sábado, 29 de setembro de 2012

Pares para sempre ímpares.

arquivo pessoal


(Não sufoco a solidão de ninguém, tampouco a minha. Ela precisa respirar)


Nascemos sozinhos, e se temos colo ( a sorte de ter um colo!), atribuo ao fato de sermos da espécie mais dependente do reino animal. Diferente de gatos, potros, cachorros e outros bichos, não saímos por aí, mesmo que em passos vacilantes, a buscar o próprio alimento e nos deslocando na aventura da descoberta terrena, conduzidos por nossas próprias pernas. A única comunicação, ou ao menos, a mais presente, é o choro e suas mil intenções de difícil decodificação. O Amor é lindo, mas é também uma poderosa ferramenta da Natureza na perpetuação da espécie. Sem Ele (O Amor), tudo perece, vide as tristes notícias de bebês abandonados em lixeiras, enfim...

Acredito nessa experiência primeira como uma das possíveis causas da solidão vida à fora (inconfessadas por muitos) que acompanha a raça humana ao longo de toda uma existência, pois que não somos de fato de ninguém, senão essencialmente filhos da própria Terra. Daí seguimos, como bebês hipertrofiados, tentando preencher lacunas e negar a inexorável solidão. Criamos círculos de amigos, patotas, tribos, grupos de estudos e interesses afins...nos rendemos a paixões para "todo o sempre" de três dias ou três décadas. Colocamos crianças no mundo na ilusão de que não morreremos sós, mas no fundo, cientes de que nossas crias um dia baterão suas próprias asas sem inclusão dos pais/mães no plano de voo. Nos afogamos em músicas, festas, comédias românticas para tornar a "rotas solo" mais suportável. Nos vestimos com as mais belas cores para nos fazermos mais desejáveis. Mulheres (inclusive eu) usam lindas meias-calças para disfarçar celulites. Buscamos perfeição para evitar rejeição como se o outro(a) fosse perfeito(a). Deliramos com piqueniques em parques de diversões e jantares em arranha-céus, sonhamos com buquês de flores fora de data e beijos fusionais que nos roubem o chão e nos dê um tanto de brancas nuvens. Mas eis que essa é a 'velha nova': estamos realmente sós. Cada vez mais sós, em interações protegidas pela barreira do cristal líquido em burocratizadas trocas de afeto sem mucosas e almas das redes sociais; e ainda sob risco de arbitrários bloqueios. Nos sentimos importantes por tantos convites virtuais de pessoas que nunca vimos e apenas se deram o trabalho de "ticar" seu nome em uma enorme lista de contatos. O monitor é a nova camisinha da Alma. Tomamos pílulas do esquecimento em caixas tarjadas de preto no afã de afastar pesadelos e restos diurnos. "Amanhã é outro dia". E quase sempre, mais um dia de "mais do mesmo". Acordar, ir ao banheiro, tomar café, gerenciar (ou não) uma família e partir na corrida do ouro. Dinheiro, esse que compra quase tudo. E os que pouco ou nada têm, experimentam a exclusão social e por vezes, até afetiva. Falo da solidão, repito. Não disse que o afeto não existe (até porque a definição de afeto é bastante ampla!). Tristeza é coisa que fede. Pessoas entulham de fotos o tal do "Facebook" com passeios mirabolantes, cenários de cinema...mas vai saber por onde anda parte dessas almas...nunca me impressionei achando "uau, como fulano que esta lá na Grécia viajando há mais de um mês tem uma vida fodástica". Quantos amigos verdadeiros ele terá? Vai saber...
Dentre tantas coisas que faço (em um expediente bem multimídia e multifunções mesmo!), vendo livretos
com fragmentos de minhas experiências com a literatura pelas ruas cariocas. Na Lapa, por exemplo, vejo, muitas vezes, olhos vazios feito as faces de Modigliani e risadas movidas à álcool aditivado...não estou cuspindo no prato que como, mas ainda não encontrei uma pessoa sequer da qual pudesse dizer: "Esse parece genuinamente feliz e completo". Eu mesma me visto com meu melhor sorriso para espalhar Poesia, mesmo quando minha vontade é simplesmente chorar seja lá por que for. Nessa Vida que segue repleta de fomes, antes fosse só(!) de comida. Mas queremos mais. Tememos uma velhice desassistida e isolada. Queremos um corpo quente na cama, com ou sem sexo. Mesmo que não seja para todas as noites. Queremos casas compartilhadas com algo mais que samambaias e TVs de plasma de última geração. Queremos estar na Grécia ou mesmo em Petrópolis, que é logo ali (e eu acho lindo!) ao lado de um grande Amor. Dure ele três dias, três meses, três décadas ou até mesmo toda (com muita sorte!) um Existir. Em momento algum afirmo que a experiência do Amor, ainda que difícil, em tempos de cólera e medo da dor, seja algo impossível. Entretanto, acredito que a solidão, palavra tantas vezes repetidas por aqui ( e nem quis achar sinônimos!), é nossa sina mesmo. Podemos amar muito e profundante. Ciente de que sempre existirá algo de "solidão a dois", ou uma solidão coletiva mesmo. Levamos na cabeça sensações e pensamentos inconfessáveis até a sacerdotes. Ao dormir, nossas "cabeças-aquários" estão repletas de peixes e outras criaturas abissais...e como se trata de um "aquário", dificilmente nossos "monstrinhos" vão interagir com os "monstrinhos" de nossos queridos e queridas (felizmente!). Aceitar essa tal Solidão pode tornar o Amor algo bem mais viável, até mesmo um convívio para toda uma vida. Afinal, a cabeça da gente é mais enigmática que Plutão, este que foi banido e segue seu trânsito em volta do Sol segregado dos outros planetas e ainda assim permanece ali...pois que venham as compartilhadas "rotas solos". Dói menos. Eu, que por incrível que pareça, sou uma romântica terminal que aprendeu a duras penas a sonhar com pés no chão, também acredito no "Grande-Enorme-Amor". Só não acredito em metades absolutamente complementares. Ser feliz dá medo. Mas dá para avançar na esfera dos sentimentos "com", e "não apesar" do medo. Medo nos salva de muita coisa. Mas deixemos isso para outra prosa.

