terça-feira, 14 de agosto de 2012

Outros recortes de "A Menina Morta de Amor"...


imagem colhida no google


"Ela usava um vestido roxo, bem roxo mesmo...tinha uma cara muito pálida, calçava sapatos de boneca quase cobertos pelo tamanho do tal vestido, que praticamente varria o chão. Parecia morta de tão branca, mas eu achei ela linda, apesar daquela cabeleira preta de Mortiça...a música era alta, mas tudo pareceu silenciar. Acho que tocava Black, algo assim. Disse à ela: "Você parece uma menina morta". Aos dezoito anos, eu não tinha filtro para falar as coisas e ainda não tenho muito. Estranhamente, ela me beijou. Havíamos sido apresentados há menos de cinco minutos. Eu gostei. Algumas horas depois, em minha beliche sobre a qual dormia meu irmãozinho, soube seu nome... Flora. Jamais imaginei reencontra-la vinte anos depois, mais viva que nunca."
(De Vitório, sobre Flora, em carta enviada a um velho amigo-ficção)
Fragmento de "A Menina Morta de Amor", de Claudia Tonelli.
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"Meu Amigo,
Hoje sou um homem velho. Não pela eminencia da quarta década. É que a vida vai dando uns cinco anos de peso a cada um de existência. (Ah, deixa eu explicar porque não vai tudo para um diário: ainda acho diário uma coisa totalmente feminina, não que eu ache feio... mas é algo que alguns incautos deixam para ter a vida devassada sabe-se lá por quem depois de morrer...se puder, queime esses escritos. Não me imagino dividindo tantas coisas que sinto com muita gente...vamos em frente) Essa tarde vi Flora e me perguntei: o que vi em Flora? Além da cara de porcelana, branca feito zumbi em contraste com aquele vestido roxo, e lá se vão vinte anos...acho que eu admirava nela a total ausência do medo. Não tinha medo nem do ridículo. Chorava ou ria, com aqueles dentes todos, brancos e grandes, sem pejo nenhum. Ela gargalhava com o corpo. Flora está diferente...talvez menos pálida, talvez sorrindo um tanto menos. Mas confesso que gostei de vê-la. Os mesmos cabelos escuros, agora amarrados em um coque. Continua miúda. Virou professora, veja só...vai nos lugares mais longes para ensinar a ler. Ela sempre leu demais. Como eu, mas não como eu, mais afeito à cálculos de precisão. Ela sempre leu de tudo. Lia até minhas sobrancelhas...lia bulas de remédio e eu achava graça, já que depois, aparecia uma Flora medrosa, tendo todos os sintomas descritos. Lembro de uma Flora encantada com a matrioska na mesa de centro de minha mãe, e do olhar saltitante ao descobrir que dentro de cada bonequinha cabia outra bonequinha...ficava horas mexendo nas bonequinhas com aqueles olhos grandes de criança, num mundo só dela. 'Como são fofas', ainda ouço ela falar. Lembro que ela queria ser bailarina, mas sempre dizia que seus quadris largos não combinariam com a leveza das saiotas das bailarinas. Mal sabe ela...acho que aquele quadril combinava muito com o meu. Combinava com tudo. Eu tinha ciúme, embora não demonstrasse. Fosse hoje, eu diria: Você, Flora, combina e enfeita esse mundo cheio de feiuras da alma. Mas eu não disse. Um dos poucos arrependimentos...amei Flora ao meu jeito. Ela sabia como fazer me sentir amado. Acho que até hoje, saberia...mas vida toma caminhos que vão nos levando para longe, como você, que foi parar aí na Argentina...(quando vier, não esqueça os alfajores!)
O que me assustava mais é que Flora por vezes era Fauna...sua fúria se dava como a explosão de uma manada de zebras...para depois se apaziguar como um jardim cheio de perfumes que vão envolvendo a gente a ponto de transformar qualquer lugar em melhor lugar do mundo. Sinto algo de culpa também quando vejo Fabiana dormir. Sei que não poderia ter esposa melhor...ela cuida bem dos gêmeos, é bela e doce. E discreta. Coisa que Flora não é muito. Que fique claro: Jamais deixaria minha família por um devaneio juvenil. Embora, verdade seja dita, depois que vi Flora, penso um bocado nela. Como já disse, vi Flora essa tarde...vi Flora todinha, cada pedaço...tomamos um café licorado, e outro e outro...e de repente, estávamos em um quartinho, desses que nos dão seis horas de ilusão. Gostei de revisitar as curvas, risos, cheiros, estórias e histórias de Flora. Mas decidi: Vou ser forte e correto, gosto de ser correto. Não quero/devo ver Flora. Amo Fabiana. A melhor esposa que eu poderia ter...
Grato pela leitura...imagino-o rindo alto.
Um abraço fraterno,
Vitório.

(De Vitório, sobre Flora, em carta enviada a um velho amigo-ficção)

Fragmento de "A Menina Morta de Amor", de Claudia Tonelli.



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