segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Leituras de fragmento de "Tita (...)"



"É só lembrança o quadro que me dói mais". A frase dessa música ficou reverberando. Hoje ouvi rádio, fazia tempo que não. A surpresa de qual seria a próxima música. A surpresa imprevisível. A voz do radialista anunciando a próxima canção. Nada mais retrô. Foi um dia assim, de surpresas antigas e velhas sensações. Sentei-me à máquina de costuras, ainda estou aprendendo. Fumei um cigarro, sei que não deveria. Queimei a coxa esquerda, ficou uma bolha em forma de coração. Um, dois, três, vários degraus, senti fome de rua. Na padaria, pedi um café no balcão, que sorvi junto ao prazer de ser minimamente lembrada. Hoje fui lembrada, assim, só um pouquinho. Bebi o café no balcão. Olhei para minha "coxa-bolha-coração" que ele, Tom, nunca conheceu, senão em imagens reproduzidas por aí. Estou envelhecendo, dá-me estranheza ver-me assim retratada ao longo dos tempos. Mas é bonito ficar velha também (tento me convencer).
Ele está em Amsterdã com a família. Como sou óbvia, penso que deva ele estar visitando campos de tulipas. Sou óbvia mesmo. Tomo outro café. Queria que fosse um café eterno. Estação São Bento, o melhor café. Não lembro se tomei café. Tomei sim!, depois de duas cervejas. Era um lugar bonito, a única parte não imaginada. Quase esqueci Tom. E tem dia que lembro só um pouquinho. Sinto um calor bom. As coisas boas compartidas sobrepõe-se ao caos do silêncio eterno. Na verdade, eu sonhei que ele se lembrava de mim. De tão doida que às vezes sou, chego a achar que a "bolha-coração" em minha coxa é um sinal de que não delirei de todo. Nem tudo é elefante rosa. Às vezes, é só saudade mesmo. Dessas de queimar a coxa, mesmo que só um pouquinho. Meu nome é Tita. Dizem que não tenho jeito. Isso não é verdade.

(por Claudia Tonelli)

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

A Moça Feia



Dizem por aí que a tal Moça era de muito viço no olhar, pestanas longas como um sombreiro. De um rosto quase divino. Bonita mesmo, apesar de um tanto melancólica. 
Em cores fortes ou cara lavada, dificilmente passava invisível por onde andava. Despertava polarizados sentimentos, dificilmente a neutralidade. Muitos queriam tocá-la de formas diversas. Alguns conseguiam. Cada vez mais raro, mas conseguiam. Tocavam, serviam-se. Como aperitivo, levavam um tanto dela. Ela que ia esvaziando-se a cada noite sem nascente. A cada manhã sem poente. A cada abraço sem laço. A cada beijo sem lastro. Ia perdendo-se de si, a cada passo em descompasso. A cada odor sem amor. A moça esvaziada de Alma. Outrora tão repleta de tudo. A Moça Feia.

sábado, 12 de outubro de 2013

Com Amor.

arquivo pessoal

arquivo pessoal






















:: O Que Eu Posso Dizer Para a Criança que Fui um Dia?:: e que teima em vida em algum canto de mim?::

Pequena Claudia, 

Quarenta anos já se passaram, de mais uns tantos que provavelmente virão. Olho em seus olhos grandões e assustados, sei que não entende muita coisa ao seu redor. Sua infância foi sem sustos materiais (diferente dos dias atuais), e você chegou na 'família Tonelli' bem depois dos outros filhos, numa adoção de impulso. Teve todo o amor que foi possível receber. Bem como a expectativa típica dos filhos adotados: "esse será tão grato que não causará decepções"...e por algum tempo, cumpriu bem esse papel: colecionou diplomas de honra ao mérito nas escolas, ganhou prêmios de redação em Uberaba, foi apontada como a maior nota de toda uma instituição de ensino. Tinha tudo para ser médica, advogada, cientista da NASA, etc. Cresceu entre sobrinhos quase da sua idade, que livres do compromisso da excelência, Graças a D'us, estão muito bem e são pessoas excelentes no que fazem e são. Bem como você, ainda que "gauche" na vida. E para olhos desavisados, que fique claro: sua alma repleta de sonhos não guarda espaço para inveja ou rancor. Talvez uma dor "fininha" pelo circunscrito espaço familiar que lhe foi reservado. Mas lembre-se, criança: Você cresceu, deixando de ser semente para ser raiz. Tem sua filha, que dela só espera que seja feliz e correta no que escolher fazer da Vida. Isso é evolução. Pequena Claudia, quando de você se apiedarem por qualquer razão, encha-se de cores, suba em seus saltos. Fique ainda mais bonita (pois você é bem bonita sim, viu?) ; você que é ainda mais bacana que bonita! E isso quer dizer que você é bacana demais, não faça por menos. O mundo não sabe lidar com a melancolia dos que sentem demais. Não é culpa do mundo. Mais que de fórmulas, você precisa da Arte. Desenhada, escrita, vivida e respirada. O que vier dela, há de ser consequência. Se tocar um só coração para além do seu, será bônus: o artista é um "fazedor" solitário por definição. Que muitas vezes sorri no salão e chora no quarto, que também pode ser lugar de alegrias. Só suas, ou compartilhadas. E você bem sabe disso. Mas voltando à criança Claudia...sua pulsão de vida seguirá arranhada, mas inteira(!) na Claudia que se tornará. Por todos os sonhos que acarinhou e não deixou morrer. Pela vocação do Amor que permanecerá em você, só tenho a agradecer. À pequena Claudia que, aos quatro anos, bem pouco tempo antes de começar a ler de forma plena e cognitiva, já dizia que escreveria livros. Agora isso é real, e o primeiro autoral chegará no Verão! E dos grandes amores, a maioria virará inspiração. Um deles até lhe dará sua filha tão querida. Agradeça tudo: calamidades e glórias. Todo o barro do qual é feita. Essa é sua graça: Não foi feita em série. E não se envergonhe: excesso de humildade é arrogância das feias, isso sim. Talvez um dia você viva um grande amor de verdade (como o que você viverá aos seus dezoito anos!), mas agora, nessa adulta que lhe fala, seu foco são a palavras. Aproveite seu "desapetite" desse momento para romances na vida real para criar e matar a morte. A maioria dos moços estão meio bobos mesmo, mas cuidado com a generalização. Brinque com a própria imagem, vá o Parque Lage em sua própria companhia, ou de sua filha. Alegre sua alma. Tempos de Alegria se anunciam. Você é um milagre. E eu a amo, pequena Claudia. Tem muita gente torcendo por você, acredite. Agora pode soprar a vela e seguir em frente, que a vida chama.

