quinta-feira, 30 de maio de 2013

Rota 2

Sapatos rotos
Nas rotas solos
Solas em viva carne
O olho sorrindo a cada dobra
O aceno da mão à aquela que parte
Do destino (destino?),
De teimosia ou vício.
O bolo solado, o precipício. 
O bolo solado, do fim ao início. 
Um gosto bom grudado no céu
da boca.
Alecrim entre os dedos.

(Claudia C. Tonelli)

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Faca.

Aula mediada por André Dahmer/fotografia de Luíza vasconcelos



A lâmina afiada refletia meus olhos. Obstinados, algo loucos de fome (meus olhos quase negros). Sobre a mesa, o amarelo denso perfumado. Desejo em meu palato. Sem esforço, minha mão avançou rumo ao objeto do anelo. Cortei um grande naco. Do queijo suave, salgado. Matando-me a fome. Como um beijo.


resultado do estudo de uma das alunas.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Fragmento de "A Imagem Invertida", romance não publicado de Claudia Cristina Tonelli


O piscar das luzes estroboscópicas, aliado ao som bate estaca, me dava a nítida sensação de que aquele bando de pessoas enlouquecidas se movia quadro a quadro sob a direção de imagem de algum cineasta conceitual, desses que acreditam na forma se sobrepondo ao discurso.
Obviamente, meu olhar se detia em particular nas dezenas (que pareciam centenas) de mulheres que se moviam como bonecas sem alma expostas em uma animada vitrine natalina, na esperança de ser a próxima escolha do comprador... me pareciam todas umas grandes putas sem noção de nada, bêbadas, ultra expostas, festival de bunda, silicone e globos oculares vazios, cabelos esticados, muito dourado na cabeça e nas falsas joias usadas sem pudor...mulheres me davam nojo, mas meu pau autista invariavelmente me levava a lugares como aquele. E esse mesmo pau autista me conduzia sempre ao encontro das mais sórdidas criaturas, daquelas que antes de perguntar seu nome chegam com o invariável “o que você faz da vida?”.
Sim, eu sei que me tornei um misógino de merda depois de ter me fodido tanto na mão dessas malditas sereias, me afoguei nos oceanos mais escuros, e a cada volta à superfície, minha crença na raça feminina se diluía mais e mais...desde que Andrea me deixara por um figurão de merda do Planalto Central, mulher p´ra mim se resumia em minha mãe e minhas duas irmãs, e ainda assim, com uma boa dúzia de restrições! Tanto nojo, meu Deus, e tanta carência...
Ainda lembro-me de Andrea se batendo com força contra a parede chapiscada de nosso escritório, simulando um espancamento, que nem mesmo depois de meu repúdio à raça feminina, eu seria capaz de protagonizar... e com isso, o exame de corpo de delito, o processo, a pena alternativa e toda a vergonha de uma história que não era a minha. Havia me formado em serviço social aos vinte e dois anos, acreditava mesmo que podia fazer diferença na vida das pessoas! E durante a pena alternativa, dez anos depois, pude conhecer de perto o drama de mulheres que de fato haviam sobrevivido a toda sorte de horrores. Depois de tudo, me vi impelido de ajudar essas vítimas, mas completamente incapaz de uma interação afetiva na esfera pessoal!
O mais louco disso tudo foi ter sido fruto de uma família absolutamente bem estruturada, com pai, mãe, irmãs gêmeas mais velhas que eu que me protegiam como “segundas mães”. Passei toda a minha existência vendo meu velho pai a derramar mimos sobre todos nós, que iam de flores não dativas para minha mãe a piqueniques ensolarados e risonhos com toda a família, cuja troca de olhares eu não conseguia identificar em nenhum outro lugar...era a mais pura expressão de amor, onde nem sempre as palavras eram necessárias. A cada esperança de me sentir “mais normal”, era na casa de minha mãe que eu buscava refugio, já sem a presença de meu pai, morto em um acidente de trânsito estúpido na Dutra. Em mais esse episódio, o carinho familiar, a absoluta cumplicidade nos ajudou a seguir...soube da perda ainda em Los Angeles, encerrando ali meus estudos musicais de piano, sem me arrepender, nem por um segundo, da renúncia, afinal, quem era mais caro para mim precisava seguir com meu apoio. Três dias depois conheci Andrea, a besta fera em trajes e feições de anjo que viria a desordenar todos os meus sonhos.
Voltei meu olhar para a pista de dança...é impressionante como mesmo em locais ruidosos, minha alma era capaz de deslizar para tempos idos e locais distantes.
Lembrei-me de Ella, Ella Rossini, a sobrevivente da queda em um poço profundo da Baixada Fluminense. Lembrei-me de sua mudez, de seu olhar verde e assustado, de suas mãos pequenas e feridas, de sua cabeleira escura e desgrenhada, de seus gritos de dor a cada tentativa de uma enfermeira em penteá-la. Seu rosto coberto de edemas, socos e pontapés não permitiam saber se era bonita ou não. Estranhamente, tive vontade de sair dali e olhar de novo o rosto de Ella. Nada nem ninguém ali daquela gaiola de loucos da Zona Sul carioca parecia precisar de mim.