Nota da autora: E não, não vou revisar nem editar esse texto. Porque às vezes, até escrever dói.

Claudia Tonelli,
manhã de sábado.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Das explosões.

imagem colhida no google

Da fusão de suores e vontades e mucosas. Pulsão de Vida dos corpos em festa. O encontro, do Aqui e Agora.  Pois que somos movidos por vontades tão humanas...sorriso crescente. Olhar que transborda um momento congelado no ar (de um respirar tão denso e quente). Vontade de rir e chorar, rir e chorar..."la petite mort"... explosão de sentidos, daqueles que nem mensuramos. Pois que dessas pequenas mortes das "Vidas em carnes Vivas", se renovam as Estrelas. Antes mesmo que o Sol amanheça.


terça-feira, 25 de setembro de 2012

Pecado.

por Marcos Antunes


Meus grandes pecados foram contra minha natureza. Tentando me adequar em fórmulas e demandas sociais que não cabem em mim. Muitas vezes fui personagem de mim mesma: rindo quando era tempo de chorar, chorar quando era tempo de rir. Depositando confianças incondicionais que me custaram caríssimas. Subtraindo da minha Alma energias que deveriam ser usadas em meu favor. Desses pecados, me quero livre. De roupas que não servem, cores que mascaram, expectativas que não me pertencem,  fantasias que me atrasam,  ilusões que me tiram o chão. Quero solo. Meu ascendente em Touro grita por pés no chão. Nunca fui uma estudiosa em astrologia, mas muita coisa parece fazer sentido. A Libra que habita em mim, signo do meu nascimento, urge pelo belo, mas não o belo óbvio aos olhos: o belo das genuínas interações humanas. O Amor ao próximo, não qualquer próximo. Um Amor livre de vassalagens afetivas de qualquer sorte. Amor se dá para quem quer ser amado. E tem aqueles que a gente ama à distancia, com a benção do desapego, coisa que só então começo a entender. Quero sempre o Amor, com todas as pessoas e coisas, absolutamente nu. Nu de delírios. Nu de (des)enganos. Nu com a mesma pureza com que chegamos ao mundo, posto que nunca entendi a nudez (sobretudo a do espírito) como pecado...pois de tanta coisa que aprendi, ainda não desaprendi a sonhar...

