domingo, 16 de junho de 2013

Para minha filha, hoje e sempre.

arquivo pessoal
Ontem, minha filha 'menina mocinha' (prestes a completar 12 anos) me perguntou como era para mim ter 11 anos, com olhos ávidos por uma resposta que a confortasse de todas as angústias desse tempo de transição. Onde por dentro, ainda vive uma menininha e, por fora, já se insinua uma mocinha de rara beleza (já mais alta que a mãe - tudo bem que sou pouco mais que metro e meio...mas já tenho que erguer expressivamente o rosto para alcançar-lhe as retinas!).
Não soube responder de pronto, tive que catar essa sensação guardada na memória. E me veio algo que Anne Frank deixou registrado em seu diário. Mesmo em tempos de guerra e horror, o tempo vivenciado por Anne, a menininha de triste fim (para se dizer o mínimo!), a sensação me parece universal: "Porque no fundo a juventude é mais solitária do que a velhice. Esta frase lida em um livro que já não recordo, ficou na minha cabeça, porque a julgo justa.", (A.F).
Daí que minha filha não precisa ficar assim, solitária. Muito embora, todos se sintam algo só em cantos insondáveis da alma, me vi motivada a dar algo de conforto a esse momento leve e denso à mesma hora. Nem que fosse dividindo com ela algo da 'Claudia claudicante' que fui um dia. Vivemos situações um pouco diferentes. Enquanto cresci entre crises literais de identidade quanto as "mães" e o pai que o destino(?) me deu, ela sabe que pode contar integralmente comigo. Sabe que sou dela (Sim, sou dela!!! Entendo que pertenço - muito!- a ela quando a quis em minha vida! Eu quis engravidar.) . E daí que me reportei à menina brejeira de uma saudosa Uberaba (onde vivi oito,nove, dez, onze e algo de minhas doze rotações em torno do Sol) e me vi bem igual a ela em seus onze quase doze: 'nova demais' para me permitir sentir coisas de gente crescida, 'velha demais' para brincar com minhas bonecas. Eu gostava de Susies e Barbies, admito. E brincava escondida em meu quarto com as bonecas, onde eu contextualizava esquetes onde as mesmas bonecas simulavam diálogos entre duas ou mais amigas a trocar impressões sobre a vida. Meus pais não tinham tempo e minha irmã mais velha ajudava meu pai na drogaria. Eramos a família da "drogaria do bairro", e meu pai, "o cara que trabalhava demais" (continua sendo). Eu era a menina supostamente precoce, a dividir a mesma casa com sobrinhos tecnicamente da minha idade, já que minha irmã primogênita conta vinte anos a mais que eu. Enfim, além de menina, eu já "era tia", mais velha que as crianças dela e com a missão de ser compreensiva e nada egoísta. Nem sempre consegui. Tinha a Rosa, que se oficialmente não era minha babá (foi agregada à família depois de anos de serviços prestados), na prática era. Dormia em meu quarto e administrava algo dos meus medos (gratidão) e rotina. Uma terceira mãe! Mas igualmente de poucas palavras...lá ia eu conversar 'com e através das bonecas'... daí que volto para minha filha. Que tem a mim, repito. Com quem ela divide sem medo de julgamentos, ao que me parece. Não há assunto proibido. Tento não deixá-la sem respostas. Não quero que ela dependa de humanoides inanimados (bonecas) senão pra brincar, caso queira. E que entenda que ela pode ser criança e mocinha, pois esta é a glória e danação desta idade. Que pode achar um menino bonitinho sem que isto seja vergonha (torço para que ela não me mate!) e brincar de pique-esconde. Nada é excludente neste tempo. Não deveria ser em tempo algum. Ela, minha filha, deve saber disto. Essa menina que, ontem mesmo, alegou 'ser um tanto chato ter onze anos por isto e aquilo' (que ela não definiu precisamente em palavras, mas penso que entendi!), deve saber que sou colo vitalício. Já disse isso muitas vezes, mas não canso de repetir. Quero-a no conforto absoluto de que foi recebida em minha vida sem sustos, e com muita vontade de tê-la, repito mil vezes sem cansar. Não quero magoar ninguém com estas palavras, tampouco a mãe que me deu a vida (a outra que tenho já não está mais neste mundo...) e sei que me ama, fique claro. Isso se trata de mim e minha pequena. Ou de minha pequena e mim, eu que para ela, ainda devo ser algo de farol em suas descobertas. Disse tanto e não cheguei a nenhuma conclusão aparente, senão a que um dia ela terá seu caminho solo, sabendo que sempre estarei com ela, metaforicamente ou não. Para vibrar sorrisos (eles existem e muitos virão!) e enxugar eventuais lágrimas, essas que são inevitáveis ao longo. Segurando sua mão em cada descoberta. Abraçando-a em noites de frio, mesmo que faça frio apenas (o pior dos frios!) na alma. Quero que ela saiba que meu amor pode ser refresco e agasalho. Para ela e por ela, expressão máxima do que entendo por 'Maiúsculo Amor'. Ela ainda me questionou como eu, 'tão linda' (filhas sempre acham as mãe lindas, que delícia!) posso estar sozinha. Temo que ela tema (cacófago, eu sei!) essa minha condição circunstancialmente 'celibatária' (no sentido de não ter um 'par' há bom tempo.). Daí explico que a vida é cheia de surpresas, e que a história dela não precisa ser uma extensão da minha, e que minha própria história segue no gerúndio. Peço apenas que ela siga estudando ( a vida é um tanto mais gentil com quem tem uma profissão algo estável- fato-mesmo que eu pareça careta!) e se comprometa sem medo com seus objetivos (muitos a se revelar em seu devido momento). Ela escreve coisas lindas em um bloco de notas, dividido só comigo. Privilégio de mãe amiga. Vejo ali uma alma linda numa menina linda. E termino estas palavras sem edição, transbordada de emoções tantas, com uma frase adaptada de uma música dos "Los Hermanos" que ela gosta tanto: Vamos em frente, "não largo da tua mão". Eu a mo. Infinitamente. E espero que se divirta mais. Isso é muito importante também.

De mamãe para Lelê.