segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Leituras de fragmento de "Tita (...)"



"É só lembrança o quadro que me dói mais". A frase dessa música ficou reverberando. Hoje ouvi rádio, fazia tempo que não. A surpresa de qual seria a próxima música. A surpresa imprevisível. A voz do radialista anunciando a próxima canção. Nada mais retrô. Foi um dia assim, de surpresas antigas e velhas sensações. Sentei-me à máquina de costuras, ainda estou aprendendo. Fumei um cigarro, sei que não deveria. Queimei a coxa esquerda, ficou uma bolha em forma de coração. Um, dois, três, vários degraus, senti fome de rua. Na padaria, pedi um café no balcão, que sorvi junto ao prazer de ser minimamente lembrada. Hoje fui lembrada, assim, só um pouquinho. Bebi o café no balcão. Olhei para minha "coxa-bolha-coração" que ele, Tom, nunca conheceu, senão em imagens reproduzidas por aí. Estou envelhecendo, dá-me estranheza ver-me assim retratada ao longo dos tempos. Mas é bonito ficar velha também (tento me convencer).
Ele está em Amsterdã com a família. Como sou óbvia, penso que deva ele estar visitando campos de tulipas. Sou óbvia mesmo. Tomo outro café. Queria que fosse um café eterno. Estação São Bento, o melhor café. Não lembro se tomei café. Tomei sim!, depois de duas cervejas. Era um lugar bonito, a única parte não imaginada. Quase esqueci Tom. E tem dia que lembro só um pouquinho. Sinto um calor bom. As coisas boas compartidas sobrepõe-se ao caos do silêncio eterno. Na verdade, eu sonhei que ele se lembrava de mim. De tão doida que às vezes sou, chego a achar que a "bolha-coração" em minha coxa é um sinal de que não delirei de todo. Nem tudo é elefante rosa. Às vezes, é só saudade mesmo. Dessas de queimar a coxa, mesmo que só um pouquinho. Meu nome é Tita. Dizem que não tenho jeito. Isso não é verdade.

(por Claudia Tonelli)