quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Ela queria devorar Modigliani.

imagem colhida no google


"Queria comer Modigliani".
Foi com essa frase dúbia que Valentina adentrou o salão de exposições da Mostra do pintor. Falou alto e para si mesma. Foi sozinha, não queria interferências.
Valentina nascera condenada: como uma mulher chegada ao mundo na década de 80 poderia ser tão perdidamente apaixonada pelo artista, ceifado em idos de 1920? Enfim...após um percurso de olhar derramado pelos corredores do museu, saiu suspirante: "Chegamos a existir no mesmo século...que pena que demorei mais de sessenta anos para chegar"...ela não primava pelo juízo.
Às vezes,  gostava de "brincar de pintar". E de forma inconsciente, suas formas tinham linhas alongadas, como se "Ele" soprasse em seus ouvidos: "Deslize a mão para lá,  agora para cá...não tente convencer ninguém de nada...pinte para si mesma...pinte tudo e todos que possam deslocar algo bom, ou até ruim, dentro de você. Um dia você me verá no rosto de alguém, prometo. Não estarei lá, mas você me verá e me sentirá, prometo de verdade". Ela era ciente dessa "esquizofrenia consciente", mas gostava disso. Era seu segredo.
Na mesma noite, após alimentar os peixes de seu aquário, saiu pelas ruas da cidade, subindo as escadarias da Lapa. Queria ver tudo do alto. Deteve seu trajeto no meio do caminho. Algumas pessoas, em roda, pintavam os próprios rostos com guache, numa possível tentativa de imprimir cores em vidas, telas humanas...não resistiu, quis brincar também. Escolheu tons carmins que atravessaram seu rosto de um maxilar ao outro. Percebeu, em dado momento, um rapaz de idade indefinível, fumando um cigarro em um dos degraus. Cabelos em ondas leves, camiseta amarela. Olhos caramelados, pensamento longe. Ela foi logo percebida.
"Oi", saudou o moço de forma lacônica.
"Oi, o que faz aqui?"
"Nada, ou quase nada, como você. Vejo cores. Não sou muito bom com tintas, pode pintar meu rosto?"
Ao fundo, tocava uma marchinha de Carnaval, totalmente fora de época. Era julho. E frio. E com nuvens que ameaçavam um choro iminente.
Valentina não pensou duas vezes: Com tinta preta, cincunscreveu as linhas do rosto dele. Os cinco minutos, quase dez, se deram em contemplativo silêncio mútuo. E tanta coisa já se sabia um do outro, estranhamente, sem que nenhuma palavra fosse dita. Num impulso, Valentina o beijou. No exato momento em que as nuvens desistiram de reter tanta água. Cores e cheiros se misturaram sob as gotas finas que foram se tornando cada vez mais densas, como aquele inesperado encontro. Matizes se diluíram, se fusionaram. A chuva parou de repente. Estavam de novo com os rostos livres de máscaras. Na blusa amarela, manchas vermelhas intensas como sangue. Mas era só tinta, carimbada pelo forte abraço que acompanhara o beijo. Talvez virasse lembrança.
"Tenho que entrar, um dia a gente se vê; moro aqui, ó!" Disse ele apontando a porta de um antigo casarão. E entrou. Valentina ficou ali parada, respiração suspensa no ar...aquele rosto tão familiar...Voltaria no dia seguinte. Como de fato, voltou. Tocou a campainha. Uma (muito) velha senhora atendeu. 
"Ele está?"- perguntou uma quase agitada Valentina.
"Modi? Partiu essa manhã para Livorno. Pediu que lhe entregasse isto."- disse a senhorinha, dando-lhe nas mãos um delicado embrulho. Valentina abriu com mãos trêmulas, enquanto a velha mulher fechava sem cerimônia a porta à sua frente. Dentro do tal embrulho, um delicado gato de louça e um breve bilhete:  "Esse gato não ameaçará seus peixes. E em tempo: nunca acredite em afetos excludentes. Um bacio!"
Nunca mais se viram. E ela derramou um tanto de água pelos olhos, como aquelas nuvens. Sentia-se feliz.

Modigliani




"Taí"





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