quinta-feira, 17 de maio de 2012

O audaz atirador de facas.

colhida a dedo no google


Marcel era muito bom em tudo que fazia. Atirava facas como ninguém no entorno de seu alvo humano, a bela Sophie. Eram nômades circenses. Não ficavam mais de uma semana na mesma cidade. Eram alegria por onde passavam, entre outros números da trupe. Entre anões que faziam graça, animais enjaulados e sub alimentados, trôpegos trapezistas, frágeis contorcionistas, mágicos fanfarrões, palhaços tristes e singelos malabares...o atirador de facas era, de longe, o que fazia mais sucesso. Nada contra o circo, mas esse, em particular, era campeão em tratos precários com suas "espécies". Talvez por isso não esquentassem o mesmo solo por muito tempo. O que pouca gente sabe é que Marcel também era dono do "empreendimento", mas isso não chega a ser o dado de maior relevância. Ele gostava de ser dono de tudo, e também da sensação de poder sobre Vida e Morte que sua "Arte" sugeria. Ele e Sophie eram a dupla perfeita: Ele, feroz feito tigre faminto, ela, desajuízada como alguém cuja alma se perdera  em algum chão sem brilho de estrelas. Eram lindos. Às vezes trepavam depois de algum número. Ele adorava passar a faca entre suas coxas, deslizá-las em seu alvo pescoço, e não raramente, "decepar" um naco de seus cabelos tão dourados quanto os dele ("Veja, Sophie, levo mais um tanto de seu juízo, o que sobrou só pode estar em seus cabelos, hahaha!"). Vez por outra, cortava-lhe de leve sua pele só para verter algo de sangue, que "curava" com sua saliva e sede de felino. Ela o amava sem pejo algum. Era dele, ela, sua propriedade predileta. Marcel mandava no circo e também em Sophie, aliás, como bom ditador, mandava em tudo e todos à sua volta... a sua louca Sophie. Quando ela não fazia algo que o agradasse, era posta de castigo e substituída por alguma boneca de cera (com as quais, de modo inexplicável, eventualmente "fodia" também, "só eventualmente", pois gostava do calor das mucosas.). Quando Sophie chorava, Marcel a agradava com o som de uma gaita. Às vezes, muitas vezes, ela chorava do "nada". Sophie fora mais uma dessas aquisições sem lastro achada pelas estradas, coisa de muitos anos, já nem sabiam mais. Era setembro, quase outubro, a noite que mudaria, mais uma vez, a vida de Marcel. Casa cheia como nunca, em algum lugarejo repleto de endinheirados. Naquela manhã, Sophie acordou com idéias estranhas na cabeça, que manteve em silêncio. Cabeça e boca em silêncio. Já não era mais de muito falar, já praticamente perdera a voz . Aquele silêncio, ainda maior, não causava estranhamento. Até ela já não reconhecia direito o som do próprio timbre, outrora grave, por fim tênue como o sussurro de um passarinho em estado de agonia permanente. Arrumou-se com o esmero de sempre e um tanto mais: duas rosas ao invés de uma, vermelhíssimas, adornavam seus loiros suaves.   Ele, por sua vez, penteou para trás seus cabelos, mantendo-os domados com gomalina. Tinha ele um belíssimo rosto, nada poderia velar a visão se seus lindos olhos azuis. Marcel tinha um par de intensos azuis. Recapitulando:  Casa cheia. Número final. O atirador de facas e seu alvo humano (?). Ela lá, entregue como sempre, com seu olhar vazio e repleto de nada e tudo. Cinco facas precisas acertaram a tábua em forma de lápide (o que dava um "quê" ainda mais dramático ao número.), que pareciam sangrar. Truque do mágico que também era seu irmão. Pof! A cada lance, a platéia uivava como se estivesse em um coliseu. O ego de Marcel parecia explodir. Sophie era mais estática que as bonecas de cera, não tinha como errar. Sophie, cansada Sophie...na sexta faca voadora, ela, sem aviso algum, deslocou-se para a direita. Tum. A faca fincara em seu peito. Era uma faca grande e pontiaguda, quase uma espada. Não tombou. A platéia silenciou. Ela ficou ali, cravada na tábua/lápide. Olhos bem abertos. Peito rasgado que não arfava mais. Não sentira nada. Marcel entendera rápido. Achou que esse momento já demorava a chegar. Num gesto brusco para o operador de luz, tudo se fez penumbra, a lápide removida por fiéis assistentes. "Viram que belo truque?", Marcel já sob a luz colorida da grande tenda; ovacionado pela platéia. Não parecia perturbado. Depois de contar os tostões daquela noite, recolheu-se aos seus aposentos. Tirou a faca da inerte Sophie. "Pensei que demoraria a tomar essa decisão", disse alto enquanto a limpava, empalhava e por fim, a banhava em cera. Sua mais nova aquisição. Era o melhor artesão em sua não divulgada aptidão de imortalizar corpos defuntos...Ela ficara particularmente linda. O brilho da cera a fazia etérea. Levou dezessete horas, sem dormir (ele pouco dormia), para concluir o processo. Teve o cuidado de preservar os orifícios livres ao acesso. Assim, ela passou a fazer companhia à sua coleção de dezoito bonecas de cera em tamanho natural. Naquela manhã cor de rosa, fez uma orgia com todas elas...de Amélie à Rosalie. Sophie ainda não estava seca o bastante...teria que esperar um tanto mais para se juntar às suas novas irmãs. Na mesma tarde, saiu em busca de uma nova parceira de espetáculo...haveria de encontrar outra bela de órbitas vazias, sem ninguém que a procurasse, sem história e sedenta de amor (qualquer amor...).

Danzing - Killer Wolf







8 comentários:

  1. Muito bom! Parabéns querida Claudia.

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  2. Sempre que eu acho que você está no ápice, você me surpreende.

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  3. Ufa! Perdi o ar aqui, amiga. Parabéns, parabéns....Qd sairá o primeiro livro? Aliás, continuo esperando meus livretos de poemas, viu? não esqueço!!!!!!! hehe, beijos amada!

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  4. Cada um mais impactante que o outro! A cada novo texto seu que leio, sou arrebatada e pareço viver as cenas que você tão lindamente descreve!!! Parabéns, adoro o seu blog e adoro ainda mais seus texto! =]

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  5. muito bom Claudinha!!!
    Parabéns mesmo!

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