(E ontem joguei tanta coisa fora...)

arquivo pessoal

E tendo a Lua(...)




quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Desconecte-se.

um achado

Depois de várias tentativas de comunicação, veio o feedback: "Desconecte-se". Tão dolorido quanto libertador, entendeu (e assimilou), enfim, que algumas experiências encerram seus ciclos por completo, tomando lugar, se muito, nas lembranças. "Desconecte-se". Um incisivo cacófago repleto de sentidos. Aquele amigo de infância não estava mais lá. Tomara caminhos outros. Bem como ela. Esbarravam-se em uma ou outra noitada da "provinciana metrópole carioca", que em tempos de redes sociais, acabam por promover "reencontros situacionais" e só. Um "oi", um tapinha nas costas, "como vai seu filho, Max?", "Bem, e seu novo armarinho no centro da cidade, Mari, você ainda pensa em ser estilista?", "Eu sou estilista há dez anos, Max, o armarinho é só um desdobramento dos meus negócios", "Ãhnn, legal, Mari, legal mesmo"; daí sai Max para pegar outra cerveja gelada no bar e vida que segue...conectando rostos no cristal líquido e blindando almas e corações.

"Felicidade". 

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

11 Anos...!!!

arquivo pessoal

Dividindo Alegria: há onze anos, que se completarão em poucas horas, eu me tornava uma pessoa bem  mais feliz!  
Nasceu Letícia, cujo nome significa Alegria. Ela fez meu mundo mais bonito. Ela sempre me faz seguir. E também por Ela, nunca desisti de nada que valesse a pena. Bem como desisti de situações que pudessem nos fazer mal. Tampouco desisti de mim mesma. Não sou aquela que acha que uma mulher só é completa se tiver um filho...mas, no meu caso, sim! Andar de mãos dadas com essa criatura espetacular que D'us botou em minha Vida faz de mim alguém sempre em busca de Inteireza. Letícia merece inteiros, jamais metades. Só de olhar para Ela, rio e choro. Violenta e adorável expressão de Amor. Amor. Amor. Um infinito e incondicional Amor. Só me ocorre uma palavra para fechar essas linhas: Gratidão.

<3



sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Carceres mentais.


arquivo pessoal

Algumas lembranças são presentes. Outras cárceres. Há de se ter a habilidade de um catador de lixos para salvar o que se pode aproveitar. Fora o risco de se confundir o que foi reduzido à cinzas com ouro em pó...tô falando de coisa muito antiga mesmo, completamente obsoleta...enfim, percebo, que aquela Claudia "criança" precisa morrer. Eu cresci (?).
Como posso chorar por coisas que nunca me pertenceram? Anelar o intangível? Me fazer ouvir por corações e almas blindadas? Não. Que meu verbo se cale. E mais nada. É o que tenho para hoje. A esperança de ter deletado de minha memória/prisão tudo que não me cabe, como sapatos apertados a destruir meus dedos numa caminhada que é só minha. O destino é a liberdade. Foda-se, já sei da colisão, a inevitável colisão. Mas o caminho pode ser belo. Que venham os efetivos esquecimentos. Hora de "re-parir-me".
(Sigo com a Esperança). 
Maurice Ravel - Pavane for Dead Princess




quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Ela queria devorar Modigliani.

