terça-feira, 23 de setembro de 2014

-Conto de domingo-

Foi numa manhã que Pedro acordou em pânico. Acordou sendo Pedro mais uma vez, como acontecia há quase cinco décadas, mas não sabia quem era ou o que fazia ali. Não reconhecia o ambiente: o pequeno quitinete em desordem, estante cheia de livros e o computador ligado. Pilhas de papeis em cima da mesa onde coexistiam computador, a foto de um menino, a caneca com borra de café ao fundo, uma outra cheia de canetas esferográficas. Alguns desenhos (alguns aparentemente de uma criança) colados na parede com durex. As mãos bronzeadas com veias saltadas, a falta de cabelos que não sabia quando começara. Levou as mesmas mãos ao rosto: tinha barba, mas ainda não se "sabia como Pedro". Como se brotado ali do nada, em meio a referências que não diziam mais nada. O pijama marrom, as cortinas verdes. Bibelôs remendados sobre a janela. Um cisne de louça com uma asa só. Como aquilo tudo? Quando tudo era quase só pânico, correu à janela. Viu seu rosto no reflexo do vidro. Não adiantou. Temeu o espelho, abriu a janela. Viu Ela, a moça do andar de baixo. Ela, dela se lembrava!, embora nem soubesse seu nome. Lembrou até existir um andar de baixo. Foi relaxando ao ver Ela no ponto de ônibus cujo destino desconhecia e viu que estava diferente. Usava uma saia longa cheia de flores e o cabelo, sempre amarrado em um rabo, estava solto. Sorria "vermelho", ela que nunca usava nem saia, nem batom. Mas que tinha lá sua beleza, ele que agora começava a se lembrar de como apreciava as rotas inimagináveis da moça. E tudo foi voltando: A moça que sempre usava calças e roupas escuras parecia trazê-lo de volta. A vontade contida de dar "bom dia!" cada vez que se cruzavam na portaria (já lembrava-se da portaria.)! Ela pegou o ônibus assim, sorridente, florida e alheia a tudo. Ele voltou-se para o apartamento e tudo aquilo que era parte dele: a foto do filho, a quem via a cada quinze dias, os desenhos, a mania do computador ligado, a displicência de quem não recebia visitas visível no caos ao seu redor. E quando recebia, também não ligava. Só gente muito íntima entrava ali. Nos últimos anos, só o filho. E a visão da moça, hoje de saia florida. A indagação do que colorira aquela alma silenciosa. Nos papeis, rascunhos de contos, poemas, histórias de outro mundo. Alguns paravam em seu computador. Enfim, era ele de novo, o velho Pedro. Que trabalhava como auxiliar de cozinheiro e escrevia para sentir-se vivo, mesmo que nunca viesse a ser lido. Hoje escreveria sobre a saia florida que levava aquela que não raro,o inspirava a aguentar mais um dia. Mesmo que nunca viesse a saber seu nome. Mas já sabia-se Pedro.
(Claudia C. Tonelli)

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