sábado, 14 de julho de 2012

A Parede Branca

arquivo pessoal


Talvez Olga gostasse tanto das cores justamente por saber o futuro das coisas. Não era vidente, não precisava ser para saber. Entendia ser o cinza o futuro das coisas, aquelas que a gente pode pegar ou aquelas que a gente só pode sentir. Não o cinza, mas as cinzas...sim, cinzas como o futuro de todas as coisas...
A velha sapatilha sem ponta que usava até pra ir à padaria comprar seu rocambole de chocolate...os amores idos e o que acabava de chegar, já buscando fôlegos para seguir...sua coleção de revistinhas com seus grampos carcomidos pela umidade das paredes rachadas de infiltração...seu chale vermelho comprado na liquidação. Sua xícara alva como neve onde raramente tomava chá, tanto medo tinha de quebrar. A árvore que se pintava de rosa na Primavera e invadia sua janela com cheiro de ilusão. Suas músicas, seus chapéus, seus filmes e livros, seus escritos pândegos, seu sorriso desaforado quando tudo parecia ir mal. Seus diários de folhas arrancadas, seus rascunhos de folhas apartadas que pareciam não fazer sentido. Suas bonecas de porcelana com suas cabeças por um fio depois de algumas quedas provocadas pelo vento, e mesmo assim, sendo devolvidas para o alto da estante. Seu caderno amarelo de receitas com sua letrinha redonda que nem era dela, mas de sua mãe, aquela que foi lá pro Céu, ou algo assim. Seu sorriso de marfim maculado de nicotina. Aquele sapatinho verde comprado em Petrópolis numa tarde só dela...o mar azul que ela namorava do alto de um arranha céu, em um antigo café. O café...seus figos que ficavam deliciosos quando batidos com leite. Seus velhos lápis de cor. Seus contos bobos sobre dor de amor. Sua mania de pisar na grama sem sapato e depois descobrir bem na sola uma coceira de bicho de pé. Seus velhos amigos e amigas, e os que pareciam chegar. Seus sonhos que sempre seriam sonhos suspensos no ar...muitos abraços e beijos  retidos na memória...fotos e mais fotos "eternizando provisoriamente" as horas belas...por tudo isso ela amava cores.
Sentada no chão, mirava a parede imaculada, que como todas as coisas do mundo, sem tirar nem por, viraria cinza. Não sem antes experimentar o breve prazer das cores. Rabiscou-a toda, com todas as cores possíveis e impossíveis. Haveria de se cercar de todas elas. Sentiria tudo ao extremo, até seu momento, o momento que chega para tudo e todos. O tempo das Cinzas, leve o tempo que for... feito isso, ganhou a rua...haveria de respirar os infinitos matizes que enfeitavam seu existir efêmero...

arquivo pessoal

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