imagem colhida no google


"Queria comer Modigliani".
Foi com essa frase dúbia que Valentina adentrou o salão de exposições da Mostra do pintor. Falou alto e para si mesma. Foi sozinha, não queria interferências.
Valentina nascera condenada: como uma mulher chegada ao mundo na década de 80 poderia ser tão perdidamente apaixonada pelo artista, ceifado em idos de 1920? Enfim...após um percurso de olhar derramado pelos corredores do museu, saiu suspirante: "Chegamos a existir no mesmo século...que pena que demorei mais de sessenta anos para chegar"...ela não primava pelo juízo.
Às vezes,  gostava de "brincar de pintar". E de forma inconsciente, suas formas tinham linhas alongadas, como se "Ele" soprasse em seus ouvidos: "Deslize a mão para lá,  agora para cá...não tente convencer ninguém de nada...pinte para si mesma...pinte tudo e todos que possam deslocar algo bom, ou até ruim, dentro de você. Um dia você me verá no rosto de alguém, prometo. Não estarei lá, mas você me verá e me sentirá, prometo de verdade". Ela era ciente dessa "esquizofrenia consciente", mas gostava disso. Era seu segredo.
Na mesma noite, após alimentar os peixes de seu aquário, saiu pelas ruas da cidade, subindo as escadarias da Lapa. Queria ver tudo do alto. Deteve seu trajeto no meio do caminho. Algumas pessoas, em roda, pintavam os próprios rostos com guache, numa possível tentativa de imprimir cores em vidas, telas humanas...não resistiu, quis brincar também. Escolheu tons carmins que atravessaram seu rosto de um maxilar ao outro. Percebeu, em dado momento, um rapaz de idade indefinível, fumando um cigarro em um dos degraus. Cabelos em ondas leves, camiseta amarela. Olhos caramelados, pensamento longe. Ela foi logo percebida.
"Oi", saudou o moço de forma lacônica.
"Oi, o que faz aqui?"
"Nada, ou quase nada, como você. Vejo cores. Não sou muito bom com tintas, pode pintar meu rosto?"
Ao fundo, tocava uma marchinha de Carnaval, totalmente fora de época. Era julho. E frio. E com nuvens que ameaçavam um choro iminente.
Valentina não pensou duas vezes: Com tinta preta, cincunscreveu as linhas do rosto dele. Os cinco minutos, quase dez, se deram em contemplativo silêncio mútuo. E tanta coisa já se sabia um do outro, estranhamente, sem que nenhuma palavra fosse dita. Num impulso, Valentina o beijou. No exato momento em que as nuvens desistiram de reter tanta água. Cores e cheiros se misturaram sob as gotas finas que foram se tornando cada vez mais densas, como aquele inesperado encontro. Matizes se diluíram, se fusionaram. A chuva parou de repente. Estavam de novo com os rostos livres de máscaras. Na blusa amarela, manchas vermelhas intensas como sangue. Mas era só tinta, carimbada pelo forte abraço que acompanhara o beijo. Talvez virasse lembrança.
"Tenho que entrar, um dia a gente se vê; moro aqui, ó!" Disse ele apontando a porta de um antigo casarão. E entrou. Valentina ficou ali parada, respiração suspensa no ar...aquele rosto tão familiar...Voltaria no dia seguinte. Como de fato, voltou. Tocou a campainha. Uma (muito) velha senhora atendeu. 
"Ele está?"- perguntou uma quase agitada Valentina.
"Modi? Partiu essa manhã para Livorno. Pediu que lhe entregasse isto."- disse a senhorinha, dando-lhe nas mãos um delicado embrulho. Valentina abriu com mãos trêmulas, enquanto a velha mulher fechava sem cerimônia a porta à sua frente. Dentro do tal embrulho, um delicado gato de louça e um breve bilhete:  "Esse gato não ameaçará seus peixes. E em tempo: nunca acredite em afetos excludentes. Um bacio!"
Nunca mais se viram. E ela derramou um tanto de água pelos olhos, como aquelas nuvens. Sentia-se feliz.

Modigliani




"Taí"





terça-feira, 11 de setembro de 2012

Lembro-me (tanto e muito).

arquivo pessoal

Lembro-me de coisas em excesso. De coisas vividas lá atrás, outras tantas, lá na frente. Muita coisa mesmo. Coisa bonita e coisa feia. Algumas só ocorridas em minha cabeça estranha. Outras, acontecidas no que chamamos “vida” de fato, que melhor seria nunca terem acontecido. Lembro-me muito. Sinto saudade e às vezes asco. Das vividas ou das vividas só dentro de mim, esse estranho Universo paralelo onde experimento dores e alegrias.  Das viagens que nunca fiz para uma ilha, num litoral carioca qualquer, ao lado de um amor imaginado. Das viagens para a Europa que experimentei (na minha cabeça, sempre ela...) ao lado de um grande Amor de verdade. Do Amor grande que senti um dia (mais de uma vez, acho que duas -?-), que de tão grande, foi embora por não caber em alguém tão literalmente pequenina como eu. É que lá dentro, bem lá dentro de mim, é grande demais. Empurra minhas costelas, descompassa meu coração, desvia as rotas da minha corrente sanguínea, me levando sabe-se lá para onde. E eis que, numa grande ironia, o que sempre ficaria no plano dos ‘sonhos sonhados de olhos abertos’ se fez 'real - verdadeiro'. E mais uma vez eu senti falta...de uma das poucas coisas ‘nessa minha vida tão cheia de Vidas’ que conseguiu ser real e imaginada ao mesmo tempo. Tá, não tem nexo, nem é para ter...como as rubricas mais que reais no envelope que o correio me devolveu mais de uma vez. Completamente surreais. Ainda há muito a ser jogado fora. Desapego.  Cansei de tentar entender. Ando emotiva...olho para o xale azul, presente de uma amiga sonhada que também se fez real e já ameaça dizer adeus. Prefiro os “até breves”. Tudo é breve, afinal.



in love with my joy delirious (...)