Com carinho,

a Claudia que segue crescendo.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

A quarta década.

registro desse fim de semana. Ainda resistem bons amigos em minha vida!

Tem tempo que não passo por aqui. Quando comecei a escrever nesse "espaço róseo", eu era um tanto mais sonhadora. Ainda tinha convicções de que seria uma escritora publicada. Não tenho mais essa convicção, mas sei que vou continuar escrevendo, porque sei que escrever é parte do que me mantem viva e algo lúcida. Bem como ler. Lembro da minha ingenuidade de menina já meio velha, recém entrada na tal rede social, compartilhando meus escritos no mural de um monte de "amigos"(?). Faz tempo que não faço mais isso. Não tinha ideia de que isso era um incomodo, e que murais, atualmente, mais parecem muralhas. Mesmo no meu, já existem filtros para marcações. Ando adotando, em alguns aspectos da minha vida, dentro e fora do cristal líquido, o mesmo peso para a mesma medida. Não me atrevo mais a botar o link dos textos daqui lá na timeline do amiguinho ou amiguinha ou contato ou seja lá quem for que por alguma razão esteja conectado a mim. Já fui insultada por isso, chamada de oportunista por uma fulana que já era "profissa(?)" e não queria dar "carona para ninguém", ainda mais para uma "amadora". Ela não me conhece, e a maioria, jamais me conhecerá o bastante. Hoje é só um relato, mas na época, me fragilizei um tanto. A verdade é que sempre vivi em "carne viva", o que ainda acho melhor que estar morta. Não acho, não mesmo, que esse será um post de longo alcance. Por aqui, agora, chega quem quer. No máximo, compartilho o link no "meu" mural. Estamos numa época (ou sempre estivemos e, tardiamente, me dou conta) do "meu", "seu", raramente "nosso". Vivemos protegidos por muros, concretos e invisíveis. Damos saudações de boas vindas para quem nunca vimos em msgs "ibox", mas tememos a chegada de novos vizinhos. É estranho, mas é como andam funcionado(?) as coisas. Vivo mais na saudade que no presente, mas tento mudar isto. Vale lembrar que tenho a sorte de ser mãe, e agora, uma mãe cada vez mais e mais amiga. Acho que mãe tem que ser mais amiga, ainda mais de uma mocinha. Diálogo é tudo. Sei que nunca estarei rigorosamente só, ao menos, tenho essa esperança, por mais que soe egoísta. Ela é uma boa menina, prestes a fazer doze anos, e já quase dez centímetros mais alta que eu! O mais incrível é que ela cabe com perfeição em meu colo e meu abraço. Um amor sem medidas limitadoras. É o que plantei de mais belo nesse mundo, e se nada "der certo" quanto a tantos sonhos que tenho, minha vida já terá valido a pena. 
Em 9 de outubro desse ano, vou fazer 40 anos. Sei que vou, estou comprometida em durar e ver minha pequena crescer. Já é uma grande meta. Tenho que me cuidar muito. Da alma à derme, essa que carrega meu espírito ainda tão ruidoso. E quem sou eu prestes a entrar no que chamam de "idade da loba"? Além de mãe da Letícia, alguém que trabalha por conta própria por não ter uma formação acadêmica de grande monta. E trabalho com quê? Tem a maquiagem, sou boa maquiadora. Nisso, me empenhei bastante. Vendi joias minhas, ganhadas em meus quinze anos, para bancar essa formação. Não tive apoio na época, afinal, esperavam bem mais de minha suposta privilegiada inteligência, eu que venho de uma família que coleciona faculdades, mestrados, doutorados e pós docs. Verdade é que não foi me dada a mesma oportunidade por razões que não fazem mais sentido e pelas quais (quase) não choro mais. Sou uma "técnica em comunicação", oriunda da extinta ETEC, mas isso também não me levou muito longe. Os que avançaram, investiram mais em estudos. É justo, é como é. É mais como é do que justo, mas isso é só o que penso. Não sou dona da verdade, nunca fui. Tenho muita preguiça de quem acha que é. E daí que vou tentando me equilibrar entre a maquiagem, o trabalho como modelo vivo em um ou outro ateliê, o suporte em textos de alguns acadêmicos (por mais irônico que possa parecer) e redatores bem postos... e vida que segue. Avançando no tempo sem dó, essa dimensão misteriosa, o Tempo. Não "casei" de novo, não vivo um grande amor, não fui dançar tango em Buenos Aires, não sou um sucesso que salta aos olhos em nada, mas vivo com a dignidade que julgo necessária para deitar em paz em meus travesseiros. Já sofri muito por amor, muito. Hoje, de forma até inconsciente, quase o evito. Mas confesso: sou fã do Amor. Acho o casamento uma coisa linda, quando há Amor. Gosto e amo o Amor, com ou sem casamento. E confesso, ainda, que ritos afetivos me emocionam. Mas nunca soube muito bem como lidar com os finais, pois na minha cabeça romântica, Amor deveria ser algo sem fim. Na minha cabeça, onde há Amor, para quase tudo, deveria existir o Perdão. No pouco tempo em que permaneci esposa de alguém, e aqui, falo do pai da minha filha, eu juro que sonhei em envelhecer juntinha e ter talvez mais um filho. Passou. Não vivemos um roteiro de comédia romântica onde tudo dá certo no final, mas é nas comédias românticas que me reconheço um tanto sonhadora e algo menina, admito. E sonhar me faz um bem enorme, é só não me esquecer: é só sonho :)
Algo de beleza ainda resiste em meu rosto. Bebo agora mais guaraná que coca-cola, desenvolvi intolerância a alguma química da coca-zero. Com a idade, vão chegando também renúncias de menor impacto. Não tão menores assim, eu amava coca-zero...mas ok. Quarenta chegando. Dificilmente, eu lotaria um salão de festas. Vou comemorar, só não sei como. Além da falta de orçamento, não gostaria de me decepcionar com possíveis ausências. Acho que vou sair com minha filha, guardar "algum" para comer comida japonesa (amamos!) e talvez, deixar um café coado com bolo de milho para quem sabe o caminho da minha casa. Nunca fui de recusar abraços. Também vou tentar achar uma caixinha de músicas bem bacana, eu que amo esse mimo! A idade, o melhor dela: acolho as alegrias, bem como as tristezas, com um pouquinho mais de mansidão. Um pouquinho. Melhor que nada. Amém.

