sexta-feira, 15 de novembro de 2013

A Moça Feia



Dizem por aí que a tal Moça era de muito viço no olhar, pestanas longas como um sombreiro. De um rosto quase divino. Bonita mesmo, apesar de um tanto melancólica. 
Em cores fortes ou cara lavada, dificilmente passava invisível por onde andava. Despertava polarizados sentimentos, dificilmente a neutralidade. Muitos queriam tocá-la de formas diversas. Alguns conseguiam. Cada vez mais raro, mas conseguiam. Tocavam, serviam-se. Como aperitivo, levavam um tanto dela. Ela que ia esvaziando-se a cada noite sem nascente. A cada manhã sem poente. A cada abraço sem laço. A cada beijo sem lastro. Ia perdendo-se de si, a cada passo em descompasso. A cada odor sem amor. A moça esvaziada de Alma. Outrora tão repleta de tudo. A Moça Feia.