segunda-feira, 4 de junho de 2012

Feito de açúcar.

arquivo pessoal

Era doce, muito doce, o menino feito de açúcar. Junção de néctares dos mais raros, ele veio ao mundo, chamava-se Maurice. Espalhava doçura por toda a parte. Às vezes tinha cara de mau. Um jeito divertido de se proteger. Curava quase tudo com sua natureza açucarada. Emanava açúcar por vias diversas, a começar pelos olhos de rotas indecifráveis. Tinha algo de impreciso nos caminhos de seu olhar caramelo  um tanto assimétrico. Mas ele sempre sabia, Maurice, para onde estava olhando...sua cabeça tinha cheiro de mingau de criança. Cabelos ralos com cheirinho de farinha de arroz e toque de baunilha. A voz tinha gosto de mel de laranjeiras. As mãos eram feitas de chocolate e nozes. Sugar boy. cantava de um jeito que não deixava ninguém ficar neutro: riso ou choro garantido. Repleto, transbordado, excesso de Alma e Amor. Dedos feitos de flor. Amava sorvete. E até em seu feijão havia doçura. Na lida incansável de seus sonhos, sempre a Doçura. Nem todo mundo entendia Ele. Maurice. Sua música, seu riso de dentes semi guardados. Suas histórias "sem pé com cabeça". Seu medo de avião. Seus ritos adstringentes de almas...cantava mesmo quando dizia não querer cantar mais. Até tamanco virava Poesia. O pé direito sobre sua cabeça era bem alto: cidadão do mundo, seu teto era um céu repleto de estrelas, mesmo quando trancado em seu quarto de paredes de neve. Todo o calor do Universo morava em seu peito. Maurice. Uma tal de Susie se apaixonou por ele. Mas não era ela assim tão doce...era feita de Sal, feito mar. E um tanto de fel... Não houve equilíbrio. Susie esqueceu-se de sua própria natureza, quis ser doce de ameixa, ou morango, talvez maracujá. Quis ser outra coisa, pra agradar o paladar. Nada arquitetado. Quando viu, era ela também toda Açúcar, ela que era feita quase todinha Sal. Susie pareceu renascer: sorrisos inéditos em um rosto tão bonito quanto sério. Risadas sonoras de espontaneidade infantil. Dança sob um céu de quintal sem música (só era possível ouvir na cabeça dos dois). Tudo muito doce. Litros de sorvete no meio de madrugadas insones. Sanduíches de cottage com toques de geleia. Filmes de sessão da tarde. Caminhadas na beira do mar (ela que temia o retorno ao sal...), certa noite, Susie chorou sob a chuva quando tudo parecia escapar-lhe dos dedos!!! Não fora feita para os doces...caminhos distintos, futuro inexistente. E numa noite pluvial, vestido encharcado, Susie rompida num choro sem fim, Maurice descobriu que (quase) nada de doce havia nela. Com olhos complacentes dos que nasceram com a benção dos néctares, ele viu aquela mulher, a quem tanto amava, se dissolver diante de seus olhos. Primeiro, foi-se a maquiagem. Depois, o rosto. Depois, toda ela, até voltar escorrida, ao mar. Ela que não era má. Mas era feita de Sal... Maurice chorou um bocado (percebeu que a água de seus olhos, pela primeira vez, estavam salgadas; Susie havia deixado algo de si)...mas Ele seguiu seu caminho, espalhando doçura por toda a parte. Em suas lágrimas, sempre que elas surgiam, Maurice percebeu tempos depois: aquele tanto de sal o acompanharia pra onde fosse. Para onde fosse. Enquanto isso, algo de seus dulcíssimos sabores cruzariam Oceanos até o fim de todos os Tempos...

Amelia-Joni Michell
"It's just a false alarm"...



Um comentário:

  1. Arnaldo Vieira de Alencastre27 de junho de 2012 16:16

    Sensacional querida Claudia!

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