terça-feira, 1 de maio de 2012

Poética do Cotidiano.

"Brincando em mim"


Querido Diário,
(...)
Ah, mas se nascemos e morremos em sentimentos diversos umas mil vezes entre o espaço do acordar e dormir...quantas páginas precisaríamos para precisar o impreciso? Uns dois cadernos de cento e noventa e seis páginas talvez...e eu, que ainda sigo amando os cadernos sem pautas e ainda não aprendi a me equilibrar sem uma linha condutora...também imprecisas são as (minhas) palavras. Quanto de poesia cabe no prosaico? Não, isso não é um diário. Algumas palavras resvalam em minha existência, outras são meros inventos, todas cabíveis em qualquer vida humana. É comum ao ser humano rir, chorar, amar, desamar, sonhar, fingir, cair, levantar, sonhar, sonhar e sonhar, sentir algo ou muito de saudade e ainda assim caminhar...alguns pensam em voz alta. Voz que esbarra, não raro, na vida alheia, tão parecida com a nossa, "que nascemos originais e morremos plágio" (até de nós mesmos...).
Nesse diário correr de horas frias, derramei meu Amor sobre minha maleta cinza, guardadora de cores ávidas por telas humanas...descobri que minha sina é de Amor, Amor por pessoas e coisas que me enchem de sentido. Pessoas e coisas que me apontam sentidos...pois ainda me lembro de uma daquelas poucas lições de física que  grudaram em minha cabeça...de nada vale uma direção sem sentido. Olho pra frente por que tenho coragem de também olhar pra trás: lá estão impressos os passos que me conduziram por estradas de pedras. Isso me conta que devo buscar sentidos novos, não sem pedras, como saber? Mas vou aprendendo a pisar sem me ferir tanto, pé ante pé. Quando olho para trás, vejo desejos suspensos no ar: uns merecem ser resgatados, outros, melhor que fiquem por lá. Vejo uma menina que já quis ser até bailarina. Até malabarista já quis ser. Que já teve no quarto dos fundos de sua casa um pequeno ateliê onde a dança de pinceis esvaziava sua mente e lhe trazia um tanto de paz. Um quartinho rosa chá encubador de ideias "brilhantes" só aos olhos dela. Gravuras de cores doloridas...dores que estavam no papel, mas pelo menos saíram de mim...tem "disso" a Arte...essa coisa de arrancar dor do peito quando materializamos nossos medos via música/pintura/desenho/grito/música/poesia/música (principalmente a música, para qual nunca tive o talento para além da imensa apreciação)...hoje esse quarto virou um canto de entulhos, mansamente aguardando uma ação que lhe devolva o sentido, já que a direção ainda permanece...lá se escondem contas coloridas da artesã que eu fui (?) um dia, vários manuscritos fora de sequencia, uns tocos de lápis pastel seco, uns tubinhos de tintas óleo e acrílica dentro de um pote amarelo com um adesivo de joaninha, um copo de pinceis velhos de cerdas duras (e tanto mais que ainda não me atrevo a fuçar). Tem também um armário, esse um pouco mais organizado, com minhas vestes inverno, prestes a ganhar a rua. Ouvi por aí que um dos invernos mais rigorosos está para chegar. Sobre a cama de alvenaria, uns tecidos bonitos esperando o dia de virar vestido, ou saia, quem sabe cortina ou anágua. Talvez fantasia. Talvez traça, talvez traço, tecidos de muita história...ávidos, como quase tudo em mim, de uma "resignificação". Sentidos...eu que tanto sinto em minhas inúmeras direções.
Volto para a maleta cinza. Ela mora em baixo da minha mesinha verde e fúcsia, em meu quarto de dormir tão azul , também um tanto entulhada (a mesinha...), mas bem mais fácil de resolver. Falava de meu olhar derramado para ela e seus preciosos guardados. De tudo que fui e sou, resiste a maquiadora. Ofício conquistado à custa da venda de algumas jóias de família, há quase vinte anos atrás, que me foram dadas um dia. Jóias trocadas por um ofício...mesmo sem tanto trabalho no momento, ainda acho que foi uma troca realista para a minha realidade. Minha realidade acridoce. Gosto desse gosto, então, tudo ok. Nunca subtraí nada, senão de mim mesma, os recursos para encontrar meus caminhos. Sempre fui minha grande mecenas de sonhos singelos. Claro que encontrei vida a fora (uns poucos) seres especiais que me estenderam a mão, e por isso serei sempre grata. A que adora escrever, e ainda na impossibilidade de um livro, vende livretos...cada vez menos, com menos frequência...pois tem aí uma coisa que faz sentido: para tudo, ou quase, há de se ter o vil e necessário metal. Para mim, sempre será maior minha paixão pela escrita, sem entrar no mérito de qualidade, já que falo aqui de pura paixão. E vejo, nessa hora fria e embalada em meu casaco bordô, que devo esquecer um pouco, momentaneamente (seja lá quanto tempo dure isto) meus livretos para que ele um dia vire livro e livros. Leia-se: ganhar o pão de cada dia sem depender da chuva ou do sol. O tempo manda na escoação de produção da Arte de Rua, e "quem tem fome tem pressa". Em maior ou menor grau. Não quero ver a fome extrema de frente pra mim. Abro a maleta e posso namorar por horas cada item dela...pinceis bem preservados, produtos escolhidos a dedo dentro do prazo de validade...estou sempre repondo produtos e esperanças dentro dela. Sei que sou boa nisso que faço. Me sobra o talento onde ainda me falta o marketing. E nisso, modéstia às favas, sem pudor algum. Vejo a massa de expressão com a qual posso dar quarenta anos a mais a qualquer rosto...o sangue cenográfico onde faço "mortos" a tiros de mentirinha. Fadas e monstros. Ou simplesmente acentuar o que há de beleza em toda gente. Não é uma maleta parada: também eu gosto de me enfeitar, nem que seja para meus espelhos. Preciso de algo lúdico em todas as horas, frias ou quentes. Vejo ainda batons de cores diversas e algumas histórias tão minhas...histórias de beijos que não me roubavam a cor ("menina, esse batom tão vermelho sai com beijo? - sai não, é a prova de fogo" - respondi ao namoradinho que um dia tive.), máscaras de cílios que deixam qualquer mulher com cara de diva também tem espaço garantido...acho tudo lindo. Acho lindo o poder de transformação de minhas mãos de posse desse mágicos pertences. É a mais concreta de todas as Artes que assolam minha existência. Tenho a benção de poder transformar arte em pão sem precisar ser divina, embora acredite que tudo que está aqui é divino: de pedras à pessoas. Não que eu acredite que tudo que é divino é bom...mas essa é uma outra história. E ao fim dessas horas ainda frias, lá vou eu cuidar dos meus pinceis de maquiadora...os lavarei um a um com xampu de criança e secar com secador em temperatura moderada (assim eles duram mais). E esse vazio no peito...como diz a Marla de Queiroz, que leio com tanto gosto: esse vazio me dá a oportunidade de preenchimento com o Novo. Ela disse algo assim, parecido com isso. Eu concordo. Bem como concordo que sem música não se vive...acho que quase ninguém.

(Fechar ciclos é como nascer de novo - "tudo novo de novo")

experimento em A. Sommer em idos de 2011

maleta mágica



Ah, Chico...nunca sem Arte.









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