p.s: de vez em quando, ainda vendo meus livretos. A escrita, essa sim. Doce sina. Sabe-se lá até quando. E agora, divido uma página de crônicas na rede social com um autor pernambucano de alma paulistana. Um espaço onde o "meu" dá lugar ao "nosso". Quem quiser conhecer, fica o singelo convite:-> 
Crônicas de um mundo caduco


Um beijo a todos que passaram por aqui ;)

domingo, 16 de junho de 2013

Para minha filha, hoje e sempre.

arquivo pessoal
Ontem, minha filha 'menina mocinha' (prestes a completar 12 anos) me perguntou como era para mim ter 11 anos, com olhos ávidos por uma resposta que a confortasse de todas as angústias desse tempo de transição. Onde por dentro, ainda vive uma menininha e, por fora, já se insinua uma mocinha de rara beleza (já mais alta que a mãe - tudo bem que sou pouco mais que metro e meio...mas já tenho que erguer expressivamente o rosto para alcançar-lhe as retinas!).
Não soube responder de pronto, tive que catar essa sensação guardada na memória. E me veio algo que Anne Frank deixou registrado em seu diário. Mesmo em tempos de guerra e horror, o tempo vivenciado por Anne, a menininha de triste fim (para se dizer o mínimo!), a sensação me parece universal: "Porque no fundo a juventude é mais solitária do que a velhice. Esta frase lida em um livro que já não recordo, ficou na minha cabeça, porque a julgo justa.", (A.F).
Daí que minha filha não precisa ficar assim, solitária. Muito embora, todos se sintam algo só em cantos insondáveis da alma, me vi motivada a dar algo de conforto a esse momento leve e denso à mesma hora. Nem que fosse dividindo com ela algo da 'Claudia claudicante' que fui um dia. Vivemos situações um pouco diferentes. Enquanto cresci entre crises literais de identidade quanto as "mães" e o pai que o destino(?) me deu, ela sabe que pode contar integralmente comigo. Sabe que sou dela (Sim, sou dela!!! Entendo que pertenço - muito!- a ela quando a quis em minha vida! Eu quis engravidar.) . E daí que me reportei à menina brejeira de uma saudosa Uberaba (onde vivi oito,nove, dez, onze e algo de minhas doze rotações em torno do Sol) e me vi bem igual a ela em seus onze quase doze: 'nova demais' para me permitir sentir coisas de gente crescida, 'velha demais' para brincar com minhas bonecas. Eu gostava de Susies e Barbies, admito. E brincava escondida em meu quarto com as bonecas, onde eu contextualizava esquetes onde as mesmas bonecas simulavam diálogos entre duas ou mais amigas a trocar impressões sobre a vida. Meus pais não tinham tempo e minha irmã mais velha ajudava meu pai na drogaria. Eramos a família da "drogaria do bairro", e meu pai, "o cara que trabalhava demais" (continua sendo). Eu era a menina supostamente precoce, a dividir a mesma casa com sobrinhos tecnicamente da minha idade, já que minha irmã primogênita conta vinte anos a mais que eu. Enfim, além de menina, eu já "era tia", mais velha que as crianças dela e com a missão de ser compreensiva e nada egoísta. Nem sempre consegui. Tinha a Rosa, que se oficialmente não era minha babá (foi agregada à família depois de anos de serviços prestados), na prática era. Dormia em meu quarto e administrava algo dos meus medos (gratidão) e rotina. Uma terceira mãe! Mas igualmente de poucas palavras...lá ia eu conversar 'com e através das bonecas'... daí que volto para minha filha. Que tem a mim, repito. Com quem ela divide sem medo de julgamentos, ao que me parece. Não há assunto proibido. Tento não deixá-la sem respostas. Não quero que ela dependa de humanoides inanimados (bonecas) senão pra brincar, caso