terça-feira, 29 de maio de 2012

Turismo "inside me".

hoje.

Quero viajar para o mais misteriosos dos lugares. "Inside me".
Gostaria de um roteiro preciso. Meu manual (roteiro de viagem) seria um livro de anatomia humana (?).
Entraria boca a dentro de mim mesma. Passaria pelo meu esôfago, passaria apertada, como quase tudo que passa por mim. De comida a sentimentos. Chegaria ao meu estômago, torcendo para não ser rejeitada, eu que vomito tudo que me embrulha a alma, metafórica e literalmente. Frágil, esse meu estômago. Quase sempre, eu mesma me embrulho. Nem sempre em lindos papeis florais. Tem dia que eu amanheço envolta em folhas de antigos jornais...pegaria um atalho, se possível fosse, para o meu coração, meu descompassado coração cujo ritmo anárquico me pões em situações de pânico e sensação de morte iminente. Sempre passa, eu continuo aqui...observaria longamente seu ritmo, e que tipo de informação o faz sair de seu compasso sobre o qual pareço não ter muito (ou nenhum) controle. Das saudades que o estragam, das lembranças que ocupam espaço demais...me disseram, ontem, que dois terços de mim é lembrança. Espaço demais da conta para quem vive no agora. Sou boa em mandar, sem querer, para bem longe, pessoas que moram em meu "agora". Estou sempre tentando resgatar aquele tempo (que me parecia) perfeito. Enquanto isso, a cada respirar, tudo vai virando passado. Me debato em paredes carmins...sei que passaria algumas horas a observar meu coração. Tentando explicar pra ele que um belo presente pode me dar um futuro mais bonito. Acho que meu coração é surdo...faria um trajeto rápido por minhas veias, repletas de sangue quente como magma vulcânico, que ao resfriar, cria bloqueios ao trânsito do meu sentir. E ao se dissolver novamente (sempre se dissolve de novo!), parece queimar ainda mais...espero não ser derretida nesse caminho. Espero, de verdade, chegar ainda mais sólida (forte) em meu próximo destino. Provavelmente meu útero, aquele que gerou meu maior tesouro em meio a tempos de guerra (de novo, as lembranças...) e glória. Aproveitaria para agradecer meu ovário direito, que possibilitou minha condição materna. O esquerdo foi levado por um tumor, um tal de "teratoma", há vinte anos. Também a isso sobrevivi, e aparentemente, não me fez falta alguma. Eu, que já sou algo de "excesso". Em uma parada em meus intestinos, pediria gentilmente: leve tudo que não me cabe mais. Leve embora, através desses imensos labirintos de direção certa, tudo que não me soma. Desceria ao meu tornozelo direito, um tanto maior que o esquerdo. De tanto pisar com o vigor dos que temem/amam abismos, duas lesões o tornaram (esse destro de dona dos rumos canhotos) algo diferente do outro. Tudo bem, em nada há simetria (nem no Amor...). Subiria com a rapidez de um foguete. Tantos lugares insondáveis pelos meus olhos projetados pra fora...por trás de minha retina, lá estariam meus sonhos guardados. Devaneios que tentaram ser reais. Os olho com medo. Não os quero no comando. Só o real, e sonhos no lugar do sonhos, sob pena de irreversível loucura (será um estado pior que a lucidez?). Bom ou ruim, fico com a lucidez, tanto quanto possível. Vivo e preciso sobreviver no mundo dos normais. Que minha vocação para a loucura/criação more em espaços circunscritos, sob atenta vigilância. Antes que o sol se ponha, visitarei meu fígado. "Pegue leve na liberação de bile, please...já tenho minha dose de amargura!", esperando que também ele não seja surdo como meu coração. Eu, que de tanto amar, já amei até mais com o fígado que com o coração.  E o sentimento contrário também. Que ele possa a se limitar às suas funções fisiológicas (tantas para se ocupar!)...não é visita para uma só vez. Talvez eu deixe outras "cidades/órgãos" para um outro dia. Saio pelo ouvido...o mesmo por onde entra a música que me faz sentir viva e acreditar que, não "apesar", mas "com tudo que há", seguir na rota continua valendo a pena. Deixo um beijo para minha pele...o maior órgão do corpo humano. O guardião dos sentidos...voltarei logo, caso tenha coragem de realizar essa primeira "incursão". Nesses cantos repletos de alma (s).

Debussy

2 comentários:

  1. faço essa viagem todos os dias e todos os dias me sinto num labirinto de paredes feitas por solidão. Solidão tão presente que parece ser possivel toca-la com os dedos. Meu labirinto de solidões somadas chega até sentir falta de Minoutaros que nunca existiram...bjs Frank Tavares

    ResponderExcluir