quinta-feira, 3 de maio de 2012

Dos restos diurnos no velho sofá.

sofá.

E então ela se jogou no sofá depois de horas de mais uma daquelas conversas com a velha tia, que levam do nada ao lugar nenhum. Um sofá fofo, antigo, ranhuras craquelês e suas histórias de cochilos fora de hora. Três pequenas almofadas compradas em um brechó retendo sonhos outros de quem as teve um dia. Aquele lugar era repleto de coisas transbordadas de "histórias outras", somadas as dela. Pois ela desabou em cansaço dos que correm sem ver a linha de chegada, mesmo sabendo onde queria chegar. Onde teria guardado sua bússola? Ela sempre perdia coisas. Um túnel...dentro do metrô. Escuro. Com muitas bifurcações e inúmeras possibilidades (aparentemente do nada ao lugar nenhum...), imperava a necessidade de sair dali. Daquele angustiante buraco. Andava sobre os paralelos ferros aquecidos pelo atrito de rodas maciças, quase queimavam-lhe os pés. Onde daria a próxima estação? Ouvia gritos ao longe, initelígiveis palavras de ordem. "Vire a direita", foi a única coisa que conseguiu entender. Carregava um saco de pedras preciosas só para ela, colhidas em algum leito de rio. Tornava mais pesada a caminhada. Na garganta, um secular bolo de choro obstruía qualquer possibilidade de fala. Algo de pânico. Outra voz, dessa vez mais alta em sua cabeça: "também isso é obsoleto". Sua trajetória marcada por coisas e sentidos obsoletos. O livro vermelho de Jung ficara preso nos sépias de suas lembranças embaçadas...e também obsoletas. Às vezes, lembrava do livro. E daquele pai. Pronto, já não se lembrava mais, nem do livro, nem do pai...seguia dessa vez em passos mais largos...já brotavam bolhas em suas solas descalças. Ela que amava sapatinhos de verniz com tiras cruzadas de bailarina. Uma luz forte quase cegou-lhe, um trem em sua direção, dentro daqueles subterrâneos...não tinha para onde fugir. Fechou com forças os olhos antes que a Morte a levasse. Comprimiu com força o corpo miúdo contra uma parede fria, muita força, muito frio...o trem passou por ela com um barulho ensurdecedor, levando-lhe o saco com as preciosas pedras. Sentiu algo se desprendendo de seu pescoço...a pequena Estrela de Davi dentro de uma singela mandala, presente de uma outra tia distante. Já perdera e encontrara aquela estrela um sem número de vezes. A parede fria e dura...foi ficando mole, mole, cada vez mais mole, como se fosse derreter nela...parede se fez sofá...já de olhos despertos e batimentos descompassados...com uma mão, sentiu as ranhuras da superfície que a acolhia, lembravam-lhe mapas hidrográficos. Com a outra, tocou o pescoço...lá estava sua estrelinha. Querida Estrela de metal fino. A Estrela que sempre reaparecia a cada despertar.

Ney Matogrosso/Bicho de Sete Cabeças


3 comentários:

  1. Lindo. Há que coisas que não se perdem nunca. Há coisas que o tempo não arrefece.

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    1. Que permaneça sempre o essencial...obrigada pela estada em meus escritos!

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  2. E o velho livro vermelho de Jung sempre presente ( nos contos e na vida). Que belo!

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