queira. E que entenda que ela pode ser criança e mocinha, pois esta é a glória e danação desta idade. Que pode achar um menino bonitinho sem que isto seja vergonha (torço para que ela não me mate!) e brincar de pique-esconde. Nada é excludente neste tempo. Não deveria ser em tempo algum. Ela, minha filha, deve saber disto. Essa menina que, ontem mesmo, alegou 'ser um tanto chato ter onze anos por isto e aquilo' (que ela não definiu precisamente em palavras, mas penso que entendi!), deve saber que sou colo vitalício. Já disse isso muitas vezes, mas não canso de repetir. Quero-a no conforto absoluto de que foi recebida em minha vida sem sustos, e com muita vontade de tê-la, repito mil vezes sem cansar. Não quero magoar ninguém com estas palavras, tampouco a mãe que me deu a vida (a outra que tenho já não está mais neste mundo...) e sei que me ama, fique claro. Isso se trata de mim e minha pequena. Ou de minha pequena e mim, eu que para ela, ainda devo ser algo de farol em suas descobertas. Disse tanto e não cheguei a nenhuma conclusão aparente, senão a que um dia ela terá seu caminho solo, sabendo que sempre estarei com ela, metaforicamente ou não. Para vibrar sorrisos (eles existem e muitos virão!) e enxugar eventuais lágrimas, essas que são inevitáveis ao longo. Segurando sua mão em cada descoberta. Abraçando-a em noites de frio, mesmo que faça frio apenas (o pior dos frios!) na alma. Quero que ela saiba que meu amor pode ser refresco e agasalho. Para ela e por ela, expressão máxima do que entendo por 'Maiúsculo Amor'. Ela ainda me questionou como eu, 'tão linda' (filhas sempre acham as mãe lindas, que delícia!) posso estar sozinha. Temo que ela tema (cacófago, eu sei!) essa minha condição circunstancialmente 'celibatária' (no sentido de não ter um 'par' há bom tempo.). Daí explico que a vida é cheia de surpresas, e que a história dela não precisa ser uma extensão da minha, e que minha própria história segue no gerúndio. Peço apenas que ela siga estudando ( a vida é um tanto mais gentil com quem tem uma profissão algo estável- fato-mesmo que eu pareça careta!) e se comprometa sem medo com seus objetivos (muitos a se revelar em seu devido momento). Ela escreve coisas lindas em um bloco de notas, dividido só comigo. Privilégio de mãe amiga. Vejo ali uma alma linda numa menina linda. E termino estas palavras sem edição, transbordada de emoções tantas, com uma frase adaptada de uma música dos "Los Hermanos" que ela gosta tanto: Vamos em frente, "não largo da tua mão". Eu a mo. Infinitamente. E espero que se divirta mais. Isso é muito importante também.

De mamãe para Lelê.





quinta-feira, 30 de maio de 2013

Rota 2

Sapatos rotos
Nas rotas solos
Solas em viva carne
O olho sorrindo a cada dobra
O aceno da mão à aquela que parte
Do destino (destino?),
De teimosia ou vício.
O bolo solado, o precipício. 
O bolo solado, do fim ao início. 
Um gosto bom grudado no céu
da boca.
Alecrim entre os dedos.

(Claudia C. Tonelli)

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Faca.

Aula mediada por André Dahmer/fotografia de Luíza vasconcelos



A lâmina afiada refletia meus olhos. Obstinados, algo loucos de fome (meus olhos quase negros). Sobre a mesa, o amarelo denso perfumado. Desejo em meu palato. Sem esforço, minha mão avançou rumo ao objeto do anelo. Cortei um grande naco. Do queijo suave, salgado. Matando-me a fome. Como um beijo.


resultado do estudo de uma das alunas.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Fragmento de "A Imagem Invertida", romance não publicado de Claudia Cristina Tonelli


