maquiadora...os lavarei um a um com xampu de criança e secar com secador em temperatura moderada (assim eles duram mais). E esse vazio no peito...como diz a Marla de Queiroz, que leio com tanto gosto: esse vazio me dá a oportunidade de preenchimento com o Novo. Ela disse algo assim, parecido com isso. Eu concordo. Bem como concordo que sem música não se vive...acho que quase ninguém.

(Fechar ciclos é como nascer de novo - "tudo novo de novo")

experimento em A. Sommer em idos de 2011

maleta mágica



Ah, Chico...nunca sem Arte.