O piscar das luzes estroboscópicas, aliado ao som bate estaca, me dava a nítida sensação de que aquele bando de pessoas enlouquecidas se movia quadro a quadro sob a direção de imagem de algum cineasta conceitual, desses que acreditam na forma se sobrepondo ao discurso.
Obviamente, meu olhar se detia em particular nas dezenas (que pareciam centenas) de mulheres que se moviam como bonecas sem alma expostas em uma animada vitrine natalina, na esperança de ser a próxima escolha do comprador... me pareciam todas umas grandes putas sem noção de nada, bêbadas, ultra expostas, festival de bunda, silicone e globos oculares vazios, cabelos esticados, muito dourado na cabeça e nas falsas joias usadas sem pudor...mulheres me davam nojo, mas meu pau autista invariavelmente me levava a lugares como aquele. E esse mesmo pau autista me conduzia sempre ao encontro das mais sórdidas criaturas, daquelas que antes de perguntar seu nome chegam com o invariável “o que você faz da vida?”.
Sim, eu sei que me tornei um misógino de merda depois de ter me fodido tanto na mão dessas malditas sereias, me afoguei nos oceanos mais escuros, e a cada volta à superfície, minha crença na raça feminina se diluía mais e mais...desde que Andrea me deixara por um figurão de merda do Planalto Central, mulher p´ra mim se resumia em minha mãe e minhas duas irmãs, e ainda assim, com uma boa dúzia de restrições! Tanto nojo, meu Deus, e tanta carência...
Ainda lembro-me de Andrea se batendo com força contra a parede chapiscada de nosso escritório, simulando um espancamento, que nem mesmo depois de meu repúdio à raça feminina, eu seria capaz de protagonizar... e com isso, o exame de corpo de delito, o processo, a pena alternativa e toda a vergonha de uma história que não era a minha. Havia me formado em serviço social aos vinte e dois anos, acreditava mesmo que podia fazer diferença na vida das pessoas! E durante a pena alternativa, dez anos depois, pude conhecer de perto o drama de mulheres que de fato haviam sobrevivido a toda sorte de horrores. Depois de tudo, me vi impelido de ajudar essas vítimas, mas completamente incapaz de uma interação afetiva na esfera pessoal!
O mais louco disso tudo foi ter sido fruto de uma família absolutamente bem estruturada, com pai, mãe, irmãs gêmeas mais velhas que eu que me protegiam como “segundas mães”. Passei toda a minha existência vendo meu velho pai a derramar mimos sobre todos nós, que iam de flores não dativas para minha mãe a piqueniques ensolarados e risonhos com toda a família, cuja troca de olhares eu não conseguia identificar em nenhum outro lugar...era a mais pura expressão de amor, onde nem sempre as palavras eram necessárias. A cada esperança de me sentir “mais normal”, era na casa de minha mãe que eu buscava refugio, já sem a presença de meu pai, morto em um acidente de trânsito estúpido na Dutra. Em mais esse episódio, o carinho familiar, a absoluta cumplicidade nos ajudou a seguir...soube da perda ainda em Los Angeles, encerrando ali meus estudos musicais de piano, sem me arrepender, nem por um segundo, da renúncia, afinal, quem era mais caro para mim precisava seguir com meu apoio. Três dias depois conheci Andrea, a besta fera em trajes e feições de anjo que viria a desordenar todos os meus sonhos.
Voltei meu olhar para a pista de dança...é impressionante como mesmo em locais ruidosos, minha alma era capaz de deslizar para tempos idos e locais distantes.
Lembrei-me de Ella, Ella Rossini, a sobrevivente da queda em um poço profundo da Baixada Fluminense. Lembrei-me de sua mudez, de seu olhar verde e assustado, de suas mãos pequenas e feridas, de sua cabeleira escura e desgrenhada, de seus gritos de dor a cada tentativa de uma enfermeira em penteá-la. Seu rosto coberto de edemas, socos e pontapés não permitiam saber se era bonita ou não. Estranhamente, tive vontade de sair dali e olhar de novo o rosto de Ella. Nada nem ninguém ali daquela gaiola de loucos da Zona Sul carioca parecia precisar de mim.



domingo, 28 de abril de 2013

Esse dia 'azul pijama'.

arquivo pessoal


azul sorriu da janela, o dia novo
honesto em seu tédio dominical
quase fui brincar de ser alegre
feito criança em quintal
o tecido, ainda mais azul, em minha pele
me fez também honesta
eu que não estou para festas
não declinei meu querido pijama
que acolhe e guarda minhas curvas
e não faz perguntas.
(Acho que ele me ama)

sábado, 20 de abril de 2013

Dos calores de Jeaninne.

(...)


Jeaninne...

O que queria ela? O que queria ela, passado tantos meses, quase ano? Sim, tudo que se quer. Além do simples e ordinário, algo igualmente simples e ordinário, mas ausente de seus dias há muito tempo. Fora a ultima a tocar em seus seios nos últimos três meses, buscando algo de calor humano. Médico não conta. No máximo, encontrou um pequeno grão. Suspeito grão, que em algum momento, descobriria o que era. Algo que poderia ser tudo ou quase nada. Algo de medo, mas veria assim mesmo. Um grão de arroz no seio não é coisa que se ignore. Mas naquela noite, queria outra mão em sua pele. Passou tempo mais que razoável achando que se bastaria em quase tudo. E achava que já havia meio que sublimado os calores humanos. Bobagem. Jeaninne queria gozar, foder. Não com seu reles brinquedinho de fraca pilha. Não com filminhos que nunca conseguia assistir por mais de dois minutos: davam preguiça, preliminares só eram interessantes na prática. "Fuck yeah, fuck me hard", esses textos não a excitavam. Um "me foda" em bom português parecia bem mais razoável. De preferência, como já foi dito, com outro corpo presente. Não conseguia nem pensar em romance (mentira, conseguia, mas sua natureza taurina a mantinha algo lúcida). Queria sexo. Uma mão pesada em seu ombro. Queria tecido fálico sua boca. Queria todas as cavidades preenchidas. Queria trepar. Sabia como e com quem. Mais simples seria aproveitar a data mundana e foder por aí, mas queria o que sabia que queria: aquele tesão sem futuro. Aquela mão rústica. O rosto de traços fortes afundados entre suas pernas. Beijos longos e fusionais. Colar sua pélvis naquela outra feito cadela de rua. Crua. Queria molhar lençóis com um tanto de si e um tanto dele. Lamber a curva daquele ombro belo (aquele ombro roubava-lhe um tanto de juízo). Ouvir impropérios ao pé do ouvido. Queria dizer coisas sujas e lindas também. Naquela noite, só lhe ocorria: "Quero gozar naquele/com corpo". Queria ser virada do avesso. Queria virá-lo do avesso. Queria sentir o impacto de ser invadida com força e suavidade. Mas sempre com força. Queria agarra-lo pelos maxilares e afundar naqueles olhos de poço fundo. Depois, voltaria à superfície, seguindo a luz que apontava o caminho de volta. E voltar plena, alimentada de seus instintos. Leve, ainda mais leve. E maior, apesar de miúda. Sem culpa. Desnuda. Queria aquela carne agreste e crua.
(e naquela noite, faria uma homenagem à crua carne que contou à dela: Jeaninne, você ainda está viva - mesmo que sem ter dito nada. Mas que contara...)
Ainda que durasse o tempo de um tango...ou de uma sublime e atemporal sinfonia (o jeito de se prolongar um tanto mais)...










sexta-feira, 19 de abril de 2013

As mil cores de Tita.



Tita em cores de chita
gouaches, acrílicas, carvão.
devorada por mil olhos em óleo,
dali brotaria de novo o pão.
Tita bela, Tita casta.
Tita para estudos, deleites, paredes de casas.
Tita nua, livre de devaneios.
Tita para lápis, pincel.
Tita sem calor de mãos.
Tita em mansas tintas.
objeto de observação.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

D'us te abençoe, Vó.

arquivo pessoal


Míriam Schwarzbach, minha avó, há cinquenta anos, deixou essa vida rumo ao Eterno. O mundo ficou menos azul sem a luz de seus olhos. Zally Clarice Schwarzbach, minha bisavó, deve ter recebido-a com um abraço. Que essas fortes mulheres desfrutem da paz do Divino. Sim, eu respeito, honro e acarinho meus antepassados. Pois é desta 'matéria humana' que fui feita e permaneço aqui, seguindo em frente. Obrigada, Elizabeth, minha mãe, pela vida e pelo espírito de luta. Não somos de fuga.

Claudia.

domingo, 31 de março de 2013

De(s)onhos.

por aí...


De uma casa habitada por abandonos
tudo que foi adorno se fez tristonho
as flores de pano (até elas)
comeram todos os sonhos
de açúcar e muito sal
panos, tralhas,
risos frouxos
malas nunca desfeitas
garrafas de vinhos vazias
desde o outro carnaval
roupas dançam displicentes
esquecidas no velho varal
a dona do caos.
parece que foi por aí
equilibrista na tênue linha do 'não desistir'. 

Matemática.




Vamos vivendo entre máximos e mínimos. 
No máximo isso, no mínimo aquilo.
Entre pequenos máximos e grandes mínimos.
E o que está entre?
Dentre?
Desde quando?
Sempre?
Seguir seguindo.
Sempre.
Amanhã será no mínimo (um pouco) diferente.
No máximo, um avançar na corrente.
Tempo que escoa pelos dedos de toda a gente.

(por Claudia Cristina Tonelli)

sexta-feira, 29 de março de 2013

Em dois tempos:

arquivo pessoal
Amo-te. Entre ares marítimos e concretos.
Amo-te. Entre as Artes que nos costuram
Entre os abraços que nos despertam
Amo-te.
Entre afinidades, cheiro de tabaco e madeira
Por dentre sonhos que nos margeiam
Por dentre as impossibilidades do mundo louco
Para além da corrida do ouro...
Desde sempre.
Um centímetro a menos de juízo
e pularia de um trem em movimento (em teus braços).
Levaria junto a mim apenas o que tenho de mais caro.
Sim, todo Amor é raro.



arquivo pessoal

Transbordamentos...(desses que enfeitam des-caminhos)

...você teria coragem? 
penso nisso
às vezes
se eu pulasse do trem
você me pegaria?
eu pularia mesmo sem saber?
hoje ouvi uma música
você a cantaria pra mim?
ou a guardaria na caixa aveludada que te protege a vida?
eu te amaria (e te amarei)
seja qual for a resposta. Ou a ausência dela.
[eu e minhas viagens sem passaporte...]










sábado, 16 de março de 2013

O barqueiro e a Contadora de Histórias

imagem colhida no google





Ela então chegou à margem do rio, onde esperava encontrar o barqueiro. Não levava nada nas mãos, senão as tais moedas para uma travessia mais amena. Sentia algo de medo, mas, talvez, enfim, estaria livre. Não lembrava como chegara ali. Olhou o barqueiro nos olhos. Muda, estendeu as mãos com as moedas.
'Não quero suas moedas'. - disse de pronto o barqueiro.
'Mas se cheguei até aqui...não devo fazer a travessia?'
'Está querendo apressar o quê? Há muito as ser feito'.
'Já fiz tudo, ou tudo que foi possível. Filho, algumas histórias, bolos de chocolate, alguns amigos, desenhos, viagens, até mesmo histórias de amor' (Ela parecia louca).
'Daqui ouço suas histórias e gosto delas. De lá para cá, de lá para cá...por alguma razão, elas me distraem de minha sina monocórdica. Gosto dos que contam histórias. Lembra? Quem cria coisas, mata a morte. Ao menos por um bom tempo'.
Ela muda. O barqueiro continuou:
' Posso ler seus pensamentos. Pensa que não será falta na vida das pessoas de sua vida. Para muitas, pode até não ser. Mas para outras, será. E por essas, adio sua viagem. Você bateu de cara em muitas portas erradas...toma essa bússola...e não me apareça tão cedo...caminhe ao Sul de si mesma...continue a escrever suas histórias, principalmente as de Amor, todas as formas de Amor. É o que move a Vida. E mais: vá viver suas histórias. Escrever só não basta. Sorria mais. Sorrir é bom. Faz tudo doer menos. Você sorri bonito. E repito: Não volte tão cedo. Quando voltar, não quero suas belas histórias escritas. Quero as histórias vividas. São muitas a lhe esperar. Não se atrase. O tempo voa.'
Com um sorriso, ela obedeceu...

terça-feira, 12 de março de 2013

Maravilha Litorânea.

arquivo pessoal.


Era a mais badalada de todas,
das capitais repletas de praia...
Mas naquela noite e na outra,
parecia cidade fantasma...
Bastava uma única ausência
(dentre várias)
para sabê-la desabitada.

sábado, 9 de março de 2013

Aleatórios.

arquivo pessoal

fitas
joaninhas
coca-zero
vestido de bolinhas
róseos
geleia
arco
rocambole
beijo: roubado
atenuante: consentido
água mineral
malas
palavras
longe
dentro
silêncio
música
dourados
filha
amor
sentido
apartamento
sapato
abraço
caixa de música
ébrio
cadarço
panela
abobrinha
perfume
mar
batom
viaduto
asa
bobagens...
Venta um bocado.





quarta-feira, 6 de março de 2013

Sopro.

imagem colhida no google

De brisa suave, que por vezes se cala e aquieta
Beija então o meu rosto e minha Alma irriquieta
   Se me guarda em Sonhos, de olhos despertos
Me lanço em seus braços, de peito aberto
Me cobre de cores, de 'róseos-lilases' 
Devolve-me as asas, cobertas de afeto
Me dá tua mão, quando enfim cai a noite
Eu sinto teu cheiro, madeira e tabaco
Eu bebo tua água direto da fonte
Eu guardo as lembranças num lindo (Há!)braço.

De Amor, liberdade, meus caminhos refaço... 


(Espanta medos meus, até sem saber, mesmo quando não percebo, só por existir)


Belo!





quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Cinema Quase Mudo.

imagem colhida no google

imagem colhida no google
...cruzaram a pé (depois de um delicioso café), Tita e seu Amigo, um pequeno trecho da Grande Metrópole. A Praça do Correio, passando pelo Vale do Anhangabaú e tantas outras paisagens urbanas que ela não lembrava bem o nome. Em especial, derramou seus olhos no Viaduto do Chá (o nome sonoro e palatável como aquela noite bela) e nos lindos vitrais do Teatro Municipal. Tomou ainda, naquela mesma noite, a mais refrescante água mineral de sua vida, num balcão de lanchonete ao som de uma música brejeira e singela. Sentiu-se menina de novo. Fazia um calor atípico, e a barra rósea de seu vestido predileto varria o chão. Não fez questão de lavar o vestido: aquelas marcas mapeavam passos de um dia feliz. Pouco se falou, muito se sentiu. Na verdade, tudo se falou: dedos entrelaçados de singelo e puro afeto se comunicavam como velhos conhecidos. E ela, ao fechar o portão atrás de si, teve a certeza: já se conheciam o bastante mil anos mesmo antes de existirem. Recorte de um cine quase mudo, transbordado de sentidos, mesmo que sem direção. Melodias doces ecoavam em suas cabeças. Quiça corações.






sábado, 16 de fevereiro de 2013

Então!

arquivo pessoal
~

Manual ( principalmente para para mulheres) para ter amigos e uma vida interessante (e para não ser levado a sério).

1- Sorria sempre. Dane-se se você está com a alma partida ou algum afeto amputado. Ou falida, ou qualquer droga do gênero.
2- Vista-se bem, saia sempre maquiada, e ao ser perguntada se está tudo bem, diga que sim. A maioria absolutamente não quer saber. Cultura da alegria em tempo integral, é o que há.
3- Se você tem um ou dois amigos que se importam, levante as mãos para o céu. Você ganhou na loteria.
4- Cale a boca na rede social. Sob pena do ridículo. Ainda que sejam tentativas literárias, sempre acharão que é algo a ver com você. A autora dessa página sabe o que está dizendo. Às vezes, tem a ver, às vezes não. Na dúvida, cale-se. Para isso, existe e-mail e msg privada. O risco do ridículo ainda existe, mas sem impacto de massa.
5- Compartilhe piadas e bichinhos. Melhor.
6- Pare de postar aquelas fotos feitas pela webcam com frequência. O mundo odeia o "prosaico, solitário e ridículo", ainda que a maioria assim o seja.
7- Se você não for alcoólatra, tome um porre e vá dormir. Não encha o saco de ninguém, sobretudo parentes e "ex-amores" que se dizem amigos. Podem até ser, mas até a página dois.
8- "Sorria na sala e chore no quarto". Ao que complemento: Não sangre na rede.
9- Nada de vassalagem afetiva com "velhos amigos". Não quer ficar sozinha, dane-se. Aprenda a sair sozinha, ver o mundo. Crianças soltando pipas, pombos lutando por um grão de milho. É mais digno.
10- Não é para ser levado à sério, mas vai que funciona. Tente ter uma cara minimamente glamourosa, sob pena de absoluta exclusão afetiva e social. Esse é o mundo em que vivemos ~~~

(Sim, essa foto é de uma webcam. Só vale se você estiver produzida. Use com moderação :p)

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Exílios.

arquivo pessoal

Por tantas vezes, me fui sem saber pra quem/onde/porquê.
Tantas vezes menti alegria, quase sem perceber.
Me servi de histórias lindas e feias pra sobreviver.
Vendi por poucas moedas minha arte feita de carnes.
Chorei agarrada a travesseiros ao cair de tantas tardes...
E em tantas fugas, não me livrei de mim. Segui claudia
e manca, trôpega em cima de saltos altíssimos.
Os que vestem meus pés e os que cruzam abismos.
Não sou tecida em cinismos.
Mesmo cara repleta de cores,
o fundo de minha retina sempre delatou minhas dores.
Chá de boldo para lavar meu fígado de rancores...
e minha asa humana e quase invisível
me apontou o caminho de volta,
Onde mil anjos fizeram escolta.
Não fugi dessa vez. O exílio se fez.
E nem atravessei a porta da sala...
Desse Mundo que espera...
que eu me traga ao que é meu
e o sorriso (de verdade) se faça...

(E vou)

domingo, 20 de janeiro de 2013

Da Gratidão - para José de Arimatéia

arquivo pessoal

Quando estava por um fio de abdicar de tintas e escritos, eis que palavras me foram ofertadas.
Delator de meus devaneios impressos quando eu, tímida, me escondia nesse espaço róseo...
Como se dissesse: "Siga, Claudia, siga!", em dias de alma remendada.
Viajamos metaforicamente com e através de Poesia para outros continentes, sem passaportes ou amarras.
Ganhei em Meu Natal mensagens de Afeto gratuito, que espera no máximo um sorriso, quando tudo cala.
Quando pareço cansada, eis que você surge, sutil feito brisa, enfeitando a madrugada.
É que São Paulo não é só concreto...lá existe alma. Gente que me lê para além da palavra...
essas que agora me fogem...(em minha cabeça, como um mantra: Gratidão, Gratidão, Gratidão...)
E mais (tudo!) nada...

(Gosto de você desde sempre, amigo das Iluminuras)


Para você, José. 





sábado, 19 de janeiro de 2013

Aquela maçã.

um belo achado


Não era exatamente aquele paraíso, mas em palavras outras, fui avisada: essa maçã nunca será sua. Ela não foi feita para seus dentes. Essa maçã será para outras bocas. Ao longo de anos, observei a maçã, com carinho e vontade de saber que gosto ela teria. Mesmo sabendo que nunca seria minha. "Que fora feita para outros dentes". Mas um dia ela simplesmente caiu em minhas mãos...brilhava e sorria para mim dizendo: "quero satisfazer, ainda que só por agora, os desejos de toda uma vida. Faça o que quiser de mim. Farei o que quiser por e com você. Eu prometo". Eu mordi a maçã, que cumprira sua promessa. A mais doce e suculenta maçã, aquela que não me pertencia. E pude sentir toda aquela vontade guardada por décadas, quiça existências...ouvi valsas belas em minha cabeça. Senti cheiro de mar em minhas narinas e ventos de asas em meu rosto. Senti gosto de beijo roubado e bom, bem no Céu da minha boca. Senti até Amor. Existe pecado na ternura? Sim, não era a minha maçã. E pouco me importei que me expulsassem do tal paraíso. Não fui feita para paraísos. Mas aquele paraíso...o paraíso daquela maçã "não minha"...aquele paraíso, levei para bem dentro de mim, onde ninguém pode mandar, senão eu mesma. E às vezes, nem mesmo eu...




quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

O fabricante de asas.

imagem colhida no google-lindo e oportuno achado.


Era uma vez um "menino anjo" cujo nome de sonoridade russa era quase impronunciável. Um dia ele cresceu, mas não lhe brotaram as asas, coisa que não se fez problema. Passou a construir asas metálicas, dessas que transportam sonhos. Assim como Santos Dumont, ele desafiou o impossível. E seguiu na linda missão de dizimar saudades de além mar.

Micro conto de Claudia Tonelli.